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Diálogo com o tempo

Carlos Santos na Via Appia - Roma -Por Carlos Santos

Caro 2023, pode ir em paz. De minha parte, valeu!

Talvez tenhas me dado o melhor ciclo dessa vida: chego a 60 anos sem desejar ter 30; livre de fantasmas, ciente do que é o tempo e com sonhos.

Sou feliz, realizado e grato.

Venha, 2024.

Agora é com a gente.

Carlos Santos é criador e editor do Blog Carlos Santos (BCS)

O que vai ficar

janela, isolamento, quarto, apartamento, luz solarHá pouco mais de dois meses, em conversa com um filho à distância de milhares de quilômetros, no uso de um desses aplicativos virtuais, falamos sobre vida e despedida.

De mim, um testamento para resumir o que ofertarei para o futuro, quando não estarei mais por aqui:

– Espero não deixar sequer uma bicicleta; só boas memórias e exemplos. Herança, legado.

É isso.

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My Way (Meu jeito)

Meu Zap-zap (WhatsApp) está soterrado por mensagens natalinas.

Muita gente que sei quem é, outras tantas com as quais tenho escasso contato e, entre elas, alguns amigos.

Respondo todas; não envio nenhuma.

Obrigado, mesmo assim.

Aceito-os dessa forma.

Respeitem-me do meu jeito.

Sou o que sou.

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Um resto de cadeira e a prisão num tempo de terror

Na Praça Bento Praxedes, conhecida como “Praça do Codó” e mais recentemente como “Praça do Relógio”, em Mossoró, o Blog captou essa imagem abaixo nas últimas horas de 2014.

Um resto de cadeira, acorrentado, simboliza o medo na Mossoró do presente (Foto: Blog Carlos Santos)

Era finalzinho de tarde, com a noite já erguendo seu manto sobre nossa cidade em frisson.

Um resto de cadeira foi preso por alguém com corrente e cadeado a uma grade.

Saudades de uma cidade em que se sentar à calçada, deixar carro com vidros abertos e prosear à rua eram direitos nossos e não atos de risco.

Estamos num lugar que só no ano passado registrou 193 homicídios.

Leia AQUI a crônica “Saudade da Mossoró do passado” e você entenderá melhor ainda o que essa cadeira acorrentada simboliza.

Estamos todos presos, vítimas do terror da marginália incontrolável.

Amigos à mesma mesa

Dois amigos queridos andavam “intrigados” há tempos.

Neste ano, reaproximaram-se.

Foi um dos meus presentes em 2014.

Teremos uma mesa comum.

Nunca soube o motivo da desavença. Nunca quis saber.

A ambos, fui claro: “espero que se entendam. Não levarei nem trarei nada à maior intriga”.

Aguardo convite para dividirmos um bom vinho.

Se não houver… aí vocês vão ver.

Ah, vão!!

Somos apenas humanos

Tenho um amigo-irmão há mais de 30 anos. Trato-o por “Neguim” ou “Negroide”.

Nem lembro quando o abordei por nome próprio a última vez até aqui, nesse tempo de amizade perene, praticamente sem sobressaltos.

Tenho outro amigo que ao chamá-lo pelo prenome, é até estranho. Ele gosta de ser interpelado como “Negão”.

Ambos são bem-resolvidos no que são: negros, gente.

Eles não se sentem ofendidos e gostam da forma amistosa e carinhosa como são acolhidos pelos amigos de verdade.

Raça? Somos uma só: somos humanos.

Oportunidade de um Natal não apenas virtual

Caros integrantes dessa confraria virtual, que fazem parte do meu círculo de contatos diários ou ocasionais através desta página, “Nosso Blog”, vou ao básico: Feliz Natal.

Mas reflitamos sobre o sentido da data.

Tentemos aproveitar este espaço cibernético à promoção do bom convívio, o respeito aos que pensam diferente, à elegância no trato interpessoal.

Amém!

P.S – No Natal, por mais que eu tente dissimular, sinto a falta dos que se foram. Mas há aquela esperança e “certeza”, de que não estão distantes.

Encontro e reencontro com nossa identidade

“Mossoró com alegria… saúda Santa Luzia!”

Chegou o dia de nossa padroeira.

À memória, lembrança do brado de padre Américo Simonetti puxando multidões, numa força catalisadora.

Lembrança da infância: da roupa nova que eu só podia estrear na festa, das novenas, de padre Huberto Bruenning; do algodão doce e parque de diversões…

… Lembrança de Seu Mané e A Mais Bela Voz; do The Pop Som, dos primeiros flertes na “Praça do Cid” e da procissão grandiosa.

Lembrança dos leilões, pescaria e tiro ao alvo… da volta para casa, tranquilo, sem temor de ser molestado pela violência.

Lembrança da fé nos olhos, lacrimejantes, de minha mãe. Do terço envolto em sua mão firme…

Da fé incontida, que levava milhares de nós à romaria, para encontro e reencontro com nossa identidade.

O dia ainda orvalhado não se encontrou com o sol onipresente do meu sertão.

Mas hoje, o astro-rei sabe que vai ser apenas súdito da santinha em minha terra.

Amém!

Radicalismo de verdade e a pobreza do ódio virtual

A política de Mossoró chegou ao subsolo da pobreza nesses tempos.

Boa parte das amizades é comprada e até os lampejos de ódio são falsos.

