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Deus@acordamundo.com

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Tem doença que é melhor a gente nunca se tratar: e o amor é uma delas (Ferida que dói e não se sente; descontentamento descontente; dor que desatina sem doer)… Outra doença que agora eu nunca mais vou querer me tratar é a obsessão por horário.

Eu não consigo chegar atrasado a um compromisso! Mesmo sabendo que as pessoas só chegarão duas horas depois do horário marcado, eu não consigo, eu não consigo… E foi essa minha obsessão por pontualidade que me levou a escrever este artigo.

Tudo começou quando fui convidado para fazer uma palestra de abertura em um evento científico. Cheguei, antes do horário – e como tive que esperar bastante para iniciar a palestra:

“Dá pra ser feliz no trabalho?”-, apareceu à oportunidade de conhecer o professor João Bosco Filho, doutor e enfermeiro. Conversamos sobre vários assuntos até que João me falou da sua tese: “As lições do vivo”. Foi aí que conheci uma pessoa incrível, Chico Lucas: homem do campo, que vive na comunidade de Areia Branca Piató. Um verdadeiro DOUTOR da vida!

E Chico disse a João, e este disse a mim: “Deus manda e-mails todos os dias para nós, mas o danado é que a nossa cegueira não consegue enxergar e ler essas mensagens!”… Caramba! Fui dar a palestra, mas aquilo não saía da minha cabeça: Deus, e-mails, cegueira… ora, é claro que Chico Lucas tem razão!

Afinal, Deus nos fez cego (lembram-se de Saramago: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”?) e aí com “remorso”, querendo corrigir o nosso defeito de fábrica, se utiliza agora destas mensagens para nos fazer acordar, enxergar e reparar os desmantelos do mundo…

Cheguei em casa e fui pegar o livro o “Absurdo e a graça” do filósofo Frances, Jean-Yves Leloup, Pois eu desconfiava que ali, encontraria um email de Deus:

“Nessa noite, com obstinação e desespero, pensei ter procurado minha mochila em todas as latas de lixo da cidade, cerca de cinco horas da manhã, encontrei-me esgotado, em um bar de pescadores, perto da Criée, cais de Rive-Neuve. Desabei em um canto, a cabeça entre os braços, a soluçar como criança. Quando me acalmei, um garçom veio trazer-me um chocolate quente e dois croissants. Disse-lhe que não tinha pedido nada e que não tinha dinheiro. Ele respondeu-me que a senhora tinha pago. ‘Quem?’, perguntei. ‘ah! ela já saiu’… Um chocolate quente e dois croissants: creio que ali fiz minha primeira comunhão. Minhas lágrimas não eram mais as mesmas, eu sentia fundir em mim algo de infinitamente duro, e pela primeira vez, senti o que queria dizer ‘ter um coração’… não gosto nem de chocolate quente nem de croissants, mas não eram mais eles, era a presença real de um ser que é AMOR… Saberá um dia, essa desconhecida, que naquela manhã ela fez sair um condenado de seu inferno?… Sem muito compreender, havia recebido a comunhão e de vagabundo tornei-me um peregrino”…

Pois é caro leitor: Deus manda e-mails sim! E não pense que é só para o exterior não! Até porque como lembra Tolstoi em seu livro: “O reino de Deus está em vós”. Pois, Deus está dentro de cada um de nós… Veja então, um e-mail que Ele mandou para um conterrâneo nosso, o escritor Thiago Gonzaga:

“Sou filho de pais analfabetos. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos de idade, minha mãe, empregada doméstica, ficou tomando conta da casa e dos três filhos pequenos. Nunca fomos incentivados a estudar, por pura falta de informação da nossa mãe, que achava, que, o nosso destino era aquele mesmo, de vida pobre e sem ‘visão’, nenhuma de futuro. Fato tão evidente, que, atualmente eu sou único graduado da família. Com a morte do meu pai, eu tive que começar a trabalhar muito novo, e consequentemente largar meus estudos, que pararam no início da terceira serie; deixei de estudar, quando começava a aprender a ler e escrever. Passei quase vinte anos da minha vida, como semianalfabet o, vivendo de ‘bicos’ e subempregos, em oficinas, construções e supermercados. Certo dia, já adulto por volta de 2002, eu procurava emprego nas ruas da cidade, e achei um jornal velho, que me chamou atenção por causa de uma foto, com uma mulher que achei bonita; era Clotilde Tavares. Levei o jornal pra casa, pois queria muito saber o que aquela mulher, com quem eu tinha simpatizado, escrevia. Eu não consegui ler de imediato o texto, passaram-se quase dez dias para compreender um pouco do que ela dizia. Na crônica, ela citava vários nomes e livros de autores potiguares que ela tinha lido e gostado, como Câmara Cascudo, Marize Castro e Luís Carlos Guimarães. Fiquei muito curioso para saber o que esse pessoal escrevia. Na mesma ocasião, minha mãe fazia faxina em um apartamento, e a patroa dela deu alguns livros para ela levar para casa, como incentivo para os filhos lerem; dentre esses livros, vieram alguns potiguares. A lit eratura potiguar abriu minha mente para outras coisas, e comecei a ler de tudo que chegava ás minhas mãos, literatura, filosofia, direito, os clássicos. Depois de ter formado uma pequena biblioteca, decidi que era tempo de voltar a estudar e recuperar o tempo perdido. Em 2004 fiz supletivo de 1º grau. Em 2005 comecei o supletivo de 2º grau (eu estava com 25 anos). Nessa época, a Prefeitura de Natal abriu concurso para Gari, e me inscrevi, como não tinha ainda emprego fixo, nem profissão, pois queria garantir uma estabilidade financeira pra poder comprar meus livros. Comparado a tudo que eu já tinha passado: ser gari era ‘lucro’ pra mim. Continuei comprando e lendo muitos livros, cheguei a ler 135 livros em um ano nesse período. Em 2007, fiz o Enem e ganhei uma bolsa do PROUNI para fazer Letras na UNP; entrei no inicio de 2008. Dediquei-me de corpo e alma ao curso. Quando paguei a disciplina de literatura do RN, a professora Conceição Flores percebeu que eu tinha muita afinidade com a literatura local e me incentivou muito a continuar lendo e estudando, (detalhe: ela não sabia da minha historia e eu não contei pra ela, nem pra ninguém da UNP) os professores só ficaram sabendo no final do curso quando saiu uma matéria comigo no jornal, com o titulo: “O GARI QUE VÊ COMO MISSÃO DIVULGAR A LITERATURA POTIGUAR”.

Bem caro leitor, realmente os emails estão aí, por toda parte: chocolate quente, croissants, pedaços de jornais velhos, etc. etc. enfim, só resta tentar agora enxergar cada uma dessas mensagens!

Acorda mundo! Acorda mundo!

Francisco Edilson leite Pinto Junior– Professor, médico e escritor.

Comunicado de Falecimento

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Comunico que estou morrendo! E agradeço a Deus que o meu fim se aproxima… Aliás, isso já deveria ter acontecido há tempos. Uma vez que eu já causei mais sofrimento na história da humanidade do que as duas grandes guerras juntas, mais do que todas as catástrofes naturais – tsunamis, desabamentos, incêndios, peste bubônica, etc. etc-, acontecidas até hoje…

Assim, a minha morte será um alívio! A minha morte será uma benção! Por isso que eu sempre acreditei (e como é difícil ter consciência da sua própria miséria) que eu já deveria ter sido condenado a morte… Aliás, eu deveria ter sido um natimorto!

Não! Por favor, não me entendam como um defensor da cadeira elétrica, do paredão das ditaduras, do aborto, etc. etc. Longe de mim isso! Mas vocês hão de convir de que a minha morte só causará benefício. Por isso, vejo até que, mesmo antes do meu caixão descer ao túmulo, haverá um delírio coletivo! (e nem sei se vou ter direito a ser enterrado, pois vai que alguém resolva me recriar, pegar os meus restos mortais, meus genes e fazer vários clones meus… Ave Maria, só de pensar nisso me causa até um calafrio!).

A felicidade será tão grande que todas as pessoas sairão às ruas, se abraçarão umas as outras – ora chorando, ora sorrindo-, e tudo isso apenas por causa da minha morte. Soube até que no Brasil, onde “o brasileiro é um feriado”, será decretado 180 (ou 360? Agora fiquei em duvida!) dias de folia.

A festa do carnaval, nem de longe, se comparará com as comemorações pela minha morte… Ah! Mas nem isso causará inveja aos carnavalescos, pois tenho certeza que todas as escolas de samba farão seus desfiles com um único enredo: “A morte da prova escrita!”.

Pois é, tenho ou não razão de me achar abominável?! Sou a PROVA ESCRITA, com direito as múltiplas escolhas, menos para os alunos: “Ou acerta ou não passa!”; Sou, muitas vezes, uma forma de ameaça: “Vai cair na prova!”; Sou o mecanismo utilizado agora para avaliar se uma universidade presta ou não, pode?!…

Sou apenas páginas em branco, onde muitos professores, já cansados, acomodados e sem criatividade, colocam um monte de perguntas e, na maioria das vezes, com um único objetivo: avaliar a memória do pobre do aluno. Por isso eu suplico: procurem outra forma de avaliação… Procurem!

Ah! Quantas árvores não foram gastas por ano, por país, por escola, para testarem algo que Pavlov e Skinner já descobriram em seus laboratórios de experimentação, o reflexo condicionado. Pois não venham me dizer que – colocando quatro alternativas para o aluno decidir qual delas está correta-, vocês estão avaliando algo além da memória. E aí eu lhes pergunto (sem colocar nenhuma das alternativas estão corretas, como possibilidade de resposta, para vocês assinalarem): onde fica a avaliação da sensibilidade, do amor, das paixões, dos afetos, dos sonhos, do que há de verdadeiramente humano e tão necessário para formação de um profissional?!

Por isso, concordo e assino embaixo, do que escreveu Saint-Exupéry, no seu livro “Terra dos homens”: “O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio… o que me atormenta é MOZART assassinado, um pouco, em cada um desses homens”… Pois é!

Através de mim – A prova escrita, vocês, caros professores, estão dificultando, ou até mesmo evitando, a formação de várias gerações de Mozart, e o que é pior: nem se dão conta disso! E depois não adianta ficarem cobrando humanização dos pobres e sofridos alunos, que passam noites e noites decorando leis, fórmul as, cálculos, efeitos colaterais das drogas… Ah! E eu nem posso me lamentar, como fez o poeta Álvaro de Campos, uma das entidades de Fernando Pessoa: “Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim”, pois nem desejo eu tenho, a não ser a minha própria morte…

Certa vez, entrei no Google, para saber quem me inventou e não consegui nenhuma resposta. Sou tão miserável que ninguém quer assumir a minha paternidade. Quem me gerou; quem fez meu parto; quem me criou; quem me alimentou; quem se serviu de mim para esconder as suas fragilidades e suas deficiências, seus medos e sua sede de poder, deveriam também ter um julgamento tão cruel como eu estou fazendo agora de mim mesmo, pois vocês são os verdadeiros culpados pela imagem abominável que carrego em minhas costas. E se Atlas foi obrigado pelos deuses a sustentar os céus para sempre, eu sou um Atlas obrigado a sustentar um mundo de sofrimentos para esses jovens.

Mas, como disse, no inicio desse comunicado, esse sofrimento tem dia e hora marcada para acabar. Vou morrer em breve! Ta lá no livro “A física do futuro”, de Michio Kaku: “Hoje, podemos nos comunicar com a internet por intermédio de nossos computadores e telefones celulares. Mas, no futuro, a internet estará por toda parte – em telas na parede, em móveis, em cartazes e até em nossos óculos e lentes de contato.

Quando piscarmos, estaremos on-line… Isso vai alterar o sistema educacional. No futuro, alunos prestando um exame final vão poder pesquisar silenciosamente as respostas na internet, via lentes de contato, o que será um óbvio problema para professores que costumam confiar na decoreba. Isto significa que, em vez disso, os educadores terão de enfati zar a capacidade de pensamento e raciocínio”…

Ah!!!!! Einstein tinha mesmo razão: “A imaginação é mais importante do que o conhecimento!”. Por isso: Viva a minha morte! Viva a minha morte!

P.S. Dedico este artigo a todos os meus alunos, como forma de pedir perdão pelo sofrimento que ainda causo a eles…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior– Professor, médico e escritor.

A verdade verdadeira

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

“Tudo que eu não invento é falso…” (Manoel de Barros – Poeta)

Ser escritor tem dessas coisas, de repente, do nada, aparece na nossa frente uma cena, uma imagem, uma história… Em certa manhã, Hegel, filósofo alemão, entra na sala de aula carregando uma caixa de sapato debaixo do braço. E antes mesmo de algum aluno lhe perguntar espantado: “Professor, o que é isso?!”

Ele logo explica: “Eis a VERDADE, caros alunos! E de onde vocês estiverem nesta sala, no máximo conseguirão enxergar apenas três lados dela. Portanto, acreditem: vocês nunca serão capazes de vê-la por inteiro!”.

Agora fica fácil de saber o porquê de a verdade vir da origem de três palavras: Aletheia, Veritas e Emunah… E acredito até que cada uma delas tentar explicar um dos lados das três meias-verdades que enxergamos… Assim, para os gregos antigos, a verdade era algo sempre relacionado com a visão, afinal Aletheia significava: não escondido, não oculto… mas, o danado é que se a verdade vem dos olhos, Saint-exupéry a nega dizendo:

“Só se enxerga bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”.

E como enxergar a verdade, se quase sempre temos um coração de pedra, ou pior: nem coração temos?!…

Ah! Vamos, então, tentar buscar a verdade através da palavra latina Veritas que significa: rigor ou exatidão entre o relatado e o ocorrido?! Ilusão passageira, não é mesmo?!  Pois logo vem Cristo para desmentir os latinos quando afirma:

“O mal é o que sai da boca do homem”. E ele tem razão. Pesquisa, cientificamente comprovada, relata que a cada 10 minutos, o homem mente três vezes… é claro que este trabalho não incluiu ninguém de Brasília… e eu nem quero saber de fazer o cálculo de quanto eu já menti desde que nasci.

Por isso, discordo totalmente de Shakespeare que dizia: “A brevidade é alma da inteligência”. Não! A brevidade é a alma da honestidade, pois quanto menos eu falar, menos mentira eu vou dizer… O silêncio é mesmo a sabedoria dos sábios! (Ou seria: a sabedoria dos honestos?!).

