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Voa, minha passarinha, voa…

Bárbara de Medeiros fotografada atrás da janela por Diogo Mizael, seu irmão, no Canadá, Julho de 2021Por Honório de Medeiros

Quando nossa filha finalmente chegou em Montreal com o esposo e seus poucos vinte e três anos, depois de uma longa e cansativa viagem, lá a esperava seu irmão, hoje praticamente cidadão canadense.

Mas não foi possível abraça-lo, até mesmo vê-lo.

Cumprindo as regras impostas para o combate contra a pandemia, primeiro foi confinada, por três dias, em um hotel determinado pelo Governo. Exame de saúde feito, resultado favorável, mudou-se para o apartamento do irmão, que o desocupara, para novo período de confinamento, dessa vez por doze dias.

Impossibilitados de se abraçarem, conversarem, o irmão não hesitou: combinaram postarem-se defronte à janela do apartamento, um dentro e o outro fora, ela afastou a cortina, sorriu, acenaram um para o outro, beijos foram enviados, e o instante foi registrado.

Muito foi dito ali naquele momento, sem uma palavra sequer, e a escrita não consegue expressar!

Se isso não é amor, eu não sei o que isso é.

Voa, minha passarinha, voa…

* O irmão escreveu, abaixo da imagem:

They say:

There is always behind a window

You just need to open it

And I can’t wait for that

Love u sis.

(Eles dizem:

Sempre há atrás de uma janela

Você só precisa abri-la

E eu não posso esperar por isso

Amo você, irmã).

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

Um país inteiro de quarentena por pressão do coronavírus

Por Thaís Cunha (Site Calciopédia)

Parece documentário do History Channel. Os marinheiros de Veneza, em tempos de peste bubônica, inventaram a quarentena: chamavam-na Lazareto. O ano era 1347. Para evitar espalhar doenças pelo país, todo mundo que chegava pelo Mediterrâneo era submetido a um isolamento de 40 dias. A inspiração era o tempo de quaresma.

Segundo um breve Google, isso tinha de ocorrer porque “ainda não tinham inventado o antibiótico”. O engraçado é que essa explicação vem, no site da Galileu, como “A bizarra história de 4 ilhas de quarentena“.

Ruas vazias num bairro popular de Milão, na Lombardia, na Itália (Foto: Calciopédia)

A matéria curiosa já está no ar há uma eternidade, desde 2015. Naquele tempo, ninguém conseguiria sequer supor que a Itália inteira seria submetida a uma quarentena. Esta aqui é a minha bizarra história de já estar há 22 dias em casa. E de ter me dado conta, há uns 10 minutos, de que só cheguei à metade do percurso. Eu poderia me sentir um marinheiro de Veneza, me submetendo a um sacrifício em uma ilha deserta, mas a história é meio diferente quando o ano é 2020.

Um dia antes de os jornais falarem que o Covid-19 tinha saído de controle em uma cidade vizinha à minha, eu bebia vinho e comia pizza com umas 50 pessoas depois de ter pego dois metrôs. O clima era de apreensão com a notícia do primeiro contágio perto de Milão. Fez-se fila para lavar as mãos no restaurante.

Com o vinho na cabeça, ensinei uns 20 italianos a dançarem até o chão ao ritmo de Kevinho – Olha a explosão.mp3. Gastei meu italiano, voltei pra casa feliz. Quando a gente já trabalha de casa, ter contato com seres humanos parece sempre uma ocasião especial.

Isolamento

E, então, aconteceu. Eu iria com o meu marido a uma cidade próxima acompanhar Lecco x Pro Patria por uns euros. Aproveitaria para passear. O frio finalmente dava uma trégua. O brasileiro sente uma saudade louca de sol, até os mais vampirões. As cidades da Lombardia foram se fechando aos poucos. Cancelamos o freela, a viagem e, do início da quaresma para frente, a cultura do cancelamento foi longe demais na Itália. Começou pelas aulas, chegou à semana de moda, ao futebol, às missas, à Lombardia e, depois, a todo o país. Já se passaram 528 horas.

Dessas 528 horas, eu chutaria que passei metade na internet. Duvido que quem passasse 40 dias isolado por peste bubônica sequer soubesse o que significa a palavra “bubônica”. Eu gastei um tempo na internet pesquisando.

Papa Francisco: benção à praça vazia (Foto: Calciopédia)

Vem da palavra grega βουβών, que quer dizer “virilha”. Diferentemente da vanguarda da quarentena, eu acredito que meu tempo vai passar mais rápido se eu souber de mais coisas. E que, quanto mais eu souber, menos ansiosa eu vou me sentir. Não é difícil adivinhar como essa história evoluiu.

A quarentena dos anos 2020 vem com uma mistura muito diferente de sensações. Nós, os millennials que trabalhamos além da conta, pensamos “meu sonho um isolamentozinho: vou ler uns livros que queria ler há muito tempo, meditar, fazer ioga, ouvir os podcasts atrasados, escrever o primeiro capítulo do meu livro, assar um bolo, fazer aromaterapia, escalda-pés, ver os filmes do Oscar”.

Barulho sem fim de ambulâncias

Mas o meu isolamento não é tão isolado se eu continuo trabalhando home office normalmente, peguei freelas, ganhei mais de mil seguidores no Twitter falando de coronavírus, o WhatsApp não para, filmo a cantoria da janela e coloco no Instagram, passo muito tempo por dia tranquilizando a família. Desligar de tudo isso dá mais medo que pegar coronavírus.

Quando eu arrisco tirar tudo isso para tentar viver o isolamento dos sonhos, o que sobra é uma versão um pouco mais modernete da quarentena de 1347.

A rua é silenciosa, exceto pelo barulho sem fim das ambulâncias, preciso preencher um documento se quiser ir ao mercado repor o estoque de vinho, o cenário é exatamente o mesmo todos os dias, eu cozinho todas as refeições, dou faxina, olho as bandeiras pela janela. Ainda faltam 19 dias. 456 horas. Me segue lá no Twitter, vamos conversar.

P.S Blog Carlos Santos – A autora da matéria informa em seu twitter, que só neste domingo (15), “a Lombardia registrou 252 mortos com #coronavirus na região. É como se um avião caísse por dia. Ainda assim, as medidas de isolamento parecem funcionar”.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Tibau, uma ilha

Estou de novo em Mossoró. Poderia me demorar mais em Tibau, mas o dever e o prazer de trabalhar puxaram-me para meu lugar ainda nas primeiras horas deste domingo (27).

Preciso atualizar minha página – e tratar de outras atividades ligadas à assessoria, que dependem de telefonia e Internet.

Nenhum dos dois funciona em Tibau.

Cidade-praia que se propõe turística, Tibau inviabiliza longas estadas e estadias por lá, também em face dessas deficiências.

Uma pena.

Três linhas telefônicas e um iPad com outra operadora, uma parafernálica tecnológica, não são suficientes para me manter plugado com meu trabalho e para simples contatos por diletantismo.

Lamentável.

Teremos uma importante estrada duplicada, mas continuaremos uma ilha, longe do mundo civilizado ou não.