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A solidão dos deuses

Por François Silvestre

Ponho todos em letra maiúscula por respeito e reverência à condição humana de ser maternidade de Deuses. O ser humano, só, ou na tribo, não se explicava nem se compreendia. Era preciso pedir ajuda à sua capacidade inventiva de justificar-se, de nascer, de pensar. E se descobrindo pequeno, indefeso, incapaz de abastecer-se de informações sobre si mesmo, pediu socorro à angústia de si próprio.formacao_1600x1200-a-fe-coragem-pra-caminhar-sem-ver

Foi por aí que se assumiu criatura, na comodidade de dispensar respostas, e culpou o criador. Estava criado o responsável pela sua própria miserável dúvida.

Deuses dos sumérios, dos etruscos, dos fenícios, dos caldeus, dos gregos, dos romanos, dos hebreus, dos africanos, dos chineses, dos silvícolas. Há Deuses de todas das certezas e banhados de todas as dúvidas.

O Deus hebraico é o que pontifica, coitado, no turno da nossa cultura daqui desse Ocidente de moral decadente, de moralistas amorais. Na pesquisa de RosenstockHuessy, sobre a origem da linguagem, a palavra Deus, desde o sânscrito e antes do pré-senmítico não significa aquele que cria, ou seja, o criador. Não. Significa aquele que fala. E se você for ao texto da Torá, nas suas duas versões, verá a confirmação dessa assertiva.

O que diz lá? “No principio era o verbo e o verbo era Deus”. A outra versão da Torá informa: “O princípio era o verbo e o verbo era Deus”. Numa, o princípio é adjunto adverbial de tempo. Na outra, é sujeito. Em ambas, Deus não cria. Fala. Consta dos livros do Pentateuco, atribuídos a Moisés, dos quais Moisés nunca escreveu uma página.

Da Torá nasceram três doutrinas filo-religiosas. O Judaísmo, professado por Jesus, o Cristianismo, criado por Constantino, e o Islamismo originado por Maomé.

Dos Deuses das mitologia destacam-se os gregos e latinos. Numa correspondência quase simétrica. Zeus, Deus maior dos gregos. Júpiter, dos latinos. Baco, da farra, vinho e arte, dos latinos. Dioniso, do vinho e arte dos gregos. Apolo, da retidão, sofria, como apolíneo, a oposição do dionisíaco.

Mas não posso deixar sem registro a mitologia caldaica; que em matéria de Deuses, pra mim é tão ou mais exuberante do que as referidas. E lembro de A’Nuhr, o Deus supremo dos céus dos caldeus, que sofria a cobrança constante da Deusa Is’tahr, senhora das paixões e fertilidade. E num desses embates, ela ameaçou: “Ou faz como peço ou cortarei por um segundo o fio do amor, quebrando a sinfonia do erotismo universal”.

Ponto e vírgula.

François Silvestre é escritor

O que é ideologia?

Por François Silvestre

E o que a distingue de Doutrina?

As fronteiras às vezes até se confundem, mas há diferenças fundamentais na essência. Ideologia, na acepção de rigor etimológico, é uma propositura ideal, que nega e confronta a realidade. Insurge-se contra o estabelecido, o mundo real, para negá-lo ou transformá-lo.Ideologia, pensamento, doutrina,

Numa das teses sobre Feuerbach, Marx acentua que “até hoje os pensadores têm pensado o mundo social, estudando e dando respostas, mas chegou a hora de transformá-lo”.

A ideologia, nessa nova acepção, agrega o conteúdo programático. Isto é, um programa de gerência social estruturalmente oposto a tudo que se precedeu. Essa é a fisionomia teórica.

Doutrina tem por alicerces conceitos de natureza moral, no rigor etimológico. Mesmo que, ao passar do tempo, foi agregando também adjetivações de natureza religiosa, cultural e política. O marxismo é uma ideologia. O cristianismo é uma doutrina.

Enquanto a ideologia pressupõe a negação do estabelecido real, a doutrina funda-se no interesse disciplinar. Disciplina, aqui, não de natureza hierárquica, mas de natureza do aprendizado. Doutrinar é ensinar, na acepção originária.

E o que é o Fascismo? O fascismo é uma pseudo ideologia. O positivismo de Augusto Comte, estuário da nossa formação republicana, é um pré-fascismo. “O amor como princípio, a ordem como base e o progresso como fim”.

Daí saiu a frase bocó da nossa Bandeira.

Tudo isso pra defender um regime centralizador, em torno de um líder sobre-humano e uma sociedade sob controle moral. Toda ditadura, de esquerda ou direita, é fascista. Porque o fascismo é fundamentalmente de natureza comportamental. Alguém pensa pelos outros. E os bocós o seguem.

O pai que é liberal com o filho e opressor com a filha é um fascista. Mesmo que defenda, na praça, ideias louváveis. Entendeu? O policial que agride um transeunte por ser negro é um fascista. Mesmo que também seja negro e nem saiba o que é fascismo. O rico que tem nojo de pobre é um fascista. O fascismo não é ideologia. É moléstia da psicopatia.

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