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Democracia e conflitos antidemocráticos: para evitar mal-entendidos

Por Marcus Tullius

Atos antidemocráticos ocorreram no último dia 8 em Brasília (Foto:)
Atos antidemocráticos ocorreram no último dia 8 em Brasília (Foto: Marcelo Camargo)

Em relação aos atos e às manifestações antidemocráticas praticadas no último dia 08 de janeiro de 2023, na sede dos três poderes da República, não paira dúvida sobre a gravidade dos fatos e as largas repercussões nacionais e internacionais. O ponto de vista aqui proposto está dissociado de aspectos relacionados às responsabilidades jurídicas e não expressa juízo de valor quanto às pessoas envolvidas, ou seja, como elas devem ser conceituadas ou tachadas juridicamente. Isso porque quem poderá fazê-lo é a atividade jurisdicional, realizada conforme os ditames do devido processo legal, do contraditório, da ampla defesa e através de um Tribunal imparcial, com a salvaguarda dos valores constitucionais do Estado Democrático de Direito.

A partir dessas ponderações, observa-se o episódio antidemocrático recorrendo à metalinguagem da teoria dos conflitos sociais. No artigo científico publicado pelo sociólogo francês Alain Touraine[1] cujo título denomina-se “os novos conflitos sociais: para evitar mal-entendidos”, o autor ilustra as principais características que definem a natureza dos conflitos sociais e como isso repercute no surgimento de novas sociedades.

Com suporte e inspiração nesse referencial teórico, o elemento central de toda e qualquer reivindicação social é combater algum adversário real. Ao observar o núcleo dos protestos marcado pelas atitudes tomadas de invasão e de destruição da praça dos três poderes, os “manifestantes” revelaram que seus adversários reais são os Poderes da República representados pelo Legislativo, Executivo e Judiciário.

Nesse contexto, a teoria dos conflitos esclarece que o principal propósito de uma reivindicação social pauta-se na busca de uma comunidade reunificada. Pois bem, os “manifestantes” justificam o suposto objetivo de reunificação comunitária num espaço sem a presença de poderes constituídos, ou seja, de modo expresso estão difundindo a anarquia e o caos do Estado. Isto é, a pauta anárquica dos “manifestantes” pós-eleições democráticas reforça a tese de que não há projeto de fortalecer uma sociedade calcada na mediação realizada por pessoas instruídas (ex. políticos, parlamentares, juízes, cientistas, sociedade civil organizada) e de unir as categorias excluídas do sistema político a este (ex. aumentar a representatividade das classes sociais nas instâncias políticas escolhendo, por meio do processo eleitoral, seus vereadores, prefeitos, deputados, senadores, presidente).

Longe disso, o que se constatou na desordem promovida pelos “manifestantes” foi uma primeira tentativa concreta de golpe de Estado por meio da destruição do sistema político e do regime democrático. No fundo, esses “manifestantes” lutam pelo enfraquecimento do sistema político atual, mas não são capazes de construir argumentos críticos indicando a legitimidade de suas reivindicações “sociais” ou “políticas”. Enfim, querem um partido político apenas? Desejam um congresso sem debate crítico sobre proposições legislativas? Almejam um judiciário sem o ativismo judicial para proteção dos interesses dos excluídos socialmente?

PELA TEORIA DOS CONFLITOS, essa mobilização social é antidemocrática, de uma minoria da direita extremista e não se constitui num movimento de base social, já que inexiste a característica da espontaneidade da sua formação. Na realidade, esses “manifestantes” foram capturados e financiados por outras estruturas socioeconômicas fortes e silenciosas, que querem tomar o poder na base da força e da luta de seus “soldados fanáticos”.

Nos últimos quatro anos, essas forças ocultas do hiperdesenvolvimento sem o Estado e que são “padrinhos dos manifestantes”, trouxeram para dentro das instituições políticas e jurídicas os conflitos ideológicos (ex. o Estado escoltando e garantindo a segurança de pessoas que deliberadamente iriam destruir as próprias estruturas de poder do Estado – o fim do contrato social pela autofagia do Estado). Todo “suicídio estatal” em curso, provocado pelos conflitos ideológicos e tentado pelos “manifestantes” inclina-se a ser encoberto, quando os inimigos do Estado (ex. “manifestantes” e forças ocultas) se autodenominam de marginalizados e perseguidos por um novo governo ou que foram enganados por fraude nas eleições.

