Arquivo da tag: Coronelismo

Ao redor do buraco, tudo é beira

Por Bruno Ernesto

Traíra em açude seco (Foto: Bruno Ernesto)
Traíra em açude seco (Foto: Bruno Ernesto)

Um dos pontos esquecidos sobre o chamado “período do banditismo”, que eclodiu nos sertões profundos do Nordeste brasileiro no final do século XIX e que se intensificou até a década de 1940, foi a paradoxal relação entre o santo e o profano.

O protoreligiosismo sertanejo, com suas rezas incisivas, especialmente de proteção e fechamento do corpo, com alguma pouca incursão no sincretismo religioso, mas acentuada correlação entre a injustiça terrena e a salvação divina, foi a gênese do que se renova hoje no Brasil, sob outra tutela e cosmovisão, porém com mesmo proselitismo e interesses econômicos, sempre subjacentes.

Religiosidade nos grotões do sertão Nordestino sempre foi um fenômeno endêmico, peculiar, e de uma mistura mística difícil de compreender, e que deixou marcas indeléveis.

Nos tempos revoltosos do sertão, a mão que pedia a bênção e debulhava o terço, era a mesma que erguia o punhal, puxava o gatilho ou apertava a carne.

A religiosidade primitiva, se assim podemos dizer, guarda inúmeras facetas. O perdão nem sempre se conquista com a fé.

Lembro muito bem a colocação do escritor Honório de Medeiros, autor da importante obra “Histórias de Cangaceiros e Coronéis”, que destaca que o coronelismo foi o braço forte desse movimento, com nomes que até hoje reverberam entre nós, porém com pouca correlação de poder econômico e paralelo daquele tempo, como Veras, Maias, Saldanhas e tantos outros.

A religiosidade sempre foi esteio do povo, especialmente no meio da miséria econômica. Que o diga Cícero Romão.

O poder da palavra é exponencialmente maior do que o da força bruta, ainda que essa também lhe sirva.

No caldeirão nordestino daquele tempo, podia se dizer que, ao redor do buraco, tudo é beira. ‎

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Honório de Medeiros fala sobre cangaceiros, política e coronelismo

Na página Resenha do Cangaço, no YouTube, editada e apresentada pelo professor e pesquisador/historiador Lemuel Rodrigues, o convidado dessa sexta-feira (20) foi o escritor Honório de Medeiros.

O bate-papo correu solto entre os dois. Na mesa, literatura, volantes, cangaceiros, a política brasileira e do RN nas primeiras décadas do século passado, coronelismo, o ataque do bando de Lampião a Mossoró em 1927, Jesuíno Brilhante e outros temas que se interligam no tempo e na história.

Tem muita coisa boa nessa conversa.

Aproveite a boa prosa.

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Livro mostra nova configuração da luta pelo voto

Reprodução de convite
Reprodução de convite

O livro “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”, do escritor e historiador Sérgio Trindade, sócio do Instituto Histórico e Geográfico do RN (IHGRN), será lançado na próxima edição da Quinta Cultural. Acontecerá na quinta-feira (29), no Salão Nobre da instituição, em Natal. A partir das 17h, o autor ministra uma palestra sobre o tema abordado no livro e às 18h inicia uma sessão de autógrafos para os leitores e espectadores presentes.

O livro é um documento elucidativo sobre o cenário político e eleitoral recente no Rio Grande do Norte.  

A obra foi editada sob o selo da Escribas Editora, que tem 20 anos de atuação no mercado. É o segundo livro do autor Sérgio Trindade. Segundo Carlos Fialho, editor à frente da Escribas, foi dado ao trabalho um tratamento estético à altura da excelência do seu conteúdo.

Trabalho minucioso

Sérgio Trindade fez um minucioso estudo no qual expõe como os tempos vividos em décadas recentes mudou a configuração do tradicional “coronelismo”, termo popularmente usado para designar influências externas, muitas vezes com ênfase e força, sobre a decisão de voto dos eleitores, sobretudo das camadas mais populares. A pesquisa traz dados obtidos a partir de comunicadores que souberam usar os meios de massa nos quais estavam inseridos para obter vitórias eleitorais expressivas. 

Na orelha do livro, o jornalista Rubens Lemos Filho declara “No Brasil, a democracia da mídia pertence aos interesses dos donos de veículos de comunicação social e Sérgio Trindade atira na mira.” 

