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Entre a cruz e o credo – uma história para a História

Por Marcos Pinto

Ilustração
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Nos anais da história da escravidão humana sobressaem-se dois tipos. Nos primórdios da colonização e fixação do elemento branco europeu, houve um violento processo de preagem/captura de indígenas, principalmente das nações e etnias que habitavam as solidões vastas e desoladoras dos sertões quase que indevassáveis.

Os violentos e temidos sargentos-mores de entradas valiam-se dos raros conhecedores das veredas indígenas do interior, conhecidos como “práticos do sertão”.

A indiada capturada e vilipendiada em seu habitat natural era conduzida amarrada uns aos outros, em fila indiana. Era o embate, a luta feroz e desigual entre a flecha, a borduna, e o tacape contra a pólvora e o ferroviril/espada dos que compunham a expedição colonizadora, batizada de entradas e bandeiras. O comércio humano era consumado ao chegarem na cidade grande, famintos e maltratados, onde já os esperavam os compradores/mercadores.

Pagava-se o imposto de um quinto sobre o valor total da “mercadoria” cobiçada. Logo descobriu-se que a indiada era avessa e hostil a mão de obra utilizada na cultura canavieira, predominante no século XVI, XVII e XVIII. A escravidão do indígena aconteceu principalmente na extração do pau Brasil.

Os historiadores estimam que, ao longo da história da escravidão no Brasil colonial, foram trazidos cerca de quatro milhões de africanos para pindorama, o que viria a ser o Brasil. O flagelo da escravidão Africana maculou com o sangue derramado durante os açoites as páginas da nossa história.

A Lei Eusébio de Queiroz aprovada em 1850 determinou a proibição definitiva do tráfico negreiro no Brasil. Contudo, continuou violento o comércio humano entre as províncias brasileiras. Prova insofismável está contida na consagrada obra intitulada “Os escravos na história de Mossoró” de autoria dos pesquisadores/historiadores Sebastião Vasconcelos dos Santos e Nancy/Neyza Wanderley de Oliveira.

Na Coleção mossoroense – vol CL XXI, ano 1981, pág 175, encontramos o traslado de uma escritura de compra e venda (ano de 1874) de uma escrava pertencente ao tenente-coronel Luís Manoel Filgueira, rico fazendeiro em Caraúbas-RN, tendo como comprador o estrangeiro Gustavo dos Prazeres Breyner, cujos escravos por ele comprados eram revendidos para os engenhos pernambucanos.

O pior é a constatação de, não raro, os renomados sacerdotes serem donos de escravos, descritos nos inventários e testamentos dos mesmos, vide testamento do padre Faustino Gomes de Oliveira, pernambucano, que durou na Paróquia do Apodi no período de 1813-1856, em cujo documento consta ser dono de 05 escravos muito bem avaliados. (Vide livro “velhos inventários do Oeste Potiguar” – Marcos Antonio Filgueira – pág 88 – coleção mossoroense – série c – volume 740 – ano 1992).

Dentre o vasto martirológio dos cativos africanos, na região Oeste Potiguar, destaca se a dolorosa história da escrava Tereza e seus filhos, objeto de ação de liberdade que tramitou na então Vila do apud ano 1860, termo judiciário da comarca da maioridade (atual Martins-RN). Tenho cópia integral deste triste capítulo da escravidão africana, que, dissecado, daria origem a um dolente filme. A infeliz escrava Tereza teve como curador e advogado o Dr. Joaquim José Mendes Ribeiro.

Esta história tem início com a chegada do padre José Pereira da Ponte ao cais da povoação de Areia Branca-RN, no ano de 1810, ocasião em que ele trazia consigo a escrava Lourença, alforriada pelo padrinho pernambucano. Já desembarcou nomeado para pastorear a Paróquia do Apodi, onde exerceu o ofício durante o período de 1810 a 1813.

Conforme testemunhas inquiridos no processo, a escrava forra (alforriada) era amásia do padre José Pereira da Ponte, supondo-se assim que os filhos de Lourença seriam filhos do padre, que os pôs em escola particular para aprenderem a ler. A partir do ano de 1814 o padre Ponte residiu em São Sebastião de Mossoró durante o período de 10 anos, em companhia de Lourença e seus filhos.