Em outras palavras, sem qualquer fundamento plausível, buscam forjar uma base ou motivo legítimo para suas reivindicações, visivelmente teratológicas nos fins e ilegais pelos meios.

Outro ponto a aprofundar com espeque na teoria dos conflitos, reflete no enquadramento dos “manifestantes” como “opositores” ou “desviados”. Os “opositores” questionam a nova ordem, formam movimentos de base, criam argumentos, constituem partidos políticos, dialogam com as instituições democráticas, participam pela convicção das ideias e no processo eleitoral legítimo assumem o poder (ex. a corrente centro-direita ou a direita moderada).

Os “desviados” questionam a normalidade, por isso são afeitos a dialética da violência e não aceitam a política porque possuem paixões autoritárias. Assim, vê-se que os “manifestantes” são verdadeiros “desviados”, mas que podem se reconfigurar ou redesenhar como “opositores”, desde que aceitem o jogo democrático (obs. será que existe terapia para o autoritarismo?).

Na democracia a conjuntura dos conflitos sociais não pode ser mal-entendida ou subestimada, pois exige e desafia as estruturas de poder democráticas, como o Legislativo, o Executivo e o Judiciário ao bom combate. Isso significa que a vitalidade do Estado Democrático de Direito se fortalece na atuação impessoal e integrativa dos interesses conflitantes. Porquanto, tais movimentos antidemocráticos não são ideologicamente coerentes, na medida em que mistura a classe trabalhadora, os servidores públicos, os professores, os empresários etc.

Essa nova reconfiguração lança um novo desafio para o Estado em termos de pacificação social. Logo, é preciso que o Estado atue no sentido de consertar esse tecido social esgarçado, confuso e perigoso para a democracia.

À vista disso, pela ausência de unidade e de coerência das manifestações antidemocráticas, falta a esses “movimentos sociais” a atitude crítica essencial para conviver numa democracia. E, por meio da incoerência dos seus comportamentos desviantes, embora queiram espalhar o contrário, revés de fortalecer, destroem a ordem pregada pelo novo capitalismo do século XXI, que só encontra espaço para se desenvolver na democracia.

Por último, povo brasileiro, trabalhador, ordeiro, inteligente, pacificador, cordial, irmão, não se furte ao debate político de ideias, a crítica de políticas de governo e a busca pela ocupação dos espaços decisórios pelo caminho da democracia, eis o trajeto que melhor administra a mudança para uma nova sociedade. Uma sociedade plural e democrática, revelará que o adversário social real a ser combatido é a exclusão social. Sem dúvida, que fique bem-entendido, a reunificação a ser realizada deve ser em torno de ideais comuns.

Marcus Tullius é doutor em Direito pela Universidade de Brasília – UnB, advogado e professor universitário dos cursos de Direito da Uern e da Ufersa

[1] Disponível em: //www.scielo.br/j/ln/a/tTnhY6qvJhHxBQLxpZzLS8f/?lang=pt

Meio Ambiente e Saúde Pública será tema de evento na OAB

A Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Subseção de Mossoró, promoverá duas palestras sob o tema “Meio Ambiente e Saúde Pública: Desafios da Cidade”. O evento será realizado nessa quarta-feira (12, às 18h30.

Acontecerá no auditório da própria entidade.

O advogado e professor Marcus Tullius Fernandes e o professor e ex-secretário de Estado Meio Ambiente e Recursos Hídricos (SEMARH/RN) Mairton França vão abordar o tema proposto.

As inscrições serão realizadas online através do site da OAB Mossoró: www.oabmossoro.org.br

Será cobrado um investimento de R$ 10,00 (dez reais) para profissionais e de R$ 5,00 (cinco reais) para estudantes, que será revertido em favor de uma campanha solidária para grupos que trabalham na proteção de animais em situação de rua em Mossoró.

A inscrição poderá ser realizado no momento do credenciamento.

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Advogado fará doutorado na Universidade de Brasília

É com grande satisfação que noticio importante conquista de um valoroso profissional da docência e direito, em Mossoró. Refiro-me a Marcus Tullius Fernandes.

A partir de 31 de agosto deste ano, ano ele estará iniciando curso de doutorado em Direito, área de concentração “Direito, Estado e Constituição”, pela Universidade de Brasília – Unb, com a Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA). Ele é docente do curso de Direito dessa instituição.

O Principal objetivo é a capacitação em nível de pós-graduação para a atividade docente e aprimoramento da pesquisa acadêmica.

