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A irmã de Cristo

Por Marcos Ferreirafé , biblia, religiosidade, sagradas escrituras,

Quase três horas adulando um soneto. Consegui dar cabo dos quartetos (razoáveis, a meu ver), porém os tercetos emperraram. Paciência. Mudemos para a crônica. Deixemos o poema amadurecendo nos escaninhos da mente. No mais das vezes persevero, travo uma luta ferrenha com os meus neurônios, mas há ocasiões em que é preciso dar um tempo, tomar um banho bem frio e uma boa talagada de café amargo. Após isso, o que não é regra, termino encontrando a solução para os versos insubordinados, inacessíveis como certos políticos reeleitos.

Se eu sigo algum ritual para escrever? Talvez. Mas seria algo involuntário. Inquieto-me da mesa para a cama, da cama para a rede, armada aqui na sala, às vezes com uma caneta e bloco de notas. Então “eu olho, assustado, para a página branca de susto”. Apenas para citar Quintana, embora alguns leitores mais áridos, carentes de cultura literária, considerem tais citações uma coisa presumida, empolada, pedante. Fazer o quê? Não posso responder pela ignorância alheia. A minha já me é o bastante para que eu entenda que aquilo que sei é uma gota e o que ignoro é um oceano, como nas palavras do cientista inglês Isaac Newton.

Ouso dizer que hoje em dia, dispondo-se de um serviço de internet, de um celular ou computador, tornou-se fácil (aspas) que um indivíduo se venda por intelectual. Ou afete, digamos, uma intelectualidade medíocre. Porque frases engenhosas como essa de Newton são absolutamente encontráveis nos sites de busca, sem que o suposto intelectual precise consultar sua biblioteca física um sem-número de vezes, no caso daquelas pessoas que possuem bibliotecas.

Temos em Mossoró um autor — rapaz velho com mais de setenta anos, formado em ciências jurídicas e medicina veterinária, entretanto estabelecido no ramo de peças de automóveis — que já deveria ter sido agraciado com um Jabuti ou um Prêmio São Paulo de Literatura. Se não pelas várias obras publicadas do próprio bolso, entusiasticamente aplaudidas pelas igrejinhas daqui e da capital potiguar, ao menos pela admirável qualidade das epígrafes e aforismos com que ele impregna os seus romances, contos, poemas, crônicas e ensaios literários.

Sim. O senhor Olavo Cardoso, eis o nome do referido escriba, notabiliza-se (no meu modo de ver) muito mais pela citação das obras e pensamentos de terceiros do que pelos méritos de suas próprias letras.

Isso, no entanto, não é da minha conta. Decerto também não é do interesse do paciente leitor. Iniciei estas linhas falando sobre poesia, e é sobre poesia que desejo continuar falando. Talvez eu devesse expor aqui as duas primeiras estrofes do referido soneto. Não. Fiquemos na categoria da crônica. O que não me impede de lhes apresentar a minha opinião sobre a arte do verso.

Eu dizia da minha peleja à cata dos tercetos, até agora sem remédio. Estalo os dedos. Daí a pouco vou dar uma olhada no trânsito. Espio por cima do muro, que é baixo o suficiente para esse tipo de espreita. Subo em dois tijolos de cerâmica, que mantenho ali para essa finalidade. Ganho uns vinte centímetros de altura e consigo espichar a cabeça para melhor examinar a rua. Contudo ainda é cedo e quase não há tráfego; uma motocicleta e um carro passam devagar. A seguir, com menos velocidade, dois ciclistas e um carroceiro tomam rumos contrários. A carroça segue em direção ao oeste enquanto as bicicletas rumam para o leste. Ruazinha estragada e morta de um domingo igualmente morto. Continuo, repito, sem engenho para dar à luz os tercetos necessários à conclusão daquele soneto iniciado há horas.

