Arquivo da tag: Igreja de São Vicente

Marcos era um anjo

Por Jânio Rêgo

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Marcos Porto fez uma nesga de dois metros para a boca de sino da calça jeans. Isso mesmo. Marcos era um exagerado.

Quando ele montou na moto cinquentinha lá defronte à casa dele, na lateral esquerda dessa Capela de São Vicente, sob os olhares de grande parte dos cangaceiros do Patamar, o tecido cobriu os pneus, manivela, corrente, mas ele acionou o pedal, acelerou e tomou o rumo sabe Deus de onde.

Marcos depois virou Menino Jesus em procissão da Catedral. Sempre foi performático e criativo.

Ousado, sem limites convencionais.

Uma vez devoramos uma caixa inteira de chocolates Sonho de Valsa debitada na Cooperativa Popular, na conta dos nossos pais. Eu angustiado com culpas, ele se divertindo com leveza de um anjo.

Marcos era um anjo.

Memórias da São Vicente que você não admite. Mas são reais.

Jânio Rêgo é jornalista

A “Igrejinha do fundo redondo”

Por Jânio Rêgo

Igreja de São Vicente, no Centro de Mossoró (Foto: do autor)
Igreja de São Vicente, no Centro de Mossoró (Foto: do autor)

“Igrejinha do fundo redondo” de onde partiram os principais disparos da peleja do povo da cidade do Mossoró com o bando de Lampião.

Essa história é contada em prosa e verso e em espetáculo teatral exibido no patamar defronte à porta principal, todo mês de junho, exatamente dia 13, dia do Santo Antônio que por conta disso praticamente se tornou a entidade mais reverenciada no templo do que o próprio padroeiro, São Vicente de Paula, com direito a novenário e nicho especial no altar.

Foi ele o protetor, o que guiou a mira do fuzil do atirador que acertou Colchete e logo em seguida Jararaca que foi conferir o corpo do colega.

Colchete morreu na hora. Jararaca, preso, foi executado à beira da cova.

Seu túmulo, no Cemitério São Sebastião, é hoje motivo de curiosidade e adoração mística nos dias de finados.

Tínhamos orgulho dos nossos antepassados mossoroenses que se organizaram para defender a cidade. O atirador da torre ainda era vivo quando minha geração jogava “pelada” no patamar. Era um velho silencioso e sistemático que todas as noites sentava-se na calçada de sua casa para tomar a fresca do vento Nordeste, como faziam todos naquele tempo.

Mas, também admirávamos, confesso, o cangaço, os cangaceiros, como todo nordestino influenciado pela “cultura da valentia” que nada mais é que um brutal instinto telúrico de violência que infelizmente ainda paira sobre o Brasil.

Jânio Rêgo é jornalista

Memórias da República Livre do Patamar da São Vicente

Por Jânio Rego

Tela do artista Laércio Eugênio, colocando em evidência a Igreja de São Vicente em Mossoró
Tela do artista Laércio Eugênio, colocando em evidência a Igreja de São Vicente em Mossoró

Como era o nome dele? Trabalhava na loja de peças de Yoyô Almeida. A memória turvou o nome do personagem da infância mas fixou a cena que compartilhei com Marcilio C. Nascimento.

Depois do almoço ele passava no rumo do bairro da Paraíba, morava por trás da capela de São Vicente. Quando passava, os meninos já estavam sentados na sombra das castanholas da calçada de Dona Helena, conversando, chupando picolé de creme holandês, preparando alguma aventura pelos arredores.

A rua Francisco Ramalho vazia, o patamar da igreja torrando ao sol . Como era o nome dele? Falava com eles, até parava um pouco, e caminhava sem pressa de empregado do comércio, quando à altura da casa de Pedro Borges acendia um invariável cigarro, tão forte que sentíamos o cheiro até ele dobrar a esquina.

Como era o nome dele?

Além de lembrar de ‘Edson Panqueca’, Marcilio lembrou detalhes da família e do destino dele, e ainda me trouxe ao telefone, para falar comigo, ao vivo, mais três personagens da minha vida mossoroense: Francisco Moreira, Marcos Medeiros e Ricardo Benjamim.

Foi um presente de fim de ano.

Boas festas.

Jânio Rêgo é jornalista

Mossoró, meu amor

Capela de São Vicente no centro da cidade (Foto: autoria não identificada)
Capela de São Vicente no centro da cidade (Foto: autoria não identificamos. O autor nos contacte)

Hoje, quarta-feira, 15 de março de 2023, Mossoró faz 171 anos de emancipação política.

Nesta foto eu rendo minhas homenagens ao lugar que melhor traduz minha identificação com a terra em que nasci: a Igreja de São Vicente, coração da cidade.

E minha ligação com ela não é por empatia religiosa ou força histórica, mas de bem-querer derivado da infância, como marco de um tempo. É aquela relação de afeto que carregamos para sempre. Jamais será o abismo que olha para mim, mas uma luz que não cessa a me guiar.

Sou ainda o menino capaz de circundar a velha igreja e apressar o passo por seu patamar (ou adro, mais elegante), como se fosse engrossar as pernas de talo de coentro e voltar no tempo. Nem uma coisa nem outra. Fracasso nas duas missões.

Na memória estou sempre me esgueirando das missas dominicais sem que dona Maura controle, porque confia que o Espírito Santo Paráclito possa cuidar de mim ao seu leve descuido. Tem sido assim.

Capiau que não consegue ser universal, mesmo pintando a própria aldeia há várias décadas, diante de seu pórtico frontal levanto os olhos para espiar seu cume… aquela torre inexpugnável de 1927. Isso, para depois fazer o sinal da cruz e sussurrar, só para Ele, as graças de sempre.

A ideia, já li por aí, “é morrer jovem o mais tarde possível“.

Que seja aqui mesmo, Mossoró.

Meu amor, feliz aniversário.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e YouTube AQUI.