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De volta ao passado?

Por Paulo Linhares

Charles Baudelaire, imortalizado como “poeta maldito”, afirmou certa vez “que a mais bela das astúcias do Diabo é persuadir-vos que ele não existe” (“la plus belle des ruses du Diable est de vous persuader qu’il n’existe pas!”). Sem dúvida, uma tática literalmente infernal para coletar almas ingênuas daquelas pessoas candidamente crédulas de que o mal não lhes pode atingir. Ledo engano.

Não se deve esquecer, caro leitor,  que quando nos deslumbramos com o vertiginosos progresso da iluminação filosófica, das ciências e da tecnologia, a obsolescência do mal e a inexistência de Lúcifer, essa enganosa “estrela da manhã”, são perigosos equívocos e sua é a voz dos falsos profetas, que procuram satisfazer desejos egoístas, como ter poder, dinheiro ou influência; usam do engano, da chantagem emocional e do medo para conseguir seus intentos, segundo  a advertência  bíblica contida em Romanos 16:17-18.

Isto vem a ser lembrado, nestes ásperos tempos de incertezas e inquietações, em que os verdadeiros valores da dignidade humana e  da convivência pacífica dos povos são olvidados e substituídos pelo culto da violência e da intolerância. Isto faz lembrar a história daquele rapaz de humilíssima origem que, depois de galgar confortável posto na hierarquia estatal, conseguiu  precocemente um razoável aposentadoria e passou a viver às expensas do Erário, porém, não antes de defender com doentia obstinação valores canhestros perfilados no ideário daquilo que a filosofia política entende como “extrema direita”.Ver os seus olhos esbugalhados, o rosto crispado, a boca a babar numa gratuita demonstração hidrófoba de ódio, parecia ser apenas algo exótico de um fascista temporão que se consumiria em seu próprio delírio olavocarvalheano e no fraquejar das débeis coronárias. É bem certo que, vê-lo nessas insanas performances, faz lembrar o personagem da peça “Apareceu a Margarida”, o vitorioso texto do dramaturgo Roberto Athayde, escrito em 1973, que se tornou um dos clássicos da dramaturgia brasileira e que teve uma primeira montagem de sucesso com direção de Aderbal Freire-Filho e Marília Pêra no papel-título, no Teatro Ipanema, Rio de Janeiro.

Uma hilariante e bem construída metáfora do poder: numa louca viagem, dona Margarida esgrime seus dotes autoritários no exercício da bela arte de ensinar e defende valores que de há muito deveriam estar banidos da vida social. O mesmo ideário que nos rondam, nestes dias que correm.

O mais engraçado é que esse Dom Quixote às avessas, vendo em seu gorducho interlocutor a imagem irritante de um Sancho Pança a dizer incômodas verdades, rebatia com rútilos olhos e aos berros que “no Brasil não existe direita; todo mundo é de esquerda: Sarney, Fernando Henrique, Sobral Pinto, José Serra etc.” E se estas lideranças nacionais não eram suficientes, completava esse time ‘esquerdista’ com Adolf Hitler e Benito Mussolini.

O mais intrigante, e não menos hilário, era o ódio seminal que essa criatura temível dedicava a Antonio Gramsci, filósofo italiano cuja obra principal fora escrita  na prisão romana de Regina Coele, no longínquo 1934 que, após posto em liberdade, morreu precocemente aos 46 anos de idade. E deixou uma invejável produção intelectual que até hoje divide opiniões. Um pensador gigante, compreenda-o ou não.

Para tão bizarra figura – um Dom Quixote ao avesso, repita-se – esse tal Gramsci  irremediavelmente envenenou o “espírito universitário” brasileiro com suas teorias malsãs que tratam do conceito de hegemonia e de bloco hegemônico,  ademais de focar no estudo dos aspectos culturais da sociedade, tendo como eixo a chamada superestrutura na condição de fator  primordial para realização de uma ação de prevalência dos mecanismos políticos e ideológicos do Estado, bem assim das formas capazes de criar e de reproduzir o domínio político, a hegemonia.

Quando o interlocutor, numa  atitude de santa ingenuidade, argumentou que se Gramsci, com seus “Quaderni del carcere”, vem espraiando suas influência sobre pensadores de universidades do mundo inteiro, marxistas  e não necessariamente marxistas, é porque sua obra tem enorme vigor filosófico, foi ‘brindado’ com uma avalanche de impropérios dos mais chulos, óbvio, contra o desventurado pensador que foi vítima do fascismo de “Sua Excelência, Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Fascismo e Fundador do Império”, na verdade um ridículo e  caricato troglodita cujo fim foi ser dependurado, como algo menos que um reles suíno, num posto de gasolina de Milão. Aliás, um fim adequado para alguém que tanto mal fez ao seu povo e mesmo ao mundo.

