Arquivo da tag: Padre Mota

Como a Aceu chegou ao abandono

*Por William Robson

O Clube Aceu, antes das ruínas em que se encontra atualmente, foi palco de muitas alegrias. Antes denominado Ipiranga, o clube abrigava os ricos da época em grandes festas.

Prédio está em ruínas, diferente do glamour de décadas anteriores (Reprodução)
Prédio está em ruínas, diferente do glamour de décadas anteriores (Reprodução)

O prédio foi construído nos anos 30 para auxiliar no trabalho amador do time de futebol. E foi crescendo até começar a derrocada nos anos 60/70.

Quando o Ipiranga perdeu o seu glamour de outrora, o prédio ficou praticamente abandonado. Até que dois convênios passaram o patrimônio do extinto clube de futebol para a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN).

A sociedade mossoroense acreditava que a entidade, passando para a Uern, seria soerguida e as atividades socioculturais retomadas.

No inicio, parecia que iria dar certo. Até meados dos anos 80, atividades culturais e recreativas aconteciam com frequência, mas os anos 90 marcaram um triste capitulo na história do clube.

O prédio for abandonado e hoje serve apenas de depósito de material, arquivo e como sede do Sindicato dos Funcionários da Uern (SINDIFURRN).

O abandono é tanto que no inicio deste ano parte do pavimento superior caiu e deixou os funcionários apreensivos.

Foi feita uma inspeção e constatou que o prédio não poderia ser utilizado por não oferecer segurança Mas o atual reitor da Uern, Walter Fonseca, parece não se importar.

O clube Ipiranga é um dos mais tradicionais de Mossoró. O historiador Ra imundo Soares de Brito relembra os momentos das grandes festas e bailes pro- movidos no local onde hoje funciona a Associação Cultural e Esportiva Universitária (ACEU).

O lugar abrigava festas grandiosas e chegou a ser reduto da aristocracia mossoroense. Mas o que levou ao surgimento da Aceu foi mesmo o futebol. “Existia uma rivalidade entre dois clubes importantes na época: o Ipiranga e o Humaitá”, disse o historiador. Ambos não existem mais.

Do Ipiranga, restam apenas escombros da sede social, que estão à disposição da Uern.

Um dos sócios-fundadores, Enéas Negreiros, em entrevista à GAZETA, disse desconhecer as fórmulas de como todo o patrimônio passou para o nome da Uern, sem que os mais de 200 associados tomassem conhecimento.

Com a rivalidade no futebol, os diretores do clube resolveram, então, montar a sua sede. A principio, o futebol praticado pelo Ipiranga era considerado amador. O time não fazia parte do esquema profissional, nem seus jogadores tinham remuneração, mas o sonho de levantar uma sede social era grande, principalmente pelos dirigentes.

Houve uma certa facilidade de levantar o empreendimento. Os diretores do Ipiranga eram empresários respeitados e detentores de influência na sociedade.

Antes, o clube funcionava num prédio alugado na Praça da Redenção, mas o sonho de ver o Ipiranga um time profissional era grande. A Prefeitura apoiou a iniciativa, doando o terreno. “O padre Mota foi um dos grandes responsáveis pela construção do clube”, disse Raimundo Soares.

Enéas Negreiros explicou que a empreitada para levantar o Clube Ipiranga recebeu o apoio de pessoas como Dix-neuf Rosado, Pedro Fernandes Ribeiro e Manoel Fernandes Negreiros. “Eles se mostraram muito solícitos para apoiar a iniciativa”, comentou.

Prédio foi construído por forte patrocinador

O padre Mota doou o terreno para a construção do clube Ipiranga. Este clube, antes funcionando num prédio alugado, estava com mais de duzentos sócios cadastrados, e isso mostrava a importância que era não apenas para o futebol amador, mas para o entretenimento mossoroense.

Com a doação, seriam necessárias as campanhas para arrecadação de mate- rial de construção para levantar o prédio. Alguns abnegados começaram, então, a pedir apoio. Até mesmo os alto-falantes, muito utilizados no início do século.

Mas os apoios não eram suficientes para tocar a obra adiante. Até que o empresário Badeu Fernandes de Negreiros foi contatado.

Badeu era representante das Tintas Ipiranga em Mossoró. Ele e um grupo de abnegados do Ipiranga.

Usaram um argumento que pesou muito na hora de fechar o negócio: o clube existia em função da marca da tinta. O patrocínio foi fechado e doado uma grande quantidade.

