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A “Geni” das profissões

Por Marcos Araújo

Embora seja uma das mais antigas e consideradas profissões, nenhuma outra mostrou-se tão polêmica ao longo dos tempos quanto a advocacia. A história registra momentos de alternância entre prestígio e perseguição aos advogados. Enaltecida ou execrada, conforme a época e as circunstâncias, a advocacia foi chamada por Marco Túlio Cícero como um “nobre e régio labor”, e por Robespierre “o amparo da inocência”.advocacia

Pouco tempo depois da Revolução Francesa, Napoleão Bonaparte passou a perseguir os causídicos, costumando dizer, no melhor estilo de sua formação militar e autoritária, que “os juízes distorcem a lei e os advogados a matam”. Frederico II, da Prússia, pretendeu abolir a profissão em seu país, o que, evidentemente, não conseguiu.

Francisco Petrarca, célebre poeta medieval italiano, disse não pretender advogar para não seguir uma carreira que não deixava alternativa entre “ser desonesto ou parecer ignorante”.  De Santo Ivo, ilustre patrono da classe, advogado dos humildes e miseráveis, a quem defendia sem nada cobrar, costumava dizer-se: “Santo Ivo era bretão, Advogado, honesto, não ladrão Coisa de admiração!”.

A literatura saxônica guarda páginas desalentosas sobre os advogados, tendo o bardo Shakespeare escrito uma frase reativa à categoria: “A primeira coisa que devemos fazer é matar os advogados” (Henrique VI, Ato IV, cena 11).  Outro blague vem num insólito diálogo entre Hamlet e Horácio, perante o crânio anônimo, perfazendo um insulto ao perguntar: “Não será porventura a caveira de um advogado? Onde estão agora as suas cavilações, os seus sofismas, o seu casuísmo, as suas usurpações e as suas trapaças?” (Ato V. Cena I).

Em que pese as críticas, os valores humanitários mais defendidos, como democracia, liberdade e dignidade, são contribuições de célebres advogados. Em memória mais próxima, cabe lembrar os americanos Thomas Jefferson, George Washington, Abraham Lincoln; e na história brasileira José Bonifácio, Rui Barbosa, Sobral Pinto, Affonso Arinos, Raymundo Faoro, Seabra Fagundes.

No Brasil, a execração de advogados criminalistas é prática comum, associando-os equivocadamente aos seus clientes. O célebre Evaristo de Morais Filho foi muito atacado por ter defendido o presidente Collor;  Roberto Podval foi ameaçado, por ter aceito a defesa do casal Nardone; Márcio Thomaz Bastos morreu com a indevida pecha de ter defendido Carlinhos Cachoeira…

Nada mais perigoso para o Estado de Direito do que o vilipêndio aos profissionais que estão nas trincheiras da democracia, garantindo o direito de defesa dos acusados. Embora odiando advogados, Moro e Joaquim Barbosa se inscreveram na Ordem dos Advogados, o que parece ser um paradoxo… Aos que defenestram a advocacia, lembro Carnelutti, “a essência, a dificuldade, a nobreza da advocacia é esta: sentar-se sobre o último degrau da escada, ao lado do acusado, quando todos o apontam”.

Como a “Geni” descrita por Chico Buarque, apesar de enxovalhado por muitos, ao advogado cabe “defender a cidade do Comandante do Zepelim gigante”, atendendo aos contritos pedidos feitos pelo “prefeito de joelhos, bispo de olhos vermelhos, e o banqueiro com um milhão”. Após a sua dedicação, e já afastada a ameaça, volta-se contra ele a turba a desferir-lhe impropérios de desvalia.

Tenha você, advogada e advogado, orgulho da sua profissão. Ave, advocati!

Marcos Araújo é professor e advogado

Prosa do domingo

Por François Silvestre (O Novo Jornal)

Comparação infeliz.

Um programa de televisão, canal fechado, do jornalista Lucas Mendes, discutiu com um brasilianista a respeito de um recém-publicado ensaio que trata de comparações entre o Brasil e os Estados Unidos. Numa intervenção do apresentador, ele pergunta ao ensaísta onde foi que nós pisamos na bola e perdemos a capacidade de evoluir da mesma forma que evoluíram os americanos do Norte.

Saíram dessa questão várias interpretações.

Numa delas, disse um dos jornalistas do programa que a diferença principal se dera porque “enquanto os fazendeiros americanos estavam lendo Montesquieu, os brasileiros latifundiários estavam engravidando as escravas”.

Pincei essa assertiva, para evidenciar que tais comparações acabam em pilhérias ou conclusões pueris.

Os fazendeiros americanos que liam os clássicos da literatura eram pouquíssimos, até porque esses não eram fazendeiros profissionais; muito mais políticos ou empresários. Exemplo típico dessa espécie de “fazendeiro ilustrado” é o General George Washington, líder da guerra de independência e primeiro Presidente do novo país.

Possuía um latifúndio no Estado do Kentucky; nem por isso pode ser chamado de fazendeiro.

Os latifundiários brasileiros eram, na sua quase totalidade, arbitrários e desumanos. E não para engravidar escravas, mas estuprá-las. A gravidez era um resultado indesejado, que dava em aborto ou assassinato da mãe.

Lá, na América, não era diferente. Era pior. As diferenças da evolução civilizatória e econômica entre Estados Unidos e Brasil são tantas e tão variadas que ninguém será capaz de esmiuçá-las com certeza probatória. Uma coisa é certa: Nenhuma diferença fundamental nasce do acaso.

Há causas históricas ou antropológicas que esclarecem ou apontam uma explicação.

A independência americana se dá em 1776, numa guerra que trazia a marca de uma revolução. Derrotada a corte, a colônia assumiu seu destino. Não ficou ninguém da Inglaterra tutelando o país nascente.

No Brasil, a independência, em 1822, foi um acerto entre corte e colônia, quatro décadas após a independência americana. E o Brasil continuou sob o domínio da Casa de Bragança. Pelo filho e neto do Rei de Portugal.

Dominação que foi de 1822 a 1889. Mais de um Século depois da República americana.

Sem falar na diferença entre as cortes que dominaram americanos e brasileiros. A Inglaterra lutou contra Napoleão e o derrotou. Portugal fugiu de Napoleão e entregou-se, como concubina, ao poderio inglês. O que fez do Brasil ser colônia de outra colônia. Repetição; pois já fora colônia de Portugal durante a dominação espanhola, quando a Espanha anexou a pátria lusitana ao seu domínio de 1580 a 1640.

Sem revisitar as origens fica difícil compreender os resultados da contemporaneidade.

Retroceder no tempo significa ir buscar as fibras mais simples que compõem o organismo mais complexo.

Té mais.

François Silvestre é escritor e cronista