O jornalista do Tribuna do Norte, Vicente Serejo, foi visto ziguezaguando entre gôndolas de uma quitanda perto de casa, já finzinho da manhã dessa quinta-feira (21). Fazia as últimas compras à ceia de uma data muito sua, mas de simbologia a dois.
Cena urbana, creia.
Ele e Rejane Cardoso completaram 51 anos de casados nesse dia, numa comunhão à mesa, em família.
Diria o cronista Sanderson Negreiros (1939-2017) em ode bem-humorada à sua Ângela, que é o típico casamento que deu certo.
Espero que Paulo Macedo (in memoriam), colunista social por décadas no impávido Diário de Natal, goste de minha nota.
Falecido no último domingo (5) no Hospital Memorial em Natal, vítima da Covid-19 (após internamento para se tratar de uma queda que sofrera), o jornalista Paulo Macêdo, 89, terá missa de sétima dia nesse sábado (11), em Natal.
Será às 16h.
Em função de cuidados sanitários, devido a pandemia da Covid-19, será transmitida através de duas plataformas na Internet, evitando-se ato litúrgico presencial.
Isaac Faheina de Paulo Macêdo (1931 – 2020) nasceu em Limoeiro do Norte, Ceará, região do Vale do Jaguaribe.
Era jornalista, escritor e imortal das Academia Norte-riograndense de Letras (ANL), membro do Conselho Estadual de Cultura, Sócio efetivo e Benemérito do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte )IHGRN).
Há 29 anos fazia o Programa Sala VIP na televisão: Inicialmente, na TV Tupi em Recife; em seguida na TV Ponta Negra-SBT; e TV Futuro-Cultura, onde permaneceu até a data do seu falecimento.
Escreveu diariamente por mais de 40 anos no Diário de Natal. Graduado em Comunicação Social pela UFRN, Graduado pela Escola Superior de Guerra – Rio de Janeiro.
Era cidadão honorário de 154 municípios potiguares.
Ex-Secretário de Turismo e Cultura do Município de Natal, Ex-Presidente da Fundação José Augusto; Ex Diretor da Assembleia Legislativa do RN, membro do Rotary Clube de Natal Sul, e Vice-Presidente do Conselho do Iate Clube, Paulo Macêdo deixou três filhos: Miguel Dantas, filho do seu casamento com Luiza Maria Dantas, Paulo Macêdo Filho e Adriana Macêdo, filhos do seu casamento com Tânia Macêdo; e uma neta, Gabriela Serejo Dantas.
Noite de velório sem companhia. Apenas na madrugada uma olhada rápida do sétimo para o corredor do oitavo, de onde nos cumprimentávamos quase todos os dias, com acenos largos.
Paulo faleceu ontem (Fotomontagem: Território Livre)
Não tive convivência com ele nos seus tempos de prestígio e de bajulações. Isso mesmo mesmo, ele não era apenas respeitado. Era bajulado. E nessa condição, o ostracismo fere o peito e produz amargura. Mas Paulo Macedo conseguia disfarçar, com seu jeito suave abastecia-se de um passado onde bailavam fatos e fantasias.
Nos últimos dez ou onze anos não fomos apenas amigos. Vizinhos de flats e convivência de irmãos.
Certa vez, um morador aqui do Ayambra, também muito conhecido em Natal, me indagou: “Você tem paciência com essas histórias de Paulo Macedo”? Respondi: “Paciência, não. Tenho prazer”.
Ele me contava sua vida, a vida do Diário de Natal e a geografia humana daquele jornal onde sua Coluna fazia a crônica diária da “vida em sociedade”, como se dizia antigamente.
E coisas deliciosas, como encontrar Marlene Dietrich num restaurante de Nova York ou cumprimentar Sophia Loren na saída de uma loja de chapéus, em Paris.
Tinha um programa numa televisão, até pouco tempo, e vivia me enchendo o saco para que eu fosse entrevistado. E eu enrolando desculpas. Ou então, me cobrando candidatura para a Academia de Letras, da qual ele era o vice-presidente. Respondia: “Paulinho, essa história de Academia é adolescência da idade intelectual”. Ele dava risada.
“Eu tenho condecorações de todas as Armas, Exército, Marinha e Aeronáutica. E títulos de cidadania de mais de cento e trinta municípios”. Me disse, certa vez. Eu respondi: “Paulinho, isso é uma mancha no seu currículo”. Ele curvou-se, rindo, que quase bate com a cabeça nos joelhos. Levantou a cabeça ainda rindo e disse: “Você num tem jeito, não”.
Ultimamente ele andava promovendo umas festas, nos fins de ano, chamadas “noite das celebridades”. Parece que era esse o nome. Aí, todo ano vinha me convidar pra ser homenageado. Como eu sabia que a regra da festa não aceitava colaboração do homenageado, eu me antecipava e fazia um cheque de colaborador. Ele recebia, fazia uma careta e dizia: “Ano que vem a gente conversa”. E assim eu me livrava da honraria.