Volto para a rede, enfastiado da monótona paisagem da rua. Apesar do inexplicável tremor das minhas mãos, coisa que o Dr. Dirceu Lopes (meu psiquiatra) tem se empenhado em resolver, pego o bloco de notas e me ponho a cismar, os olhos mirando o vazio, mordiscando a tampa da caneta. Sobre o que escrever, afinal, nesta crônica digressiva, sem rumo certo? “Decifra-me ou te devoro”, ameaça-me a esfinge de Tebas. É melhor que eu não permaneça na enrolação, abusando da paciência do leitor, cujo tempo destinado às nossas crônicas de qualidade pretensamente elevada merece ser valorizado. Pego outra xícara de café amargo e me ponho a saborear a rubiácea. Sequer um braço de vento se insurge contra a quietude.

Ouço a buzina de um carro, seguida pelo som das portas se fechando, e vou espiar a rua outra vez. A visita não é para mim, felizmente. O veículo parou diante da casa da senhora Margareth. Desceu um jovem e rechonchudo casal e o rapaz tocou a campainha da residência. Daí a pouco a senhora Margareth lhes abriu o portão. O cachorro vira-lata do padeiro Saldanha vela um osso descarnado ao pé do poste. E esta rua vazia e morta me lembra um poema de Mauro Mota. Uma cigarra estridula seu característico canto de acasalamento nas imediações.

Sofro intimamente a dor dos versos que não consigo parir, esperando uma fagulha de engenho. Tenho a impressão de que me olham, à sorrelfa, os olhos invisíveis da Poesia, que hoje está de mal comigo.

Antes de atritarem as primeiras pedras e obterem o fogo, ela já se fizera inquilina dos subterrâneos e porões das nossas almas. Precede a escrita, a tinta e o papiro. Constitui os primórdios da linguagem. Compõe a nossa essência e cotidiano desde a pré-história, do interior das cavernas às habitações de agora. Socializou e interagiu com o homem primitivo à volta de fogueiras.

Ela está em toda parte. Sobreviveu a hecatombes e cataclismos, foi tragada por dilúvios e consumida por vulcões, no entanto ressurgiu como uma fênix. Sempre viveu conosco, em meio à luz e às trevas, independente do nosso querer e escolha. Existe desde a criação do mundo e do ser humano. Possui dimensões microscópicas quanto gigantescas. Muitas vezes se encontra bem diante dos nossos olhos e não conseguimos enxergá-la. Com algumas exceções, pois há quem jure de pés juntos que a desprezam e repelem, todos a estimamos e a cobiçamos.

Sinto a sua presença enquanto escrevo. Adivinho o seu olhar onipresente pairando sobre mim. Está dentro de nós, habita-nos e nos circunda a um só tempo. Não nos diz a que veio (nem carece), pois a ela nos destinamos, embora a subestimemos aqui e ali com a nossa fria e pragmática lógica.

Hoje a Poesia não parece disposta a colaborar para a conclusão do meu soneto. Vejo-a reflorir entre os espinhos e pedras do caminho. Continua e será exatamente a mesma, por séculos infindos, diversa e una. Reina sobre todas as amarras e grilhões, sobre todas as formas e regras, antiguidades e modernismos, vozes e silêncios, guerras e paz. Ela coexiste entre a lágrima e o riso, entre o êxtase e a dor, o fracasso e o sucesso. É fardo e fortuna, prazer e suplício de todos os seus discípulos e devotos. Alista reis e vassalos para a empresa de sua eternidade. Nobres e plebeus compartilham do mesmo pão verbal à sua mesa farta e indistinta.

Não possui fronteiras nem alfândegas. Cabe no útero de uma ostra e transborda rios, agita oceanos. É a pomba e o chacal, a espada e o cordeiro. Ora é festa e multidão, noutro instante é abandono e vazio. E se acaso à noite ela se revela sombra e embaraço, ressurge cristalina “mal rompe a manhã”.

Eis, senhoras e senhores, a irmã de Cristo, a filha bastarda que Deus não quis registrar nas sagradas escrituras: a Poesia!

Marcos Ferreira é escritor

*Texto originalmente publicado na revista Papangu na Rede, em 29 maio de 2021.