Resta-nos agora recorrermos aos filhos de Israel para encontrarmos a verdade, através da palavra Emunah que significa: fé, confiança… Assim, a verdade é aquilo que eu acredito. Mas, o danado é que nem todo mundo torce pelo Atlético Mineiro, para ficar o dia todo: “Eu acredito! Eu acredito!”.

E existem até alguns mineiros que não levam mesmo fé na sua crença. E aqui na nossa cidade temos um exemplo claro disso, que é o Deputado Fernando Mineiro, do PT: se ele – e o seu partido- tivessem botado fé na sua candidatura, o Prefeito de Natal, hoje, seria outro…

Mas mesmo o Emunah – não sendo 100% fiel à verdade -, eu (não sendo mineiro, e sim potiguar) acredito que existe um lado que Hegel poderia ter explorado mais: o lado de dentro da caixa… No filme Don Juan DeMarco, uma das passagens mais interessantes é quando o psiquiatra, interpretado por Marlon Brando, pergunta a freira e mãe de Don Juan: “A senhora traiu mesmo o seu marido?!”. E a resposta foi: “Doutor, a verdade está dentro do senhor!”.

Pois é caro leitor, acredite: a verdade é o que estar dentro de cada um! Por isso, vou agora dizer as minhas verdades verdadeiras. E como eu sei que “as verdades são como as rosas e têm espinhos”, espero que ninguém fique chateado ou ferido com elas, já que elas são só as minhas, apenas as minhas verdades… Ah! E é através delas que eu consigo me libertar: “Conhecereis a verdade e a verdade vós libertará!”…

A minha primeira verdade verdadeira é que eu tenho sempre que acusar os políticos por tudo de ruim que me acontecer. Afinal, no dia da eleição, eles não entram comigo na cabine de votação, pegam o meu dedo à força e me obrigam a confirmar sempre e sempre o voto neles?! Não é assim?! Pois então, nada mais justo, deles pagarem o pato…

A minha segunda verdade verdadeira é que eu tenho mesmo de ser contra a vinda de médicos estrangeiros para o nosso país, afinal, vai que dá certo a medicina preventiva e aí como é que eu vou justificar a minha revolta pela falta de dinheiro na saúde?!

Afinal, precisamos de mais e mais dinheiro, que se “perderão” nas licitações da compra de mais e mais ambulâncias, para transferirmos mais e mais dos nossos doentes do interior, para os corredores abarrotados dos hospitais da capital…

Aliás, por falar em ambulâncias, está faltando sim, elas no Serviço de Atendimento Móvel às Urgências (SAMU). Pois, pelos meus modestos cálculos, deveríamos ter pelo menos uma ambulância em cada rua, ou melhor: uma ambulância em cada casa, pois assim, eu e meus amigos ficaríamos mais tranquilos para enchermos a cara de álcool, e depois dirigirmos as nossas motos a 1000 km/hora, para nos arrebentarmos no primeiro poste que encontrássemos pela frente… Afinal saúde não é um direito de TODOS e um DEVER do estado?!

Por que não todos não pagarem a conta, minha e dos meus colegas, por esta irresponsabilidade solidária?!

A minha terceira verdade verdadeira é que está faltando sim, leitos de UTI em todas as cidades. Acho até que deveríamos construir dois leitos de UTI por cada casa.

Afinal, eu não tenho que colocar, MESMO SEM NENHUMA INDICAÇÃO, os meus pais para morrerem lá?! Já que eu não dei assistência a eles durante a vida toda, porque eu vou ficar cuidando deles na hora da sua morte?!

Se está faltando leitos de UTI para os que verdadeiramente precisam, isso não é problema meu, pois saúde é um direito de TODOS e um DEVER do estado… e todos tem o dever de pagar pela minha saúde mental: o que os olhos não veem, o coração não sente, não é mesmo?!

A minha quarta verdade verdadeira é que, quando eu reprovar um aluno, a culpa será sempre dele: não estudou; não prestou atenção a aula… assim, ninguém vai descobrir que eu não fui capaz de estimulá-lo, que eu não fui capaz de ensiná-lo nada de significativo, nada de útil para mudar a vida dele e nem de ninguém da sua comunidade, pois eu só sei “ensinar” o que eu aprendi durante a minha pós graduação:

A influência da formação das nuvens no humor dos gafanhotos da Malásia… Bem caro leitor, não preciso mais continuar dizendo as minhas verdades verdadeiras, pois vocês já perceberam que eu adoro mesmo é ver sempre o cisco no olho do meu vizinho…

P.s. Espero que, em 10 minutos, vocês consigam ler este artigo, afinal preciso ficar só com três mentiras… Mas, se eu menti muito caro leitor, nem vou ficar com tanto remorso, pois Mario Quintana já dizia: “A mentira é só uma verdade que se esqueceu de acontecer”, não é mesmo?!

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é  professor, médico e escritor

 

A difícil arte de enxergar

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

José Saramago, no seu livro “Ensaio sobre a cegueira”, foi brilhante ao escolher a seguinte epígrafe dos livros dos conselhos: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara!”. Afinal, acredito que seja este mesmo, o maior problema do ser humano: a falta de visão.

Portanto, se eu fosse o escritor José Ingenieros, corrigiria a lenda, colocada no seu livro “O homem medíocre”, onde ele relata que Deus querendo povoar rapidamente a terra, fez moldes de manequins, se esquecendo de colocar massa cerebral, contendo o amálgama das boas coisas, em muitas calotas cranianas… na minha visão, bem limitada, “tupiniquim-jerimum-caboclo”, o que aconteceu mesmo foi que Deus fez os manequins e colocou neles olhos incapazes de ver e reparar… e para os gregos não parou aí o “equivoco” de Deus: não satisfeito de nos deixar cegos, ainda fez mais uma peripécia – colocou a felicidade dentro de nós e manteve os nosso olhos voltados para fora, com o intuito de dificultar mais ainda a sua busca…  a felicidade se encontra tão perto e tão longe: perto, dentro da gente; tão longe, afastada dos olhos… Por isso, concordo com Einstein que dizia:

“Deus não joga dados”. É claro! Ele gosta mesmo é de brincar de esconde-esconde…

Assim, não é de se estranhar que “Herrar é umano”. Afinal, cegos e longe da felicidade, cambaleamos feito “o bêbado com o chapéu-coco, fazendo referências mil, as noites do Brasil”… agora, penso que fica mais fácil de entender o que quis dizer Saramago, na página 131, do seu “Ensaio sobre a cegueira”: “Já éramos cegos no momento em que cegamos. O medo nos cegou, o MEDO nos fará continuar cegos”.

Sei que corro o risco seriamente de ser processado pelo exercício ilegal da medicina, afinal, como um profissional de “corte & costura” – um cirurgião -, eu não deveria fazer nenhum tipo de diagnóstico… mas, por favor, caro leitor, entenda que este diagnóstico, que faço agora, é de mim mesmo, feito pelo mais “cruel” dos meus médicos: a minha consciência.

Sou um cego! E além de cego, tenho um enorme defeito: adoro trabalhar em equipe! E neste mundo competitivo, individualista, egocêntrico e hipócrita, sei que este segundo defeito, pode me levar para as fogueiras da inquisição moderna.

Mas, longe, muito longe de mim, não poder exercer a minha liberdade de pensar, pois é através dela que falo, logo existo. Portanto, a minha doença incurável, eu sei que nada mais é do que o olho que não se recusa a reconhecer a sua própria ausência: a sua própria cegueira…

Ah! A memória… Ela me leva, para uns dez anos passados, quando ainda operava em hospitais particulares e atendia aos planos de “saúde”. Pois bem! Estava eu na sala de cirurgia, cuja especialidade é aquela que mais necessita do trabalho em equipe.

Estirei a minha mão para Ionaldo (instrumentador, técnico de enfermagem). Não lhe disse nenhuma palavra, apenas estirei a mão. Ele me entregou o instrumento correto: uma pinça. Às vezes, nem estirava a mão, e ele se antecipava, entregando-me o instrumento que estava precisando.

Parecia até que ele lia os meus pensamentos. Brinquei com ele. Na verdade, disse rindo coisas sérias: “Meu caro Ionaldo, fico tão seguro com a sua presença aqui. Pois sei que se eu morresse, um dia operando, você terminaria a cirurgia para mim sem problemas!”. Pois é!

Nunca me senti inferior – e nem muito menos superior-, a Ionaldo. Pelo contrário: a sua presença me dava uma segurança infinita e necessária para o exercício do ATO CIRÚRGICO.

Volto a Saramago e ao seu ensaio, na página 86: “Perante a morte, o que se espera da natureza é que percamos os rancores, a força e o veneno…”; Vou agora para a página 245, para mais uma vez concordar com você, mestre da visão: “Se continuarmos juntos talvez consigamos sobreviver, se nos separarmos seremos engolidos pela massa e destroçados”.

Talvez, lutar – em direção equivocada, em busca da exclusividade-, seja uma forma de cegueira também… não seria melhor, começarmos por nós mesmos? Que tal sermos ÉTICOS?!

Ah! A memória novamente… Prova de residência médica em cirurgia do Hospital Walfredo Gurgel. Entrava o candidato. Eu fazia várias perguntas, mas a decisiva deixava para o final… Afinal, o melhor dos vinhos não se serve por último?!

Assim, perguntava: “Se você tivesse que escolher entre ser operado por um cirurgião extremamente ético, mas sem nenhuma técnica, e um extremante técnico, mas sem nenhuma ética, qual seria a sua escolha?”. Os alunos ficavam apavorados.

Esta pergunta não tem nos livros. Embora a resposta fosse tão simples – mas o difícil é ser simples, como dizia Drummond -, muitos não conseguiam acertá-la: ser operado por alguém extremamente técnico, mas sem nenhuma ética, você corre o risco de morrer, pois esse “profissional” não terá nenhum pudor de colocar as próteses, as órteses, etc. etc. sempre em primeiro lugar; mas se você escolher o extremamente ético, mas sem nenhuma técnica, ele nunca irá lhe operar sem se sentir capaz.

Ele buscará essa “técnica” pedindo ajuda a outro (irá encaminhá-lo para alguém que possa ser a duas coisas: técnico e ético), pois ele sempre se colocará no seu lugar… Sempre!

Portanto, ser ético é fundamental! E quando aqui falo em ética, não falo nos arremedos e nos remendados com esparadrapos ou coisa parecida… Ser ético é lutar constantemente contra um monstro interno, que nos leva a querer sempre ir pelo caminho do MAL. É lutar permanentemente por uma limpeza interna nos nossos porões, afinal, como dizia Hamlet: “Com quem a beleza poderia manter melhor comércio do que com a honestidade?!”…

Termino, então, aconselhando-o: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara!”

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, “médico” (cirurgião) e escritor.

Clique… clique… clique

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

“Só os profetas enxergam o óbvio”, já dizia Nelson Rodrigues. John Donne, poeta jacobino inglês do século XVI, era também um profeta. Ele enxergava o óbvio: “Ninguém é por si só uma ilha. Cada um é uma porção do continente, uma parte do oceano!”. Dizer isso hoje é fácil. Mas, naquela época sem iPhone, Tablet, 3G, internet, Facebook, etc. etc. só sendo profeta para enxergar o óbvio.

Steve Jobs era também um profeta. Profeta e revolucionário. E no dia 29 de junho de 2007, ele iniciou a sua revolução. Neste dia histórico, chegava ao mercado o iPhone, que foi ridicularizado inicialmente pelas concorrentes, em especial a Nokia, que na época liderava o mercado de telefonia celular.

No primeiro final de semana, atingiu as vendas de 500 mil unidades, e só no ultimo trimestre de 2011, a Apple vendeu mais de 37 milhões deles… assim, “os telefones se transformaram em placas escuras touch screen parecidas com tijolos. E tudo mudou do dia para a noite”.

Arquimedes, matemático e inventor grego (200 a.C), foi também profético ao dizer: “Dê-me uma alavanca e um ponto de apoio, e eu moverei o mundo!”. O iPhone, quem diria, está sendo a alavanca para a “geração Y” mudar o mundo…

Geração Y?! Sim, os nativos digitais – nascidos entre 1980 e 1999 – e que são chamados assim, graças à União Soviética que exercia uma influencia tão grande nos países comunistas, que chegava ao ponto de definir a primeira letra dos nomes, que deveriam ser dados aos bebês nascidos, neste período: “letra Y”.

E se alguém tem dúvida do porquê do comunismo não ter vingado no mundo, talvez essa “importante” preocupação em definir essa letra, possa ser uma das causas…

Não era à toa que Demócrito, filósofo grego, ria e ria muito, afinal o mundo é uma grande ironia: a geração Y, assim chamada, graças ao comunismo, já nasce com um iPhone na mão… Então, não se espantem com a ambiguidade das suas decisões e escolhas. Por isso que Steve Jobs, profético e revolucionário, os estimulava: “sejam famintos, sejam tolos!”.

Fazendo várias atividades ao mesmo tempo, impacientes e vivendo a vida intensamente – afinal: “Deus vomitará os mornos!”-, eles sabem que na Internet não há fronteiras e não há manipulações. Assim, são sensíveis ao interesse corporativo; processam o mundo em tempo real e rápido, detestando esperar (pois “quem sabe faz a hora e não espera acontecer!”); são autônomos, não precisando de líderes (caçadores de marajá, Estrela-lá…) como muletas para tomarem as suas decisões; são curiosos e aplicam os seus conhecimentos para transformarem a realidade…

Realidade que num simples clique, muda! E se uma “tapinha” pode ainda não doer no nosso país… Na Tunísia, foi este o motivo para derrubar um dos regimes mais poderosos do Oriente Médio.

O tapa na cara que Faida Hamdi (Oficial de inspeções municipais) deu em Mohamed Bouazizi (Vendedor de frutas), em 17/12/2010, promoveu efeitos em cascata, criando situações imprevisíveis. Manifestações começaram a pipocar na Tunísia. A polícia foi instigada a atirar neles. As imagens, apesar de só 20% dos tunisianos terem Facebook, foram transmitidas em tempo real.

Clique, clique, clique e o Presidente Ben Ali teve que renunciar…

“Ninguém é por si só uma ilha”, não é mesmo?! Pois bem! Três dias depois da renúncia na Tunísia, começaram os protestos no Cairo, contra o ditador Hosni Mubarak. Este, resistiu por um mês e renunciou. O Tsunami parecia não ter mais fim no Oriente Médio. E a próxima “vítima” foi o ditador do Líbano, Muammar Kadhafi. E tudo começou com um simples tapinha… Neste caso, o tapinha doeu, e doeu muito!