Tempos depois, a Lourença fugiu para um Quilombo, o que irritou profundamente o clérigo, que lançou mão da Carta de liberdade de Lourença e a rasgou, contando com a certeza de que tal carta de alforria nunca fora registrada em cartório competente. Valendo-se desta realidade, pagou a um capitão do mato para resgatá-la, ao que logrou êxito.

O reverendo não cita o Quilombo. Há a possibilidade de ter sido na Serra de Portalegre-RN.

Esta comunidade quilombola situada no cimo da Serra de Portalegre existe até os dias atuais com a denominação toponímica  de comunidade do “Pega”. Em tempos remotos, este Rincão era habitado pelos índios tapuias paiacus oriundos da missão jesuíta instalada na aldeia do Apodi em 10 de Janeiro de 1700.

Como a Serra de Portalegre era lugar ermo e distante, passou a ser coito para escravos fugidos dos seus Senhores, logo houve o entrelaçamento entre negros e índios, consolidando o perfil físico-facial predominando a cor preto escura com cabelos lisos e corredios, o conhecido elemento cafuzo.

Em Apodi, São Sebastião de Mossoró, e Mossoró, era público e notório que o reverendo padre José Pereira da Ponte era homem de má conduta e sem escrúpulo. A alforriada Lourença ganhara sua carta de liberdade pela espontânea generosidade do seu padrinho então residente em Pernambuco. Lourença teve os filhos José, Martinho, e Ana. De Ana nasceu Tereza, que foi mãe de Januário, Tertuliano, Epifânio e Odílio.

Todas as testemunhas ouvidas no processo de Ação de liberdade de Tereza e filhos foram unânimes ao afirmarem que Lourença era livre, e como tal eram livres seus filhos e netos. Que por volta do ano de 1840 o malévolo padre Ponte  convenceu Ana, filha de Thereza a acompanhá-lo montada em seu cavalo, com destino à fazenda São Lourenço, onde residia o tenente José de Góis Nogueira. Lá deixou penhorada a criança Ana por determinada quantia que pedira por empréstimo. A infeliz Lourença ainda tentou alcançar o satânico padre para reaver a sua filha Ana, tendo-o seguido ao longe até a fazenda das Aguilhadas onde parou para descanso.

Para provar que o endiabrado padre Ponte nunca vendera Ana para o tenente José de Góis Nogueira falecido e inventariado no ano de 1857, o curador da infeliz Tereza e seus 4 filhos requereu certidão dos bens constantes no dito inventário, tendo sido expedida a certidão constando que não existia nenhuma escrava de nome Tereza e seus filhos como pertencentes ao finado inventariado.

Prova cabal de que Tereza nascera liberta por ser filha de Lourença (liberta por carta de alforria) e como também nasceram libertos ditos filhos de Tereza. Nos autos do processo não consta se o truculento padre Ponte era vivo e qual o seu desiderato. Durante os trâmites do processo, a infeliz escrava Tereza e seus filhos foram depositados em dez residências diferentes, sofrendo toda sorte de humilhações discriminatórias, verdadeiros crimes de racismo.

Um padre reprovável

Após conduta eivada de ilicitude no Rio de Janeiro, onde disfarçou-se a tal ponto que chegou a casar-se com moça de família, mas temendo ser descoberto nesta estripulia, o Padre Ponte fugiu para Pernambuco, onde agilizou sua indicação para cura da freguesia eclesiástica das Várzeas do Apodi, dando inicio ao auto isolamento social, decorrente de um afastamento estratégico.

Contudo, não escapou do fato imprevisível do aparecimento na freguesia do Apodi, de um curandeiro apelidado vulgarmente de “o cirurgião de Domingos Alves”, o qual dizia ser baiano e que admirava-se por ouvir falar do Padre Ponte, que no Rio de Janeiro era objeto de opulenta oferta de contos de réis para quem informar o paradeiro do desonesto e truculento sacerdote.

O longo martírio da escrava Lourença e seus filhos e netos teve fim definitivo com a sentença do juiz municipal do termo do Apodi, comarca de Imperatriz (atual Martins-RN), Francisco Luis Correia de Andrade, peça jurídica fantástica que restituiu a liberdade às sofridas escravas, decisão datada de 20 de novembro de 1861. Contudo, já dizia o grande jurista Rui Barbosa: “Justiça tardia não é justiça. É injustiça manifesta.”

