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Quando o mar chamar

Por Bruno Ernesto

Foto do autor da crônica em março de 2025
Foto do autor da crônica em março de 2025

Você não acreditou, mas bem que eu avisei na semana passada (//blogcarlossantos.com.br/dona-mafisa/), e se ainda não se mexeu, corra! Dá tempo!

Prepare o balaio com flores, alfazema e decore a prece. Roupa branca e pés descalços na beira da praia, no quebrar das ondas ou no barco, amanhã é o dia de agradecer à Rainha do Mar. Nossa Senhora dos Navegantes também estará lá.

Se amanhã não conseguir ir ao mar, sete rosas brancas com os cabos cortados numa vasilha com água e perfume de alfazema resolve. Ofereça e agradeça mais do que pede ao seu orixá favorito, que jamais baixa a guarda.

Se você ainda não percebeu, registro que até um conhecido meu – que jura ser ateu – casou-se vestido com um puro linho branco e rosas brancas na decoração. A celebração no dia de Yemanjá foi mera coincidência.

Vá, vista-se de branco. Leve o balaio com flores e seu cachorrinho de estimação com você. Lance as flores ao mar como quem lança para ele correr e lhe trazer de volta. Ninguém desconfiará.

Se alguém questionar e insistir em dizer que não sabia que você também a reverencia, diga que foi mera coincidência. Que embora seja a primeira vez na vida que você faz isso e que não sabia que se agradece jogando flores ao mar, justifique que todos os anos você faz a mesma coisa. Ninguém perceberá.

Se lhe virem na procissão marítima com roupas brancas, diga que esqueceu onde estacionou o carro.

Acaso lhe flagrem jogando champanhe branca no mar, diga que está quente e que é melhor não estragar.

Lembre-se, quando o mar chamar, não tem quem não diga Odoyá.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Mossoró – IHGM

Conhecendo o mar

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

As ondas do mar batiam em suas pernas, e ele ria, afastando-se, com medo, daquela ruma de água. Foi a primeira vez que Pedrinho foi à praia. Contava, então, com dez anos de idade. Era um menino nascido e criado na zona rural, lá pelas bandas do Alto Oeste das terras potiguares. Tão emocionado ficou, que talvez dissesse como a personagem da escritora Ana Maria Gonçalves, no livro Um Defeito de Cor, “eu achei que o mar era da cor do pano de Iemanjá, só que mais brilhante e mais macio”.

Desde novinho, ele desejava conhecer o mar. Os seus pais, no entanto, eram pessoas humildes, viviam de lavrar a terra, trabalhando de sol a sol, com pouco dinheiro. Por isso, o menino Pedrinho sonhava com esse dia. E, finalmente, chegou.

Ele ficava correndo pra lá e pra cá pela praia; fazia castelo de areia; jogava bola com o seu pai e um irmão mais novo. Antes de entrar no mar, fazia o sinal da cruz, rogando proteção a Deus. Como não sabia nadar, ficava no raso, fazendo as mãos em concha e molhando a cabeça. “Tocado pelo vento, o mar ia de um lado para outro, fingia que ia e voltava”. Os pais riam do seu jeito, e ficaram imensamente felizes por terem oportunizado um momento tão especial.

Para muitos ir à praia é algo banal, trivial. Contudo, para o menino Pedrinho, aquele dia foi um verdadeiro presente. Para uma pessoa humilde, criada em meio a tantas dificuldades, o simples se transforma em algo mágico, grandioso. Cada um tem o seu sonho, é certo. Uns sonhos podem ser grandes; outros, podem parecer pequenos. Entretanto, todos são sonhos, dependem do coração.

Ali, na praia, ele conheceu Maria Clara, também com dez anos de idade. Ela, vindo da cidade grande, conhecia o mar desde pequenininha. Logo, eles firmaram amizade e começaram a conversar. O menino contou sobre a sua vida; era do interior do estado do Rio Grande do Norte, estudava numa escola pública e os pais eram agricultores. A menina disse-lhe que era da capital potiguar e já estava acostumada em conhecer lindas praias e que os seus pais eram médicos.

Apesar de cada um viver em seu mundo, com condições financeiras diferentes, eram crianças. Juntos, brincaram, sorriram, tomaram banho de mar, chuparam picolé, fizeram castelos de areia; ainda estavam imunes à arrogância e à vaidade humana.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Entre céu e mar

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa da Meta AI do BCS
Arte ilustrativa da Meta AI do BCS

Amyr Klink é um navegador brasileiro e escritor. Foi pioneiro na travessia, a remo, do Atlântico Sul, em 1984. No livro que narra a sua saga (Cem dias entre céu e mar), Amyr mostrou-se resiliente para alcançar os seus objetivos. Enfrentando mares revoltos, sozinho dia e noite, com a companhia de baleias e tubarões, ele soube vencer os desafios.

“Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer”.

Querer. Talvez, seja a palavra-chave. O desejo de vencer um obstáculo, a força motriz que nos faz alçar voos. Muitas vezes, ficamos amuados, desiludidos com os problemas da vida. E são muitos. Quem não pensou em “chutar o balde”? Às vezes, parece que nada dá certo.

Entretanto, é preciso paciência. Persistência. Querer. Conheço muitas pessoas que reclamam da vida. Porém, nada fazem para sair do lugar que se encontram. Não há vitória sem luta, como dizem por aí.

Vou dar um exemplo: tive muitos alunos e alunas que sonhavam em ser aprovados em um concurso público. Contudo, quando não conseguiam ser aprovados na segunda ou terceira tentativa, desistiam. Faltou o querer. Concurso se faz até ser aprovado, não importa quantas vezes, se realmente é isso que se quer. Essa persistência serve para tudo que se almeja na vida.

E mais: quantos empreendedores não fracassaram? Aqui em nossa cidade, empresários já foram à bancarrota, mas conseguiram se reerguer. Somos forjados na labuta diária, no sol a pino que aquece nossa cabeça e alma.

“O sertanejo é, antes de tudo, um forte”; “o brasileiro não desiste nunca”. Mais do que frases de efeito, são verdades. O brasileiro enfrenta uma luta renhida para sobreviver, sobretudo num país marcado pela desigualdade social e corrupção.

E assim, solitário no meio do oceano, por vezes sentindo um frio de rachar, Amyr Klink pensava no percurso a ser vencido; nas inúmeras remadas para concluir o trajeto. Todavia, continuou descortinando o horizonte à sua frente.

“O horizonte, linha perfeita e segura, fronteira do destino que se renova eternamente e que abriga nossos objetivos, passou a ser meu ponto de apoio e companheiro de viagem”.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

O que vale a pena

Por Odemirton Filho

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Tudo vale a pena, se alma não é pequena”.

(Fernando Pessoa)

Caminhavam na areia com a brisa tocando os seus rostos, como se fosse um beijo suave. Diariamente, à tardinha, gostavam de andar na beira da praia, com o mar molhando os pés.

Há anos tinham largado a cidade grande. Mudaram-se para a comunidade-praia e desfrutavam a paz do local. Buscavam sossego, pois já estavam aposentados.

A rotina raramente mudava. O marido acordava cedo, o sol nunca o encontrou dormindo, como diria Rui Barbosa. Preparava um café coado e tapiocas. A mulher se levantava um pouco mais tarde. Conversavam sentados à mesa, sem pressa. Depois cumpriam as tarefas da casa e faziam o almoço.

Algumas vezes, pela manhã, esperavam uma jangada vindo do alto mar e compravam peixes, já eram conhecidos dos pescadores e moradores da pequena localidade. As compras da casa eram realizadas na mercearia de Zé de Niel, que ficava próximo, ainda no sistema da “caderneta”.

Antes do almoço o marido gostava de tomar uma “pra lavar”.  Depois, deitavam-se nas redes e iam curtir a “sesta”. No meio da tarde tomavam um “pingado”, acompanhado com pães e bolo.

À noite, após o jantar, deitavam-se juntos no alpendre com o vento balançando a rede, embalando os momentos mais íntimos.

Tinham um filho e dois netos que os visitavam uma vez por ano, nas férias, pois moravam longe, lá pelas bandas do sul do país. Para não ficarem incomunicáveis possuíam um telefone celular.  Assistiam a televisão, de vez em quando, para verem o noticiário.

Liam muito. Sobretudo, os romances, contos e as crônicas do bruxo do Cosme Velho. A sós, conversavam sobre a vida. Lamentavam-se. Eram para ter dançado mais. Viajado mais.

Entretanto, a correria do dia a dia e o trabalho fizeram com que consumissem boa parte da vida. O tempo passou depressa. Os anos avançaram e olhavam para trás, com saudade, principalmente, daquilo que não viveram. Agora, já não tinham o viço da mocidade.

Somente o tempo nos faz amadurecer. Os valores da vida são repensados. Valeu a pena correr tanto em busca de bens materiais? Perguntavam-se. Vivemos tempos da economia do desejo, não da necessidade.

Infelizmente, ou felizmente, ninguém transfere sua experiência ao outro. Erros e acertos precisam fazer parte da vida de cada um. Se pudessem voltariam no tempo e viveriam de outra forma. Mais leves. Mais soltos.

Final da tarde. Era hora de ir à praia, caminhar na areia e sentir a brisa. Juntos, viram o pôr do sol refletir sobre as águas do mar.