Acabo de receber uma mensagem do meu ex-aluno e fiel amigo Bruno Pessoa, que se formou há 06 meses, e resolveu desenvolver um trabalho belíssimo numa comunidade indígena, no interior de Pernambuco: “A onda de protesto pelo país é um grito de socorro: só não sabemos muito bem contra o quê e contra quem. Isso só reflete o modo ambidestro de se fazer política hoje em dia.

Não sabemos mais quem é esquerda ou direita. Antigos rivais estão no mesmo palanque. Partidos com ideologias completamente contrárias se coligam em busca do ‘bem maior do povo’, que não é a saúde, nem educação: é o voto! Não são os 20 centavos, não é Alckmin, nem muito menos Dilma.

Está tudo errado: ou a gente luta por uma mudança radical, ou vamos continuar assistindo na míd ia comentaristas e políticos pegando o fio da meada para endossar a continuidade… e nós, ingênuos em questão de política ambidestra, continuaremos sem saber quem é do bem e quem é do mal…”.

O nosso país vive um momento extremamente delicado. E é muito bom que a nossa classe política – onde quase todos fedem a mofo e a corrupção-, perceba que não esta mais lidando com a geração coca-cola, onde o “pão e circo (ou copa)” ainda funcionam muito bem… É preciso enxergar que R$ 0,20 pode sim, ser entendido como um tapa na cara e aí salvem-se quem puder… E depois não venham se perguntar: “Por quem os sinos dobram?!”, Afinal, eles irão dobrar por todos nós…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor.

 

Balança comercial

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

“Nós somos os homens ocos, nós somos os homens empalh ados apoiados uns aos outros, a cabeça cheia de palha. Ai de nós!” (T. S. Eliot)

Era uma vez um homem que morava de frente para um rio. Vivia uma vida pacata e sem estresse. Até que um dia, ao acordar, e abrir a porta da sua casa, se depara com um corpo boiando. Ele entrou rapidamente no rio e salvou o homem que estava se afogando.

No outro dia, ao abrir a porta da sua casa, ele se deparou com três corpos boiando: conseguiu salvar um, mas dois morreram… e assim, pelo resto de sua vida, ele passava o dia salvando e enterrando corpos.

Nunca passou pela sua cabeça de ir rio acima, e pegar quem estava afogando os corpos. Esse homem por não entender nada de balança comercial (ele só pensava em importar os corpos do rio para a margem, sem se preocupar com quem exportava os mesmos para o rio), estava fazendo um trabalho sem utilidade alguma…

Confesso: não entendo muito sobre balança comercial, mas o pouco que sei é que, quando as importações são maiores do que as exportações, isso leva a um déficit na economia. Pelo visto, não só sou eu que não entendo muito desse tema…

O Governo Federal – assim como o homem que morava a beira do rio-, também entende muito pouco ou nada sobre balança comercial. Por isso que não me espanto com a inflação galopando a passos largos, e os passos de formiguinha dos nossos índices econômicos, onde o pífio PIB (Produto Interno Bruto: um Pibinho na verdade) é cada vez mais acanhado, a cada ano.

Longe, mais muito longe de mim, ser contra a vinda de médicos cubanos para o nosso país, desde que seja dentro do que se determina e com um REVALIDA: sério e justo… Até porque se vierem médicos como Zaíra e Raul (excelentes profissionais tanto na ética e na técnica, quanto no humanismo, e que Fidel Castro e a sua revolução “democrática” não os quiseram em Cuba), que sejam muito bem vindos!

O que se questiona aqui é que tentar resolver o problema da saúde pública desse país, apenas importando médicos estrangeiros, é de uma mediocridade que beira a estupidez.

Todo mundo está careca de saber que o médico brasileiro não fica no interior, porque lá não há a menor condição de exercer nenhum tipo de medicina. E não adianta pagar “excelentes” salários (que só são pagos nos primeiros meses de um contrato informal… cadê a carreira médica?!), pois como diz os Titãs: “A gente não quer só comida; a gente quer comida, diversão e arte… A gente não quer só dinheiro; a gente quer inteiro e não pela metade!”.

E engana-se quem pensa que a medicina preventiva só é feita com conversas e chás: isso é de uma injustiça que só as mentalidades tacanhas, medíocres e estúpidas podem acreditar!

Mesmo Cristo – que é o caminho, a verdade e vida, pois ninguém vai ao Pai senão por ele-, quando realizou as suas curas, está lá na Bíblia, em duas (quando curou o aleijado: utilizou uma piscina; quando curou a mulher que sangrava: estava vestido), ele precisou ter um mínimo de condições, além da sua fé e amor!

Se o Governo Federal quer mesmo resolver o problema da saúde deste país, que pare de “brincar” de balança comercial. Que vá ao cerne da questão: EDUQUE A POPULAÇÃO! Pois só uma população educada e livre é capaz de saber o que é melhor para si… Uma população educada e livre saberia que jogar lixo nas ruas é igual a aumentar os índices de dengue…

E o interessante é que o próprio Ministério da Saúde, quando faz a sua apresentação sobre Rede de Atenção às Urgências, está lá no centro do slide: “SE BEBER, NÃO DIRIJA!”, ou seja, não adianta só construir UPA’s, Hospitais, Unidades Básicas de Saúde, etc. etc. se isso não estiver atrelado à educação da nossa população. Aliás, acho até que o Ministro da Educação, se não acumulasse as duas funções, que pelo menos eles trabalhassem na mesma sala, pois saúde e educação são irmãos siameses!

Uma população educada e livre (sem muletas de bolsas disso e de vales daquilo) saberia que antes de importar médicos estrangeiros, primeiro faríamos as exportações… EXPORTAÇÃO de ladrões que a cada dia, nas tenebrosas transações, diminuem não só o patrimônio de toda uma nação, mas destroem os nossos sonhos, matam as nossas esperanças e acabam com o nosso futuro; EXPORTAÇÃO de prefeitos, que bastam se sentirem “ameaçados” pelos médicos, os expulsam do seu município, deixando a população sem nenhuma assistência; EXPORTAÇÃO de cegos, que condenam pobres e absolvem ricos de colarinho branco (porém, encardido de rapinagem); EXPORTAÇÃO de empresários corruptos, que entram no jogo do superfaturamento de obras, por terem que dar “mesadas e me nsalões” aos parasitas e vermes da nação; e EXPORTAÇÃO de eleitores, que por um chinelo, por uma dentadura, por uma feirinha, vendem a sua consciência (nem sei se eles têm consciência) e mantêm todo esse processo de podridão, ano após ano…

O Brasil tem jeito! Mas, enquanto a sua balança comercial não estiver equilibrada (menos importação e mais exportação), e isso não for levado a sério, não haverá superávit, e qualquer tentativa de melhorar alguma coisa nesse país, inclusive a saúde, será igual ao homem que morava em frente ao rio… inútil, inútil!

Tão inútil, como retirar o sofá da sala, para não ser traído…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor.

Regra (de) Três

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Não se espante, caro leitor, mas, na época do colégio Salesiano, uma das matérias que eu mais gostava era matemática! Com certeza, a explicação para essa preferência foi a presença de mestres excepcionais, como Augusto e Helder. Gostava tanto dos números, que a minha primeira experiência, como professor, foi ensinando regra de três, cálculo do “x” da questão, etc. etc. para os meus colegas de turma.

Isso mesmo: ensinava e aprendia ao mesmo tempo! Guimarães Rosa foi esperto ao perceber que professor é aquele de repente, aprende…

Sim! Não se espante mais uma vez pelo fato de eu ter escolhido medicina ao invés de engenharia…  Ora, até os filósofos gostam de matemática: “Só poderá entrar quem for um geômetra!”, não eram os dizeres da placa, na entrada da escola de Atenas?!  Pois é, para os gregos, Deus era um matemático! Por isso, Einstein acertou ao afirmar que Ele não joga dados…

Pois bem! Mesmo gostando de matemática, tem um cálculo que eu não consigo fazer… Já procurei a resposta de várias maneiras, mas não consigo chegar a nenhum resultado. Qual o cálculo?! Quer saber, mesmo?! É simples, mas é complexo: quantas vezes devemos perdoar?! Cristo até tentou dizer a resposta: 70 x 7! No entanto, quando estava no momento da sua morte, entre o ingrato e o ladrão, olhando para esse último, ele disse: “Em verdade te digo, hoje estarás comigo no paraíso!”.

Veja que ele não disse: “hoje, vocês estarão comigo no paraíso”.

O verbo ficou mesmo no singular. O ladrão, Cristo perdoou, mas o ingrato… Oh! Coisa difícil é perdoá-lo! Por que a ingratidão é sem dúvida o pior de todos os pecados. Shakespeare abominava tanto a ingratidão que ele não se cansava de dizer: “Não é um ano, nem em dois, que se conhece um homem. Tudo que eles são é estômago, e nós não passamos de comida. Eles nos comem com sofreguidão e, quando se sentem empanturrados, eles nos arrotam!”.

Padre Antônio Vieira colocava esse defeito de caráter como uma das armas mais poderosas para destruir o amor; maior até do que o tempo e a distância.

Portanto, não se espante, caro leitor, com a “Regra três” de Vinícius de Morais: “Tantas você fez, que ela cansou, por que você rapaz, abusou da regra três, onde menos vale mais… Da primeira vez ela chorou mas resolveu ficar/ É que momentos felizes tinham deixado raízes no seu penar. Depois perdeu a esperança/ por que o PERDÃO também CANSA de perdoar!”.

E perder a esperança, meu caro, significa: acabou! Afinal, a fila tem que andar, não é mesmo? Até porque, muitas vezes, querendo ressuscitar uma convivência que já morreu há anos, estamos esquecendo, perigosamente, a grande lição de Zeus ao seu neto Asclépio: “Ressuscitar mortos não é coisa para os médicos. A ciência tem limites! Ressuscitar mortos é coisa dos deuses!”. E eu acho que somente Ele, e ninguém mais do que Ele, para perdoar eternamente!

Nós, mortais de carne e osso, com um coração que sangra a cada ingratidão, indiferença, humilhação, etc. etc. é impossível não cansar, ao chegar ao número cabalístico de setenta vezes sete… Na verdade, nossa vontade, além de não perdoar, é de revidar a cada agressão, a cada ingratidão… Gostaríamos até de nos tornarmos também porcos-espinhos e ferir com a mesma moeda o ingrato.

Mas como um pinto (Edilson Pinto) poderá virar um porco?! Ainda mais um porco-espinho?! Será que torcendo pelo time do Palestra Itália, o Palmeiras, conseguirei?!

Não! Estou fora! Transformar o meu coração em pedra?! Jamais! E porco espinho não combina comigo. Até por que, sei muito bem o que Nietzsche quis dizer quando nos alertou: “Aquele que luta com monstros deveria tomar cuidado para não se tornar um deles!”. O melhor é aceitar tudo calado.

O silêncio é o melhor remédio. Só não sei se o silêncio seria um perdão… Dizem que quem cala consente! Mas, também, do que adiantaria o meu perdão, se você nunca conseguirá perdoar o que você fez a si mesmo?

P.S. Dedico este artigo ao colega médico Henrique Santos, afinal foi ele que deu o mote: “Amigo, escreva pensando na bossa nova!”.

Francisco Edilson Leite Pinto Junior– professor, médico e escritor.

Os 20 anos das mil e uma noites…

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Sempre que posso, leio “As mil e uma noites”. Acho incrivelmente fantástica a artimanha de Xerazade, que para se livrar da ira do sultão (traído pela primeira esposa, resolve casar, a cada noite, com uma mulher diferente, para matá-la a cada amanhecer), começa a contar histórias “agradáveis e belas”, cujo desfecho, permanece sempre em aberto:

“Isso não é nada comparado ao que irei contar-lhe na próxima noite, se eu viver e for preservada”…

Jorge Luis Borges, no ensaio sobre este livro, faz questão de destacar a beleza do título: “É um dos mais belos do mundo… pois está no fato de que para nós a palavra ‘mil’ é quase sinônima de infinito. Dizer mil noites é dizer infinitas noites, as muitas noites, as inúmeras noites. Dizer ‘mil e uma noites’ é acrescentar uma ao infinito…”.

Nietzsche dizia que a arte existe, para que a verdade não nos destrua. E a verdade é que todos nós, um dia, morreremos. Esta é a mais certa de todas as verdades! A não ser que consigamos fazer como Xerazade, que contando histórias, consegue vencer Tânatos, consegue viver eternamente… A não ser que consigamos fazer como Beethoven, que através da sua Nona sinfonia, mesmo surdo – consegue enganar a morte – e continua vivo até hoje; a não ser que consigamos fazer como Cristo, que veio ao mundo apenas para amar e dizer a mais bela e simples frase, que resume toda a nossa existência:

“Amai o próximo como a ti mesmo!”.

Portanto, caro leitor, todas essas pessoas – que conseguiram driblar a morte e enganá-la-, tinham em comum a mesma coisa: amavam o que faziam… Veja a mensagem que Drummond, no inicio do seu belo poema “A quadrilha”, quis passar: “João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.”.

Enquanto havia amor entre os personagens, não havia necessidade de vírgulas ou pontos, pois não havia pausa e nem fim: a vida era eterna! Mas aí, Lili resolveu não amar ninguém e o Poeta de Itabira teve que colocar um ponto final. A corrente se desfez, e o fim chegou.

Ensinar é um ato de amor. “Não é possível ser professor”, alertava Paulo Freire, “sem amar os alunos e sem gostar do que se faz!”. Por isso, acredito que Amor e Fé, talvez sejam as únicas coisas que, verdadeiramente, valem a pena passar para os nossos alunos.

Como?! Vou explicar, caro leitor! Vou explicar… Era domingo à noite. Estava de plantão no Hospital Luiz Antônio, toca o telefone: “Dr. Edilson, tem um médico do interior querendo falar com o senhor!/ Alô?!/ Pois não!/ Eu gostaria de falar com o medico de plantão…/ Pode falar, é Edilson Pinto!/ Professor!!!/ Quem falar?!/ É João Carlos!/ Oi, meu caro, a que devo a honra?!/ Sabe o que é professor: estou aqui no interior, com o paciente da LIGA, portador de neoplasia de próstata, com diabetes descompensada e já fiz tais e tais condutas, mas ele precisa de internamento, como devo proceder?!/ Olha, pode encaminhar que eu vou reservar um leito, para interná-lo./ Muito obrigado, professor!/ Até a próxima, João!”.