A doação foi tão grande que apenas 20% das tintas davam para pintar todo o prédio. Os 80%, segundo Enéas Negreiros. foram vendidos e transformados em material de construção. O clube ficou pronto em meados dos anos 30.

Cessão à universidade é questionada

Um dos fundadores do Clube Ipiranga, Enéas Negreiros, em reportagem publicada na GAZETA no final do mês passado, questiona a forma como o antigo clube Ipiranga passou a ser propriedade da Uern. “Não recebi qualquer comunicação como sendo um dos sócios. Nem eu, nem ninguém”, disse.

Enéas Negreiros foi um dos fundadores (Foto: Familiar)
Enéas Negreiros foi um dos fundadores (Foto: Familiar)

Na época da transição, nos final dos anos 70, o Ipiranga contabilizava mais de 200 sócios, mas o clube vivia momentos difíceis por causa da fracassada administração.

Assim, os projetos culturais do Clube Ipiranga foram se enfraquecendo até chegar ao abandono do prédio.

Não parecia mais o Ipiranga dos anos 50 com as grandes festas e carnavais e a forte concorrência com a ACDP e AABB.

O presidente da Associação dos Docentes da Uern (ADFURRN), Carlos Filgueira, disse que a entidade vai se mobilizar para que o prédio – agora abandonado pela atual gestão da Uern – possa ser reformado. “E lamentável o estado em que se encontra o clube Aceu atualmente”, desabafou Carlos Filgueira

Segundo ele, que acompanhou o processo de cessão da estrutura do Aceu para a Uern, a sociedade local acreditava que a universidade pudesse zelar pelo patrimônio e reativar as atividades cultural e esportiva do clube. “Infelizmente isso terminou não acontecendo”, relatou.

Adfurrn protestará contra o abandono da Uern

A Adfurrn vai mobilizar a categoria para pressionar o reitor Walter Fonseca a iniciar os trabalhos de restauração do prédio da Aceu.

A última recuperação no edifício foi em 85, quando o processo de revitalização estava em andamento e o Diretório Acadêmico e outras entidades trabalhavam com atividades socio-recreativas no clube. Mas na década de 90 a Aceu não recebeu mais incentivo algum. Pelo contrário. Tornou-se um prédio abandonado, que mais serve de dispensa que para a sociedade mossoroense.

No inicio, as pessoas achavam que a Aceu serviria como antigamente, para festas e atividades culturais, mas não for isso que aconteceu. Agora, a Aceu é  tratada com desdém”, disse o presidente da entidade Carlos Filgueira.

A Adfurm prepara um documento protestando contra o abandono. “Não se pode deixar um prédio daquele cair. Deveria ser tombado como patrimônio histórico. Ele existe há mais de 60 anos e conta uma história bonita de Mossoró, relata Filgueira. “Estamos prontos para encampar a luta. Não entendo por que os dirigentes da Uem não se importam com as tradições da Aceu, se é deles a responsabilidade”.

Sociedade confiou que Uern zelaria Aceu

O Clube Ipiranga estava mal das pernas nos anos 70, e a administração do clube era considerada desastrosa. Não havia mais atividades culturais no local e, aos poucos, tudo foi ficando abandonado.

Até que um convênio entre o clube e a então FURRN for assinado pelo reitor da época, João Batista Cascudo Rodrigues, para administrar a quadra de esportes, no fundo do clube.

Alguns anos depois, o convenio se estendeu a todo o prédio. Os sócios não foram comunicados do convênio, nem houve uma assembleia para definir o destino do Ipiranga, mas mesmo assim o acordo for fechado. Segundo um dos sócios na época, o professor Carlos Filgueira, a sociedade mossoroense acreditava que o Ipiranga pudesse ser revitalizado e voltar as movimentações de outrora.

“O convenio com a universidade era considerado como algo bom para quem não queria ver as tradições do clube morrerem”. disse ele. No inicio, o Aceu foi revitalizado, mas aos poucos foi esfriando, até ser definitivamente abandonado.

Prédio está em ruínas

O prédio da Associação Cultural e Esportiva Universitária (ACEU) está em ruinas. O edifício, que não recebe manutenção desde 85, pode a qualquer momento vir abaixo.

E, com ela, toda a história da cultura local, do esporte e de atividades, como os da Luízas de Marilac – que promoviam eventos para angariar fundos para os pobres e idosos

Em maio, a parte superior caiu e o laudo constatou que o prédio não tem condições de uso. Mas isso parece não intimidar o reitor da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern), Walter Fonseca.