Assino embaixo.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

Filhos dos outros…

Por Marcos Araújo

Não costumo escrever na primeira pessoa. Acredito que seja por incompetência ou por discrição. Apenas escritores brilhantes como Faulkner, F. Scott Fitzgerald e Goethe souberam genialmente escrever dessa forma.

Pela minha insignificância, sempre achei presunçoso falar de si próprio. Contudo, fujo da discrição para falar um pouco da minha infância, apenas para contextualizar o artigo de hoje.

Nascido em uma família de nove irmãos, numa casinha de pau a pique situada num bairro periférico que é um limbo geográfico entre as cidades de Pau dos Ferros e Encanto/RN, tive uma infância de maternidade comunitária. Logicamente, uma mãe de nove filhos não tinha tempo – nem meios! – para cuidar zelosamente de cada um, dar conta dos trabalhos domésticos e dos afazeres da profissão de costureira.No dia a dia, as vizinhas terminavam em auxiliar nossa mãe nessa tarefa de cuidar de tantos filhos. Uma  delas, Dona Lindalva, nos nutria de alimentos tanto para o corpo como para a alma. Dividia ela a pequena produção agrícola de subsistência do esposo com a vizinhança, e ainda promovia encontros na sua casa para orações.

Foi a minha primeira educadora religiosa e exemplo de caridade concreta.  Na minha infância, os filhos dos outros eram tratados com zelo. Os pais se sentiam corresponsáveis. Geralmente, quando uma criança ia brincar na casa de outra, a responsabilidade era transferida. Não remanescia preocupação, porque os pais sabiam que seus filhos seriam bem cuidados. Havia um desejo coletivo de aperfeiçoamento moral e de aprendizagem para o bem.

O rigor era imposto também na Escola. Minha professora do primário, dona Bibita, por exemplo, estimulou minha calvície precoce dando alguns “cocorotes” na minha cabeça, colocando a aliança bem na curvatura do dedo anelar para o ponto do impacto, no que causava uma dor indizível.

Fiz esta reflexão recente ao assistir pela televisão, com lágrimas nos olhos, essa tragédia com Miguel, a criança de 05 anos que caiu de um prédio em Recife. Como se viu das filmagens, a criança foi deixada sozinha dentro de um elevador, sob o olhar leniente de uma jovem senhora, apressada e impaciente porque havia deixado a sua manicure esperando.

Por ser a vítima uma criança negra, filha de uma empregada doméstica, e a patroa uma jovem branca, os sociólogos logo identificaram um componente racista. Avocaram Gilberto Freyre e sua obra “Casa Grande e Senzala” para justificar o fato como fruto das relações coloniais do trabalho doméstico. Os historiadores, por seu turno, resgataram a nossa herança escravista. Os movimentos classistas trouxeram o clássico confronto entre capital e trabalho, isto é, entre empregado e patrão, expedindo nota sob a ótica de que “para essa patroa branca, uma criança negra não vale mais que seus cachorros.” A Federação dos Trabalhadores Domésticos classificou a tragédia como “desprezo e coisificação da vida negra”.

Por aqui, estávamos ainda vivendo a ressaca da notícia da morte do ex-segurança George Floyd, em Minneapolis, nos Estados Unidos, asfixiado por um policial branco, gerando protestos e um movimento internacional chamado “black lives matter”.  Nem mesmo a onda de revolta modelada pelos americanos acresceu indignação à morte de Miguel. O máximo que teve foi uma passeata de poucos “gatos pingados” pelas ruas de Recife. E as notas dos conhecidos bravateiros das redes sociais. Ficou só nisso…

O menosprezo nacional ao evento tem tudo a ver com três fatores rapidamente identificados: i) no Brasil, o número elevado de trabalhadores domésticos fez com que muitas patroas e patrões se vissem na possibilidade de acontecer infortunística igual; ii) temos raízes preconceituosas e escravagistas, de tal modo que fomos um dos últimos países do mundo a reconhecer a importância do trabalho doméstico; e, iii) a causa pode ser a intolerância, a impaciência e o desequilíbrio emocional que afloraram com maior intensidade com a pandemia.