O autor

O autor é um escritor e historiador natalense, graduado em História e mestre em Ciências Sociais, ambos pela Univer­sidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Também possui doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Mi­nho (UMinho-Portugal).

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Câmara Cascudo – o homem, o sertão, o coronelismo e o cangaço

Câmara Cascudo - Grandes Encontros Cariri Cangaço - Honório de Medeiros, Daliana Cascudo, Manoel Severo - 17 de Novembro de 2021O Cariri Cangaço, movimento de cunho turístico, cultura, histórico e científico que reúne os mais destacados historiadores e pesquisadores das temáticas cangaço, messianismo, coronelismo, misticismo e correlatos do sertão do Nordeste brasileiro, tem promovido série de debates no ambiente virtual. Um novo está agendado.

A pauta para essa quarta-feira (17), em seu endereço no Youtube (veja AQUI), é com o tema “Câmara Cascudo – o homem, o sertão, o coronelismo e o cangaço”, a partir das 19h30.

Faz parte do projeto “Grandes Encontros Cariri Cangaço” terá o professor, pesquisador e escritor Honório de Medeiros e a psicóloga e neta do escritor e folclorista Câmara Cascudo, Daliana Cascudo, discutindo sobre a temática proposta.

Idealizador e curador do Cariri Cangaço, Manoel Severo é o moderador do debate.

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“Jesuíno Brilhante” – o primeiro dos grandes cangaceiros

Novo livro (Foto: BCS)

O escritor Honório de Medeiros oferta-nos um novo trabalho que mexe com as entranhas do sertão, poder, cangaço e coronelismo.

Dessa feita, a sua viagem mergulha no século XIX, para investigar a vida de Jesuíno Brilhante, personagem controvertido da caatinga paraibano-potiguar.

Sem rodeios, escapando de estereótipos e duelando contra o lugar-comum da deificação do personagem-título, Honório de Medeiros nos leva a conhecê-lo, seu tempo e lugar: nosso sertão.

É minha leitura especial da semana.

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Cangaço e coronelismo no Rio Grande do Norte

Por Honório de Medeiros

O coronelismo e o cangaço, tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, mais precisamente de meados do século XIX a meados do século XX, são manifestações do Poder, de como ele é obtido, mantido e até mesmo combatido, em intrincada trama, ao longo do processo histórico.

A forma como o Poder é instaurado diz respeito a fatores circunstanciais, tais quais o avanço tecnológico ou cataclismos ambientais, mas a essência, qual seja a presença da imposição da vontade de alguns sobre outros, permanece a mesma desde que o Homem surgiu na face da terra.As narrativas acerca do coronelismo e cangaço devem ser analisadas levando-se em consideração o fator de “ocultamento” próprio da atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, dizer, omitir, acrescer, manipular, enfim, tudo isso e mais, cumprem o papel de narrar como os fatos ocorreram a partir da perspectiva de quem pode impor sua percepção das coisas e dos fenômenos, em detrimento da verdade.

Sempre tratamos o coronelismo e o cangaço pelo “como” os fatos aconteceram, até mesmo de forma folclórica, no sentido negativo do termo, mas precisamos nos indagar acerca de suas causas e intenções e suas relações com o Poder. Quem critica o estudo do Cangaço, mesmo de forma oblíqua, tratando-o como algo menor dentre os epifenômenos da cultura sertaneja, hostiliza a História e não entende o que é o Poder.

Não houve manifestações violentas do Coronelismo no Sertão nordestino sem um entrelaçamento com o banditismo rural; não houve Cangaço sem Coronelismo. Acrescentemos a esses ingredientes o fanatismo messiânico e teremos um ponto-de-partida concreto e verossímil para a real história da época dos coronéis e cangaceiros.

O ponto-de-partida é o cangaceiro, começando com Jesuíno Brilhante, o primeiro dos grandes, a história dos coronéis do Cariri cearense, e a vida do mítico Padre Cícero do Juazeiro.

No Rio Grande do Norte é difusa, porém persistente, a concepção de que seus coronéis eram homens afastados da violência, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Apodi, por Massilon, e Mossoró por Lampião, tratados como “pontos fora da curva”, pouca relevância teve em nosso Estado.

São “esquecidas” as relações dos coronéis com José Brilhante, o Cabé; a do Coronel João Dantas com Jesuíno Brilhante; a invasão de Martins; a invasão de Apodi e sua relação com coronéis apodienses; a invasão de Mossoró e sua relação com coronéis paraibanos e cearenses; a morte de Chico Pereira e sua relação com o coronelismo paraibano e potiguar.