A irmã de Cristo

Por Marcos Ferreira

Ilustração extraída da Web (sem identificação de autoria)
Ilustração extraída da Web (sem identificação de autoria)

Quase três horas adulando um soneto. Consegui dar cabo dos quartetos (razoáveis, a meu ver), porém os tercetos emperraram. Paciência. Mudemos para a crônica. Deixemos o poema amadurecendo nos escaninhos da mente. No mais das vezes persevero, travo uma luta ferrenha com os meus neurônios, mas há ocasiões em que é preciso dar um tempo, tomar um banho bem frio e uma boa talagada de café amargo. Após isso, o que não é regra, termino encontrando a solução para os versos insubordinados, inacessíveis como certos políticos reeleitos.

Se eu sigo algum ritual para escrever? Talvez. Mas seria algo involuntário. Inquieto-me da mesa para a cama, da cama para a rede, armada aqui na sala, às vezes com uma caneta e bloco de notas. Então “eu olho, assustado, para a página branca de susto”. Apenas para citar Quintana, embora alguns leitores mais áridos, carentes de cultura literária, considerem tais citações uma coisa presumida, empolada, pedante. Fazer o quê? Não posso responder pela ignorância alheia. A minha já me é o bastante para que eu entenda que aquilo que sei é uma gota e o que ignoro é um oceano, como nas palavras do cientista inglês Isaac Newton.

Ouso dizer que hoje em dia, dispondo-se de um serviço de internet, de um celular ou computador, tornou-se fácil (aspas) que um indivíduo se venda por intelectual. Ou afete, digamos, uma intelectualidade medíocre. Porque frases engenhosas como essa de Newton são absolutamente encontráveis nos sites de busca, sem que o suposto intelectual precise consultar sua biblioteca física um sem-número de vezes, no caso daquelas pessoas que possuem bibliotecas.

Temos em Mossoró um autor — rapaz velho com mais de setenta anos, formado em ciências jurídicas e medicina veterinária, entretanto estabelecido no ramo de peças de automóveis — que já deveria ter sido agraciado com um Jabuti ou um Prêmio São Paulo de Literatura. Se não pelas várias obras publicadas do próprio bolso, entusiasticamente aplaudidas pelas igrejinhas de Vila Negra e da capital, ao menos pela admirável qualidade das epígrafes e aforismos com que ele impregna os seus romances, contos, poemas, crônicas e até ensaios literários.

Sim. O senhor Olavo Cardoso, eis o nome do referido escriba, notabiliza-se (no meu modo de ver) muito mais pela citação das obras e pensamentos de terceiros do que pelos méritos de suas próprias letras.

Isso, no entanto, não é da minha conta. Decerto também não é do interesse do paciente leitor. Iniciei estas linhas falando sobre poesia, e é sobre poesia que desejo continuar falando. Talvez eu devesse expor aqui as duas primeiras estrofes do referido soneto. Não. Fiquemos na categoria da crônica. O que não me impede de lhes apresentar a minha opinião sobre a arte do verso.

Eu dizia da minha peleja à cata dos tercetos, até agora sem remédio. Estalo os dedos. Daí a pouco vou dar uma olhada no trânsito. Espio por cima do muro, que é baixo o suficiente para esse tipo de espreita. Subo em dois tijolos de cerâmica, que mantenho ali para essa finalidade. Ganho uns vinte centímetros de altura e consigo espichar a cabeça para melhor examinar a rua.

Contudo ainda é cedo e quase não há tráfego; uma motocicleta e um carro passam devagar. A seguir, com menos velocidade, dois ciclistas e um carroceiro tomam rumos contrários. A carroça segue em direção ao oeste enquanto as bicicletas rumam para o leste. Ruazinha estragada e morta de um domingo igualmente morto. Continuo, repito, sem engenho para dar à luz os tercetos necessários à conclusão daquele soneto iniciado há horas.

Volto para a rede, enfastiado da monótona paisagem da rua. Apesar do inexplicável tremor das minhas mãos, coisa que o Dr. Dirceu Lopes (meu psiquiatra) tem se empenhado em resolver, pego o bloco de notas e me ponho a cismar, os olhos mirando o vazio, mordiscando a tampa da caneta. Sobre o que escrever, afinal, nesta crônica digressiva, sem rumo certo? “Decifra-me ou te devoro”, ameaça-me a esfinge de Tebas.

É melhor que eu não permaneça na enrolação, abusando da paciência do leitor, cujo tempo destinado às nossas crônicas de qualidade supostamente apreciável merece ser valorizado. Pego outra xícara de café amargo e me ponho a saborear a rubiácea. Sequer um braço de vento se insurge contra a quietude.

Ouço a buzina de um carro, seguida pelo som das portas se fechando, e vou espiar a rua outra vez. A visita não é para mim, felizmente. O veículo parou diante da casa da senhora Margareth. Desceu um jovem e rechonchudo casal e o rapaz tocou a campainha da residência. Em alguns minutos a senhora Margareth lhes abriu o portão. O cachorro vira-lata do padeiro Saldanha vela um osso descarnado ao pé do poste. E esta rua vazia e morta me lembra um poema de Mauro Mota. Uma cigarra estridula seu característico canto de acasalamento nas imediações.

Sofro intimamente a dor dos versos que não consigo parir, esperando uma fagulha de engenho. Tenho a impressão de que me olham, à sorrelfa, os olhos invisíveis da Poesia, que hoje está de mal comigo.

Antes de atritarem as primeiras pedras e obterem o fogo, ela já se fizera inquilina dos subterrâneos e porões das nossas almas. Precede a escrita, a tinta e o papiro. Constitui os primórdios da linguagem. Compõe a nossa essência e cotidiano desde a pré-história, do interior das cavernas às habitações de agora. Socializou e interagiu com o homem primitivo à volta de fogueiras.

Ela está em toda parte. Sobreviveu a hecatombes e cataclismos, foi tragada por dilúvios e consumida por vulcões, no entanto ressurgiu como uma fênix. Sempre viveu conosco, em meio à luz e às trevas, independente do nosso querer e escolha. Existe desde a criação do mundo e do ser humano. Possui dimensões microscópicas quanto gigantescas. Muitas vezes se encontra bem diante dos nossos olhos e não conseguimos enxergá-la. Com algumas exceções, pois há quem jure de pés juntos que a desprezam e repelem, todos a estimamos e a cobiçamos.

Sinto a sua presença enquanto escrevo. Adivinho o seu olhar onipresente pairando sobre mim. Está dentro de nós, habita-nos e nos circunda a um só tempo. Não nos diz a que veio (nem carece), pois a ela nos destinamos, embora a subestimemos aqui e ali com a nossa fria e pragmática lógica.

Hoje a Poesia não parece disposta a colaborar para a conclusão do meu soneto. Vejo-a reflorir entre os espinhos e pedras do caminho. Continua e será exatamente a mesma, por séculos infindos, diversa e una. Reina sobre todas as amarras e grilhões, sobre todas as formas e regras, antiguidades e modernismos, vozes e silêncios, guerras e paz. Ela coexiste entre a lágrima e o riso, entre o êxtase e a dor, o fracasso e o sucesso. É fardo e fortuna, prazer e suplício de todos os seus discípulos e devotos. Alista reis e vassalos para a empresa de sua eternidade. Nobres e plebeus compartilham do mesmo pão verbal à sua mesa farta e indistinta.

Não possui fronteiras nem alfândegas. Cabe no útero de uma ostra e transborda rios, agita oceanos. É a pomba e o chacal, a espada e o cordeiro. Ora é festa e multidão, noutro instante é abandono e vazio. E se acaso à noite ela se revela sombra e embaraço, ressurge cristalina “mal rompe a manhã”.

Eis, senhoras e senhores, a irmã de Cristo, a filha bastarda que Deus não quis registrar nas Sagradas Escrituras: a Poesia!

Marcos Ferreira é escritor

Páscoa e a paz na Ucrânia

Por Ney Lopes

Há séculos um Homem veio ao mundo numa estrebaria de Belém. Os Reis Magos, guiados pela estrela, encontraram-no, mas não o entregaram ao Rei, que desejava matá-lo.

Entenderam que Ele seria o maior exemplo de amor e verdade, que a humanidade conhecera.

Neste Domingo de Páscoa é dia de parar e refletir sobre “o sepulcro vazio e a ressurreição do Cristo”.

The Ukrainian flag is seen as demonstrators gather to protest Russia’s invasion of Ukraine outside the Russian Embassy in Washington, DC, on February 27, 2022. - Tens of thousands of Ukrainians have fled their country since Russian President Vladimir Putin unleashed a full-scale invasion on Thursday. (Photo by MANDEL NGAN / AFP)
(Foto: MANDEL NGAN / AFP)

Tome-se como exemplo a Ucrânia, hoje sendo destruída pelo desamor, o ódio e a ambição de um déspota, cuja única intenção é reconstruir o império da Grande Rússia czarista.

Os estilhaços das bombas, ceifando vidas humanas, nada mais são do que o simbolismo do prolongamento da Paixão daquele que morreu flagelado para sepultar os defeitos humanos e depois ressurgiu dos mortos, ao terceiro dia, para semear a virtude, a alegria, a paz interior, sonhos e recordações.

A Páscoa simboliza a Verdade, que por não ter sido entendida, transformou-se em Cruz e na angustia do Calvário

Cabe recordar o encontro em 1994, de Madre Teresa de Calcutá, com o Presidente Bill Clinton, o Vice Al Gore, diplomatas de mais de 100 países e centenas de participantes em Washington DC.

Madre Teresa fez claramente um desafio aos acomodados detentores do Poder na maior potência mundial, que ouviram calados e contritos.

Como uma contribuição à reflexão transcrevem-se a seguir alguns trechos da palavra de Madre Teresa, na chamada “oração aos políticos”.

Ela começou assim:

“Uma vez que nos reunimos aqui para rezar juntos, eu penso que será bonito se começarmos com uma oração que expressa muito bem o que Jesus quer que façamos. São Francisco de Assis entendeu estas palavras de Jesus. Ele viveu as mesmas dificuldades, que nós temos hoje”

Em seguida, Madre Teresa confessou a fragilidade da família Ocidental, diante de homens e mulheres poderosos:

“Tentei descobrir por quê essa fragilidade. E a resposta era, “Porque não há ninguém na família para os receber”.

“Nossas crianças dependem de nós para tudo: sua saúde, sua nutrição, sua segurança, seu vir a conhecer e amar a Deus. Para tudo isto, eles olham para nós com confiança, esperança e expectativa.

Mas frequentemente o pai e mãe estão tão ocupados. Eles não têm tempo para suas crianças, ou talvez eles nem mesmo sejam casados, ou desistiram do seu matrimônio.

Assim as crianças vão para as ruas e são envolvidas nas drogas, ou em outras coisas”.

Sem negar o progresso e o desenvolvimento, Madre Teresa teve a coragem de abordar a questão da pobreza.

Disse ela:

“Os pobres são pessoas muito grandes. Eles podem nos ensinar tantas coisas bonitas…. Uma noite nós saímos e recolhemos quatro pessoas da rua.

E um deles estava em uma condição bem terrível. Eu disse às Irmãs: “Vocês tomem conta dos outros três; eu cuidarei do que parece pior”.

Coloquei-a na cama e havia um belo sorriso na sua face.

Ela pegou minha mão e só disse uma coisa: “Obrigado”.

Então, morreu.

Eu perguntei: “o que eu diria se estivesse em seu lugar”?

E minha resposta foi muito simples. Eu teria dito, “tenho fome, eu estou morrendo, estou com frio, estou com dor”, ou algo assim.

Mas, ela me deu muito mais. Ela me deu o seu amor agradecido e morreu com um sorriso em sua face”.

Madre Teresa foi entusiasticamente aplaudida, durante a “oração aos políticos americanos”.

Lançou as sementes da Paz, ainda hoje o desafio da humanidade.

Os dirigentes do mundo têm parcela de responsabilidade no drama atual da violência, fome, exclusão social, saúde precária, educação inacessível e tantos outros males idênticos.

O político terá que parar e refletir sobre “o sepulcro vazio e a ressurreição do Cristo”.

O calvário significou dias de angústia, dor e escuridão.

No terceiro dia, a luz brilhou com a Ressurreição.