Até aí não há nada demais nessa história, não é caro leitor? Mas, duas horas depois, chega o paciente, ao CSO da LIGA.

E antes mesmo de começar a anamnese e exame físico, os familiares se dirigiram a mim, dizendo: “Doutor, o médico lá do interior diz que conhece o senhor, é verdade? Olha, vou falar… até hoje não vi médico mais atencioso… espero que o senhor seja parecido com ele”. Após, ter prometido aos familiares que iria me esforçar para não decepcioná-los, ri e chorei de alegria, afinal, estava também compondo o meu poema: “ERNANI Rosado ALDO Medeiros FRANCISCO de Lima CELSO Matias CARLOS Formiga FERNANDO Suassuna LUIZ Alberto IAPERÍ Araújo CARLOS Dutra STÊNIO Silveira e Francisco Carlos LA GAMBA que amavam Edilson Pinto que amava João Carlos que amava seu José”…

Pensas que o poema parou aí, caro leitor?! Não! Quarta-feira, da mesma semana, toca o celular e aparece, no WhatsApp, uma foto com a seguinte mensagem:

“Professor! Veja o que sua aluna Karol foi capaz de fazer… É a sua aula de ontem, sendo colocada em prática. Abraços, Rafael Rosas (Professor da UnP)”.

E assim, o poema continuou, não é caro leitor: “SÍLVIA Fonseca BERNADETE Cordeiro FÁTIMA Azevedo ANA Maria DALVA Araujo MARIA do Carmo MARIA Willions YVELISE Castro e IARA Marques que amavam Edilson Pinto que amava Rafael Rosas que amava Karolynne que amava seu João”…

Pensas que o poema parou aí, caro leitor?! Não! No dia seguinte, na quinta feira, recebo o email, do meu fiel e bom companheiro, Bruno Pessoa: “Caro professor, segue o texto inaugural do nosso novo blog: Veredas Médicas. Espero que aprecie a empreitada:(//veredasmedicas.blogspot.com.br/2013/03/boi-com-sede-bebe-lama.html)”;  e assim, o poema continuou: “COQUINHO (História) HELDER e AUGUSTO (Matemática) JOCA (Biologia) PONTES (Física) Reinaldo RONDINELLI (INCA) Francisco REZENDE (INCA) e Alfredo GUARISCHI (INCA) que amavam Edilson Pinto que amava Bruno Pessoa que amava o seu pequenino paciente”…

Caro leitor, eu poderia passar toda a eternidade contando essas histórias de ex-professores e ex-alunos meus… E o mais interessante é que eu nunca poderia imaginar que, no dia 25 de março de 1993, há exatos 20 anos, ao assinar o meu contrato de Professor auxiliar I na UFRN, estava conseguindo driblar a morte, pois estava colocando mais um dia, nas minhas “mil noites”; colocando mais um dia ao infinito…

P.S. Dedico esse artigo a todos os meus mestres do Colégio Salesiano, da Faculdade de Medicina da UFRN, das residências médicas dos hospitais de Bonsucesso/Instituto Nacional de Câncer e, principalmente, aos meus mais de 2000 mil alunos, que tive o privilégio e o prazer de ensiná-los, nestes 20 anos de magistério…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor (que enganou a morte), médico e escritor.

A agulha e a linha

Por Francisco Edílson Leite Pinto Junior

Nunca gostei de trampolins. Em criança, no Aeroclube de Natal, ficava olhando, lá de baixo da piscina, todos se despencarem, lá de cima. Era água pra tudo que é lado. E quanto mais gorda era a pessoa, maior era o espetáculo. Todos se divertiam, menos eu…

No início, achei que não gostava deles (dos trampolins) por medo de altura. Mas, depois que conheci o Zaratustra – de Nietzsche – e ouvi-o dizer que “Aquele que escala montes ri-se de todas as tragédias da cena da vida”, percebi, então, que não era a acrofobia, o meu problema com os trampolins.

Hoje, vejo que na verdade, o que me incomodava naquele objeto em forma de prancha, que serve para as pessoas saltarem e caírem nas piscinas, é o fato de despertar em mim certo sentimento de pena, de tristeza e, algumas vezes, também, de revolta…

Tenho dó dos trampolins. Ficam ali – solitários e tão expostos ao calor, aos ventos, e porque não dizer: a todos os tipos de pessoas. Principalmente, àquelas que querem se dar bem “à custa dos outros”. Esses oportunistas pulam, pulam e pulam… Divertem-se como nunca! E quando estão satisfeitos – saciados de tudo –, abandonam seu trampolim em busca de outros mais “interessantes”. Medeia – de Eurípides-, tinha razão quando gritou para Zeus:

“Por que dotastes os homens de meios certos para reconhecer o ouro de má qualidade, e por que não há, no corpo humano, marca natural que distinga o malvado do bom…!”.

É por isso que eu tenho pena, fico triste e me revolto quando me lembro dos trampolins. Pois, eles nada mais são do que objetos descartáveis. Ah! E como é doloroso ser um objeto descartável… Vejam o exemplo das seringas de plástico. Após servirem de veículo para administrarem um medicamento essencial para manutenção de uma vida, são logo colocadas no balde de lixo, para serem incineradas.

Como seria bom se as seringas, após o seu uso, pudessem ser lavadas e oferecidas para alguma criança, que a usaria como brinquedo de lança água. Mas não! O objeto descartável – até pelo próprio nome-, após o seu uso, é desprezado: ficando sem utilidade.

Outro dia, numa reunião do Departamento de Cirurgia da UFRN, encontrei um professor já aposentado. Ficamos horas conversando. Não matando o tempo – pois se assim o fizéssemos, ele, o tempo, é que nos enterraria – como lembrava o Machado de Assis. Estávamos, mesmo, era colocando os assuntos em dia. Aí, ele me saiu com essa do Oscar Wilde: “O drama da velhice consiste, não em ser velho, mas em ter sido moço”.

Logo em seguida, ele me lembrou de quando ainda estava na ativa, e via toda aquela legião de alunos correndo atrás dele: ora para ser indicado como auxiliar de alguma cirurgia; ora para ser indicado como monitor da sua disciplina. E passados todos esses anos, ao entrar novamente no hospital, onde tinha dedicado quase toda a sua vida, via os mesmos alunos daquela época – agora na qualidade de professores-, virarem o rosto, fazendo de conta que não o conhecia.

Camus foi verdadeiro, e ao mesmo tempo sombrio, quando afirmou: “Envelhecer é passar da paixão, à compaixão”. E foi por pura compaixão – por ver aquele homem e os seus olhos umedecidos pela ingratidão-, que resolvi lhe falar sobre um conto chamado “Um apólogo”, de Machado de Assis, para aliviar, portanto, um pouco a sua dor (e a minha também).

E assim comecei: “Era uma vez uma agulha, que perguntou a um novelo de linha: – por que está você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa nesse mundo? Então, toda orgulhosa respondeu a linha: – você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados…

– Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que faço e mando…

– Também os batedores vão adiante do imperador.

– Você imperador? Questionou a agulha. A linha toda soberba, deu a “cutilada” final: – ora, agora, diga-me quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira?

A agulha ficou calada e triste, até que um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha: – Anda, aprende, tola. Cansa-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida… Faze como eu, que não abro caminho para ninguém. Onde me espetam, fico!”.

Quando terminei essa estória, vi o meu antigo mestre rir, para comentar logo em seguida, como o Machado de Assis fez, no final do seu conto:

“Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!”.

Francisco Edílson Leite Pinto Junior Professor, médico e escritor

* Texto escrito em 19 de março de 2006

A maior lição de minha vida

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Só a pessoa livre consegue amar…

Em um final de semana de setembro de 1966, meu pai estava andando em um jipe, sem capota, na praia de Tibau, em Mossoró. De repente, ele se desequilibra, cai, fratura o crânio e morre aos 33 anos de idade. Minha mãe tinha 24 anos e três filhos para criar, sendo o menor com três meses: eu.

Imagine então, caro leitor, como foi a nossa infância… E três coisas me espantavam naquela época: a ausência do meu pai; a ausência da minha mãe – professora do ensino médio, que dava três expedientes; saía de casa pela manhã e só voltava à noite. Às vezes, só a víamos no domingo -, e a nossa biblioteca. Lá em casa podia faltar tudo, menos livros, que ficavam espalhados por todos os lados.

Os anos se passaram e os embalos de sábado à noite chegaram… e com eles, vários modismos: discoteca, cabelo com brilhantina, jaqueta de couro preta, patins, etc. etc. Nessa época, mudamos para Natal, passei a morar com a minha tia (minha segunda mãe). A janela do meu quarto dava para o Aeroclube.

Lá existia uma quadra de patinação. E ao toque dos “Bee Gees”, eu via os adolescentes flutuando de um lado para o outro, em cima de duas rodas, os patins.

Adolescente, naquela época, ainda não sabia que a pior dor que existia, era a dor da comparação. E eu queria saber por que eu não tinha os meus patins… Pedi, mas foi negado! Então, resolvi ser mais persuasivo: fiz uma greve de fome interessante – não comia nada pela manhã, para, literalmente, assaltar a noite a geladeira, enquanto todos dormiam… Tudo valia a pena se a fome não era pequena, para adquirir o meu desejo de consumo: os patins.

Depois de quatro dias, minha mãe ficou preocupada.

Entrou no meu quarto, sentou à minha frente e, olho no olho, disse:

“Meu filho, nós não temos dinheiro para comprar o que você quer. Mas, veja que todo esse meu esforço tem uma finalidade: eu vou lhe dar o maior bem que ninguém, nenhum governo, nenhuma pessoa, por mais poderosa que seja, poderá lhe tirar: eu vou lhe dar o conhecimento. E sabe pra que ele serve? Pra que você seja sempre respeitado; para que você adquira o respeito dos iguais!”.

Trinta e três anos se passaram dessa conversa e até hoje, eu agradeço a minha mãe pela maior lição da minha vida: “o conhecimento, para adquirir o respeito dos iguais!”. Francis Bacon dizia que “conhecimento é poder”. No entanto, acredito que seja muito mais do que isso: conhecimento é responsabilidade; conhecimento é imaginação; conhecimento é liberdade; conhecimento é respeito.

Assim, logo aprendi que para ser respeitado, o primeiro mandamento é respeitar a si mesmo: respeitar as suas convicções, respeitar os seus sonhos, respeitar os seus princípios, não se vender a nenhum cargo e nem a nenhum vil metal…

Respeitar a si mesmo é também ser livre.

Não era à toa que Nelson Rodrigues dizia que a liberdade era mais importante do que o pão! Já que o homem livre pode até ter medo, mas esse medo não o paralisa, pois ele deve estar sempre em consonância com a sua consciência, com o seu coração. Tem razão o poeta Gilmar Amorim: “As algemas da alma são piores do que a do corpo”.

“O medo tem alguma utilidade, a covardia não!”. Portanto, eu sei os riscos que se corre por tentar ser livre… Sócrates pagou com a sua vida, por isso; Gandhi, através da sua política da não violência, sofreu na carne, agressões e prisões, por querer libertar a Índia do julgo Inglês; e mesmo assim ele pregava para os seus seguidores:

“Um homem não pode fazer o certo numa área da vida, enquanto está ocupado em fazer o errado em outra. A vida é um todo indivisível”.

Sou professor, há 19 anos, 11 meses e cinco dias. Hoje eu sei – e graças ao meu ex-aluno Felipe Fonseca, que descobriu o meu segredo -, que fui fazer medicina primeiro, só para depois tornar-me professor, por acreditar que ensinar é também fazer medicina, pois tratamos da pior doença que existe: A IGNORÂNCIA DA ALMA. E mesmo alguns dizendo que nunca aprenderam nada comigo (até agradeço-os, pois “toda unanimidade é burra!”), eu sei que eu sempre serei um professor…

E “se todo trabalho é vazio”, como diz Khalil Gibran, “exceto quando há amor”, eu tenho plena consciência de que toda lição do professor é vazia, se o seu discurso não corresponder com a ação.

Algumas vezes sou criticado por ter abandonado certos caminhos, mas aprendi também que ensinar é um ato de amor, e o amor só faz sentido se for recíproco. E eu sei também que muitas vezes por amar demais – e parece que “quem ama demais não ama o bastante”- somos considerados “Personae non gratae”…

No mundo do ensino há muitos abismos, há muitas matas escuras… mas, em respeito ao meu passado, em respeito  a mim mesmo e, principalmente, em respeito aos meus alunos, gostem ou não, eu sempre passarei a maior lição que aprendi na minha vida dada pela minha mãe, pois esta lição permanece sempre atual.

Hoje, os médicos são verdadeiros escravos. Vendem a sua alma aos planos de saúde e perdem a sua saúde; vendem a sua alma para próteses, órteses, laboratórios, etc. etc. e perdem a capacidade de continuar se olhando no espelho, sem se envergonhar de si mesmo…

Muito obrigado, D. Gigi, pela sua lição!

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.

Resposta a um “Funcionário”

Por Carlos Santos

“Servir só para si é não servir para nada.” (Voltaire)

Meu querido “funcionário” Francisco Edilson Leite Pinto Júnior:

Recebi e publiquei mais abaixo – sua extremada missiva, em que trata de seu vínculo laboral com este Blog, página há muito adotada por centenas e milhares de pessoas sob compromisso diário de leitura. Outras tantas, de forma mais visível, como comentaristas e articulistas. Esse último caso o seu, atesto.

Sua tarefa, bom que fique consignado, tem sido contribuir à formação de uma bolha crítica e quebra do oligopólio da opinião, na chamada “imprensa convencional” – via este Blog. Seu trabalho merece remuneração diferenciada e regular, sempre ensejando cevados reajustes.

O trabalho dignifica o homem – alardeou o filósofo Hesíodo e eu poderia me valer desse aforismo para – quem sabe – aplacar sua suposta indolência. Não o farei.

Reconheço. Nem tergiverso quanto ao que lhe é meritório.

É um “soldo” que o Blog admite dificuldades em saldar, mas nem assim se sente inibido em cobrar sua maior contribuição a missões tão significativas à nossa civilização.

Claro, muitos podem afirmar que tudo não passa de esforço inglório – seu, meu, nosso. Seria apenas uma gota no oceano de lágrimas de um planeta selvagem e predatório.

Contudo recorro à Madre Teresa de Calcutá para incensá-lo e a outros tantos que pensam da mesma forma:

Por vezes sentimos que aquilo que fazemos não é senão uma gota de água no mar. Mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota.