Incrível que, com acertos e erros, Antonio Gramsci, continue vivo no pensamento de tantos estudiosos; é vigorosa presença no chão libertário das “universitas”. Bem a propósito disto, colaciona-se aquela assertiva de Lord Keynes, para quem “as ideias dos economistas e dos filósofos políticos, tanto quando estão certas ou quando estão erradas, são mais poderosas do que se pensa. Sem dúvida, o mundo é governado por pouco mais do que isso. Os homens práticos, que se acreditam imunes a qualquer influência intelectual, geralmente são escravos de algum economista já falecido. Os líderes loucos, que ouvem vozes vindas do ar, destilam sua exaltação de algum escrevinhador acadêmico de alguns anos atrás. Tenho certeza de que o poder de capitais investidos é enormemente exagerado em comparação com a gradual usurpação de ideias.”

Esta reflexão fragmentária e ligeira não deixa de estar centrada no momento ímpar e, até pouco tempo inimaginável, que vive a sociedade brasileira, uma das maiores democracias formais do mundo. Aliás, não deixa de ser ingênua a presunção de que os avanços das sociedades são sempre contínuos e irrefreáveis. Ora, os recuos e retrocessos lastimáveis estarão sempre na pauta das coisas humanas: de repente, um indivíduo civilizado pode regredir ao estado mais precário de barbárie, dadas as condições que o cercam, segundo a percepção de pensadores do porte de Robert Heilbroner e Karl Popper.

A extrema direita brasileira, que não existiria na alegoria daquele figadal inimigo do fantasminha Gramsci, ou queria fazer-nos crer que inexiste, embora definitivamente esteja no palco da política brasileira. E o mais grave é que essa versão outonal do extremismo de direita tupiniquim fica cada vez mais visível, animada pela campanha do seu candidato Jair Bolsonaro, vencedor da corrida presidencial no primeiro turno e vencedor no segundo turno com expressiva votação que ultrapassa os 57 milhões de votos, dez milhões a mais, em números redondos, do que obteve seu adversário Fernando Haddad.

A despeito da sua enorme aceitação popular, Bolsonaro apresenta elementos arcaicos e grosseiros que o diferenciam das experiências da extrema direita da maioria dos países europeu, exceto os fascistas de Mussolini e os nazistas do Alemanha. Por isto, será difícil fazê-lo entender, e aos seus seguidores também, que os 47 milhões de votos dados a Fernando Haddad merecem republicana consideração e respeito: na democracia contemporânea, a vitória da maioria jamais pode significar o esmagamento político da minoria.

Para quem já viu a chegada desses novos inquilinos do Palácio da Alvorada, finda sendo de enorme enfado essa “entrée triomphale” de mais uma trupe exótica que fala o dialeto do interior de ‘SanPaulo’,  assim mesmo, bem cantado e arrastado. Em primeiro de janeiro de 2019, os seguidores do capitão-presidente  amarrarão seus cavalos no mastro daquela bandeira enorme. E não adianta desejar outro cenário.

Aliás, em entrevista à imprensa nacional Bolsonaro declarou que o objetivo de seu governo é fazer “o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. Essa nostálgica viagem “back to past” (ideal seria grafar isto em itálico que, porém, não serve para postagens nas redes sociais), é assustadora uma perspectiva de retrocesso de tudo o que a sociedade brasileira evoluiu nas conquistas da cidadania, sobretudo, na valorização social do papel das mulheres ou na inclusão política, social e econômica de extensos segmentos da população historicamente ‘tatuados’ com o signo da exclusão.

Mais curioso é que o dístico da campanha de Bolsonaro à presidência da República – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” – é uma tradução quase literal do lema nazista “Deutschland Über Alles”, que significa “Alemanha acima de tudo” e do “Gott mit uns” (“Deus conosco”) que os soldados nazistas usavam na fivela do cinto. Como alento aquela advertência do filósofo Karl Marx, a quem a tosca extrema-direita chama de “vagabundo”, “beberão” etc., de que “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Vai ser o que dessa feita: tragédia ou farsa? Independentemente de qualquer resposta, certo é que a eleição de Jair Bolsonaro, em 28 de outubro de 2018, se constitui, ainda, num voo cego de imprevisíveis consequências.

Uma coisa é certa: os extremistas de direita já aparecem nas ruas e praças, nas universidades, igrejas,  nos quartéis e parlamentos, com suas próprias caras e não mais usam da astúcia de persuadir as pessoas de que a extrema direita não existe. Ainda mais agora, que venceram nas urnas, escorados em bordões rasteiros, factóides, “fake news” e num amontoado de propostas difusas. O mais grave é que pessoas de boa índole passam a incorporar o discurso granítico do ultraconservadorismo e deixam no meio do caminho os postulados que imantam o Estado Democrático de Direito.