O mesmo ocorre quanto a “hecatombe de 1918” em Pau dos Ferros, verdadeira briga entre coronéis potiguares, semelhante àquelas travadas entre seus congêneres do Cariri cearense.

As invasões de Apodi e Mossoró são indissociáveis, e se constituem em epicentro de um processo político que durou aproximadamente dez anos, terminando tragicamente na famosa eleição de 1934-1935, na qual houve o assassinato do Coronel Chico Pinto e o de Otávio Lamartine, filho do ex-governador Juvenal Lamartine, e dizem respeito a disputas políticas entre famílias senhoriais do Sertão paraibano e potiguar.

Todas essas atividades violentas protagonizadas por cangaceiros estão conectadas com o coronelismo. Todas elas são faces da disputa pelo Poder Político.

O cangaço, por si somente, é a história do último suspiro dos desbravadores do Sertão nordestino, nossos ancestrais, aqueles mesmos que disputaram a terra contra índios ferozes, palmo a palmo, sangue a sangue, a ferro e fogo, numa guerra longa, cruel e esquecida por todos. A guerra dos bárbaros.

O cangaço é a história de homens que resolveram se vingar de uma injustiça; de homens que não aceitaram ser escravos e optaram por fazer das armas meio-de-vida; de homens que optaram por sobreviver SEM LEI E SEM REI, em uma liberdade absoluta, uma liberdade de fera, aquela liberdade anterior ao surgimento do Estado, da qual nos falou Hobbes em O Leviatã.

O cangaço é a história de rebeldes, certos ou errados. Podemos subjugar rebeldes. Podemos condenar rebeldes. Podemos matar rebeldes. Mas não podemos impedir que a memória de suas existências nos provoque. Podemos não aceitar os rebeldes, mas podemos tentar compreendê-los, tenham sido cangaceiros, coronéis, ou fanáticos, e em os compreendendo, aprendermos as lições da história.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Encontramos Billy Jaynes Chandler

Por Honório de Medeiros

Em uma quinta-feira do mês de setembro de 2015, publiquei um artigo em meu blog, cujo título é o seguinte: “WHERE IS BILLY JAYNES CHANDLER?” (Onde está Billy Jaynes Chandler’ ?) – //honoriodemedeiros.blogspot.com/2015/09/where-are-billy-jaynes-chandler.html) ainda está lá. Leia.

Nele, eu e minha filha, Bárbara de Medeiros, contávamos o resultado de uma procura intensa por notícias acerca do grande escritor americano que viveu no Brasil e nele escreveu alguns dos clássicos da literatura sertaneja nordestina.

Billy Chandler aos 86 anos (Foto: Família)

Billy Jaynes Chandler é um dos mais importantes escritores acerca do cangaço e coronelismo, fenômenos ligados entre si e característicos de uma certa época da história recente do Brasil. Suas obras Lampião, o Rei dos Cangaceiros, e Os Feitosas e o Sertão dos Inhamuns, são canônicas, seminais, inigualáveis. Recentemente meu filho, que mora no Canadá, por lá adquiriu o Lampião traduzido para o inglês.

Passaram-se os anos, e nada. Nenhuma notícia…

No início deste agosto, quase três anos depois, mais precisamente dia 8, postaram o seguinte texto no espaço reservado aos comentários ao blog (as traduções a seguir são de Bárbara de Medeiros):

“Ginny disse…I was googling my uncle and found this blog from back in 2015. I am Billy Jaynes Chandler’s niece”.(“Estava pesquisando o meu tio no Google e encontrei esse blog de 2015. Eu sou a sobrinha de Billy Jaynes Chandler”).

Eu não li essa postagem. Ocupado com outros interesses, havia deixado o blog um pouco de lado. Por sorte nossa, Ginny também escrevera para meu email:

– “I read uncle bill your blog, translated in English, and it put a smile on his face. He is now 87 and has lost his Portuguese language and has some memory issues. He told me it was ok to reach out to you. Ginny Petersen”. (“Eu li o seu blog para o tio Bill, traduzido para o inglês, e isso colocou um sorriso em sua face. Ele tem agora 87 anos e perdeu seu conhecimento da língua portuguesa e tem alguns problemas de memória. Ele me disse que era ok eu entrar em contato com você.”).

