Por Marcos Ferreira
Estou sozinho em casa e daqui não pretendo ir a lugar nenhum. Que importa que hoje ainda é quarta-feira e a vida lá fora urge, exige movimento, disponibilidade, trabalho e suor de todos. Não, não arredarei o pé. Muito menos em meio a este calor diabólico, infernal. Meu ventilador não aplaca o mormaço. O vento que ele produz é quente feito o de um secador de cabelo industrial. Supondo-se, claro, que existam secadores de cabelo industriais. Coisa bem pouco provável.
Ouço, como de costume, uma de minhas playlists com várias horas de blues. Acabei de fazer café e a cafeteira vai perfumando o ambiente com o aroma da rubiácea. Minha gata Gudãozinho, descansando sob a mesa da cozinha, vez por outra me encara com tédio e preguiça. Nesse horário, o que é absolutamente compreensível, nem ela está disposta a perseguir as lagartixas pelo quintal.
Os últimos dias, sob sol inclemente, em meio ao siroco, foram um exaustivo périplo por consultórios médicos e clínicas laboratoriais. Agora não quero contato com o astro-rei. Não ao menos lá fora, trafegando por estas ruas desarborizadas de Mossoró, sobre os paralelepípedos e o asfalto escaldantes. Ficarei aqui entre estas paredes velhas, sob este teto avariado pelos cupins, tomando um banho rápido de meia em meia hora, a porta da frente trancada; só a da cozinha aberta.
Cá estou com o Dom Quixote, óleo sobre tela, oriundo dos pincéis do Túlio Ratto. O cavaleiro da triste figura é testemunha deste calor insuportável neste princípio de tarde. Olho para a face do espanhol e tenho a ligeira impressão de que ele também transpira. Gudãozinho escancara a boca num bocejo extraordinário, abana levemente a cauda felpuda e apoia o queixo sobre a patinha.
Veículos (carros e motos) cruzam a Euclides Deocleciano de um lado para o outro. Levantam poeira. O ronco dos motores interfere no canto dos pássaros ao derredor de minha casa. Aonde vão essas pessoas em seus automóveis e motocicletas? Só podem ter compromissos inescapáveis, inadiáveis, para terem que sair a esta hora. Deveria ser proibido (quiçá uma lei municipal) o mossoroense circular por esta cidade debaixo de uma bola de fogo como esta que paira sobre nós.
Devo ficar em casa e não atenderei a ninguém que porventura bata palmas no portão, chamando ou não pelo meu nome. Não abrirei a porta. Darei o silêncio por resposta. O telefone está desligado. Nada de WhatsApp, Instagram ou Facebook. Muito menos informações sobre o esgoto político, a céu aberto, deste país. Pois eu preciso me desintoxicar. Ao menos durante o dia de hoje.
Um homem, qualquer pessoa, aliás, tem o direito de tirar um dia somente para si. Um dia assim para não se fazer coisa alguma. Exceto, no meu caso, escrever. Pois me convém escrever, embora suspendendo a redação de meia em meia hora para me demorar uns minutinhos sob o jato do chuveiro. Que calor dos seiscentos, prezado leitor e gentil leitora! Se escrevo, portanto, é por opção. Mas eu poderia estar largando dentro da rede, quem sabe assistindo a um filmezinho.
Todavia, como percebem, optei por escrever, ouvir blues e bebericar o meu café puro. Não tenho o hábito de dormir após o almoço, se acaso você me perguntar. Até porque meu almoço costuma ser o café da manhã. Não sinto fome logo que acordo. Também não tenho a menor intimidade com as atribuições alimentares de uma cozinha. Sobrevivo basicamente da geladeira e da cafeteira.
À noite, entretanto, vou à casa de Natália e lá sou brindado com uma refeição de verdade: arroz, feijão, cuscuz, carne, frango — a chamada comida de panela. Às vezes minha sogra faz sopa e eu tomo com muito gosto. Retorno por volta das vinte horas, engulo meus remédios e, enquanto Morfeu não se apodera de mim, vejo alguma coisa da Netflix, acesso este que me foi compartilhado pelo amigo Elias Epaminondas, ele que é o carioca mais mossoroense que conheço.
São treze horas e quarenta minutos. Eu até poderia jurar que Dom Quixote está mesmo transpirando. Deve ser, porém, o brilho da tinta ainda nova. Na representação de Túlio Ratto, que tem se revelado um bom pintor, o herói de Miguel de Cervantes parece um pobre-diabo sobre um cavalinho macérrimo. Estamos aqui, portanto, eu, Gudãozinho, Dom Quixote e seu cavalo desmilinguido.
Daqui não saio, daqui ninguém me tira. Por exemplo, sequer me abalarei até a lotérica, no Centro, para fazer a minha aposta na Mega-Sena. Ouvi dizer que está acumulada em não sei quantos milhões. Dinheiro mais que o bastante para que eu abra mão desse meu auxílio-doença mixuruca e me torne um vagabundo profissional, como no dizer do poeta Manoel de Barros. Ficarei aqui no meu suadouro, sem ar-condicionado, contando apenas com este ventilador barulhento.
— São milhões — uma voz me sussurra.
Apesar do calor, o vento circula impetuosamente. Açoita a grande mangueira na residência aos fundos. Uma lufada quente e empoeirada adentra pela porta da cozinha. Cai uma porção de ciscos do teto, que não possui forro. Há poeira em toda parte, sobretudo nos meus poucos e desorganizados livros nas estantes de ferro. Sinto as micropartículas de areia entre meus dedos e o teclado.
Sem camisa, um colar de suor à volta do pescoço, sigo digitando. Penso se não é o momento de fazer outra pausa para mais um banho rápido. Sim, é o que farei. Depois, com a cuca e o corpo mais arejados, tomarei um novo trago de café e avançarei para outro parágrafo. Antes, todavia, decido concluir este raciocínio, ou parágrafo. Gudãozinho se estica toda e vai para o terraço. São precisamente catorze horas e cinco minutos. Careço quebrantar este suadouro. Até breve.
Bem, estou de volta, refrescado e com outra meia caneca de café. Usufruo, como venho narrando, do pequeno luxo de estar na privacidade do meu humilde lar. Hoje não trocarei esse recolhimento por nenhuma visita imprevista e inoportuna. Só botarei a cara fora bem mais tarde, lá por volta das dezoito horas, quando chegar o instante de ir à casa de Natália. Será este o ponto alto do meu dia.
Marcos Ferreira é escritor