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O Golbery do Paraguai

Heleno: o general (Foto: Sérgio Lima)

Por François Silvestre

Começo pedindo desculpas ao Paraguai. Deveria dizer, o Golbery do Brasil de hoje. A quem me refiro? Ao general Heleno, esse velhinho aparentemente suave, que era chefe de gabinete do Sílvio Frota, que foi defenestrado por Ernesto Geisel, ao tentar um golpe para evitar a distensão lenta e gradual proposta por Golbery do Couto e Silva e encampada pelo general presidente Geisel.

O aparentemente suave é uma cilada. O general Heleno é tudo, menos suave. Se pudesse já teria fechado o Supremo e o Congresso. É um fascista de carteirinha.

Golbery criou e chefiou o Serviço Nacional de Informação (SNI), que tinha a função de chafurdar a vida das pessoas; mandar investigar, prender, exilar, torturar e matar. Um dia, meio entre remorso e medo, ele declarou: “Criei um monstro”.

Pois bem. Seu sucessor de hoje é o general Heleno, de cujo primeiro nome esqueço, e o o antigo SNI virou Agência Brasileira de Inteligência (ABIN). Agência Brasileira de Inteligência. Que é agência, não se discute. Que é brasileira, também não. Mas, inteligência? Kkkkkkkkkkkk. Tão inteligente esse órgão que qualquer revista das que circulam por aí, consegue saber o que esses espiões do Heleno tramam. Bando de cagões.

Agora vazou uma atribuição do órgão que nem o 007 imaginaria. Inteligência para corrupção. Pois foi. Um trabalho minucioso para ajudar na defesa do senador Flávio Bolsonaro, aquele da corrupção do esquema Bolso Queiroz.

Os auditores do fisco federal declararam, numa nota, que é o maior escândalo dos novos tempos. Taí um trecho da nota:

“Se não bastasse a gravidade de se ter uma agência de inteligência mobilizada para defender o filho do presidente da República, acusado de atos ilícitos, como a “rachadinha” na Alerj, não se pode admitir que um órgão de governo busque interferir num órgão de Estado, protegido pela Constituição Federal, sugerindo afastamentos de servidores públicos”…

Leia também: Abin não fez relatórios para Flávio Bolsonaro; defesa confirma documentos.

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Um dia para esquecer

Por Paulo Linhares

Hoje, 04 de abril de 2017, 09h. Começo a escrever estas linhas despretensiosas quando tem início um dos principais julgamentos da história judiciária do Brasil. Sim, no Superior Tribunal Eleitoral, em Brasília, a sessão inicial de julgamento pelo plenário daquela Corte, das ações  propostas pelo PSDB após a eleição presidencial de 2014 (Ação de Impugnação de Mandato Eletivo 761/Representação 846 – Ações de Investigação Judicial Eleitoral 154781 e 194358), em que pede a cassação da chapa Dilma-Temer por abuso de poder econômico e recebimento de propinas, todas juntas num só feito processual cujo relator é o ministro Herman Benjamim.

Grave é que nesse meio-tempo em que “o mundo gira e a Lusitana roda”, Temer e seu PMDB empalmaram o comando do governo da Republica, tendo o PSDB do senador Aécio Neves como seu parceiro político preferencial a ocupar quatro ministérios importantes e outros postos estratégicos da máquina administrativa federal.

Segundo o El País, edição brasileira de 04/04/2017, “O que parecia ser uma estratégia para inicialmente desgastar a presidenta Dilma voltou como bumerangue não só contra o Governo Temer, mas também contra o PSDB e seu líder, o senador mineiro Aécio Neves. A expectativa em Brasília é que Benjamin recomende a cassação da chapa, o que tem potencial para atingir o próprio autor da ação.”