Eu e Bárbara não conseguíamos acreditar. Ficamos muito felizes. Bárbara ficara contagiada com minha admiração por Chandler.

No domingo, dia 11, mesmo mês, tratamos de responder:

– “I am very happy to know that he’s alive! I hope he is well, despite the memory problems. He is a true icon for us Brazilians, who study cangaço and the local culture. Do you know if he has written anything else? I’m sending you a picture of myself with my copy of his book, now a rarety over here. If possible (and I completely understand if any of you don’t feel comfortable) could you send me a picture of him? My daughter helped me a lot in my researches and would love to see it. Thank you for reaching out!” (“Eu estou muito feliz em saber que ele está vivo! Eu espero que ele esteja bem, apesar dos problemas de memória. Ele é um verdadeiro ícone para nós brasileiros que estudamos cangaço e a cultura local. Você sabe se ele escreveu mais alguma coisa? Estou enviando uma foto minha com a minha cópia de um de seus livros, que se tornou uma raridade por aqui. Se possível (e eu entendo completamente se vocês não se sentirem confortáveis) você poderia enviar uma foto dele? Minha filha me ajudou muito nas pesquisas e adoraria vê-lo. Obrigada por nos contactar!”).

Ginny voltou a fazer contato:

– “He did not write any more books, 4 books altogether. I recall while I was growing up, his visits to Brazil. Here is a picture of him last year just after his 86 birthday”. (“Ele não escreveu mais livros, foram quatro ao todo. Eu lembro quando estava crescendo, das suas visitas ao Brasil. Aqui está uma foto dele do ano passado, logo após seu 86º aniversário.”).

Billy Jaynes Chandler ainda jovem nos Estados Unidos, onde teve formação acadêmica e foi professor (Foto: reprodução)

Nós:

– “Thank you so much! He looks great! Do you think I could write a follow-up to my article, now that you have given me the great news that he’s alive? I’d simply mention you have reached out! Maybe I could use the picture? Only if you allow me, of course. Once again, thank you so much for this exchange of messages, you have no idea how much it meant to me and my daughter”. (“Muito obrigada! Ele parece ótimo! Você acha que eu poderia escrever uma continuação do meu artigo, agora que você me deu a ótima notícia que ele está vivo? Apenas se você me permitir, claro. Mais uma vez, muito obrigada por essas mensagens, você não tem ideia do quanto significa para mim e para minha filha!”).

Ginny:

– “You are more than welcome to do a follow-up. Your question to “where is Billy Jaynes Chandler” has been answered. He lives in Miami, Florida with his sister. :) I wish you could talk with him, he just doesn’t remember much, but has strong memories, although unclear, of his time in Brazil. Take care to you and your daughter”. (“Sinta-se à vontade para fazer uma continuação! Sua pergunta ‘Onde está Billy Jaynes Chandler’ foi respondida. Ele mora em Miami, Flórida, com sua irmã. :) Eu gostaria que você pudesse falar com ele, ele apenas não se lembra de muita coisa, mas tem fortes memórias, apesar de incertas, do seu tempo no Brasil. Lembranças a você e sua filha!”. Muito obrigada Ginny.

Estamos enviando esse artigo para você e fazendo a postagem no blog, para que quem puder tenha conhecimento dessa notícia. Ficamos maravilhados em saber que Chandler está vivo.

Torcemos por ele, desejamos que fique muito bem, e lhe enviamos um grande abraço aqui do Nordeste do Brasil, do Sertão que ele conheceu.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do RN

Um novo ciclo, melhor ou pior, depois dos mandarins

Já imaginou um mundo político sem Alves, Maia, Rosado, Faria etc.? Sim, é possível. Talvez até muito próximo de existir.

É uma realidade que se desempenha como provável daqui a muito pouco tempo.

Foi dilacerante o que as urnas bradaram em 2018. Impôs derrota de nomes que sempre foram protagonistas da política do RN nas últimas décadas.

Os que escaparam parece que não revelam força à continuidade (ou continuísmo, como queira) longeva. Agem como satélites ou apêndices de referências familiares que estão fadigadas. E o que é pior: não lideram.

São peças de reposição já gastas pelo próprio sobrenome que carregam; a maioria, sem qualquer facho de brilhantismo ou raposice dos antecessores. Os votos também minguam.

Mas o que virá depois? Quem serão os novos atores e nomes proeminentes nesse ambiente de poder?