Mudam de lado e de alvo, ao sabor do vento. Ou de certa brisa.

Trocam de senhores, sem que deixem de ser vassalos, com joelhos encardidos pela servidão voluntária.

Saudades da época do radicalismo de verdade, em que era fácil encontrar a espontaneidade dos gestos, cores, sons e brados sinalizando quem era quem de verdade.

Verde era verde; encarnado era encarnado.

Tínhamos lado e forma.

Hoje, quase tudo é virtual. Parece… mas não é.

Desconfio dos vitupérios e não levo em conta as paixões.

A política de Mossoró é difícil de ser levada a sério num simples jornal, porque do seu Expediente à data, tudo parece falso e revela forte odor de perfídia.

Ainda bem que sobra o horóscopo.

 

Quase pronto para não fazer nada

Por Carlos Santos

Copio o que é comum à cultura italiana, de zelo ao tempo destinado a não fazer nada. Estou agilizando providências para não fazer nada neste domingo de sol tímido e omisso.

O “Dolce far niente” [doçura de não fazer nada] é mal-interpretado por muita gente.

O “Shabath”, para os judeus, é dia sagrado de descanso. Significa “cessar o trabalho”.

Sagrado, veja bem.

Na Bíblia, em Gênesis, está escrito que Deus descansou ao sétimo dia, após a obra da criação. Tornou-o santificado.

Portanto, tenho que me apressar. Tenho um monte de coisa para não fazer ainda hoje.

Para lembrar Torquato

Amanheci sob a batuta do poeta-letrista-jornalista Torquato Neto.

Não, não imaginem que estou “down”. Não mesmo. Muito pelo contrário.

A cabeça efervescente de Torquato Neto remete-me à geleia geral, a ebulição da Tropicália, ao inconformismo, à inquietação criativa.

Pena que tenha partido tão cedo (28 anos). Nem tive tempo de cogitar um bate-papo.

Mas, até no adeus, ele foi incomum.

Antes de ligar o gás de seu apartamento, para dizer “bye” à vida, o jovem artista piauiense deixou bilhete para a mulher, entre sarcástico e compenetrado:

“FICO. Não consigo acompanhar a marcha do progresso de minha mulher ou sou uma grande múmia que só pensa em múmias mesmo vivas e lindas feito a minha mulher na sua louca disparada para o progresso. Tenho saudades como os cariocas do tempo em que eu me sentia e achava que era um guia de cegos. Depois começaram a ver e enquanto me contorcia de dores o cacho de banana caía. De modo q FICO sossegado por aqui mesmo enquanto dure. Ana é uma SANTA de véu e grinalda com um palhaço empacotado ao lado. Não acredito em amor de múmias e é por isso que eu FICO e vou ficando por causa de este amor. Pra mim chega! Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar”.

Thiago era o filho único de Torquato, de dois anos de idade. Não se transformou em poeta ou ativista cultural etc.

Thiago virou piloto de aeronave, atuando em voos comerciais. Enfim, tinha que voar também, a seu modo.

Grande Torquato Neto!

Tudo outra vez

Duas coisas que tenho saudades: pegar filho em colégio e sair aos domingos a passear e almoçar com eles. Sabia que era bom, mas hoje tenho certeza.

Eu driblava o trabalho para pegar filho em colégio; não me lembro de ter reclamado. Vejo, hoje, pai resmungando por isso.

Aproveite, aproveite. Você não sabe como é bom. Talvez só descubra adiante o que eu logo percebi: bom demais!

Aproveite, aproveite!

Minha crônica para viver mais

Por Carlos Santos

Vi em algum lugar do Facebook, uma pergunta instigante. Indagava: “O que você faria se tivesse apenas mais um dia de vida?”

Nem hesitei. De chofre, o click: iria para o computador e escreveria uma crônica. Escrever tem sido minha atividade laboral há quase 30 anos; é-me oxigênio.

Seria meu último sopro de existência. Mesmo assim, comum. Feliz.

Nela agradeceria o tempo que pude ter, o tempo que foi possível ter, o tempo em que fui capaz de converter o ter no ser. Bradaria que venci a luta contra o não-ser.

Diria “obrigado” pela benção de ser humano – carregado de sentimentos, exageradamente intenso, completamente apaixonado.

Atestaria que sou incompleto. Que bom não ser superior! Completo, sim, na graça de poder encarar qualquer pessoa de frente, sem medo de olhar para trás.

Nem pensaria em me despedir. Desnecessário. Sei que continuarei pulsando no coração de quem tem um lugarzinho no peito para me guardar. Se for só tantinho assim e, em poucos, não importa. É o suficiente.

É minha crônica para viver mais.

Água que passarinho não consegue beber

Falta de água em várias partes de Mossoró é caso de polícia, de lesa-povo. Falta água até para produzir cuspe. Economizem nos beijos. Pode faltar saliva!

No Principado do Santa Delmira – em Mossoró, água é coisa rara até para passarinho. Para limpar o corpo, só pedindo emprestado a gata do vizinho, livrando as partes íntimas para não me tornar lascivo.

Preventivamente, já estou com toalha no ombro e zanzando pelo meu Moquiço Resort. Água para lavar os dentes, teve. Pro banho, não sei ainda.

Difícil viver asseadinho, como dona Maura ensinou.