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O professor e o flanelinha

Por Marcos Mairton

Quando ingressei no Curso de Direito da Universidade de Fortaleza, em 1986, estava com vinte anos de idade, mas já trabalhava no Banco do Nordeste. Um bom emprego, que me permitia pagar com tranquilidade as mensalidades do curso, além de assistir às aulas sem o estresse de quem ainda busca uma vaga no mercado de trabalho.

O curso era noturno. Lembro que, no primeiro dia de aula, cheguei quando o sol ainda nem havia acabado de se por e deixei o carro no estacionamento externo do campus. Naquela época, não havia muita preocupação com assaltos ou furtos.

(Foto: Iago Ribeiro)
(Foto: Iago Ribeiro)

Um rapazinho de uns quatorze anos, que estava por ali, com uma flanela no ombro, prontificou-se a cuidar do carro até que eu voltasse:

– Posso ficar “pastorando” aí, Louro? – perguntou.

Pastorar” é um verbo que no idioma cearês significa “cuidar de uma coisa alheia, sem tocar nela; manter sob vigilância”. A palavra consta dos dicionários de língua portuguesa como sinônimo de “pastorear”, que vem a ser a atividade do pastor ao cuidar do rebanho. O sentido é praticamente o mesmo.

“Louro” é uma das muitas maneiras de se tratar alguém cujo nome se desconhece.

– Pode! – respondi, de pronto, imaginando que ele pretendia receber alguma paga pelo serviço de vigilância, mas tendo certa dúvida se um jovenzinho daquela idade estaria a postos quando eu retornasse, lá pelas dez da noite.

E fui para minha aula. Quando retornei ao estacionamento, ao final, lá estava ele. Não pediu nada. Seu cumprimento – “Diz aí, Louro!” – foi o sinal para que eu lhe desse algum dinheiro.

A partir daquele dia, deixava costumeiramente o carro naquela área do estacionamento, sob os cuidados do jovem que passei também a chamar de “Louro” – o que fazia até mais sentido, porque, diferentemente de mim, ele tinha os cabelos loiros.

Foi assim durante todo o meu curso de Direito. Estacionava, cumprimentava o Louro e ia assistir às aulas. Ao voltar, encontrava-o esperando o pagamento, ou, o “trocado”, como ele preferia chamar.

Mas nem sempre ficava nisso. Várias vezes dei-lhe camisas e sapatos, em bom estado de conservação, que não mais usava. Era quase uma amizade. Não chegava a tanto, porque a conversa nunca passou de “Diz aí, Louro!”“Beleza, Louro!” e coisas assim. Logo, nunca fiquei sabendo onde o Louro morava, nem quem seria sua família, se é que tinha família e casa. Tampouco ele mostrava interesse na minha vida pessoal.

A par disso, recordo que muitas vezes cheguei a me questionar sobre o rumo que toma a vida de uma pessoa, conforme ela tenha oportunidade de estudar. E conforme faça uso dessa oportunidade.

Imaginei que o Louro, apenas uns cinco anos mais jovem que eu, deveria ter nascido em uma casa não muito mais pobre que a minha, na periferia de Fortaleza. Talvez tenha frequentado os primeiros anos do ensino fundamental em uma escola pública, como eu. Mas, em algum momento da vida, perdeu o interesse pelos estudos ou a condição de lhes dar sequência. É possível – talvez provável – que tenha sido incentivado pelos próprios pais a deixar o colégio, para contribuir com a renda da família. O contrário do que acontecera comigo, sempre estimulado a buscar nos estudos o caminho para melhorar de vida.

Independentemente dessas conjecturas, o fato é que, durante alguns anos, frequentamos a mesma universidade. Eu assistindo às aulas, ele “pastorando” meu carro. E, ao final daquele período, eu iria receber meu diploma de bacharel em Direito, enquanto ele continuaria sendo um “pastorador” carros, um “flanelinha”.

Passou o tempo. De bacharel em Direito, fiz o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e tornei-me advogado; comecei a advogar no escritório de um amigo, e depois, no próprio departamento jurídico do banco onde trabalhava; entrei para o Mestrado em Direito Público da Universidade Federal do Ceará; passei em concurso para Procurador do Banco Central do Brasil; e concluí o mestrado.

Em 1999, já com o título de mestre, voltei à Universidade de Fortaleza, agora como professor do Curso de Direito, do qual fora aluno.

As aulas começavam às sete da noite, mas, no meu primeiro dia, cheguei à UNIFOR um pouco antes de anoitecer. Talvez por nostalgia, abri mão do estacionamento dos professores e deixei o carro na mesma área onde estacionava quando aluno.

Mal acabava de desembarcar, quando ouvi uma voz:

– Diz aí, Louro!

– Fala, Louro! – respondi com entusiasmo. – Tu ainda tá por aqui?

– Todo dia!

– Vai “pastorar” o meu?

– Claro!

– Tô de novo na área – falei sorrindo. – Mas agora como professor.

– É isso aí! Fez bonito! O senhor sabe que o estacionamento de professor é lá dentro, né? Mas, se quiser deixar aí, ninguém “bole”, não.

Bole” é a terceira pessoa do singular do verbo “bulir”, que tem muitos significados na língua portuguesa. No idioma cearês é sempre utilizado no sentido de “tocar ou mexer em alguma coisa”.