Embora a nossa Constituição seja de 1988, somente 25 anos depois, isto é, em 2013, corrigindo uma injustiça histórica e com vergonhoso atraso é que o Congresso Nacional aprovou a Emenda Constitucional nº 72, que equiparou os direitos trabalhistas dos empregados domésticos aos demais trabalhadores. Sem querer trazer qualquer viés político, o Presidente da República atual, na qualidade de Deputado Federal à época, votou contra a PEC.

Muitos defendiam na época da tramitação da PEC que o reconhecimento de direitos trabalhistas integrais aos trabalhadores domésticos iria gerar desemprego e, portanto, lhes seria prejudicial. Coincidentemente, o mesmo argumento dos senhores de escravos no século XIX, que diziam que a Lei Áurea era prejudicial aos negros, pois eles ficariam sem trabalho…

O viajante inglês John Luccock, em Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil, que escreveu sobre sua estada por aqui entre 1808 e 1818, revela todo o seu estranhamento ao constatar que os moradores brancos do Rio se recusavam a fazer os mais simplórios esforços em público – como carregar malas ou ferramentas – uma vez que aquele tipo de “trabalho” era destinado aos escravos e, portanto, deveria ser considerado indigno de um homem livre.

A história registra que após o advento da Lei Áurea, muitos ex-escravos permaneceram trabalhando para seus antigos senhores, em especial os que lidavam nos afazeres domésticos, como mucamas, cozinheiras e babás, sem receber um salário, pois permaneciam junto a seus antigos donos em troca de abrigo e comida.

Não se pode divorciar a escravidão da nossa vida presente, nem a discriminação racial nas relações de trabalho contemporâneas quando vemos o elevado percentual de negros e negras como domésticos.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) mostram que o trabalho doméstico no Brasil tem gênero, cor e idade bem definidos: mulheres negras ou pardas, entre 30 e 50 anos. E, para elas são dispensadas “dependências de empregadas” em luxuosos apartamentos; “elevadores de serviço” dos condomínios de alto padrão; a subcategorização profissional sob achaques absurdos como as declarações dadas pelo ministro Paulo Guedes sobre o que seria a absurda “festa” de domésticas viajando para a Disney.

Por fim, essa pandemia tem acentuado as nossas intolerâncias, impaciências e a falta de inteligência emocional. Ao invés de aperfeiçoar a humanidade e elevar o espírito, um dos efeitos inversos  sentidos no presente é o declínio da fé, a preservação da individualidade, o aumento do ceticismo, a desesperança e o afloramento das doenças mentais.

Proporcionalmente, há mais gente afetada por doenças mentais do que infectados do coronavírus.

Se vivemos em “sociedade”, devemos recordar que o radical etimológico traz a significação de “sócio na metade”. Somos sócios na metade do outro. Seres interdependentes e correlacionais, criam os filhos uns dos outros. Os filhos dos outros são também meus filhos. Deveria ser assim.

A Miguel, nossa prece, e a certeza de que está em bom lugar, no colo de Deus, acalentado por Nossa Senhora. Como nos conta o evangelista Mateus, de certa feita, estando entre os seus discípulos, disse Jesus: “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”. (Mt 19,14).

Marcos Araújo é professor e advogado

Resultado do Pelourinho

Sérgio Camargo: polêmica (Foto:Web)

Por François Silvestre

O sujeito nomeado para a Fundação Palmares – Sérgio Camargo (veja polêmica AQUI) – disse que a escravidão foi uma coisa triste, só isso, triste, mas foi muito boa para os descendentes africanos nascidos no Brasil. “Nós somos mais felizes do que nossos irmãos filhos de livres na África”.

Tá qui pariu.

Isto é, “se meu bisavô foi torturado e minha bisavó foi amarrada nua no pelourinho, surrada com cipó de boi na presença do meu avô adolescente, foi triste.

Mas eu vivo melhor do que se tivesse nascido na África”.

Sacaram?

Que os avós e bisavós tenham se fodido é apenas triste, mas o resultado foi bom.