Em conversa com Tullius, ele explica o foco do seu doutorado: “Pretendo desenvolver a tese dentro da linha de pesquisa ‘Transformações da Ordem Social e Econômica e Regulação’, a qual encaixei a temática ambiental, que é fruto de pesquisa e estudo há anos”.

Sem o Estado a “economia perversa” molesta as pessoas!

Por Marcus Tullius

O protótipo contemporâneo de Estado Neoliberal chama atenção pelo modo como atua diante da “economia perversa” que gera impactos negativos sobre as pessoas. No Brasil, especificamente, a organização social estatal está em crise. É opressão para os pobres e emancipação para os ricos. Jogo de exclusão e inclusão, verdadeiro filme de terror, pautado no fomento pelo Estado de um standart de “economia perversa”, de impactos negativos sobre os cidadãos. Portanto, é o mercado perverso quem controla o Estado – não o inverso.

O cidadão que precisa de atendimento à saúde adequado e eficiente, quando o procura, não o encontra no serviço estatal, que é altamente excludente e ineficiente, dando guarida aos serviços privados de saúde que, sem qualquer controle estatal efetivo, praticam os preços livremente, ditam as “coberturas”, escolhem os tratamentos e medicamentos pelo critério do custo e formam uma carteira de clientes eminentemente privatista com regra ríspida: “pagou é atendido; não pagou, se vira”.

A “segurança pública”, que de pública só tem o adjetivo, não consegue fazer face nem à proteção dos agentes estatais, quanto mais do cidadão. Na realidade, a ausência desse serviço estatal criou a “sociedade do medo”, apta ao ingresso dos serviços de segurança privada, completados pelo modelo de sociedade impessoal e verticalizada, que segrega as pessoas e as afastam do comunitarismo, escondendo-se em “grutas” cercadas por vigilância privada, seja por objetos (petrechos como cerca elétrica, câmeras, radares etc.) ou por vigilantes fortemente armados. Isso é “apartheid social”, pois os mais pobres ficam, como se diz no jargão popular, “ao orvalho”.

A “educação pública e de qualidade”, só através de discurso. A ausência de investimento maciço com destaque de recursos públicos consideráveis; os péssimos salários pagos aos professores; as tenebrosas condições de infraestrutura; a omissão dos gestores públicos, são alguns dos gargalos.

Enquanto isso, a juventude brasileira, ávida por conhecimento, é entregue aos riscos sociais, principalmente, ao consumo dos psicotrópicos e do álcool e aos efeitos da violência e do ostracismo. Não consegue exercer o direito de escolha e nem ter a liberdade garantida. Resta a educação privada para “tapar o buraco” deixado pelo Estado. Mas o acesso se dá pelo critério das “possibilidades econômicas” e, num país de tamanha exclusão social, só os ricos estudam.

O controle estatal sobre a “segurança alimentar” é uma lástima. Nem os ricos escapam dessa tenebrosa realidade. As pessoas se alimentam com produtos transgênicos, industrializados e, além de tudo, com resíduos de agrotóxicos. A água que bebemos é contaminada, seja por nitrato, benzeno, cádmio etc… Nessa área, o mercado caminha sem rédeas. É o “deixa fazer, deixa passar”.

Até a “previdência social”, fruto de movimentos revolucionários como a “revolução na república de Weimar de 1919” e a “revolução mexicana de 1917”, a cada dia é menos “previdência”, pois o direito mais sagrado do cidadão, que é a aposentadoria, deixou de ser integral. Quem deve complementar? A previdência privada é claro! O Estado não é mais provedor.

Segundo Max Weber, em sua obra “economia e sociedade”, a economia de mercado é “emancipatória” e “opressiva”. É emancipatória, porque garante as pessoas, mediante o respeito à liberdade: o direito ao bem-estar, ao progresso social e a busca dos objetivos pessoais.

É opressiva, porque certamente nem todas as pessoas alcançarão esse estágio de “emancipação”, pois o mercado também viabiliza, garante e legitima a indiferença recíproca. Assim, o Estado deve controlar essas duas características. Havendo uma falha nesse mecanismo de regulação estatal, estaremos diante da “economia perversa” fomentada pelo próprio Estado.

Com a presença efetiva e atuante do Estado, a “economia perversa” pode ser destruída. Será que não é tempo de repensar e mudar o modelo de Estado Neoliberal?

Marcus Tullius –  É mestre em Direito Econômico pela UFPB