Descobriram que nunca é tarde para viver o que vale a pena.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

O porto

Por Bruno Ernesto

Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica
Foto ilustrativa feita pelo próprio autor da crônica

A visão do mar é uma das coisas das quais sempre despertou muitos sentimentos.

Se você fizer uma rápida busca na internet, verá que há muitos estudos e pesquisas concluindo que ir à praia é relaxante e traz inúmeros benefícios para a nossa saúde.

O cheiro, os sons e a visão são gatilhos para esse bem-estar, físico e mental.

Os oceanos são massas de água salgada imensas e profundas.

Os mares são massas de água salgada menores, menos profundos e mais numerosos.

Na idade média eram conhecidos os sete mares. Palco de histórias marcantes e fonte de inspiração inesgotável para estórias.

Quem dominava os mares, dominava o mundo.

A vista para o mar enobrece até o estilo de vida. Veja os anúncios das imobiliárias.

Mesmo aquele que não frequenta a praia admira o mar. Pessoalmente ou numa fotografia.

Além do mar, eu admiro o porto. Ele é o elo entre dois mundos: o mar e a terra firme.

Não adianta dominar o mar se você não puder aportar.

Certa vez me dei conta de um detalhe que sempre me passou despercebido, mesmo já tendo estado inúmeras vezes em portos marítimos: praticamente todos os barcos possuem nomes femininos.

Há diversas teorias a respeito desse costume.

Uma delas afirma que esse costume decorre pelo fato de que, nos primórdios, eram nomes de figuras mitológicas e de deusas.

Há quem diga que decorre de uma variação linguística. Outra diz que é para dar proteção e boa sorte.

De fato, não saberia dizer qual delas é a mais acertada. Mas o certo é que há sentido.

O porto é o local em que a embarcação chega, finalizando uma viagem ou pode ser o local de uma partida, iniciando uma nova viagem.

Dependendo do ponto de vista, pode ser ele o fim de uma história ou o início de uma. Porém, sempre será ele o porto seguro de alguém.

Bruno Ernesto é professor, advogado e escritor

Paixão pela profissão; amor pelo mar

Por Odemirton Filho 

Tibau, jangada, (Foto de Ricardo Lopes)
Tibau, jangada, (Foto de Ricardo Lopes)

“A jangada se perde de mar afora. E à boca da noite vai chegando. É um ponto branco no horizonte. Doze horas de alto-mar, de paciência, de espera, de linhas soltas, na espreita das ciobas, das cavalas. Vai chegando. Veranistas se juntam para a compra do pescado. Seu João já encostou a jangada na praia” (…).

O texto acima é um fragmento de uma crônica de José Lins do Rêgo sobre a vida de um pescador. Mostra, com clareza, a labuta diária de quem se aventura no mar, ainda nas madrugadas frias.

Quando vou à cidade de Porto do Mangue pra exercer o meu ofício vislumbro na belíssima praia da Ponta do Mel, na Pedra Grande e na calmaria da praia do Rosado algumas jangadas na areia. E faz um bem danado a minha alma. Na maioria das vezes, não há um pé de pessoa. Só a imensidão do mar e um mundão de areia; a beleza da obra talhada pelas mãos de Deus.

Há algo na vida desses pescadores que me fascina. Talvez, seja a lembrança dos dias da minha infância, quando em férias, brincando na areia da praia, via as jangadas chegaram à beira-mar e os pescadores vendendo os peixes, ainda frescos, debatendo-se num carcomido cesto de palhas.

Vez ou outra, converso com um deles pra ouvir as suas aventuras. Decerto, deve existir um ou outro exagero nas “estórias”. Não me importo. Gosto de prosear. Falam-me da lida, do dinheiro pouco. Mas falam, principalmente, da paixão pela profissão, do amor pelo mar. Deixo claro, porém, que não quero romantizar as dificuldades enfrentadas por eles, de sol a sol. São muitas.

Certa vez, caminhei bastante sobre as dunas da praia do Cristóvão para fazer uma intimação. A casa ficava distante, num ponto alto. Sob um sol escaldante, com os pés atolando nas dunas “pegando fogo” consegui chegar à residência. Uma casa simples, de taipa. O velho pescador me ofereceu água e café. Sentei-me por um bocado de tempo apreciando a linda paisagem.

Ao ler o texto de Lins do Rêgo, lembrei-me dessa diligência e fiquei a imaginar aquele pescador como um personagem da crônica do autor de Menino de Engenho.

“Agora, espichado na porta da casa de palha, olha para o céu. Sopra o vento nos cajueiros floridos e há o barulho dos coqueiros agitados. Seu João vê a lua, vê manchas na lua. Levanta-se e vai dizendo para a mulher”:

“Amanhã é dia de cavala. A lua está dando o sinal”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça