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“Meu vô”, meu herói…

Por Marcos Araújo

Pietro, o menino gaúcho que sobreviveu à enxurrada (Foto: Reprodução UOL)
Pietro, o menino gaúcho que sobreviveu à enxurrada (Foto: Reprodução UOL)

Nesta crise climática e humanitária que vitimou o Rio Grande do Sul, nada me foi mais comovente do que o depoimento de uma criança chamada PIETRO, talvez da idade dos meus filhos (uns 09 a 10 anos). Narrando sua desventura sem qualquer engasgo de choro, contou ele que estava com os seus avós quando a casa desmoronou, tendo sobrevivido porque passou três dias agarrado a uma árvore, salvo da submersão na correnteza pelo avô.

No seu depoimento em vídeo, o vocativo “MEU VÔ” aparece algumas vezes, sempre num ato de heroísmo: saltando de casa para uma árvore; em momentos, da árvore para outra; noutro sustentando a avó, para ela não submergir; em outro, abraçando o neto e resgatando-o por duas vezes, para que o turbilhão da água não o levasse…

Em que pese o esforço hercúleo do “Meu Vô”, diz Pietro que a avó não sobreviveu. Sua história afivelou o meu coração de neto de profunda nostalgia. Todos os meus sentimentos de solidariedade e ternura recaíram sobre estes dois personagens da tragédia: Pietro, pela tristeza da infância roubada, obrigando-lhe a fazer um relato amadurecido da morte; seu Avô, que fez o possível e o impossível para salvar a família.

Fico às vezes absorto pensando sobre a importância dos avós no aperfeiçoamento da sociedade e na educação interna das famílias. Inspiro-me nos meus avós maternos, Raimundo e Idalina.  Nos jardins da minha memória, onde o tempo dança ao ritmo suave das lembranças, reservo um legado de bravura e sacrifício próprio do heroísmo para eles. Foram eles titãs que moldaram o nosso mundo existencial com suas mãos calejadas e corações generosos. Foram eles como faróis na tempestade, guiando-nos através das tormentas da vida com sua sabedoria e experiência.

O heroísmo dos nossos avôs transcende as páginas da vida e se enraíza profundamente em nossos corações.  São feitos anônimos, cujas façanhas passam despercebidas aos olhos até mesmo dos filhos. Meus pais, avôs de 40 netos, ensinaram a eles (aos netos) muito mais do que nós mesmos (os pais).

Queria ter sido uns 5% (cinco por cento) do que os meus pais conseguiram ser em todas as latitudes existenciais: no campo do trabalho, do exemplo, do amor pelos filhos, da profissão, da dedicação aos amigos… Meu pai, um simples campesino, foi mais sábio e professor em vida do que eu, que ostento diplomas inócuos de uma escolaridade obrigatória. Minha mãe, uma costureira, teceu em torno de si uma rede autêntica de valores e moral que jamais alcançaria.

Voltando aos netos, hoje eles não respeitam, nem idolatram, seus avós como eles merecem. A juventude do presente se ressente das orientações e experiencias dos avós, por considerá-los ultrapassados, mas adoram as “filosofias” dos rappers, as frases de efeito dos neurolinguistas, as rimas sem estética dos funkeiros, os bordões idiotas do piseiro. Em favor dos “ídolos” e “heróis” da atualidade, nossos jovens são capazes de enfrentar filas quilométricas e dias de sol e chuva para ter o prazer de visualizá-los por uma hora apenas, com direito até a adoecer ou morrer como aconteceu no Brasil com os fãs de Taylor Swift e Madonna, mas são incapazes de se submeterem a uma espera de uma hora para um cadastro de emprego.

São incapazes de “perder” 30 minutos na semana para um almoço na casa dos avós, ou de irem à farmácia comprar o medicamento deles. Levá-los a um passeio é algo impensável. Mas, é justamente essa juventude da idolatria barata, do heroísmo de fancaria, que por falta de referenciais de dificuldade a qualquer tropeço se quedam em angústias e se dopam em medicamentos. Somos a sociedade do Zolpiden.

Os netos de antanho registram, quase sempre, o papel relevante do avô. Jean Paul Sartre, filósofo e escritor francês, em seu livro autobiográfico “As palavras”, conta que seu avô, plantou no seu coração a semente da vocação de escritor e da descoberta do sentido moral e social do ofício que o transformou em um dos maiores escritores de seu tempo: “Estes aí, menino, foi teu avô que os fez. Que orgulho! Eu era neto de um artesão especializado na confecção de objetos sagrados, tão respeitável quanto um fabricante de órgãos, quanto um alfaiate eclesiástico” (1964, p. 32).

Outro francês famoso, Vitor Hugo, eternizou nos versos A quoi je Songe, o valor da voternidade. Em relatos autobiográficos o colombiano Garcia Marques relembra a amizade singular vivida com o avô em cuja casa viveu sua infância. A literatura nacional tem no relato de Monteiro Lobato, num gesto de profundo respeito e legitimidade da criança, as estórias de uma avó heroína como Dona Benta.

Precisamos ressuscitar o antropocentrismo. Nós somos o que somos graças aos nossos ancestrais. Descendemos de pessoas fortes, que nos deram testemunhos da força do espírito humano. Ao avô de PIETRO, e a ele próprio, as minhas reverências. São eles os heróis desta tragédia. Foram eles que me fizeram lembrar que mesmo nas circunstâncias mais adversas, é possível encontrar esperança e coragem. E repuseram nos jardins da minha lembrança a memória dos meus avós heróis.

