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Ciro, Marx e Lassale

Ciro, um caos de ideias claras (Foto: arquivo)
Ciro, um caos de ideias claras (Foto: arquivo)

Por François Silvestre

Qual a relação? Me veio à memória os tempos idos da Casa do Estudante. Lá cheguei vindo do Colégio Diocesano Seridoense, de Caicó. Caicó me abriu uma janela pro mundo, pelo CDS; a Casa do Estudante me ofereceu o portal de ingresso ao mundo.

Por um trem? Não. Por viagens? Também não. O educandário da pátria Caicó, mulato velho, me ofereceu dúvidas. A Casa do Estudante me presenteou a maravilhosa descoberta de caminhar, mesmo na miséria, um caminho de fartura. De luxo? Nunca. De vantagens? Menos ainda.

A riqueza de desvendar nos livros a miséria humana. A desgraçada e bela aventura de viver aprendendo. E quem aprende caba ensinando.

Dito isso, volto ao título do texto. O que tem a ver Ciro Gomes, Karl Marx e Ferdinand Lassale? Ciro Gomes é um homem de ideias. Verdade. Explica o Brasil como poucos, conhece o Brasil como raros, claríssimo. Mas fica aí.

Volto a Marx e Lassale. Foram contemporâneos e aliados, na luta de 1848, rompidos anos depois, em 1864. Marx, ferino, não negava méritos a Lassale. Muito menos às suas ideias. No confronto após o rompimento, Marx triturou Lassale com a máxima: “Lassale é um caos de ideias claras”.

Pronto. Taí a relação. Ciro Gomes é o Lassale do Brasil de hoje. Um caos de ideias claras. No meio de comportamento confuso e argumentos escuros. Um caos de clareza no meio da escuridão. Que opta por deixar a escuridão prevalecer, mesmo dizendo que precisa acender a luz.

Ciro Gomes confirma o oximoro metafórico de Marx sobre Lassale. E o país, no meio do abismo, perde a sua colaboração na defesa da liberdade e da Democracia. É uma tristeza de egoísmo, cujas ideias são claramente jogadas no esgoto escuro. Caos de claridade, harmonia de escuridão. Ponto e vírgula.

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O erro de Sérgio Reis…

Por François Silvestre

…que eu também cometi.

“Eu sou democrático”. Disse Sérgio Reis, ou rês, maltratando a “última flor do Lácio”. mas, não posso esquecer que também cometi esse erro. Quando e onde? Meados de 1964, tempos de internato no Ginásio, depois Colégio Diocesano Seridoense, em Caicó.

O cantor Sérgio Reis vive sérios problemas após fazer propagação de ideias antidemocráticas (Reprodução BCS)
O cantor Sérgio Reis vive sérios problemas após fazer propagação de ideias antidemocráticas (Reprodução BCS)

Foi o seguinte. Havia um jornalzinho na cidade, A Folha, se não me trai a memória, que me pediu um artigo sobre o “novo” regime implantado no Brasil, já no governo Castelo Branco. O pedido foi feito por Paulo Celestino, um dos dirigentes d’A Folha. E o artigo foi publicado.

Um texto ingênuo, inculto, de adolescente. Porém, falando mal do golpe militar e defendendo a Democracia. Lá pras tantas eu escrevi, “digo isso porque sou um democrático”.

Padre Tércio entrou na sala de aula, de olho aboticado para mim, trazendo o jornal e o abriu na mesa. Apontou pra mim, depois colocou o dedo sobre o texto e disparou: “Aqui tem uma coisa grave, muito grave”. Alguns colegas riram e disseram “é coisa de comunista”… Padre Tércio, ainda irado, repreendeu: “Que comunista, seus ignorantes”! E continuou: “As ideias no texto não são ruins, até são boas, mas há um crime contra a língua portuguesa”. Aí os adversários, que os tinha, vibraram.

O futuro Monsenhor, mestre e amigo de toda a vida, explicou. “Democrático é adjetivo impessoal, cabível a instituições e não a pessoas. Partido democrático, associação democrática, posição democrática, etc. Gente, não. Gente é democrata. E pronunciou bem alto as últimas sílabas,”crata”. “Eu sou democrata”.

Quando eu dirigia a Fundação José Augusto, ele me procurou para uma ajuda na construção de uma piscina olímpica no CDS. Que atenderia à prática de natação para os colégios públicos. Atendi seu pedido, que já havia sido feito por Aluísio Lacerda.

Comentamos sobre esse episódio, e rimos bastante. Ao sair, ele despediu-se assim: “Muito obrigado, senhor democrático”.

Essa ajuda rendeu um processo criminal movido contra mim pelo Ministério Público. Um dos muitos em que fui absolvido. Baixe o pano.

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Padre Tércio…

Monsenhor Tércio faleceu dia passado (Foto: Web)
Monsenhor Tércio faleceu dia passado (Foto: Web)

Por François Silvestre

…Mais um desmanche do passado. E como dói. Não doem os músculos nem o coração, é o passado que dói.

Quando cheguei ao Ginásio Diocesano Seridoense, que depois virou Colégio, em 1961, o diretor era Monsenhor Walfredo, que eleito vice-Governador no ano anterior, foi substituído pelo Padre Itan Pereira. Padre Ausônio Tércio de Araújo era o professor de francês. Depois assumiu a direção.

Padre João Agripino, de matemática. Também ensinava matemática o professor João Diniz, o admirável João Bangu, como era conhecido. E sua mulher, dona Neta. Plácido Saraiva, o bode rouco, lecionava português. Padre Balbino, latim. Professor Guerra, geografia. Dona Iracema, história. Padre Antenor, religião.

Quase todos já se foram, e em homenagem aos vivos eu me curvo reverencialmente ante à inapelável sina do todos nós. Parte agora o Padre Tércio. Com quem mantive ao longo de toda a vida uma relação de amizade e afeto. Era um educador no sentido mais completo e extensivo da palavra.

Vejo agora, pelo olhar turvo da memória aqueles corredores guarnecidos de arcadas da mais simples nobreza, como sói ser a simplicidade do que é verdadeiramente nobre. As salas de aulas, os dormitórios, o refeitório e suas freiras adocicadas de humildade, a capela que separava o ginásio do seminário, o campo de futebol e os bebedouros em fila numa parede azulejada.

E vejo Padre Tércio, irado, após uma pichação que eu e Murilo Diniz fizemos criticando o Colégio. Ele entrou na sala de aula e nos apontou: foram vocês dois.

Quando alguém perguntou como ele sabia, sua resposta foi: “Pela péssima caligrafia e a má feitura das frases”.

Saudade…muita saudade!

François Silvestre é escritor