Mesmo sabendo da ameaça da parte superior cair novamente, os funcionários do Sindicato dos Funcionários da Uern (SINDIFURRN) continuam trabalhando normalmente, e claro, apreensivos.

Vice-reitor diz que instituição espera Governo

O vice-reitor da Uern, Lúcio Ney, disse que o “abandono” do clube Aceu não é mais problema da instituição. Segundo ele, foi enviado um documento à Secretaria Estadual de Infra-estrutura relatando todos os problemas na estrutura do prédio.

Em maio, parte do andar superior do Aceu veio abaixo. Daí, o reitor da Uern, Walter Fonseca, determinou a inspeção do prédio. Foi constatado que caiu por falta de manutenção. “Pessoalmente fui a Natal entregar os laudos sobre o Aceu”, disse o vice-reitor. No laudo, ficou constatado que a parte superior não tinha as mínimas condições e que precisa de reforma urgente.

“Até o momento não há uma sinalização de quando será”, disse Lúcio Ney, acrescentando que um engenheiro fez todo levantamento dos curso da reforma, mas o valor não foi fornecido. “O prédio está sem condições”, garante. Mesmo com o perigo iminente, não houve qualquer interdição, e os funcionários da Uern continuam trabalhando normalmente.

Na Aceu, funciona o Sindicato dos Funcionários da Uern, o arquivo e o almoxarifado. “A situação é pior porque não temos recursos”, disse Lúcio Ney.

O clube Ipiranga, nas primeiras décadas do século passado (Acervo do IBGE)
O clube Ipiranga, nas primeiras décadas do século passado (Acervo do IBGE)

*Reportagem especial publicada no jornal Gazeta do Oeste em 19 de dezembro de 1999, assinada pelo jornalista William Robson, que agora em blog com seu nome reproduz matérias diferenciadas que fez ao longo de décadas de profissão. Essa série tem o nome de “Acervo” (veja AQUI).

Leia tambémA morte de Elizeu Ventania;

Leia também: A chegada da Internet a Mossoró.

Acompanhe o Canal BCS (Blog Carlos Santos) pelo Twitter AQUI, Instagram AQUI, Facebook AQUI e YouTube AQUI.

Passado e presente em duas fotos

O advogado Glauber Soares viu postagem que fizemos de uma foto há alguns dias, em nosso Instagram, com enquadramento aéreo, em preto e branco, e resolveu fazer ângulo parecido, usando um drone.Eis o resultado, no confronto de dois momentos separados no tempo por mais de 60 anos, de uma parte do centro de Mossoró. Na foto mais antiga, vale ser observado que ainda não tinha ocorrido a construção da segunda ponte, vendo-se apenas a ponte Jerônimo Rosado, edificada em 1942, na gestão de Luis Ferreira da Cunha da Mota, o “Padre Mota”.

A foto mais abaixo foi produzida por volta de 11 horas deste domingo (5), também mostrando a Praça Rodolfo Fernandes, Rua Alfredo Fernandes, um trecho da Rua Coronel Vicente Saboia, o rio Mossoró com suas duas pontes e a barragem central, além de outros aspectos urbanos centrais.* INSCREVA-SE em nosso canal no Youtube (AQUI) para avançarmos projeto jornalístico.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Festa de Sta. Luzia – da Amplificadora do Padre às redes sociais

Por David de Medeiros Leite

“Festa de Padroeira é uma coisa só”, dirão alguns. Pode-se admitir a assertiva; porém, contextualizando-a e elegendo algumas variáveis, tais como, demografia, expressão religiosa e o sistema de comunicação utilizado no e para os festejos. Portanto, teríamos que “trabalhar”, no mínimo, com esses três parâmetros para, mesmo que perfunctoriamente, avaliarmos a evolução da Festa de Santa Luzia na cidade de Mossoró.

A título de ilustração, usando números aproximados e intervalos de trinta anos, verificamos que a população de Mossoró, em 1960, era de 40 mil habitantes, saltando para 190 mil, em 1990, e, atualmente, alcançando os 300 mil habitantes. Somente esse aumento demográfico (mesmo sopesando o crescimento de outras vertentes religiosas) daria “panos pras mangas” numa abordagem específica.