Era o Domingo de Páscoa, que hoje festejamos.

A convivência com a realidade cruel contemporânea, coloca o cristão na posição dos apóstolos, que depois da ressurreição, tiveram a missão de buscar as pessoas e levar-lhes mensagem de paz e solidariedade.

Paulo e Pedro foram pregar na Grécia e em Roma; André chegou à Escócia; Tomé foi à Índia; Marcos ao Egito; Madalena atingiu a França.

Páscoa é a hora do sorriso, abraço, amizade, vontade de ser feliz; momento do recomeço, libertação, amor e perdão.

Rezemos pelos ucranianos, que sofrem nas mãos do invasor.

Feliz Páscoa, caro leitor!

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

A velhice dos anos

Por François Silvestre

Dizia o professor de Medicina Legal, Milton Ribeiro Dantas, que nós começamos a compreender a vida contando as décadas. E com o passar delas, descíamos a contagem para os anos, meses, semanas e dias.

Lembro ainda dos tempos de criança, quando se queria dizer que alguém estava à beira da morte, usava-se a expressão “está só contando as horas”.

Cada ano começa a contar as horas após a ceia de Natal. E agoniza entre festas, salamaleques, votos, abraços. Há um clima suave de música triste embalada por sinos femininamente sílfides.

É o único período em que a hipocrisia não parece maldosa. Pelo contrário, fica até fantasiada de candura.

O Nazareno certamente não teria tempo suficiente, nestes tempos de agora, nem chibatas disponíveis, para expulsar os vendilhões dos templos. Ou talvez nem o fizesse, pelo simples fato de que esses prédios pomposos, onde se encastelam as igrejas não seriam por ele reconhecidos como a sua edificação sobre a pedra de Pedro.

O Cristo que nós embalamos na manjedoura, aos sinos de Dezembro, para três meses depois o pendurarmos na cruz. Tudo regado a muita festa, comes e bebes; orações decoradas para afugentar medos e labaredas.

Jacques Anatole François Thibault, o popular Anatole France, dizia que as crucificações eram tão comuns naquele tempo, que nem despertavam interesse. Sugerindo que a pompa e circunstância da crucificação de Cristo foi uma invenção posterior.

Porém, nem ele, com seu ferino ceticismo, pôde negar que aquela crucificação produziu a mais profunda influência nas relações da fé humana ao longo do tempo.

O Cristianismo é núcleo e periferia. Vai do belo ao horrendo, da luz às trevas. Depende do tempo e das relações com o poder temporal. Da humanidade plena de um Ângelo Roncalli, o João XXlll,  à barbárie do Bispo Torquemada, na inquisição. Os extremos, com infinidades de configurações entre suas pontas.

Certamente o Cristo merece melhores emissários do que os vendedores de milagres, saltimbancos da fé, que infestam a angústia dos nossos tempos.

Mas eu falava da idade dos anos. Cuja adolescência impúbere despede-se ali por Maio e se veste de noivado; depois, a juventude atravessa as fogueiras a comemorar a colheita, nos folguedos de São João. Chega a maturidade e perdura até por meados de Outubro. E aí começa a velhice.

As rugas dos anos são tristes. É por isso que ele morre fazendo festa. Mas a festa não consegue enganar. Por isso a música da despedida é melancólica.

Mesmo assim, e até por isso, brindemos. Cristo está acima de nós. Da nossa fé ou da nossa descrença.

Morrer não é coisa da morte. Não. É coisa da vida! E pra viver é preciso entusiasmo. Os anos morrem entusiasmadamente.

Recorro a Anatole France, para fechar o texto. “Eu prefiro o erro do entusiasmo à indiferença do bom senso”. Té mais.

François Silvestre é escritor

Regra (de) Três

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Não se espante, caro leitor, mas, na época do colégio Salesiano, uma das matérias que eu mais gostava era matemática! Com certeza, a explicação para essa preferência foi a presença de mestres excepcionais, como Augusto e Helder. Gostava tanto dos números, que a minha primeira experiência, como professor, foi ensinando regra de três, cálculo do “x” da questão, etc. etc. para os meus colegas de turma.