Inolvidável que Jair Bolsonaro chega à presidência da República com alto grau de legitimação política, o que lhe permite colimar algumas promessas de campanha, em especial se tiver jogo de cintura para domar o Congresso Nacional, na configuração que tomará a partir de 1º de fevereiro de 2019. Manda o credo republicano que seja acatada a fala das urnas, que é a expressão maior da soberania popular: Bolsonaro é o presidente eleito, deve tomar posse e tentar fazer um bom governo, não apenas para retribuir a confiança depositada nele por 57 milhões de brasileiro, como também para convencer os outros 47 milhões, que apostaram em Haddad, do seu propósito de respeitar a Constituição, preservar o sistema de direitos e garantias fundamentais do cidadão, sobretudo, aqueles referidos às liberdades civis.

O nostálgico olhar de retrovisor de Bolsonaro soa como uma piada de péssimo gosto, justo quando todos os indicadores mostram que, a partir de 1º de janeiro de 2019, o imponderável será sempre uma possibilidade, e mesmo os mais avançados segmentos da sociedade brasileira podem retroceder cinco décadas, num enorme salto do tipo “de volta para o passado”, para aterrissar perigosamente em 1968, “o ano que não terminou” tão dramaticamente retratado na obra homônima de Zuenir Ventura. Quem viver, ou sobrevier, verá.

Paulo Linhares é professor e advogado

Curiosidades poéticas

Por François Silvestre

Sem me atrever a discutir definições ou conceitos poéticos, debate que já produziu tratados, polêmicas, esperneios e intrigas famosas, vou ao trivial.

E como tal, longe de qualquer cientificidade literária, trato tudo no pequenino e atrevido mundo do empirismo.

Até porque de Otávio Paz a Cardoza y Aragón, de Neruda a Tolstoi, de Garcia Lorca a Machado de Assis, de Baudelaire a Fernando Pessoa, para citar poucos, todo mundo já deu seu pitaco sobre conceituação dos modos, formas e alcances da poesia.

Exemplo marcante é a formação estrutural de um idioma a partir da obra poética de um autor. Do inglês, com Chaucer e do português, com Camões.

Se a organização morfológica, no português, deve-se ao teatro de Gil Vicente; foi Camões, na poética, quem edificou a sintaxe portuguesa. Criador de um idioma; a partir de uma algaravia como a última “Flor do Lácio”, da verve de Olavo Bilac. “Ora direis ouvir estrelas”.

De lá pra cá, de tudo e sobre tudo já se escreveu quase tudo. Ainda bem que apenas quase. Pois seria uma monotonia cultural a vida com tudo já resolvido. A incompletude conceitual alimenta criações e permite, na colheita do inquieto, manter acesa a chama do refazer-se. Eternamente.

E a rima? Para o gosto popular a poesia sem rima é prosa curta. Neruda ensinou que poesia é metáfora. E a prosa poética? O Pe. Vieira foi o craque desse estilo. Ao responder o suplício do silêncio imposto, alfinetou a cúria: “Deus, na sua infinita misericórdia, fez surdos os que eram mudos e mudos os que eram surdos. Posto que até a Natureza ao ser agredida com o grito, responde com o eco”.

Há palavras de rima difícil ou até inexistente; exemplo de cinza, painço, nenem. Um violeiro aceitou o desafio e rimou: “Na Bahia de Rui Barbosa/ numa tarde muito cinza/ vi uma velha fanhosa/ que chamava camisa caminza”. Só rima; poesia nada.

“Venho para uma estação de águas nos seus olhos”. Joaquim Cardoso; só poesia, sem rima.

De Neruda, o das metáforas: “Posso escrever os versos mais tristes esta noite./ Escrever, por exemplo: a noite está estrelada e tiritam azuis os astros ao longe./… Embora seja esta a última dor que ela me cause/ e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo”.

Luiz Cardóza y Aragón, o diplomata guatemalteco que acolheu, na embaixada de Bogotá, os fugidos da revolta colombiana, na noite em que foi assassinado Jorge Gaitán, disse: “A poesia é a única prova concreta da existência do homem”.

A rima não é vilã. No bom poema ela se agasalha em lençóis de seda.

D. Pedro II rima e faz poesia no soneto/recado ao ex-amigo Deodoro. Veja a última estrofe : “…Mas a dor que crucia e que maltrata/ que fere o coração e pronto o mata,/ é ver na mão cuspir, à extrema hora,/ a mesma boca aduladora e ingrata/ que tantos beijos nela pôs outrora”.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.