Compreendo o sobrepeso de seus outros afazeres como professor, escritor e médico, uma tríade nobre e que certamente lhe dará o reino dos céus. Para muitos, talvez seja mais uma condenação terrena do que benção celestial.

Tenho ouvido seus murmúrios, testemunho seu alarido, identifico seus desapontamentos e reconheço seu esforço para ser pelo menos razoável nas tarefas principais que adotou, além de ser – também ouço – um esposo nota 10 e um pai zeloso e extremado.

Pensar é cansativo. Muitos se especializam em tudo, como um Conselheiro Acácio do grande Eça de Queiroz. Em síntese: não se aprofundam em nada. É um fardo conflitar com o status quo, o pensamento dominante e as atitudes tacanhas de uma maioria incapaz de refletir sob a ótica do bem comum. É remar contra a maré.

– Pensar é o trabalho mais difícil que existe. Talvez por isso tão poucos se dediquem a ele – diria Henry Ford.

Seu exercício laboral em nossa “organização” é imprescindível. Cobro-lhe em particular e de público, para dar eco ao que ouço no cotidiano neste mundo virtual e real. Suas  palavras, mesmo que muitas vezes pareçam o apocalipse narrado por Jim Morrison (The Doors) em “The End”, emergem como uma luz.

Se nos faltar energia, talvez sobre sua centelha para nos estimular à incessante luta. Desistir, jamais!

Por favor, não me interprete como um patrão rançoso e afeito ao contorcionismo das palavras, para seduzir seus operários ao trabalho escravo, com a vã promessa de melhorias a posteriori. Sou sincero, tão somente. Falo do fundo d´alma.

Não temas. Não utilizarei de artifícios lúdicos para atrai-lo à labuta e passar ao mundo a imagem de que lhe oferto um ofício sem maiores dificuldades. A máscara nazifascista não me cabe.

No frontispício de Auschwitz I, os judeus que chegavam a esse campo de concentração liam o que parecia uma esperança: “Arbeit macht frei” (“O trabalho liberta“). Era a senha para maus-tratos e morte bárbara.

Nesta página, morrer é não exercitar a palavra, suprimir ideias e tolher o pensamento conflitante. A gente não é obrigado a concordar um com o outro, mas aprendemos desde cedo a respeitar o livre arbítrio e o direito de qualquer um discordar de nós.

Isso é dialética. Sem ela, ainda estaríamos amontoados em cavernas, matando bichos com pedra e paus; apenas subsistindo.

Sem a presunção de Michelangelo diante de seu Moisés, eu pondero que não pares.

É-me significativo lhe adiantar, que não lhe dou ordens. Delego-lhe uma missão. Reproduzo a vontade de milhares de webleitores: “Parla! Parla! Parla!

Se “no princípio era o verbo“, como descreveu o evangelista João, como posso suprimir a criação, a reinvenção e a clarividência do seu pensamento?

Tens direito ao “ócio criativo” orquestrado por Domenico Di Masi, movido apenas pelo diletantismo, cultura e sua inteligência privilegiada. O básico bastaria à sua felicidade, sei.

Contudo, assinalo, nós queremos mais de ti – exemplo de funcionário diferenciado e imprescindível em qualquer corporação.

Recorro a um de nossos ídolos comuns para atestar o reconhecimento de seu esforço e a constatação de suas fragilidades. Posso dimensionar o que é a exaustão, a quase desistência: “Não sois máquinas; homens é que sois!” (Charles Chaplin).

Também já quis parar, caro funcionário. A tentação da desistência é recorrente, como uma mazela recidiva. Se tem cura, não sei. Trato de conviver com ela; domá-la pela paixão.

Escolhe um trabalho de que gostes, e não terás que trabalhar nem um dia na tua vida – proclamou o mestre Confúcio há milhares de anos. Fiz minha escolha. Por isso trabalho tão pouco.

Quase me convenceram a deixar tudo para trás e me ocupar em tarefas menos insalubres, mais rentáveis e que me distanciassem dessa luz, ou daquela centelha que vejo em ti.

Há um brilho incomum em seus textos – por mais amargos que às vezes se revelem. É o brilho dos loucos, de um “maluco beleza” como Raul. Dos que sonham acordados e partilham a utopia de voar, muito superior ao delírio de Ìcaro em seu voo solo fracassado.

Se desabarmos, desabaremos juntos. Por quê?

Porque voamos sincronizados, acreditando que talvez consigamos mais aliados nesse trajeto migratório que pode nos levar da ignorância à sapiência redentora.

Você não está só!

Seu emprego está mantido, caro funcionário. Deixe de moganga; pode voltar ao trabalho.

Carlos Santos – Editor do Blog Carlos Santos

Carta ao “Patrão”

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

“Há tempo para tudo debaixo do sol. Há tempo de escrever; há tempo de calar!”.

Caro “Patrão” Jornalista Carlos Santos,

Por favor, não me “demita” do seu blog. Eu sei que faz tempo que não produzo um texto. Mas, saiba que estou acobertado pela Lei nº 11.770, de 9 de setembro de 2008, que instituiu o programa de empresa cidadã, prorrogando o período de licença maternidade de 120 para 180 dias, ou seja, de quatro para seis meses.

Assim, se levarmos em conta que a minha última “gestação e trabalho de parto” foi exatamente em setembro de 2012, veja que estou dentro do prazo, perfeitamente dentro da Lei. Portanto, só em março de 2013 é que eu teria que produzir mais um filho…

Sim! Meu caro, não tenha dúvida: um texto é como um filho. Muitas vezes, passa nove meses em nossa cabeça – esse útero terrível, como nos ensina Rubem Alves-, pois “Dela tanto pode sair flores e borboletas quanto charcos e escorpiões. De vez em quando ela é invadida pelos demônios das catástrofes e dos horrores”… Outras vezes, a gestação é interrompida e o parto precoce – repleto de contrações e dores-, faz nascer a criança que estava dentro de nós.

Confesso. Admiro sim, quem consegue ter filhos, e escreve como Dipirona: de seis em seis horas. Haja coragem de pagar pensão alimentícia!… Mas não é o meu caso. Talvez por ser cirurgião e também por ser admirador de Nietzsche, só consigo valorizar aquilo que é escrito com sangue, pois sangue é espírito. Imagine, então, caro patrão, se todo dia eu escrevesse, estaria tão anêmico, que nem todas as bolsas de sangue do HEMONORTE restauraria o meu hematócrito… E sem hemoglobina não há oxigênio; sem oxigênio, o filho é um natimorto…

Portanto, desculpe-me o meu egoísmo. Mas, só escrevo quando tenho vontade. Quando a dor é tão intensa que nenhuma morfina é capaz de aliviá-la. Pois ter filhos, caro “patrão”, é doloroso. Escrever é estar doente dos olhos… O prazer da criação e a dor andam juntos, são irmãos gêmeos.

E, por favor, caro “patrão” não me condene pelo meu egoísmo. Até porque se só escrevo para mim é porque escrevo para todos. Como? Aprendi isso com o magnífico Orhan Pamuk, prêmio Nobel de literatura, no seu belo livro “A maleta de meu pai”:

“Para mim, ser escritor é reconhecer as feridas secretas que carregamos; tão secretas que mal temos consciência delas, e explorá-las com paciência, conhecê-las melhor, iluminá-las, apoderar-nos dessas dores e feridas e transformá-las em parte consciente do nosso espírito e da nossa literatura. O escritor fala de coisas que todos sabem, mas não sabem que sabem… Se ele usa suas feridas secretas como ponto de partida, consciente disso ou não, está depositando uma grande fé na humanidade. Minha confiança vem da convicção de que todos os seres humanos são parecidos, que os outros carregam feridas como as minhas.”.

Por isso que Guimarães Rosa tem razão quando diz que cada um de nós tem um grande SERTÃO dentro de si… E é por causa desse sertão, que muitas vezes somos incompreendidos, criticados e ridicularizados, já que ninguém sabe o que se passa dentro de cada escritor, durante a sua gestação.

Então, muitas vezes, querem nos corrigir: “Retire essas reticências todas! Acabe com tantas citações, elas nos cansam!” Ora, caro patrão! Veja que todo filho tem que ser mesmo imperfeito. Se Deus quisesse a perfeição não teria feito tantos ingratos, desonestos, mentirosos, oportunistas, invejosos, sanguessugas, etc. etc. E uma raça pura, sem defeitos, não era o que Hitler preconizava?! Por isso, tenho medo da eugenia!

Além disso, caro “patrão”, é bom lembrar que todo escritor tem as suas manias. Enquanto, Faulkner só escrevia pela manhã; Hemingway escrevia de pé. Já Balzac só escrevia bebendo café; e o que dizer de Schiller que guardava na sua escrivaninha maças podres cujo cheiro o embriagava e o estimulava… Eu, arremedo de escritor, mais para “ladrão de citações”, não poderia ficar para trás.

Veja caro “patrão” – e que fique como um segredo só entre nós-, mas a minha inspiração ocorre nos momentos mais inoportunos: ou quando estou debaixo do chuveiro ou dentro do elevador, rumo a uma reunião importante.

E quantas não foram às vezes que tive de interromper o banho e sair todo ensaboado do box, pegar uma caneta, papel e escrever o que a cabeça começava a parir; ou ainda ter que voltar do estacionamento do meu prédio e sentar em frente ao computador, para escrever… Acho que dentro de mim – já que somos muitos como diz o poeta Manoel de Barros: “Eu sou muitas pessoas destroçadas!”-, tem alguém que não gosta de banhos ou de cumprir horários…

Pois bem! Depois de todas essas explicações, espero que o meu processo de “demissão” seja interrompido e que o meu espaço no seu blog (//blogcarlossantos.com.br/) continue o mesmo. Afinal, qualquer tribunal de trabalho dará ganho de causa ao meu pleito.

E eu sei que embora processos não lhe intimida, já que estás respondendo aos 9.865.489 (nove milhões oitocentos e sessenta e cinco mil quatrocentos e oitenta e nove) processos movidos contra a sua pessoa pela antiga gestão municipal de Mossoró, não seria melhor não aborrecermos a justiça com mais essa pendenga?

Até porque outro dia, logo após assistir ao filme “O terminal”, com Tom Hanks, que conta a história de um viajante que impedido de entrar no EUA, passa a viver dentro de um aeroporto, fui dormir e sonhei com uma versão jerimum caboclo: os oficiais de justiça do país de Mossoró, cansados de levarem intimação para o jornalista Carlos Santos, resolvem fazer um abaixo assinado, pedindo que você passe a morar nas dependências do fórum de justiça, pois assim economizaria o tempo deles e também as árvores da mata amazônica… A cabeça é ou não um útero?!

Ah! E não se esqueça do meu pagamento, afinal não acertamos que a sua amizade era o meu salário?! Então, venha a Natal tomar um café e colocaremos as noticias em dia, ok?

Abs, do seu empregado Edilson Pinto.

 

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor

Carta a Diógenes de Abdera

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

Meu estimado filósofo,

Veja só o que me aconteceu, outro dia. Ao querer imitá-lo – saindo em plena luz do meio dia com uma lanterna, a procura de um homem honesto-, sabe o que me aconteceu?! Fui assaltado: levaram a minha lanterna!… Tudo bem eu sei que foi um típico caso de ladrão que rouba ladrão, afinal não sou mesmo um “ladrão de citações”?

Pois é, meu caro Diógenes, feliz era você, que mesmo convivendo com uma sociedade corrupta, ainda podia sair nas ruas da Grécia antiga, e não ser assaltado. Podia morar num barril, apenas com um alforje, um bastão e uma tigela, e ninguém ousava tirá-las de você. Hoje, com a modernidade, no mundo das conexões rápidas, dos chips, das máquinas, da robótica, o chique é ser desonesto em todos os lugares…

Outro dia, estava em São Paulo, num encontro de medicina e a noite sai para jantar com um amigo. A comida que sobrou, resolvemos colocar numa quentinha e entregar ao primeiro mendigo que encontrássemos. Ao descermos do taxi, havia um deitado, dormindo, debaixo de uma marquise. Coloquei a comida ao seu lado, na esperança de que ao acordar, ele teria algo para comer. Aí um pipoqueiro que estava próximo me alertou: “Senhor, não deixe ai não, pois vão roubá-lo!”.

Foi impossível não me lembrar do seu companheiro de profissão, o filósofo Jean-Yves Leloup e o seu comovente relato, no magnífico livro “O absurdo e a graça”, que conta a vida dele perambulando pelas ruas da França, a procura de paz: “Aconteceu que uma noite não encontrei mais minha mochila, devem tê-la tirado de mim, em um segundo, enquanto eu cochilava.

Isso para mim foi um sofrimento real, eu me havia identificado tanto com aqueles pedaços de frases que sem eles minha vida não tinha mais sentido. Não chorava pelos meus documentos de identidade; chorava pelos meus poemas, chorava também pela miséria, pela injustiça… como é que um pobre pode roubar outro pobre? Não havia um tostão em minha mochila, lá só estava o meu tesouro, o brilho de duas ou três palav ras que, quando juntas, produzem um efeito de música ou de sentido”.

Meu caro Diógenes, toda vez que leio esse relato, confesso que meus olhos ficam marejados de lágrimas. E logo me vem à mente: “Por que o mal existe?”. Difícil essa pergunta, não?! São Tomaz de Aquino talvez tentando respondê-la, dizia:

– Se o mal existe, Deus existe.

E eu não tenho dúvida que todas as pessoas nascem boas, pois como ensinou, recentemente, o grande professor de pediatria, Dr. Heriberto Bezerra: “O jovem é puro… se deteriora no caminhar da vida, às vezes por necessidade ou por fraqueza; ou pelas duas coisas!”.

E quando eu falo em homem desonesto, meu caro Diógenes, nem estou mais só falando daqueles que roubam dinheiro, pois como disse no inicio desta carta: o chique agora é ser desonesto em todos os lugares (até nos tribunais éticos, a corrupção é generalizada)…

Falo daqueles que roubam nossos sonhos, que destroem as velhas amizades, que são desonestos com a sua própria consciência.

Sócrates dizia que uma vida não reflexiva não valia a pena ser vivida. Afinal, temos dentro de nós o maior de todos os juízes – aquele que trabalha dentro de um tribunal, onde não há como recorrer, nem fazer habeas corpus preventivo, nem delação premiada…

Um tribunal cuja sentença é inapelável: a nossa consciência, que nada mais é do que “uma espécie de entidade invisível, que possui vida própria e que independe de nossa razão. É a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e que nos orienta para o caminho do bem”.