Em termos de comunicação, torna-se imprescindível referir-se à aparição da Rádio Rural de Mossoró, em 1963, que funcionou como uma espécie de “divisor de águas”, considerando que, nas décadas anteriores, o que pontificava na Praça Vigário Antônio Joaquim, principal ponto geográfico da Festa de Santa Luzia, era um velho serviço de som, apelidado de “Amplificadora do Padre”, que pertencia à municipalidade.

Vale registrar que a referida denominação decorria do fato de ter sido o Padre Mota, quando prefeito da cidade, o responsável pela instalação de tal aparato sonoro, cujo “estúdio” funcionava no pequeno sobrado localizado onde hoje se encontra edificado o Teatro Lauro Monte Filho.

Durante a Festa de Santa Luzia, a audição dessa Amplificadora era disputada pelas precárias “bocas de som”, dos parques de diversão, instalados pelas redondezas, ou mesmo pelos esgoelados gritos de leiloeiros e pregoeiros das dulcíssimas “maçãs do amor” e outras guloseimas típicas e ansiadas naquelas ocasiões.

A Rádio Rural modificou a Festa, tanto no sentido religioso (transmissões de missas e novenas), como no âmbito profano. Quatro ou cinco linhas é um espaço demasiadamente curto para comentarmos, por exemplo, um evento promovido pela Rádio, durante a Festa de Santa Luzia, que marcou época: o concurso “A Mais Bela Voz”.

As cidades vizinhas realizavam etapas eliminatórias, e os finalistas disputavam o pódio do concurso em apoteóticas noites. E tudo na harmônica sequência: terminada a novena, a multidão naturalmente se voltava para o palco da “A Mais Bela Voz”. Muitos talentos ali foram revelados e consequentes carreiras iniciadas.

Claro que, concomitante e posteriormente ao momento concurso, barracas de jogos, brinquedos, doces e salgados, seguiam suas ofertas no mesmo largo e adjacências. Namoros, flertes e paqueras pululavam entre púberes olhares. Sem falar noutro lado menos romântico, quando àqueles chatos e exaltados “cavavam” empurrões e entreveros, a fim de exporem suas “machezas”. Acontecimentos, infelizmente, recorrentes em aglomerados humanos.

Pois bem, nos últimos anos, após as novenas, as atenções se voltam para o Oratório de Santa Luzia. Espetáculo teatral considerado sucesso de público e de crítica. Não vou adentrar em detalhes, mas aproveito o ensejo para homenagear (in memoriam) uma artista mossoroense que estava afastada do teatro e, com o Oratório, voltou à ribalta de forma extraordinária: Ivonete de Paula.

Pena que essa sua segunda fase tenha durado tão pouco. Citando-a, desejo estender essa singela homenagem a todos que já atuaram (e atuam) em cena ou nos bastidores.

A equivalência que se estabelece, considerando uma hipotética emulação entre o concurso “A Mais Bela Voz” e o Oratório de Santa Luzia, é que a Festa de Santa Luzia continua ensejando revelações artísticas e isso, por si só, suscita verdadeiro milagre, dado os reveses que talentosos jovens sofrem em nossa realidade.

Vale ressaltar que outros tantos eventos abrolharam nesses últimos anos: Cavalgada da Luz (na sua 13ª edição), Motorromaria da Luz (11ª edição), Pedalada da Luz (10ª edição), Caminhoneiros da Luz (3ª edição), Romaria Ciclista (1ª edição). A motivação religiosa cada ano amplia sua dimensão, graças à criatividade e ao engajamento das Comissões Organizadoras. Dando-se, claro, também o devido crédito à visão e ao direcionamento dos vigários-gerais às novas empreitadas.

A curva ascendente do volume da movimentação econômica fica evidenciada a olhos nus. No entanto, neste ano de 2019, temos a celebrar que um estudo acadêmico, protagonizado pela Faculdade de Economia, irá mensurar o impacto derivado dos festejos na economia da cidade e região.

No quesito midiático, mesmo considerando que Rádio Rural segue atuando como importante braço da Diocese, constatamos que as chamadas Redes Sociais emergiram como fenômeno transversal, avalanche igualmente observada em quaisquer segmentos.

Utiliza-se das redes para divulgação institucional dos eventos da Festa, ao mesmo tempo que os flashes dos celulares disparam e reverberam em grupos, momentos daqueles que curtem a festa, desaparecendo aquele vínculo dispendioso das fotos de outrora.