Durante minha participação no Novo Jornal, ele era leitor cativo da minha coluna. Às vezes eu chegava de Martins e ele me atalhava pra comentar o último texto. E arrematava, “Eu quero ir a Martins. Sabia que sou cidadão de lá”? Dizia e não esperava a resposta, saindo rápido e rindo.
Noite de solidão e tristeza. Não o verei no corredor de cima, quando sair para caminhar. Nem na conveniência de Dona Sônia. Antes dele, habitantes daqui, já partiram Jansen Leiros e Fred Teixeira. Fazer o quê? Tecer saudade.
Sérgio Vilar publicou no Papo Cultura uma hipotética academia de letras, em cuja relação consta meu nome. É uma brincadeira e encaro com tal.
Mas foi assim que respondi a ele:
Meu irmão, vi uma lista que você publicou incluindo-me numa hipotética academia paralela de letras. Desculpe, mas em matéria de academia eu não sou acadêmico nem alternativo. Já fui convidado para disputar vaga na de Diógenes, mais de uma vez, e sempre declinei.
Na última vez, estava no Rio, quando recebi um telefonema de Manoel Onofre Jr. dizendo-me que fora encarregado por vários acadêmicos para que eu aceitasse incluir meu nome na disputa de vaga que surgira.
Declinei do convite mais uma vez.
Disse-lhe, na ocasião, que respeitava a academia e seus membros, mas não combina comigo essa coisa de academia ou clubes literários. Até porque eu não iria participar dos eventos da Casa. E só pela pose do título não seria honesto.
Ele tá vivo e você pode consultá-lo sobre o que acabo de contar. Com meu abraço fraterno, agradeço-lhe, mas declino.
P.S: Fui procurado outras vezes, inclusive pelo vice-presidente da Academia, Paulo Macedo,também dizendo ser portador do convite por outros acadêmicos. Mais de uma vez. E sempre repito que mesmo reconhecendo a honra do convite, respeitosamente declino.
Agora mesmo vejo no meu WhatsApp uma postagem de Alex Medeiros informando a abertura de vaga na Academia pelo lamentável falecimento do amigo Lenine Pinto. Não, Alex; essa informação nada me diz.
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“Como se define o Brasil, de sistema e regime político”? Respondi: “Denomina-se República Federativa do Brasil”. Foi Paulo Macedo quem me fez essa pergunta e questionou minha resposta. “Essa conceituação guarda sintonia com a realidade”?
“Não guarda”! Foi minha resposta. Aí ele me provocou: “Então escreva sobre isso”. Fá-lo-ei, como diria Jânio.
O que significa “república”? Coisa de todos. Nesse sentido não há repúblicas no mundo. Nenhum país do mundo é propriedade do seu povo. E “povo” é apenas uma abstração retórica. O que há são populações desapropriadas das suas pátrias. Umas mais, outras menos. O Brasil é escancaradamente uma propriedade de pouquíssimos.
Basta observar os principais “bens públicos”. Educação, saúde e segurança. No caso da segurança nem os pouquíssimos proprietários a possuem. Pois vez ou outra precisam sair das casas protegidas ou dos carros blindados.
O Brasil só é república na desgraça. Na vida social, econômica, salarial, de laser e cultura, de serviços públicos, o país é uma reprivada. Coisa de poucos. República? Nem teórica.
Federativa? Nunca foi. O que é uma federação? É uma União politicamente organizada, com entes federados constitucionalmente autônomos, os Estados, divididos em Municípios administrativamente independentes, com dignidade financeira.
Em qual desses tópicos se enquadra o Brasil? Nenhum. As constituições estaduais não são sequer citadas nas Ações em que os Estados figuram, ativa ou passivamente. Acima da legislação estadual há inúmeras instâncias federais, todas com competência reformadora.
Sem Estados autônomos não há federação. O Senado, inútil, representa o inexistente.
E os Municípios? Possuem independência administrativa e dignidade financeira? Pobres mendigos de porta de mercados. Com sua baciazinha de queijo do reino, que foi comido por algum desconhecido, de cujo gosto o mendicante nem sente o cheiro. Dependentes e lisos.
A única federação que o Brasil conheceu foi num intervalo da primeira república. Federação de dois Estados, que por força da aristocracia agropecuária fez de São Paulo e Minas Gerais os donos da União.
Reprivada sem descarga e desfederada é o que somos; com todos os sentidos que a expressão comporta. Do nome, sobra a homenagem à tintura do pau: Brasil.
Saída? Uma Constituinte originária e exclusiva, sem qualquer amarra com a desordem vigente. Recepcionando apenas as conquistas libertárias e sociais, que não saíram do papel.
Ou então se repristine a Constituição de 1946, acrescida do artigo 5º da carta de 88. Sem medo de enfrentar as castas estabelecidas e calcificadas. Essa bagunça institucional serve ao corporativismo e ignora a sociedade, que as corporações dizem defender. Só dizem, e defendem-se a si mesmas.