Então, meu caro Diógenes, não há nada de errado em fazer as seguintes perguntas: “Estou em um caminho de sucesso? Estou em um caminho de santidade? Ou estou em um caminho de autodestruição?”.

É fundamental responder a essas questões. Qualquer caminho para o índio Don Juan, do escritor Carlos Castaneda, é apenas um caminho. “E não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo. Quando assim ordena o coração (…) olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias… Então, faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma”…

Meu caro Diógenes, como tenho utilizado o meu coração nestes dias.

Fiz – com um profissional que se “queixava” de ser médico (nem um robô seria tão frio! Agradeci a Deus ao sair do exame, por saber que ele não tinha sido meu aluno: menos uma culpa para carregar nas costas)-, até um teste de esforço para avaliá-lo. Tudo isso para poder utilizar esse órgão – que bate muitas vezes descompassado pelas incompreensões, pelas ingratidões, pelas críticas muitas vezes infundadas e motivadas sei lá porque, etc. etc. -, de forma a julgar melhor e perdoar: “Pai, eles não sabem o que fazem!”.

Tenho utilizado esse meu miocárdio, para ver melhor aqueles que um dia idealizei como exemplos de ética e retidão moral e que olhando um pouco mais de perto, não passam daquela imagem sonhada por Nabucodonosor, com os enormes pés de barro, e que basta jogar um pouco de água para eles se transformarem num mar de lama… é preciso olhá-los com o coração, para entendê-los e poder colocar em pratica a caridade, pois sem ela não há salvação!

Portanto, permita-me terminar essa carta, meu caro Diógenes, com a seguinte oração:

– Devemos igualmente amar nossos inimigos. Se ajudei a alguém o melhor que pude e se essa pessoa me ofende da maneira mais ignóbil, possa eu olhar essas pessoas como meus maiores mestres, pois eles nos permitem testar nossa força, nossa tolerância, nosso respeito aos outros… Compaixão e felicidade são a mesma coisa!

Um forte abraço! Até um dia, meu caro Diógenes!

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.

Esse caos também é seu…

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

“Fica decretado que agora vale a verdade. Agora vale a vida, e de mãos dadas, Marcharemos todos pela vida verdadeira” (Estatuto do homem – Thiago de Mello)

Ontem. Dia dos pais. E que presente foi dado a um deles… Um ex-aluno meu, colega de especialidade cirúrgica e também professor de ofício de medicina, Dr. Irami Araújo, saiu de casa, operado de um dente, e foi dar plantão na versão atual e moderna do INFERNO DE DANTE: o Hospital Clóvis Sarinho (HCS).

Hoje. Dia 13 de agosto de 2012. São 16:00h. Acabo de receber um e-mail dele cujo relato, caro leitor, faço questão de colocá-lo na íntegra:

“Houve vários atendimentos de pacientes gravíssimos, que necessitaram de intubação orotraqueal ou cricotiroidostomia; metade das intubações foram realizadas às cegas ou quase, pois estávamos sem aspirador funcionando e sendo feitas no chão, devido a falta de macas altas; Oito/nove ambulâncias do SAMU retidas no pátio, sem condições de saírem, macas presas; e chegando mais; Só havia tubos traqueais 7 ou 9 Fr, ou seja, ou ficava muito frouxo ou muito apertado, dificultand o a intubação dos pacientes graves e a ventilação a posteriori; Não havia dreno de tórax, acreditem, dreno de tórax. Lastimável!!!! Devido ao esforço em intubar pacientes no chão, eis que começo a sangrar pela cirurgia dentária, então literalmente, senti o gosto de sangue, já que o odor do mesmo e de outros excrementos humanos já habitavam meu olfato, desde o início do plantão; Corredores lotados, aliás, não havia mais corredores, eram depósitos de pessoas, os chamados na atualidade de clientes do SUS, pela tão propagada política de humanização da saúde; Com certeza, não eram mais nem clientes ou pacientes, naquela situação, assumiam papel de qualquer ‘coisa’, menos de pessoas que necessitavam de cuidados; Nós, profissionais de saúde, também qualquer ‘coisa’ que vocês queiram imaginar, já estávamos perdendo a batalha, por falta de munição; Dreno de tórax??? Era o de menos… E assim fomos até o raiar do dia, gosto de sangue na boca, cansado, desiludido, sem esperança, abandonado, todos nós, eu, meus colegas e os pacientes… ou qualquer ‘coisa’ que os senhores queiram  denominar”.

Meu Deus! Pensei comigo mesmo, após ler este email: “A sabedoria eclesiástica continua com a sua terrível verdade: NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL!”. E o que é pior, fica a sensação de que teremos que absolver Hitler, já que ele foi muito menos cruel.

Ele pelo menos tinha uma “desculpa”: purificar a humanidade… E qual será a nossa desculpa para mantermos este estado vergonhoso, que diminui, que apequena, que agride, que destrói e que mutila a dignidade da pessoa humana? Até quando manteremos viva a nossa porção Auschwitz-Birkenau? Até quando?

Meu Deus! Será que é tão difícil resolver esta situação? Será que é tão difícil resolver toda essa bagunça criminosa que foi feita ao longo de anos e anos na saúde deste estado? Quantas pessoas terão que morrer a mais, quantos profissionais da saúde terão que adoecer, para a gente pensar em mover-nos da nossa zona de conforto e dizer: BASTA!

Eu sei, caro leitor, que é triste ter que concordar com a célebre frase de Henry Ford: “A guerra dá lucro. Para os banqueiros internacionais, instigar guerras e enviar jovens para a morte é o melhor de todos os negócios”.

No entanto, é mais triste ainda ter que concordar com a lucidez do meu ex-aluno, médico regulador do SAMU Natal, Dr. Carlos Eduardo: “Professor, sabe quando esse caos na saúde do estado vai ser resolvido? Nunca! Pois ele dá dinheiro, professor. O caos dá dinheiro!”.

Não sei se foi a médica Zilda Arns que disse: corte o orçamento pela metade e tenha boas ideias. Mas, o que sei é que se fizéssemos isso – cortar o orçamento pela metade-, pelo menos resolveríamos grande parte de toda essa calamidade.

Primeiro, acabaríamos os escândalos na saúde, pois sem dinheiro sobrando não haveria gatos, nem ratos… Depois, bastaria utilizarmos a lei de Pareto, que diz: “80% das consequências advém de 20% das causas”. E aí 20% das causas se chamam PRIORIDADES: uma central de regulação única de leitos de todo estado, organizando o fluxo dos pacientes; três unidades hospitalares de média complexidade abastecidas e distribuídas no interior do estado para servirem de anteparo ao HCS; valorização dos funcionários que querem trabalhar e demissão dos que não querem… Isso, só isso, já resolveria e muito todo esse caos.

Pois bem, caro leitor! Diferentemente de Nelson Rodrigues que afirmava que em Brasília, éramos todos inocentes e éramos todos cúmplices; neste caos da saúde do RN, só há culpados e só há cúmplices.

De governadores anteriores ao atual, de gestores da saúde anteriores ao atual, toda a população, inclusive eu e você caro leitor, somos TODOS CULPADOS por isso, afinal O ESTADO SOMOS NÓS… e cabe a todos nós, pelo menos fazermos um pacto da mediocridade coletiva: enquanto este caos perdurar, ninguém tem o direito de rir no RN, pois vamos rir de que: da nossa própria miséria, da nossa própria incompetência, do nosso próprio descaso?…

Por último, vale a torcida para que a teoria de Allan Kardec esteja completamente errada, pois se tiver reencarnação, caro leitor, estamos fritos, literalmente fritos e que Deus tenha piedade de todos nós!

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor (estou Coordenador Geral do SAMU Natal).

A aula de amor

Por Francisco Edilson Leite Pinto Junior

À tarde do dia 15/06/2012 ficará marcada para sempre na minha memória. Interessante é que o meu corpo, cansado do plantão noturno, no dia anterior, na Liga contra o Câncer, dizia: “não vá!”. Mas, algo muito maior, ficava sussurrando no meu ouvido e me empurrava literalmente para aquele encontro: “Vá! Saiba que esta será uma oportunidade única. Imperdível!”.

Não sei se foi com Malba Tahan que li que há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra atirada; a palavra dita; o tempo que passou e a ocasião perdida. Então, não poderia perder esta ocasião de estar na companhia de meus três professores de pediatria: Dr. Heriberto Bezerra, Dra. Zélia Fernandes e Dr. Nei Fonseca.

Os dois últimos, juntamente comigo e o jornalista Leonardo, da oficina da notícia, faríamos uma entrevista – que na verdade virou uma verdadeira aula de amor -, com o Prof. Heriberto Bezerra que passara, recentemente, a condição de membro EMÉRITO da Academia de Medicina do RN.

Logo na primeira pergunta que fiz, disse-lhe que iria contar uma história, de pronto o Prof. Heriberto respondeu: “Vamos ver se o peso da idade me permitirá lembrar!”. É: 87 anos, não são 87 dias… Aí surgiu, no canto esquerdo da varanda, uma voz: “Pode deixar que eu estou aqui para lhe ajudar a lembrar de tudo!”. Era a voz, doce e meiga, de D. Maria, esposa do professor Heriberto.

Deu para perceber, então, que entrevistar o Professor Heriberto era também entrevistar a sua companheira de mais de 65 anos, pois ali, havia duas almas num só corpo. Ali, a frase de Nietzsche – “terei o prazer de conversar com ela quando for velho…”- fazia todo o sentido.

Meu Deus! Agradeci por este momento inesquecível! As perguntas iam sendo feitas, mas o meu interesse, era saber quando todo aquele amor tinha começado: “Sempre fui radical”, dizia o professor Heriberto, “ai, participei de uma greve, quando estudante na faculdade de medicina, em Recife, em 1942, contra o professor de patologia que tinha uma didática péssima. Então, após a greve só tive duas escolhas: sair da faculdade ou ir transferido para Salvador”.

Bendita greve! Bendito Professor de patologia e a sua péssima didática, pois foi, na cidade de todos os santos, que o amor brotou. E continua até hoje. Dava para perceber, a alegria estampada nos olhos dos dois a cada revelação, a cada caso contado, a cada história. Era uma verdadeira cumplicidade que o tempo não fora capaz de destruir; é isso mesmo: “O Amor tudo crer, tudo espera, tudo suporta…!”.

E meninos, eu vi! Vi o amor do Dr. Heriberto pela sua profissão (que contagiou os eternos alunos: Dr. Nei Fonseca e a Dra Zélia Fernandes a escolherem a pediatria como especialidade); vi o seu amor pela docência; vi o seu amor pelo seu time de coração, o America; vi o seu amor pela academia de medicina (“Patrimônio das minhas vaidades”, como ele bem disse), mas vi, principalmente, o seu amor pela sua companheira de anos, D. Maria.

É lógico que não poderia sair dali sem saber qual o segredo de tanta paixão e tanto amor, sentimentos tão raros entre os casais hoje em dia. “O segredo?! Acho que foi deixar que ela sempre mandasse em tudo!”, afirmou o velho mestre.  Todos nós rimos: mestre, alunos e a sua amada. E por fim, a grande revelação: “Sou um homem feliz!”. Também pudera: amando e sendo amado, até hoje, não poderia ser diferente.

Chegando ao carro, agradeci a Deus por essa transfusão de energia que tinha recebido. Eu, que depois de duas semanas vivenciando momentos tão difíceis, onde a ingratidão, a incompreensão e a decepção estavam rondando a minha alma, recebia como um bálsamo dos deuses, esta senhora aula sobre a vida, sobre o amor.

É claro que fiz logo um pedido a Deus: “Oxalá, Meu Pai! Permita-me viver com a minha adorada esposa o mesmo tempo! Permita-me que as projeções do estimado professor Carlos Dutra, de que viverei 92 anos estejam certas, mas que só farão sentido se for ao lado da minha amada Viviane!”.

Para quem ainda não sabe, minha Viviane também surgiu de uma forma interessante na minha vida.

Estava iniciando a minha segunda residência, a de oncologia no INCA (Instituto Nacional de Câncer), quando ficou determinado que teríamos também que estagiar nas outras unidades, fora do INCA. Como sempre sou do contra… logo me revoltei, ensaiei até uma greve, mas o bom senso – do meu colega de turma Luciano Luís -, prevaleceu: “Homem, deixe de besteira! Quem sabe lá não vamos aprender mais do que aqui?…”.

E lá vou eu para o Hospital de Oncologia, próximo à rodoviária do Rio de Janeiro. E num domingo ensolarado, tive o primeiro contato com a minha adorada. Ela apareceu no refeitório e eu nunca mais a deixei. Nem poderia! Afinal, Viviane é a minha outra metade que veio me completar. Tem razão Mario Quintana ao dizer: “O amor é quando a gente mora um no outro”.

Viviane é uma verdadeira garrafa de náufrago jogada ao mar, e ao encontrá-la, salvei a mim mesmo. Ela é aquele “anjo lindo que apareceu com olhos de cristal; me enfeitiçou… e meu coração quando está ao seu lado, fica louco de satisfação: solidão nunca mais!”.

Dia 02 de julho de 2012, fará vinte anos do nosso primeiro beijo. E que me perdoem os meus estimados enólogos Prof. Elmano Marques, José de Medeiros Jr., Gilvan Passos e Ivan Brasil, pois não há Cabernet Sauvignon, Pinot Noir, (nenhum Barolo, nenhum Brunello), nada que suplante o aroma e o sabor daquele beijo…

Pois é, meu estimado professor Heriberto Bezerra: muito obrigado por mais uma aula; e a você minha adorada Viviane, muito obrigado: por me fazer conhecer a felicidade! Por me dar o maior tesouro, Lucas! Pelo seu amor, pois é através dele que consigo respirar…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor.

A maior invenção do mundo

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

É óbvio que cada um enxerga com os olhos que têm e a partir de onde os pés pisam. Por ser leitor do Poeta Manoel de Barros também acredito que a melhor forma de se conhecer é fazendo o contrário. Talvez, seja por isso mesmo que muitas vezes sou do contra…

Pois bem! Steve Jobs, antes de morrer, disse que a morte é a maior invenção da vida. Discordo! A maior invenção da vida é mesmo o homem. Com as 75 trilhões de células e um número exorbitante de átomos, o homem é sem dúvida a maior invenção de todos os tempos. Não há iPad, iPhone, computador de última geração, nem as mil e uma utilidades do Bombril… Nada, absolutamente nada, que o suplante. E o mais interessante é que Deus – mesmo com toda a sua onisciência, onipotência e onipresença-, ao criá-lo, precisou colocá-lo no mundo, para saber se ele funcionava.