Eis a questão.

A simples mudança de nomes e siglas não é suficiente para se acreditar que seja diferente e melhor, aquilo que parece novo. Contudo é desse destroço do velho que se alicerça um outro ciclo na política do RN e país.

Essa geração emergente e o que resta do conservadorismo/coronelismo que vai ficando para trás estão diante de exigências bem maiores, como o crescimento da vigilância popular.

Todos, sem exceção, são e serão muito mais cobrados do que os expurgados ou aposentados pela vontade popular. Às vezes, até de forma infame e criminosa (com o uso de fake news, por exemplo).

O comportamento do eleitor nas urnas, em 2018, é bem a prova de que os tempos são outros, volto a frisar.

O processo de avanço ou acomodação dessa nova ordem política incipiente é assentada ainda num sistema político-partidário velho e viciado. A engrenagem segue funcionando para não permitir mudanças (para melhor) na política, na República, no Estado e na vida social.

É uma herança maldita deixada por boa parte dos que foram demitidos ou extirpados da política, pelo voto ou pela lei. É o grande gargalo postado diante do novo, ou do aparentemente novo, que se propõe a ser diferente e melhor.

O modelo oligárquico está esgotado, mesmo que sobreviva aqui e ali em algumas comunas e em resistentes mandarins aldeões. Sua força ainda terá eco por decênios e decênios, mas nada será como antes.

O que vem por aí será pior? Não sei. Diferente, com certeza.

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Cangaço, coronelismo e fanatismo são manifestações do poder

Por Honório de Medeiros

O coronelismo e o cangaço, assim como o fanatismo (misticismo) tão característicos de certo período histórico do Sertão nordestino brasileiro, são manifestações do fenômeno do Poder, de como ele é obtido, se instaura  e é mantido em qualquer circunstância.

A forma como o Poder se instaura diz respeito a fatores circunstanciais, mas o conteúdo permanece o mesmo desde que o Homem surgiu na face da terra.

Exemplos que comprovam essa afirmação são quaisquer processos políticos que aconteceram ao longo da história, tais quais os descritos em farta literatura acerca de Atenas, Roma, a Inglaterra vitoriana, ou qualquer outro que seja. A forma se modifica ao longo do tempo em decorrência do avanço tecnológico, por exemplo.

Se antes o Homem combatia com arcos e flechas, hoje usa mísseis teleguiados.

Assim, o coronelismo, o cangaço e o fanatismo são “cases” do fenômeno do Poder próprios de uma determinada circunstância histórica. São semelhantes, em sua estrutura, ao feudalismo europeu e japonês.

As narrativas acerca do coronelismo, cangaço, e fanatismo devem ser estudadas levando-se em consideração o fator de “ocultamento” que é próprio da lógica de atuação dos que detêm o Poder. Nesse sentido, escrever, omitir, manipular, direcionar os textos, tudo isso e mais, cumprem o papel de impor a lógica dos que podem impor sua percepção das coisas e dos fenômenos.

No Rio Grande do Norte, por exemplo, é difusa, porém persistente, a concepção de que os coronéis da política eram homens afastados da lide com o cangaço, bem como é persistente a concepção de que o cangaço, excetuando a invasão de Mossoró por Lampião, pouca relevância teve no Rio Grande do Norte.

São “esquecidos” José Brilhante, o Cabé; Jesuíno Brilhante; a invasão de Apodi por Massilon; a invasão de Mossoró por Lampião e Massilon; e a morte de Chico Pereira.

Não se estuda, como deveria ser estudado, a invasão de Apodi por Massilon e sua relação com a invasão de Mossoró por Lampião pouco mais de um mês depois. Bem como não se estuda a participação do coronelato da Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte no evento.

E perdemos todos pois, na verdade, em essência, o que se deve estudar quando analisamos fatos históricos como esses, é o fenômeno do Poder, tão onipresente quanto a existência do Homem na face da terra.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Vereadora rompe com prefeito e o acusa de política “rasteira”

Júlia: distância do atraso (Foto: Elpídio Júnior)

Do Blog do FM

A vereadora Júlia Arruda (PDT) oficializou na manhã desta quarta-feira (6) o seu rompimento com o prefeito de Natal, Álvaro Dias (MDB), a quem acusou de fazer “uma política coronelista e arcaica”. Usando a Tribuna da Câmara Municipal, Arruda disse que a gestão de Dias está impondo normas de condutas aos vereadores, tentando obrigá-los a votarem nos projetos de acordo com a vontade dele.