Os riscos de uma cassação da chapa Dilma/Temer são grandes. Para Dilma que, ao menos nesta quadra já está ‘morta’, pouco se altera, a não ser pela possibilidade da suspensão de seus direitos políticos por 8 anos; com Temer, todavia, o estrago será enorme, sobretudo, pela previsão constitucional da realização de uma eleição indireta, no Congresso Nacional, para um novo presidente da República concluir o atual mandato.

De princípio, ressaem duas questões jurídicas relevantes: as contas da chapa Dilma/Temer já foram aprovadas pelo TSE; e, a tese da separação  da chapa – para incriminar Dilma e livrar Temer, claro – contraria a jurisprudência reiterada desse Tribunal, em especial quando se levar em conta que todos os seus sete ministros já relataram processos nos quais a separação da chapa entre o titular (geralmente, candidatos a prefeito ou governador) e o seu vice respectivo não pode ocorrer.

Julgar diferentemente, agora, será uma ruptura jurisprudencial tão drástica que exporá gravemente o TSE e lançará uma poderosa sombra que comprometerá indelevelmente a idoneidade moral de seus membros, no implacável pretório da História.

Em matéria de contradição, os tucanos estão em palpos de (venenosa) aranha, se defenderem a permanência de Temer,  a tirar pelo que disseram em duríssimo trecho de uma das suas petições: “A eleição presidencial de 2014 (…) revelou-se manchada de forma indelével pelo abuso de poder, tanto político quanto econômico, praticados em proveito dos primeiros réus, Dilma Vana Rousseff e Michel Miguel Elias Temer Lulia”.

Defenestrada da presidência Dilma Rousseff e desbaratado o esquema de poder petista, eis que o PSDB muda de opinião nas razões finais apresentadas nos mesmos processos, desavergonhadamente, ao reconhecer que “ao cabo da instrução destes processos não se constatou em nenhum momento o envolvimento do segundo representado [Temer] em qualquer prática ilícita”, porém, “já em relação à primeira representada [Dilma Rousseff], há comprovação cabal de sua responsabilidade pelos abusos ocorridos”.

Engraçado é que, das delações que agora compõem as 8 mil paginas dos autos processuais, o senador mineiro Aécio Neves, além de outros próceres tucanos, é citado como recebedor de gordas propinas (veja a capa da Veja, de 05/04/2017), o mesmo ocorrendo com Temer e muitos dos seus correligionários peemedebistas.

A infâmia manifesta e o desdém pelas instituições republicanas são evidentes nesse julgamento que promete ser uma das maiores farsas da história judiciária do Brasil, mormente se houver a separação da chapa Dilma/Temer, na contramão da jurisprudência uniforme do TSE. A única saída racional para mais essa crise que se avizinha é uma decisão que fulmine a pretensão do PSDB, com a improcedência da ação.

Assim, para o bem ou para o mal, Michel Temer terminaria o mandato iniciado em janeiro de 2015, restando-nos a esperança de resgatar, em 2018, o Estado Democrático de Direito que soçobrou com o golpe branco que confiscou o mandato presidencial de Dilma Rousseff.

Por  paradoxal que pareça, nada é tão salutar à nossa enfermiça democracia tupiniquim, que vive mais um piripaque na sua sina de alternadas “sístoles e diástoles”, segundo o dito de Golbery do Couto e Silva. Neste momento, um  Brasil já de tantas rachaduras, não suportaria mais outros solavancos sem se estraçalhar de vez.

São 12:00h, do mesmo dia 4 de abril. Uma série de incidentes terminaram por adiar o julgamento tão esperado. O TSE resolveu reabrir a instrução e ouvir mais quatro pessoas, sob protesto do relator, Herman Benjamim que, diante da possibilidade da oitiva de um número indefinido de novos depoentes, num gesto entre dramático e cômico assinalou:

Se vai ouvir doleiros porque não ouvir também os motoqueiros, o porteiro do prédio, o garçom do inferninho onde o dinheiro foi entregue (…) Não podemos transformar esse processo num processo sem fim. Não podemos intimar Adão e Eva e provavelmente a serpente“…

Tudo parte dessa novela chamada Brasil.