Sim, meu caro leitor, não tenha dúvida que estamos neste planeta terra para sermos testados, através de provas e expiações. E que me perdoem os órgãos fomentadores de pesquisa, e me permitam dizer que Deus é um grande pesquisador. E mesmo não submetendo a sua obra ao CEP (Comitê de Ética em Pesquisa); não sendo doutor; nem tendo feito teste de proficiência e só tendo uma publicação, que nem era em inglês, mas sim em hebraico… Deus é sim um grande pesquisador.

E no Jardim do Éden, ao alertar-nos dos perigos de comer o fruto proibido, estava Ele iniciando a sua pesquisa: saber quantos anos levarão os homens para compreenderem que o seu destino é amar… Agora entendo por que Drummond tanto se perguntava: “Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? Amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? Sempre, e até de olhos vidrados, amar?”.

Riobaldo, o maior personagem de Guimarães Rosa, sabiamente desconfiava que também fazia parte desta pesquisa: “Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.

Mudando! Mas nem tanto… Ora afinando, ora desafinando. Assim caminha a humanidade. E o mais interessante é que mesmo fazendo o seu Recall (afinal, se a teoria de Allan Kardec tiver mesmo fundamento, a reencarnação nada mais é do que uma forma de tentar reparar os nossos defeitos), o homem continua, vire e mexe, tendo atitudes medíocres.

Inveja, ambição, ingratidão, avareza, ira, gula, soberba etc. etc., tudo isso fazem parte dos nossos defeitos de fábrica… Pois é, caro leitor, a pressa é mesmo inimiga da perfeição.  Conta uma lenda que Deus, querendo povoar rapidamente a terra, começou a fabricar corpos a semelhança de manequins, mas quando chegou à caixa craniana, de muitos exemplares, esqueceu-se de preenchê-la com o amalgama das boas aptidões. Por isso, que é rotineiro, pela falta de miolo, muitos terem o cérebro como um porta-joias vazio… Quem quiser saber mais dessa lenda, leia o livro “O homem medíocre”, do médico argentino José Ingenieros.

Homem medíocre; homem primata. Homem que é a única espécie do mundo que não quer ser ele mesmo. O cachorro que ser cachorro; o gato que ser gato; o pinto que ser pinto, mas o homem não que ser ele mesmo.

E ao querer ser o outro (“Que coisa triste não sabermos o endereço de nossa alma”), começa a ter o mais abominável, de todos os sete pecados capitais, que é a inveja. Sentimento mesquinho de não querer que o outro passe bem. De sempre pensar que o jardim do vizinho é melhor do que o dele; e isso causa uma tristeza infinita, afinal já dizia Napoleão Bonaparte: “A inveja é uma declaração de inferioridade!”.

O invejoso é tão medíocre, e pequeno, que chega ao ponto de contar o número de citações de um texto só para ter o prazer de dizer: “Você não é escritor, mas sim um ladrão de frases!”. Coitado, na sua má-fé cínica, o medíocre invejoso desconhece o que vem a ser a intertextualidade…

Se o homem invejoso é pobre de espírito, mais paupérrimo ainda é o ganancioso e ambicioso, pois vive como Tânatos: sedento e faminto eternamente. Nada o sacia. Sempre querendo mais e mais. Vive correndo atrás de bens materiais e quanto mais tem, mais quer… Coitado! Desconhece – na sua obtusidade de córnea-, que rico é aquele que se contenta com o que tem.

Portanto, na sua santa ignorância, o matuto Riobaldo tinha razão: “O diabo não há! É o que eu digo, se for… existe é homem humano!”. Homens que colocam a justiça no banco dos réus; homens que jogam a política na sarjeta; homens que não se importam que os seus semelhantes estejam morrendo, nos corredores dos hospitais públicos desse país… Homens, demasiados e belamente humanos!

E será, caro leitor, que só há um jeito de consertá-los: o recall? Será que nesta vida atual, não há uma forma de tentar repará-los, ajustá-los, encher os seus “porta-joias” com mais bondade? Claro que há. E aí o Steve Jobs tem razão: a morte é uma grande invenção. A segunda é claro, depois do homem, mas é uma grande invenção.

Sólon, um dos maiores jurista grego, sentenciava que só depois da “morte” é que o homem poderia ser feliz. E aqui, abro um parêntese para dizer que não precisamos desaparecer fisicamente para morrer. Quando dominamos a nossa ambição, quando nos libertarmos da nossa inveja, quando temos consciência da nossa finitude, aí fica fácil de perguntar: “Pra que toda essa luta pelo poder, se daqui a cem anos, caro leitor, nem eu nem você estaremos mais aqui?“.

Amanhã, completarei 46 anos. Segundo Rubem Alves, estarei me desfazendo desse tempo. E a cada novo amanhecer, confesso que agradeço a Deus a vida que tenho; a família a que pertenço; a profissão que abracei.

Agradeço frequentar semanalmente uma grande escola de vida, o Hospital do câncer Dr. Luiz Antônio, pois é ali, na convivência diária com a morte que eu aprendo que a única coisa que vale a pena lutar, com unhas e dentes, é pelo AMOR. Pois só através dele é que poderemos preencher a eternidade…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior é professor, médico e escritor.

Conto de um professor arrependido

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Embora, tendo sido alertado por Fernando Pessoa – de que “Se o coração pudesse pensar, pararia”-, faço essas minhas confissões, com ele, com o coração. Até porque, pouco me importa se ele parar neste momento: estou mesmo no meu fim e, por isso, tenho a lucidez, de quem está morrendo, diante de mim.

Ah! Além da lucidez, tenho também a dor. A difícil e incontrolável dor. Não das metástases, que teimam em ganhar a minha corrente sanguínea, atingindo os meus ossos: não é a dor do meu corpo, tomado de células cancerosas, da minha próstata, que me dói. E sim, a dor da minha alma. E como ela dói. Dói por saber que dos meus 65 anos de vida – quarenta dos quais dedicados ao ensino médico-, não consegui cumprir a minha missão: fracassei como professor.

Dizem os gnósticos que “pecar é errar o alvo”… e eu pequei! Pequei por ensinar aos meus alunos, não o essencial… Ensinei-lhes sobre ressecções e reconstruções; sobre qual a melhor incisão; o melhor fio de sutura a ser empregado em cada tecido, etc. etc., mas, deixei de ensinar-lhes sobre a verdadeira essência da medicina – que é a mesma da vida: “amar o próximo, como a nós mesmos!”

Ah! Quantas não foram às vezes que ao chegar, todo engravatado, cheio de empáfia, adentrando nas enfermarias, parecia mais um deus. Alguém que estava acima do bem e do mal. Um ser infalível e, o que é pior, essencialmente frio. Sem sentimentos e muito menos sem compaixão.

Aí, ficava fácil juntar os residentes e doutorandos, em volta do doente, e nem ao menos lhe perguntar o seu nome; de onde ele vinha; se tinha família; se tinha um emprego; quais eram os seus sonhos… Nada. Absolutamente nada importava, a não ser a sua queixa principal, o seu exame físico, nem sempre minucioso e, principalmente, os seus exames complementares.

Como adorava ficar mostrando todas aquelas películas de tomografia, apontando o lugar da doença e dizendo qual a operação seria realizada… Neste cenário de insensibilidade – entre as rivalidades sublimadas de staffs, residentes e doutorandos-, o paciente limitava-se apenas a exercer o seu papel de ator coadjuvante, onde ter um número do leito e um diagnóstico bastaria…

Meu Deus! Quantas não foram às vezes em que dizia: “Não se envolvam com os pacientes! Mantenham-se distante. O nosso papel é chegar, identificar o ‘erro’, consertar e cair fora”. Por isso, é de se entender que mesmo tendo operado mais de 400 casos, por ano, ao longo de todo esse período, não consigo me lembrar de nenhum rosto, dos meus pacientes.

Nunca cheguei a olhar para eles, como seres humanos. Que pena… Afinal, “os olhos são as portas da alma”. É através deles, que poderemos enxergar a tristeza e a aflição do individuo que sofre pela sua doença.

Diz o Eclesiastes que “o sábio tem olhos, mas o tolo caminha na escuridão”. Então eu me pergunto: “Por que fui tão tolo? Por que fui tão cego? Por que via e não enxergava?” Via órgãos doentes; não enxergava pessoas doentes. E essa minha cegueira foi responsável pela formação de várias e várias gerações de máquinas repetidoras de solicitar exames… Não formei médicos, infelizmente…

Certa vez, o escritor Berkeley disse que o gosto da maçã não estava nem na própria maçã, nem na boca de quem a come. Na verdade, para surgir o gosto, é preciso um contato entre elas – a maçã e a boca. O mesmo acontece na medicina. Sozinhos, médicos e pacientes, nunca serão capazes de degustar o verdadeiro sabor, desta maravilhosa profissão. É na interação entre eles, na relação médico-paciente, respeitosa das identidades e dos respectivos nomes, que poderemos provar o melhor de todos os manjares dos deuses: o amor.

Era por isso, que sentenciou Harold Kushner: “Nenhum de nós conseguirá ser verdadeiramente humano em situação de isolamento. As qualidades que nos fazem humanos só emergem através das maneiras pelas quais nos relacionamos com os outros”. Então, para a pergunta de Drummond -“Que pode uma criatura senão, entre criaturas amar?”-, a resposta é sim! E a medicina é antes de tudo um ato de amor. Pena que só agora percebi isso…

Tinha razão Jung quando escreveu que só o médico doente é capaz de curar. Pois, só quando nos colocamos no lugar daquele que sofre, quando assimilamos todas das suas mais terríveis provações – desde a longa espera nos nossos consultórios, passando pela difícil comunicação de um diagnóstico de câncer até uma cirurgia mutiladora… – é que conseguiremos entender o que é ser médico.

Ah! Se as escolas médicas, deste país, começassem a fazer uma autocrítica dos seus projetos pedagógicos (onde cargas horárias extensas, de matérias puramente tecnicistas, fossem substituídas, por momentos, como muito bem retratado, por Samuel Luke Fildes, que teve a lucidez de colocar o médico, simplesmente, ao lado da criança que estava morrendo, para mostrar-nos que “o sofrimento somente é intolerável quando ninguém cuida”, como disse Cicely Saunders).

Pois bem! É para vocês, meus caros alunos de medicina – que representarão sempre o futuro da nossa profissão-, que escrevo esta minha última lição. Deixo aqui, o relato de quem teve a oportunidade de ter vivido e não viveu. De quem poderia ter amado e ser amado. De quem não soube aproveitar o dom que me foi dado…

P.S. Dedico este texto ao Jornalista Carlos Santos, que como muitos clamam por uma medicina mais humana.

Francisco Edilson Leite Pinto Junior É professor, médico e escritor.

Crises, dores, adversidades?! Oba!

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Caro leitor, não pense que eu sou masoquista. Apesar do título desse artigo e ainda o fato de ter escolhido a saúde e a educação para trabalhar, mesmo assim, me considero um otimista inveterado. Se fico feliz com crises, dores e adversidades é porque considero que somente através delas é que poderemos: crescer, aprender e melhorar como seres humanos.

Zona de conforto, para mim, é igual ao câncer da vida. Aliás, não é só minha esta opinião não. Leonardo Boff tem também a mesma idéia: “As crises fazem pensar; os padecimentos pessoais e coletivos permitem o crescimento”. Demétrio de Falero, o primeiro bibliotecário de Alexandria, também tinha esta receita: “Não há homem mais infeliz do que aquele que nunca passou por adversidades”.

Viver em brancas nuvens, em plácido repouso, faz as pessoas adormecerem. É preciso sentir o frio da desgraça para não ser apenas espectro de homem e passar pela vida e vivê-la. O poeta Francisco Otaviano no seu poema “Desilusões da vida”, nos mostra muito bem isso. Não é à toa, caro leitor, que na China a palavra crise tem dois significados: Perigo e Oportunidade. E é a maneira de como reagiremos a ela, que fará toda a diferença.

Li recentemente no livro “Era uma vez uma empresa”, do escritor Gabriel Garcia de Oro, uma fábula interessante: Um rapaz vivia se lamentando dos seus infortúnios e já estava a ponto de desistir de tudo. Até mesmo de sua vida. Aí surgiu uma velha bruxa (veja caro leitor, nem sempre as bruxas são tão perigosas como parecem…). Ela então chamou o jovem rapaz até a cozinha da sua casa, e lá chegando, encheu três panelas com água e as colocou no fogo.

Na primeira panela, jogou cenouras; na segunda, colocou ovos; na terceira, colocou um punhado de café. Após vinte minutos, apagou o fogo e depositou as cenouras e os ovos num prato e o café numa xícara. Então, pediu ao jovem rapaz desiludido, para se aproximar e tocar nas cenouras e nos ovos. O primeiro estava mole; o segundo estava duro. E o café, ao bebê-lo, disse o rapaz: “está uma delícia!”. Moral da fábula: apesar da adversidade ser a mesma, a água fervente, um ficou mole, o outro endureceu, mas somente um transformou a água em algo extraordinário: o café.

Extraordinária mesmo, caro leitor, é a história desses grandes homens da música clássica: Johann Pachelbel, que após perder a mulher e seu filho contaminados pela peste, fez uma música belíssima que nos emociona até hoje, o seu Cânone; Fréderic Chopin vítima de tuberculose, desde a infância, deixou uma vasta obra musical.

E o que dizer do genial e magnífico Ludwig van Beethoven, que após a perda da mãe, passou a conviver com um pai alcoólatra e aos vinte anos ficou praticamente surdo, a ponto de um dia ter pensado em colocar fim na sua vida, como disse no seu “Testamento de Heiligenstadt”.

A sua Nona sinfonia (Ode à alegria), uma das mais belas músicas da huma nidade, termina com um apelo: “Oh, Amigos! Mudemos o tom; entoemos algo mais prazeroso e alegre!”.

Sim, caro leitor! Precisamos mudar o tom das crises, das dores e das adversidades. Precisamos ter consciência que ostra feliz não produz pérola. E que tem razão, portanto, Sartre ao afirmar: “não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim”.

Vivemos em um país, onde reina a desonestidade aliada a incompetência dos nossos “pseudo-líderes”.