Segundo ela, trata-se de uma estratégia “claramente articulada, rasteira”, que a levou a se negar a continuar na base governista.

A bancada governista conta agora com três vereadores a menos: Dinarte Torres (PMB) pulou fora do barco na semana passada e Julia Arruda e Ana Paula (PSDC) nesta quarta-feira.

Nota do Blog – Ainda bem que isso só acontece em Natal.

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Repórteres Sem Fronteiras vê ‘coronelismo’ contra mídia

Do portal Terra

A organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) apresentou, em seu recente relatório, um preocupante panorama da liberdade de imprensa no Brasil. O País consta entre as cinco nações mais perigosas do mundo para se exercer a profissão de jornalista. Em 2012, cinco profissionais foram assassinados – dois deles, ao que tudo indica, foram mortos por investigar casos de narcotráfico.

Em entrevista para a DW Brasil, Benoît Hervieu, diretor do escritório para as Américas do RSF, disse que a impunidade é um dos principais fatores para a onda de violência contra os profissionais do jornalismo no País, mas não o único. Outro problema citado é a censura prévia por parte da Justiça, o que seria uma “herança do coronelismo brasileiro”. “Isso porque há uma ligação muito forte entre o poder judiciário estadual e os governadores, senadores, etc.”, afirmou.

Benoît Hervieu aponta concentração de poder na mídia brasileira e outras pressões

DW Brasil – Qual o balanço do relatório deste ano sobre a liberdade de imprensa no Brasil?

Benoît Hervieu – O número de mortos deste ano faz com que o Brasil seja considerado o segundo país mais perigoso do continente para o trabalho do jornalista, depois do México. Foram onze jornalistas assassinados no Brasil, sendo que cinco dos casos têm relação direta com a profissão. Dois desses jornalistas investigavam o narcotráfico na fronteira com o Paraguai, então estavam claramente expostos ao perigo. A cobertura das recentes operações contra o crime organizado às vésperas da Copa do Mundo e das Olimpíadas também expõe os jornalistas. Outra causa de mortes são as vinganças políticas. Muitos jornalistas no Brasil fazem militância política, e é difícil saber onde está o limite entre a atividade de jornalista e de político.

Quais são as regiões mais críticas?

Benoît Hervieu – Tradicionalmente são os Estados localizados no Norte e no Nordeste do Brasil, onde os jornalistas são expostos à insegurança, à presença do narcotráfico e a uma pressão política muito forte. Tudo isso faz com que seja difícil realizar o trabalho de forma independente e com as mínimas condições de segurança fora dos círculos tradicionais da imprensa, que é bastante poderosa, mas também bastante controlada.

A impunidade pode ser considerada um problema?

Benoît Hervieu – É um dos fatores, mas não o principal. A situação da impunidade no Brasil talvez seja menos grave do que em outros países onde os crimes não são investigados, como México, Honduras e Colômbia, por exemplo. O problema no Brasil é que, muitas vezes, os executores dos crimes são presos, porém, prender os autores intelectuais (mandantes) é muito mais difícil. Além do mais, a impunidade depende da região brasileira.

O governo tem feito progressos quanto à liberdade de imprensa no País?

Benoît Hervieu – Houve avanços durante os dois mandatos do ex-presidente Lula. E também a lei do acesso à informação, que é um fator muito importante. Eu diria que a principal questão no Brasil não é o problema da liberdade de imprensa ou de informação, mas os obstáculos da imprensa para informar. A concentração midiática é muito grande, e alguns veículos de imprensa da sociedade civil têm pouco espaço para se expressar.

Existe censura no País?

Benoît Hervieu – Sim. Uma questão muito frequente no Brasil é a censura prévia, isto é, quando um veículo de comunicação ou um blogueiro não podem publicar uma notícia contra um político, porque um juiz proibiu. Isso devido a uma ligação muito forte entre o poder judiciário estadual e governadores, senadores etc. Esta é uma herança do coronelismo brasileiro. Muitos jornalistas me contaram que no Maranhão, por exemplo, falar mal da família Sarney é quase impossível. Se isso ocorrer, você terá que fechar o seu jornal ou vai sofrer censura dos juízes. Essa concentração local de poderes faz com que seja muito difícil existir um contrapoder por parte dos veículos de informação.