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A sofrida vida de uma ministra sob escravidão

Luislinda: quanto sofrimento (Foto: O Estado de MG)

A ministra dos Direitos Humanos, Luislinda Valois (PSDB), andou choramingando esta semana na imprensa, por receber pouco mais de R$ 33,7 mi no cargo. Afirmou que se sentia uma “escrava”, com tão parcos recursos.

Ela queria receber integralmente o salário de ministra e o de desembargadora aposentada, um total de R$ 61,4 mil, quase o dobro do teto da remuneração do funcionalismo: R$ 33,7 mil.

Teto

Pediu formalmente ao governo para acumular, acima do teto do funcionalismo, os salários de ministra e de desembargadora aposentada, o que daria um valor mensal de mais de R$ 61 mil.

Para justificar o pedido, a ministra chegou a comparar a situação dela ao trabalho escravo. Mas, diante da repercussão negativa, desistiu.

Nota do Blog – Essa elite não se emenda mesmo.

Topo esse “trabalho escravo” por bem menos e aceito até ficar meia hora de sol no Pelourinho todo dia.

Vaza!

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“Discurso sobre a servidão voluntária”, por La Boétie

Por Honório de Medeiros

Honório de MedeirosLeiam isso: “Aqueles a quem o povo deu o poder deveriam ser mais suportáveis; e sê-lo-iam, a meu ver, se, desde o momento em se vêem colocados em altos postos e tomando o gosto à chamada grandeza, não decidissem ocupa-lo para todo o sempre. O que geralmente acontece é tudo fazerem para transmitirem aos filhos o poder que o povo lhes concedeu. Ora, tão depressa tomam essa decisão, por estranho que pareçam, ultrapassam em vício e até em crueldade os outros tiranos; para conservarem a nova tirania, não acham melhor meio que aumentar a servidão, afastando tanto dos súditos a idéia de liberdade que estes, tendo embora a memória fresca, começam a esquecer-se dela”.

E isso: “Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, (…) as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, o preço da liberdade que perdiam, as ferramentas da tirania”.

Parece recente? Não o é.

Trata-se, tanto um quanto o outro, de excertos da excepcional obra “Discurso Sobre a Servidão Voluntária”, de La Boétie, escrita entre 1546-1548.

Esse francês,  nascido em 1º de novembro de 1530, no condado de Périgord, França, e morto em 1563, perto de Bordéus, aos trinta e três anos, foi o maior dos amigos de Montaigne, que lhe era mais novo dois anos. Dessa amizade o próprio Montaigne deixou registro emocionante: “Vindo a durar tão pouco e tendo começado tão tarde, pois éramos ambos homens feitos e ele mais velho do que eu alguns anos, não tínhamos tempo a perder, nem tivemos de nos ater aos modelos de amizade moles e regulares que necessitam de precauções e conversações prévias”.

Quanto à genialidade de La Boétie é bastante o depoimento do seu tradutor, o português Manuel João Gomes na edição Antígona, de Lisboa, Portugal, 1997: “Para La Boétie é ilegítimo o poder que um só homem exerce sobre os outros; (…) O Discurso afirma a liberdade e a igualdade absolutas de todos os homens; Indo mais longe do que Maquiavel (o primeiro que reconheceu o poder efetivo das massas), La Boétie incita os povos a desobedecerem aos príncipes (governantes) e, com uma clareza até então nunca vista, põe em evidência a força da opinião pública”.

Tudo isso aos dezoito anos de idade! Ler La Boétie é, principalmente, perceber quão antiga permanece a luta do homem para não ser completamente subjugado pelo Estado.

Ela começou na longínqua Idade Antiga, quando os maravilhosos gregos inventaram a Democracia. Prossegue até hoje, apesar dos percalços. Mas está cada dia mais difícil: no Oriente Médio disputa-se o poder à custa do sangue de inocentes. Israel, secundado pelos Estados Unidos e sua doutrina da “guerra preventiva”, mata, como os nazistas faziam aos serem atacados pela resistência, a dez por um.

E assim vamos marchando rumo à barbárie, inexoravelmente, e à tirania, sob o pretexto de combater o terrorismo, como quem está com um encontro marcado com o final de tudo.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário de Estado e da Prefeitura do Natal.