Vivemos momentos de crises, dores e adversidades onde cada vez mais pagamos impostos, anuidades, etc. etc. e vemos este dinheiro todo ser escorrido pelos ralos da corrupção. E o que é pior, onde mais deveria ter honestidade, caráter ilibado, atitudes corretas e princípios éticos são onde menos se tem… Mas se isso acontece, grande parte – ou senão toda- é culpa da nossa inércia, do nosso plácido repouso, do deitado eternamente em berço esplêndido…

É preciso acordar! É preciso se unir! É preciso mudar o tom disso tudo. O perigo que estas pessoas desonestas e incompetentes têm representado ao longo de todos esses anos, tem que virar oportunidade de mudança. E é tão fácil essa mudança. Basta somente um pequeno momento de reflexão, antes de votar, e acompanhar e cobrar, com afinco, que o que foi prometido seja cumprido.

É incrível como a população não percebe a sua força. É o nosso conformismo que encoraja esses desonestos.

Certa vez, um velho mestre, na companhia de seu discípulo, resolveu visitar uma família extremamente pobre – pai, mãe, quatro filhos e dois avôs – que contava com um único bem: uma vaca muito magra cujo leite mal dava para alimentar a todos. Após, passar a noite com esta família pobre, mas hospitaleira, o velho mestre acordou o seu discípulo, ainda de madrugada, e disse: “hora da lição!”.

Saíram os dois da casa, sem fazer barulho, e o velho mestre, sob o olhar atônito do discípulo, degolou a vaca.  O aluno inconformado cobrou do mestre: “que diabo de lição é essa?!”. O velho mestre apenas disse: “vamos para casa!”.

Após um ano, voltaram a visitar a família e o que viram no lugar do velho casebre, foi um a casa grande e luxuosa. O pai, bem vestido, lhes contou que, após a morte da vaca, eles tiveram que mudar o estilo de vida: “a vaca era o nosso sustento; após a sua morte e em dificuldade, tivemos que limpar o quintal, conseguir algumas sementes e plantar. Com o dinheiro das hortaliças vendidas compramos mais sementes…”.

Enfim, a vaca não era o único bem da família, mas sim, a prisão para uma vida de conformismo e mediocridade.

Crises, dores, adversidades?! Oba! Um dia vamos acordar…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor

A síndrome da cadeira II – a saga continua…

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Era uma vez, um homem de bom coração, mas que se deixou levar por sua ambição… Montesquieu alertava que “Um homem não é infeliz porque tem ambições, mas porque elas o devoram”. E esse pobre homem, de bom coração, se deixou devorar pela sua ambição.

De início, não pensou duas vezes em se unir com quem tanto abominava… (É verdade eu sei, que alguns irão defender que, na busca da tão sonhada altura, não há nada demais em se fazer concessões e esquecer os nossos princípios e a nossa consciência – esse juiz implacável que temos dentro de nós).

Porém, a união entre criador e criatura durou pouco. E a lei da física explica: “cargas iguais se repelem!”. Afastado do seu criador, mas não do seu projeto de poder, o pobre homem, de bom coração, chegou aonde sempre sonhou: ser chefe de uma das maiores empresas “vendedoras de sonhos” da Groelândia… mas, se não há um mal que não traga um bem, a recíproca pode também ser duplamente verdadeira: não há um bem que não traga um mal… não foi à t oa que Henry Ford, certa vez, sentenciou: “A ambição do homem é tão grande que para satisfazer uma vontade presente, ele não pensa no mal que dentro em breve daí pode resultar”… E o mal estava por vir, e veio: A SÍNDROME DA CADEIRA!

Abro aqui um parêntese, caro leitor, para falar desta síndrome, que para quem não sabe, foi descrita por um brasileiro, em abril de 2004, e se caracteriza por, ao ocupar a cadeira do poder – essa peça do mobiliário, surgida desde a dinastia egípcia-, o indivíduo passa a apresentar sintomas de cegueira, surdez, amnésia e ambição.

E por que isso acontece? Em geral, as cadeiras têm quatro pés: os da frente, representam a experiência e a ciência; os de trás, são os da consciência e do bom senso. Mas, a cadeira do poder – por vir com defeito de fábrica-, seus pés não estão bem fixados no chão – e o ocupante, ao viver nas alturas, acha que será eterno no cargo. Fecho aqui o parêntese, e volto a nossa história.

Pois bem, o nosso pobre homem, de bom coração, mudou e mudou muito… Primeiro, esqueceu o seu passado: se antes era capaz de “perder tempo” ouvindo a Nona sinfonia de Beethoven, agora só tinha tempo para o barulho dos números, gráficos, planilhas… adorava uma reunião; se antes até pensou em fazer um curso de filosofia, agora só tinha cabeça para metas de cunho administrativo; se antes adorava ler – ficando até feliz quando ganhou dois livros de uma só vez (Hamlet  e  O Mercador de Veneza)-, agora abominava esse hábito, a ponto de viver se vangloriando: “Não tenho tempo livre… isto não é minha prioridade!”.

É uma pena ele t er tomado esse estreito caminho, pois se continuasse no mundo dos livros, “das coisas inúteis”, “das perdas de tempo”, teria tido a oportunidade de se curar, desta terrível síndrome, antes mesmo dela o acometer, apenas lendo o que escreveu Saint-Exupéry: “Trabalhando só pelos bens materiais construímos nós mesmos nossa prisão. Encerramo-nos lá dentro, solitário, com nossa moeda de cinza que não pode ser trocada por coisa alguma que valha a pena viver”…

Depois, o nosso pobre homem, de bom coração, passou a não ver, nem ouvir ninguém. Sua opinião bastava. Não percebia que a sua estratégia, sem atingir o real foco do problema – parecida com a daquele homem que ao saber que estava sendo traído, resolveu retirar o sofá da sala-, só iria agravar ainda mais as finanças da sua empresa. E foi isso que aconteceu: o faturamento de cada sócio passou a ser reduzido à metade.

A empresa, que antes vendia sonhos, passou a “vender pesadelos”, para os seus sócios e clientes. Resultado disso tudo?! Um ano e oito meses depois, havendo nova eleição, o pobre homem, de bom coração, foi destituído do seu cargo. Perdeu o seu prestígio… Teve que abandonar a cadeira do poder… Mas, ficou curado!

A recuperação, a cura, foi tão rápida, que foi perceptível a sua mudança. Se antes estava cego, surdo, ambicioso e esquecendo o passado; agora, estava alegre, sorridente, humilde e extremamente feliz. Tão feliz que, pelo menos uma vez por semana, à tarde, se dava ao luxo de “perder tempo” numa livraria. Ia sozinho, pois os “amigos” da época da cadeira, tinha-o abandonado. Mas, mesmo sozinho ele ia; e era só chegar ao templo sagrado dos livros, para ele correr para as prateleiras e pegar vários deles… Numa tarde, ele se superou. Resolveu pegar três livros de uma só vez.

O primeiro foi “A arte de viver” de Epicteto. Abriu na página 144 e leu: “A melhor reação aos atos condenáveis é ter pena de quem os comete, pois essas pessoas adotaram convicções e princípios doentios e são desprovidos da mais preciosa capacidade humana: a de distinguir o que é realmente bom do que é mau para elas…”.

Nosso homem de bom coração (agora ele não era mais pobre, pois tinha a riqueza dos livros em suas mãos) tomou um gole de cappuccino, riu e pegou o outro livro. Desta vez, foi “Sobre a brevidade da vida” de Sêneca. Abriu na página 39 e leu: “A condição de todos os ocupados é miserável… Enfim, queres saber quão pouco vivem os ocupados? Vê como desejam viver longamente. Procuram parecer menos idosos e lisonjeiam-se com mentiras e encontram tanto prazer em enganar a si próprios, que é como se enganassem junto o destino.

Mas, quando uma enfermidade qualquer adverte-os de que são mortais, morrem tomados de pavor… ficam gritando que foram tolos em não viver e que se por acaso escaparem da doença, haverão de viver no ócio”.

Por fim, ele pegou o seu autor preferido, Mário Quintana, e leu três belos poemas: “A amizade é um amor que nunca morre;/ O amor só é lindo, quando encontramos alguém que nos transforme no melhor que podemos ser;/ A felicidade é um sentimento simples; você pode encontrá-la e deixá-la ir embora, por não perceber a sua simplicidade”.

Com os olhos marejados de lágrimas, o nosso homem de bom coração, à semelhança do personagem Raskólnikov de “Crime e Castigo”, de Dostoievski, sentiu, naquele momento, a verdadeira felicidade da vida… E enxugando as lágrimas de seu rosto, pagou a conta, foi para casa e viveu em paz com a sua família: seu maior patrimônio.

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – professor, médico e escritor

O mundo como representação

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Posso está completamente equivocado, mas não concordo – (quanta audácia minha, não é mesmo caro leitor?!)-, quando Platão afirma, no seu livro X da República, que os poetas e os pintores são imitadores e – através dessa “brincadeira sem seriedade” – fazem uma cópia infiel e mal feita da realidade. Uma cidade justa, para o discípulo de Sócrates, seria uma cidade sem poetas e pintores.

Ora, como imaginar uma cidade sem esses imitadores… Afinal, o mundo inteiro não é mesmo um palco e todos os homens e mulheres apenas atores, como alertava Shakespeare?! Por isso que Fernando Pessoa, na sua Tabacaria, quando quis tirar a máscara, percebeu que ela estava pregada à cara…

Pois bem, caro leitor, o mundo é que imita a arte. Se já tinha certeza desta afirmação, depois de dois momentos que vivi, recentemente, vi que isto era a pura verdade: o mundo é que imita a arte.

Como professor de medicina e arte, de duas escolas médicas do estado, tenho como atividade de classe sessões de cinema. Dois filmes que fazem parte deste repertório, e que recomendo a todos, são: “O clube do imperador” e “Sociedade dos poetas mortos”. Ambos os filmes têm o ensino como foco principal.

O primeiro conta a história – (sim, com “H” mesmo, afinal a estória nunca quer ser estória, como dizia Guimarães Rosa e o mundo não é um palco?) – do professor William Hundert (Kevin Kline), da escola St. Benedict’s, de rapazes abastados dos EUA. O professor Hundert ensina sobre ética, moral, que “o caráter de um homem é o seu destino” e mesmo assim, não consegue demover um dos seus ricos alunos, Sedgewick Bell, filho de um senador americano, a entrar no caminho certo e mesmo tendo-o colocado no final de um concurso (Senhor Júlio César) sobre Roma antiga, este trai a confiança do professor e tenta ganhar o primeiro lugar trapaceando e colando.

Para Sedgewick Bell, o importante é vencer, não importa como…

O segundo filme, talvez mais conhecido de todos, tem como professor John Keating (representado pelo excepcional Robin Williams), que tenta ensinar aos seus alunos o valor da famosa frase do poeta Horácio: Carpem Diem (“Aproveitem o momento”). Uma das cenas mais emocionantes, que nos leva às lágrimas, é quando o professor Keating, pede a seu aluno, Todd Andersen, para fazer uma poesia e este, tímido e inseguro, com o ajuda do seu professor e da foto do poeta Walt Whitman, faz um belíssimo poema de improviso.

Veja caro leitor, como o mundo é uma representação e é ele quem imita a arte…

Eu, nestas quase duas décadas de magistério, já tive momentos de William Hundert e John Keating. No início do ano, descobri o meu Sedgewick Bell: alguém em quem tive todas as considerações; em quem apostei; em quem dei apoio e ajuda e o que recebi foi uma grande traição… O Sedgewick Bell, do meu mundo real, conseguiu o que queria: chegou ao topo, ao ápice, ao poder máximo, mas como um Átila, não se importou em destruir uma amizade de anos…

Recentemente, vivi o outro lado: descobri o meu Todd Andersen. E o dia 10 de agosto de 2011 ficará sempre na minha memória. Estava dando aula, quando passei a cena marcante do filme “Sociedade dos poetas mortos”. Logo depois, pedi que um dos alunos se dirigisse a frente e fizesse um poema de improviso. Então, como no cinema, o aluno Daniel Brito, do quarto período do curso de medicina da UnP, começou a declamar a sua obra, chamada MEDICINA E ARTE:

“Quero um pouco do seu tempo, Pois tenho que te falar, Que antes não via motivo, Pra esta ‘matéria’ cursar. / Quando olhei para o currículo, E vi Medicina e Arte, Pensei: isso é ridículo! Não devia fazer parte./ Entrei no curso com essa idéia, E dela não me livrei. Mas em uma reflexão, Certa verdade enxerguei/ Para a cura do corpo ser alcançada, Lanço mão de uma medicina avançada. Mas e se a alma adoecer? O que o cirurgião vai fazer? E se um vazio envolver o sentimento? Tecnologia médica dispõe de tratamento?

Uma siringomielia, Eu trato com cirurgia. Mas tristeza e solidão, Não se curam com injeção. /Pois foi nessa ocasião, Que eu cheguei à conclusão: Se é a alma que tem dor, Eu só curo com amor./ A arte traz alegria. A medicina traz esperança. Talvez se eu juntar os dois, Por onde eu passar depois, Eu deixe boa lembrança.

Muitas vezes o amor, Se traduz em sorriso e carinho. E de uma coisa não há dúvida: Medicina e arte é um caminho. Agora, dessa arte, quero fazer parte. E ainda te digo professor, Que breve estarei com o senhor, No nobre projeto AMARTE.”

Caro leitor, confesso que chorei. Percebi, mais uma vez, que o Professor, assim como um Sísifo, pode ser feliz… Que Guimarães Rosa tinha razão ao perceber que ela, a felicidade, ocorre em raros momentos de distração. E eu que andava tão distraído, ultimamente, de repente, me vi, no teatro da vida, representando o meu melhor personagem: o de ser professor.

Saint- Exupéry, quando se vestiu de príncipe para representar o seu pequeno personagem, disse: “O que torna belo um deserto é que ele esconde um poço em algum lugar”.

Agora, vestido de escritor e imitador, ladrão de frases, como certa vez fui acusado, lhe digo, caro leitor: O que torna belo uma sala de aula é que ela esconde Sedgewick Bell’s e Todd Andersen’s em algum lugar. E é através dessa diferença entre a ingratidão e a amizade, entre o desrespeito e o respeito, entre a indiferença e o amor, é que eu encontrarei sempre o sentido desta minha existência.

Luz, Câmera, Ação! Vamos em frente, pois vida é movimento e imitação também…

Francisco Edilson Leite Pinto Junior – Professor, médico e escritor