Mas a palavra usada por ele que me chamou mais a atenção foi “senhor”. Era a primeira vez que se dirigia a mim daquela maneira. Certamente por respeito à minha, agora, condição de professor, demonstrando que, apesar de continuar frequentando a universidade apenas para vigiar os carros, reconhecia o valor dos que se dedicam ao ensino.

Iniciava-se, assim, mais um período de vários anos em que frequentei a Universidade de Fortaleza. Todas as noites, de segunda a sexta-feira. Raramente via o Louro, porque, como ele mesmo havia me alertado, o estacionamento dos professores ficava do lado de dentro do campus.

Nessa mesma época, fiz outros concursos. Fui advogado da União, depois tornei-me juiz federal. Deixei de ensinar em 2005, quando me afastei de Fortaleza, para assumir a primeira vara federal de Juazeiro do Norte. Dali, passei por Mossoró, Sobral e Quixadá. Até retornar a Fortaleza, em 2012.

Não voltei mais a ensinar, mas alguns anos depois do retorno a Fortaleza, fui convidado a dar uma palestra em um seminário na Unifor.

Um carro da universidade foi me buscar no fórum. Terminada a palestra, caminhei até a área externa, onde minha mulher me esperava em nosso carro. Passando pelo local onde costumava estacionar, lembrei dos tempos de aluno do curso de Direito.

O relógio marcava vinte e duas horas e mais um punhado de minutos. Alguns estudantes transitavam por ali, andando apressados em direção ao ponto de ônibus ou ao local onde haviam estacionado seus carros. Formava-se um engarrafamento na avenida que passa em frente à universidade. Alheio a todo aquele movimento, um homem de cabelos grisalhos estava sentado no meio-fio, demonstrando cansaço. Os braços apoiados nos joelhos, a testa apoiada nos antebraços.

No instante em que eu passava por ali, ele ergueu a cabeça e falou sorrindo:

– Diz aí, professor!

Era o Louro.

Marcos Mairton da Silva é poeta, escritor, compositor e juiz federal

Faltam moral e pulso forte ao trânsito de Mossoró

Os problemas do trânsito de Mossoró (veja postagem abaixo) devem ser tratados de forma sistêmica. O Blog Carlos Santos – há anos apresentou ideias relacionadas ao tema, como forma de contribuição à prefeitura, mostrando que é possível se atenuar a algazarra e desorganização do setor.

O que falta é decisão política, pulso forte e moral institucional. Inexiste a priorização do público, visto que é soterrada pelos interesses eleitoreiros e de grupos.

Concessões de táxi distribuídas como moeda politiqueira, miopia diante da pulverização de mototáxis (incluindo os clandestinos), falta de estrutura e disciplina para coletivos urbanos, balbúrdia na circulação de cerca de 5 mil veículos alternativos de outros municípios, escassez de estacionamentos e ditadura dos flanelinhas compõem parte do sistema gangrenado há décadas.

Flanelinha faz ameaça de morte, diz webleitor

Veja este e-mail que o Blog recebeu há poucos minutos, de um webleitor, de Mossoró:

Caro Carlos Santos,

Aacabei de chegar da Praça da Convivência”, onde fui moralmente agredido por um flanelinha que ainda me ameaçou de morte, dizendo que tinha anotado a placa da minha moto.

Sinto-me super-humilhado diante dessa situação, em saber que numa praça tão nobre daquela aconteça isso, onde os flanelinhas são donos dos estacionamentos e ainda agridem às pessoas.

Procurei me informar na direção da praça e me falaram que ele já é acostumado a fazer isso com as pessoas, que anda armado e que ninguém e nem a polícia fazem nada!

Isso é um descaso.

Falaram-me que ele é conhecido como “Caraúbas”.

Amanhã estarei fazendo um BO, pois não quero correr o risco de ser pego por ele.

No momento chamei a policia e eles não vieram.

Por favor me ajude divulgando esse descaso Isso é um horror!!

Carlindo Emanoel – Webleitor

Flanelinhas intimidam no centro de Mossoró

Carlos Santos

Na sexta-feira (9/12/11), estacionei meu carro na recente praça inaugurada denominada ‘Codó’. Uma praça muito bonita diga-se de passagem. Quando resolvi meus afazeres no centro de nossa urbe, fui abordado por um “flanelinha”. Ele me pediu um trocado. Infelizmente eu estava sem nenhum dinheiro naquele momento.

O rapaz, que aparentemente estava sob o efeito de algum entorpecente ou sabe-se lá o que, me fez ameaças, e informou que o meu fim estaria próximo. Não levei a pseudo-ameaça do “atleta” a sério, até mesmo porque se o fizesse, teria chamado a polícia para resolver este impasse, mas a Prefeitura de Mossoró deveria ficar mais atenta a estas pessoas que realizam este tipo de serviço.

Acredito que se fosse uma mulher, o atendimento não seria nesta intensidade.

Ademais, note-se que nesta praça existe um serviço público de informações turísticas! Salvo engano, existiu inclusive um projeto na Assembléia Legislativa para regulamentar esta atividade, e não sei a fim que teve. E esta praça é vizinha ao Ministério Público!

Atentai, atentai, como já dizia o Ilustre Mão Santa…

Abraços fraternos,

Diego Tobias é webleitor, advogado e professor