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OAB (Para Francisco Nunes e Ésio Costa)

Por François Silvestre

Aos dois dedico este texto.

Tenho duas carteiras de inscrição na OAB. Uma na OAB de São Paulo. Outra na OAB do Rio Grande do Norte. Explico.Quando o advogado era inscrito numa seção e precisava transferir a inscrição, tinha de devolver a carteira da inscrição originária.

Minha inscrição na OAB de São Paulo deu-se num período em que eu militava no Fórum Clóvis Beviláqua, penal, e no Fórum João Mendes, cível. Após período de clandestinidade na Capital paulistana. Misturava advocacia com jornalismo.

No dia da minha inscrição, o Secretário da OAB/SP era Márcio Thomaz Bastos, que assinou minha carteira. Assinaram a folha de endosso, por exigência legal, dois advogados. Lívio de Souza MeloGeraldo Pedroza de Araujo Dias. Sabe quem é o último? Geraldo Vandré, Que era inscrito na Ordem.

E foi um problema. Quando o secretário Thomaz Bastos leu o termo de abertura, num auditório da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e  disse “o presidente da República Federativa do Brasil”, Vandré interrompeu e perguntou: “Quem é o presidente da República Federativa do Brasil”?

Thomaz Bastos, constrangido, respondeu baixinho: Geisel.

Vandré disse, “não ouvi”. E Thomaz Bastos respondeu quase gritando: “Geisel”. Vandré levantou-se e disse “vou procurar a república dos estados unidos do Brasil”. E foi embora.

A plateia ficou olhando pra mim, e eu sem saber onde meter a cara. Encontramo-nos depois e foi discussão feia, no mesmo dia, num bar alemão da Martinho Prado.

O auditório estava lotado e eu fiquei com cara de tacho. Mas, quero contar o porquê de possuir ainda hoje essa carteira.

Não querendo devolver esse documento tão importante para mim, perguntei a Roberto Furtado, presidente da OAB/RN na época, o que fazer. Ele me orientou, dizendo que eu informasse no pedido de transferência de inscrição que a carteira havia sido extraviada. Fiz isso.

Menti e tenho as duas carteiras. Das quais me orgulho, sem participar de nada na vida administrativa da Ordem. Nunca disputei cargo nenhum. Nem de suplente.

Mas guardo orgulho da Ordem dos Advogados do Brasil. Como está posto na minha carteira de São Paulo: Advogado, preserve suas prerrogativas.

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Relatos de campanha

Por François Silvestre

A campanha político-eleitoral de 1986 teve como núcleo principal a formação do congresso que exerceria o papel de constituinte.

Participei ativamente da campanha que elegeu Ismael Wanderley, cuja participação naquele parlamento teve o reconhecimento da sociedade, atestado por jornalistas e entidades de representação social.

Relembro a participação de Honório de Medeiros, Ricardo Pinto, Ésio Costa, Inamar Torres, Silvestre Júnior, Dilza Pacheco, Campanholi e muitos outros. Eu e Campanholi cuidávamos dos textos, discursos, entrevistas e emendas à sistematização da nova Constituição.

Há um número incontável de emendas com a iniciativa ou participação ativa de Ismael Wanderley. Vou falar de duas dessas participações. O terço de férias, que hoje parece ter sido pacífico, não foi.

Quando percebemos que um lobby das federações de indústrias e comércio queriam descartar a emenda, Ismael apresenta uma emenda pesada, que dava não um terço de férias, mas um salário completo.

Aí, o bicho pegou. Os lobbystas se assustaram porque a emenda do salário completo estava ganhando espaço e assinaturas. Recuaram e tiveram de engolir o terço da emenda anterior, também de Ismael. Foi uma jogada vitoriosa.

Outra foi o caso Fernando Noronha. Um grupo influente da constituinte decidiu acabar com a autonomia governamental daquele arquipélago. Ismael participou ativamente dessa articulação. Pernambuco e Rio Grande do Norte eram os principais interessados nesse desfecho.

A primeira votação foi relativamente fácil. Fernando de Noronha perdeu a autonomia governamental. A segunda foi batalha. Pernambuco apresentou emenda reivindicando a posse do arquipélago. Ismael apresentou emenda reivindicando a posse para o Rio Grande do Norte.

A grande surpresa foi a votação, mesmo minoritária, que teve o Rio Grande do Norte. Perdemos, mas assustamos Pernambuco. Fernando Lira parabenizou publicamente Ismael pelo trabalho de aliciamento e pela votação surpreendente.

Toda campanha tem espetáculo, num ou noutro sentido. Chegamos para fazer um comício em Governador Dix-Sept Rosado; Ismael, eu, Ricardo Pinto e Silvestre. Ismael era candidato a deputado federal e eu a estadual.

Um vereador da cidade, Pompeu, admirador meu do movimento estudantil me apoiou e estendeu o apoio a Ismael. Era um produtor e comerciante de gesso. Figuraço.

Carro de som, na praça cheia. Não pelo comício, mas por falta de alternativa. Ricardo Pinto fazendo a locução. Aparece um senhor e pede para que deixemos seu filho abrir o comício. “Ele fala como ninguém”. Pompeu discordou, dizendo que era uma manifestação rápida.

Mas eu aceitei e Ismael também. Pompeu balançou a cabeça. Aí Ricardo anuncia a figura. “Vai falar fulano, aqui da terra, dando seu apoio a nossa luta”. O orador era um recém-formado. Com um enorme anel no dedo.

E ele começa. E fala besteiras que nada tinha a ver com eleição. E tome conversa furada, com erros de português e histórias da vida dele.

Ficamos vendo a praça rindo.

Pompeu aproxima-se por trás dele e diz com autoridade: “Fale dos candidatos”. Ele interrompe o que dizia sobre seu primeiro namoro, olha para o céu e continua. “Pois é, vou falar dos canidatos”. Assim mesmo, com “ni”.

Virou-se pra mim e disse: “Aqui desse lado está o canidato…como é mesmo? seu Francimá Silvêra. E desse outro lado está o candidato… se me lembro,  seu Wanderleys Marizes”.

Ismael, perto dele, falou alto: “Ricardo, tome o microfone desse fela da puta”.

A fala de Ismael saiu clara no carro de som. A praça caiu numa gargalhada, virou um espetáculo burlesco. Pompeu dizia: “eu avisei”.

O pai do orador aproximou-se de mim e comentou: “Lá em casa tudim fala bem, mas esse é o qui fala mió”.

Desse tempo pra hoje, a preguiça do tumulto esculpiu-me solitário. Mesmo assim, ainda de longe admiro a multidão.

mais.

François Silvestre é escritor