Aguardemos os próximos capítulos.

Paulo Linhares é professor e advogado

O problema é a infraestrutura

Por Tomislav R. Femenick

Lendo as notícias econômicas sobre o Rio Grande do Norte nos jornais das últimas semanas, lembrei-me do general Golbery do Couto e Silva. Ele é conhecido como o teórico do golpe militar de 1964, formulador da doutrina de segurança nacional, criador do famigerado SNI, chefe da Casa Civil no governo Geisel e, também, como o idealizador da abertura política que deu fim ao ciclo dos presidentes militares, posicionando-se contra a linha dura e conduzindo o processo da reforma de 1979.

Porém pouco se fala de sua passagem pela iniciativa privada, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, quando foi presidente da subsidiada brasileira do grupo norte-americano The Dow Chemical que, entre outras atuações, era sócio do antigo Banco Cidade de São Paulo.

Em 1972, levado pelo meu amigo José Vasconcelos de Alencar que era diretor do banco, foi trabalhar como assistente de sua diretoria. Uma das minhas primeiras tarefas foi preparar um estudo de viabilidade econômica para um empreendimento industrial na Bahia, no qual a instituição financeira deveria participar como sócia e financiadora.

Os estudos mostraram que na concepção fabril o projeto baiano era bom. Havia matéria-prima, os custos de produção seriam compatíveis, os lucros seriam suficientes para pagar os encargos financeiros e remunerar os investidores em níveis satisfatórios. Só que as estradas que levariam as matérias-primas até a fábrica eram ruins e, embora existisse uma boa estrada ligando a fábrica ao porto, este não possuía condições de armazenamento e embarque com um suficiente grau de segurança nos períodos de chuva.

Opinei contra o projeto, caso as condições viárias não fossem alteradas. Alguns diretores aceitaram meus argumentos.

Outros acharam que a minha análise tinha “preciosismo de mais”. Valeu o despacho do general: “Não há como contornar problemas de infraestrutura”.

Voltando ao presente. O grande problema do nosso Estado é justamente este: a nossa infraestrutura é um grave entrave para o crescimento econômico. Vejamos alguns exemplos. Produzimos energia eólica e não a aproveitamos por falta de linhas de transmissão que liguem as fontes produtoras ao consumo, linhas essas de responsabilidade da estatal Chesf, que promete entregá-las desde 2011 e agora adiou para meados do próximo ano. Por causa disso o Rio Grande do Norte – que já foi líder no setor – não conseguiu negociar nenhum dos 71 projetos apresentados no último leilão promovido pelo governo federal.

Outro caso emblemático é porto de Natal. Pequeno, com pouca profundidade, sem câmaras frigoríficas, localizado perto de uma ponte sem as devidas defesas dos pilares de sustentação e, ainda, com acesso por ruas estritas. Resultado, grande parte de nossas exportações de minérios e frutas estão sendo realizadas pelos portos do Ceará, Paraíba e Pernambuco.

O aeroporto de São Gonçalo, cujo projeto inicial era mais ambicioso, vai apenas substituir o de Parnamirim, principalmente no atendimento a passageiros, quando poderia ser um complexo aeroportuário intermodal, com ramificações para transporte de cargas, que daqui partem ou que aqui chegam, inclusive por outras vias – rodoviária, ferroviária e mesmo marítima –, interligando-o a outros pontos do Nordeste. Por sua vez, os projetos das Zonas de Processamento de Exportações (ZPE’s) de Macaíba e Assu patinam e não saem do papel.

Tudo isso é um cesto de problemas de infraestrutura, cujo reflexo é menos emprego, renda e tributos. Resultado: o agravamento do empobrecimento do nosso Estado.

Tomislav R. Femenick é mestre em Economia e contador