“E a Procissão, você não irá comentar?” Poderia resumir, de uma forma um tanto simplista, que é o ápice da Festa. Todavia, em verdade, em verdade, a Procissão de Santa Luzia é bem mais de que isso. Trata-se de uma manifestação em que o mossoroense, seja de nascimento ou adoção, prefere vivê-la e senti-la a descrevê-la.

Tarde-noite para caminhar, cantar, rezar e meditar sobre a vida, a sua terra… sob as bênçãos da “Virgemmártir, invicta heroína…”.

Viva Santa Luzia!

David de Medeiros Leite – Professor da UERN, atualmente assessor jurídico da Presidência do TRE. Doutor pela Universidade de Salamanca – Espanha.

* Texto publicado originalmente na Revista de Santa Luzia – 2019

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo  TwitteAQUIInstagram AQUIFacebook AQUIYoutube AQUI.

Autor do “Chuva de Bala” sofre com calote e peça pode acabar

O espetáculo teatral que melhor simboliza o “Mossoró Cidade Junina (MCJ)”, denominado de “Chuva de bala no país de Mossoró”, está ameaçado de não ter continuidade nos próximos anos. O motivo parece até uma bordão comum em toda apresentação de quadrilha junina: “É mentira!!” Mas é verdade, sim.

Reproduziremos a seguir, parte do que ocorre por trás da cortina dessa espécie de opera sertaneja.

Espetáculo é apresentado, ainda, porque autor tem sido tolerante até aqui na cobrança do que lhe devem (Foto: Wigna Ribeiro)

Existe um impasse que se arrasta desde o ano passado, que compromete a continuidade do evento. Seu enredo mistura má-fé com falta de reconhecimento ao valor imaterial e intelectual da obra. Suas apresentações sempre terminam sob aplausos.

A Prefeitura de Mossoró, responsável pela produção da peça cênica, esquiva-se de fazer o elementar e legal em relação ao autor do texto, o jornalista, escritor e professor dos quadros da Universidade Federal do RN (UFRN), Tarcísio Gurgel. Simplesmente não lhe paga direitos autorais, valores modestíssimos, num comparativo com milhões investidos anualmente na contratação de cantores.

No ano passado, já lhe dera um calote. E não foi à falta de cobrança pessoal e direta do próprio autor, que magnetiza milhares de pessoas todos os anos no adro da Capela de São Vicente, narrando um épico do povo de Mossoró ocorrido em 13 de junho de 1927, a invasão do bando do cangaceiro Lampião à cidade.

Enfim, não houve pagamento ou justificativa ao alheamento.

Merda

Esquecido e ignorado, Tarcísio chegou a enviar uma intimação extrajudicial à municipalidade, lembrando-lhe a autoria e o débito correspondente, bem como a importância da marca em discussão. Em contraposição, de novo teve o silêncio como resposta.

De tanto pressionar o Governo Municipal, Tarcísio Gurgel finalmente passou a ser ouvido, mas não escutado. A nova fase dessa relação é uma dolorosa chicana burocrática que lhe obriga a apresentar um calhamaço de documentos para provar – na prática – autoria do Chuva de Bala.

Tarcísio: "Merda!"

Não satisfeita, a Prefeitura ganha tempo e testa a paciência do autor. Mais e mais papeis (como uma cópia patenteada do seu roteiro) são exigidos, sob a promessa de que um dia receberá o pagamento.

Quem assina embaixo? O prefeito Francisco José Júnior (PSD)?

No caso, o mossoroense Tarcísio Gurgel não tem uma garantia mínima de recebimento do que lhe é devido, mesmo aquela máxima dos velhacos na cultura nordestina: “Devo, não nego; pago quando puder!”

Mais um pouco, ele terá de ressuscitar os cangaceiros Jararaca e Colchete como testemunhas ou cobradores. Armados até os dentes, claro. Ou seguir suportando o deboche com a fleuma que um de seus personagens não teria: padre Mota.

Na linguagem teatral, quando se pretende desejar boa sorte a um ator à entrada em cena, utiliza-se uma expressão de origem francesa: “Mérde” (merda).

Tarcísio Gurgel vai precisar.

Já o prefeito se ouvir o mesmo coro, não deve confundi-lo como incentivo. Será puro substantivo arremessado à sua face.

Merda!!

Acompanhe também nosso Twitter AQUI com notas e comentários mais ágeis.