Isso mesmo: ensinava e aprendia ao mesmo tempo! Guimarães Rosa foi esperto ao perceber que professor é aquele de repente, aprende…

Sim! Não se espante mais uma vez pelo fato de eu ter escolhido medicina ao invés de engenharia…  Ora, até os filósofos gostam de matemática: “Só poderá entrar quem for um geômetra!”, não eram os dizeres da placa, na entrada da escola de Atenas?!  Pois é, para os gregos, Deus era um matemático! Por isso, Einstein acertou ao afirmar que Ele não joga dados…

Pois bem! Mesmo gostando de matemática, tem um cálculo que eu não consigo fazer… Já procurei a resposta de várias maneiras, mas não consigo chegar a nenhum resultado. Qual o cálculo?! Quer saber, mesmo?! É simples, mas é complexo: quantas vezes devemos perdoar?! Cristo até tentou dizer a resposta: 70 x 7! No entanto, quando estava no momento da sua morte, entre o ingrato e o ladrão, olhando para esse último, ele disse: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso!”.

Veja que ele não disse: “hoje, vocês estarão comigo no paraíso”.

O verbo ficou mesmo no singular. O ladrão, Cristo perdoou, mas o ingrato… Oh! Coisa difícil é perdoá-lo! Por que a ingratidão é sem dúvida o pior de todos os pecados. Shakespeare abominava tanto a ingratidão que ele não se cansava de dizer: “Não é um ano, nem em dois, que se conhece um homem. Tudo que eles são é estômago, e nós não passamos de comida. Eles nos comem com sofreguidão e, quando se sentem empanturrados, eles nos arrotam!”.

Padre Antônio Vieira colocava esse defeito de caráter como uma das armas mais poderosas para destruir o amor; maior até do que o tempo e a distância.

Portanto, não se espante, caro leitor, com a “Regra três” de Vinícius de Morais: “Tantas você fez, que ela cansou, por que você rapaz, abusou da regra três, onde menos vale mais… Da primeira vez ela chorou mas resolveu ficar/ É que momentos felizes tinham deixado raízes no seu penar. Depois perdeu a esperança/ por que o PERDÃO também CANSA de perdoar!”.

E perder a esperança, meu caro, significa: acabou! Afinal, a fila tem que andar, não é mesmo? Até porque, muitas vezes, querendo ressuscitar uma convivência que já morreu há anos, estamos esquecendo, perigosamente, a grande lição de Zeus ao seu neto Asclépio: “Ressuscitar mortos não é coisa para os médicos. A ciência tem limites! Ressuscitar mortos é coisa dos deuses!”. E eu acho que somente Ele, e ninguém mais do que Ele, para perdoar eternamente!

Nós, mortais de carne e osso, com um coração que sangra a cada ingratidão, indiferença, humilhação, etc. etc. é impossível não cansar, ao chegar ao número cabalístico de setenta vezes sete… Na verdade, nossa vontade, além de não perdoar, é de revidar a cada agressão, a cada ingratidão… Gostaríamos até de nos tornarmos também porcos-espinhos e ferir com a mesma moeda o ingrato.

Mas como um pinto (Edilson Pinto) poderá virar um porco?! Ainda mais um porco-espinho?! Será que torcendo pelo time do Palestra Itália, o Palmeiras, conseguirei?!

Não! Estou fora! Transformar o meu coração em pedra?! Jamais! E porco espinho não combina comigo. Até por que, sei muito bem o que Nietzsche quis dizer quando nos alertou: “Aquele que luta com monstros deveria tomar cuidado para não se tornar um deles!”. O melhor é aceitar tudo calado.

O silêncio é o melhor remédio. Só não sei se o silêncio seria um perdão… Dizem que quem cala consente! Mas, também, do que adiantaria o meu perdão, se você nunca conseguirá perdoar o que você fez a si mesmo?

P.S. Dedico este artigo ao colega médico Henrique Santos, afinal foi ele que deu o mote: “Amigo, escreva pensando na bossa nova!”.

Francisco Edilson Leite Pinto Junior– professor, médico e escritor.