Viva ao “VÔ” de Petro. Viva aos avós!

Marcos Araújo é advogado, escritor e professor da Uern

Nau esperança

Por Carlos Santos

Rua Jerônimo Rosado, um marzão que parecia não ter fim, em 1974 (Acervo do Relembrando Mossoró)
Rua Jerônimo Rosado, um marzão que parecia não ter fim, em 1974 (Acervo do Relembrando Mossoró)

Relembro o poeta Gonçalves Dias em “Juca Pirama” para proclamar: “Meninos, eu vi”. Testemunhei duas enchentes épicas em Mossoró. Dois quadros, duas visões.

Em uma delas fui desalojado pela enxurrada; de outra resultou meu alojamento, de forma indireta, numa paixão: o jornalismo.

Vou contar o primeiro caso. Depois, quem sabe, abordo o outro, acontecido em 1985.

Situo-me em 1974. Estou nos arrabaldes do Santuário do Sagrado Coração de Jesus, Centro de Mossoró. Assisto o rio Mossoró banhar lentamente a rua Jerônimo Rosado, escalar as escadarias do adro desse templo e ocupar nossa casa sem resistência.

Sua água barrenta e devastadora produzia cenas incomuns aos meus olhos infantis: homens com calças arregaçadas, outras crianças a nado, caminhões ou simples carroças transportando móveis e picuás da vizinhança.

A chuva incessante que engordou o rio nos empurrou para fora com a força de quem manda, sem pedir licença. Um poder onipotente. Mesmo assim, a água que quase batia à cintura de muitos ali bem em frente, me divertia, sem que eu soubesse medir os estragos ou pressentir os desdobramentos da cheia.

Sapos apareciam aos montes, como se fora reprodução de uma das dez pragas do Egito. Multiplicavam-se aos milhares, fazendo do enorme quintal uma Normandia no Dia D, só para anfíbios. Uma cena grotesca que nunca mais vi se repetir.

Canoas e pequenas lanchas navegavam à nossa frente; o rádio ligado noticiava a ampliação territorial do rio Mossoró. Estávamos ilhados, acuados, a cada dia.

O burburinho na rua e o alagamento continuado não me afligiam. A imagem diluviana era acima de tudo encantadora à minha avaliação limitada. Cinematográfica. Estimulava a imaginação cheia de aventuras e super-heróis da TV e quadrinhos.

Ruas, praças e avenidas estavam transformadas num marzão. Uma via só. Fluvial. Quase amazônica.

Só me toquei do pior com a convocação final: “Arrume suas coisas. Amanhã cedinho a gente vai embora”. Partimos para nunca mais voltarmos àquele endereço.

Lá ficou uma parte de minha infância e inocência: a pequena pracinha de seu João Cantídio, nosso Colégio Dom Bosco a tão poucos passos.

Para trás o presépio de Maria de Uriel, miniatura bíblica cheia de vida em todo Natal; a casa acolhedora de dona Fefita e seus netos, todos meus amigos, que vez por outra me convocavam para tumultuar seu sossego.

A padaria de seu Eliseu Costa e dona Julita nunca mais seriam meu endereço de fim de tarde. Seus pães e bolos deliciosos, enrolados com técnica apurada em papel madeira, continuam em meus olhos, olfato e paladar. Memória sensorial.

As confrarias noturnas à calçada, com o tititi do dia, quase sempre vetadas à presença de crianças curiosas, continuam gravadas. As famílias pareciam uma só, sem o temor da violência urbana, sem as aflições psicossociais deste século XXI.

Vários nomes e lugares mantêm-se memorizados, outros se dispersaram com o tempo, mesmo que a imagem deles, ainda turva, pulule até hoje em minha mente.

Vejo o casal Izete-Raílton; Moisés dos Portões, padre Américo Simonetti e suas concorridas missas no Coração de Jesus; o tenente e delegado Clodoaldo Meira aboletado num Jeep aterrorizando quem teimava em jogar bola na área, pronto para picotar a pelota.

A senhora Júlia Menezes absorta; as irmãs Ilná e Alaíde Nascimento; minha “Maura” sempre loquaz, festiva e amante da prosa com Nadir Brasil e tantos amigos e amigas. A professora exemplar Dagmar Filgueira e a serenidade do senhor Trajano Filgueira.

O sítio “Pica-pau” no beiço do rio; o Cine Cid tão perto e a lenda de que em seu subsolo existia uma baleia. Com chuva ou sol, enchente ou não, o barulho que vinha de lá nos fazia acreditar nesse “Moby Dick” subterrâneo. O enredo caberia numa aventura escrita por Herman Melville ou o engenhoso Júlio Verne.

Por aquele pequeno portão gradeado de ferro da casa em que eu morava, de batente alto, soltei meu barquinho tosco, de papel. Vi-o flutuar nas águas por alguns minutos, até que desaparecesse.

Só muito tempo depois descobri que “navegar é preciso”. Minha nau frágil, não tripulada, era também esperança.

Buscava outro porto seguro além-mar.

Carlos Santos é criador e editor do Canal BCS – Blog Carlos Santos

*Texto originalmente publicado nesta página no dia 21 de janeiro de 2011, há mais de 12 anos e dois meses.

*Fotos do acervo do Relembrando Mossoró, de Lindomarcos Faustino, que podem ser ampliadas clicando sobre cada uma.