Só Rindo (Folclore Político)

A “pirrola” visível do Padre Mota

Ex-prefeito de Mossoró, o rotundo Padre Mota apressa-se em atender um casal à porta de sua casa. Os pais estão acompanhado de uma menina de pouco mais de cinco anos.

Eles têm pressa em conversar com o padre.

Envolto numa toalha, Padre Mota adianta que está em trajes sumários e pede um tempo para ficar “composto”, como sacerdote.

– Não tem problema, padre. É rápidinho.

“Tudo bem”, aquiesce o político e clérigo.

Sempre espontâneo e sem rodeios com as palavras, Padre Mota ouve quando a criança sussura à mãe, espiando por debaixo da mesa:

– Eu tô vendo a pirrola dele!

O pudor do casal causa embaraçado. Ambos perdem a fala e prendem a respiração, se entreolhando.

Padre Mota, não. Resolve tudo a seu jeito.

– Menina, você conseguiu? Pois há anos que eu não consigo vê-la – afirma, soltando sonora gargalhada, mas já com mais cuidado, travando as pernas e massageando o barrigão.

Dix-huit Rosado ‘chega’ aos 100 anos com exposição

Dix-huit: 14 anos como prefeito

A Prefeitura de Mossoró promove agora à noite a “Solenidade de Abertura da Exposição Celebrativa ao Centenário de Nascimento do Ex-Prefeito Jerônimo Dix-huit Rosado Maia”. Ele nasceu em Mossoró no dia 21 de maio de 1912.

O evento tem a presença da governadora e ex-adversária Rosalba Ciarlini (DEM), além de outros políticos dos mais diversos matizes, no Memorial da Resistência, Centro da cidade.

Deputado estadual constituinte, deputado federal (dois mandatos), senador da República (um mandato), Dix-huit foi o político que governou Mossoró por mais tempo. Foram quase 14 anos em três mandatos. Foi eleito pela primeira vez à prefeitura em 1972, depois em 1982 (com mandato de seis anos) e por último em 1992, quando faleceu no exercício do cargo no dia 22 de outubro de 1996.

Assumiu em seu lugar, no dia seguinte, a sobrinha e vice-prefeita dissidente Sandra Rosado (Hoje deputada federal pelo PSB, mas à época no PMDB).

Depois de Dix-huit, quem mais administrou Mossoró foi Rosalba Ciarlini (DEM), hoje governadora do Estado, casada com o sobrinho e ex-deputado estadual (quatro mandatos) Carlos Augusto de Souza Rosado (DEM). Ela foi eleita em 1988, 1996 e reeleita em 2000 (graças ao instituto da reeleição, uma faculdade até poucos meses inexistente na legislação brasileira). Foram 12 anos na gestão municipal.

Antes dela, coube ao padre Luís Ferreira da Cunha Mota, o “Padre Mota”, o 3º maior período de administração como prefeito do município. Ele ficou por quase nove anos e três meses. Assumiu interinamente no dia 18 de janeiro de 1936, com a renúncia inesperada do prefeito Duarte Filho.

Foi eleito em março do ano seguinte, mas com o golpe político de Getúlio Vargas, implantando a ditadura do chamado “Estado Novo”, foi destituído. Mas logo em seguida foi nomeado pelo interventor estadual Rafael Fernandes, ficando até 3 de abril de 1945 – quando renunciou ao cargo.

Só Rindo (Folclore político)

O insubstituível Raimundo

Pároco da Catedral de Santa Luzia, Padre Mota (ex-prefeito de Mossoró) é assediado por um grupo de beatas e senhoras destacadas da sociedade mossoroense. Em síntese, elas esperam que padre Mota afaste o sacristão Raimundo dos trabalhos na catedral. Sua notória homossexualidade não agrada.

É algo visto como incompatível com a religião e os rituais da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica, Romana.

Pressionado, mesmo sem concordar com o preconceito, Padre Mota aquiesce. “Tudo bem. Tá bom! Eu vou tirar ‘Raimundo Sacristão’, como as senhoras querem”.

Só que, passado algum tempo, substitutos não conseguem atender às obrigações elementares na Catedral de Santa Luzia, como conseguia o eficiente Raimundo Sacristão. Daí, Padre Mota se insurge contra sua própria decisão: resolve convocar novamente Raimundo Sacristão ao ofício.

Diante do readmitido, ele sentencia o retorno ao seu modo:

– Raimundo, dando o ‘c’ ou não dando o ‘c’, você é o sacristão.