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Retrato antigo

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Começo a escrever esta página às sete e onze da noite. É precisamente o dia 10 de dezembro deste restinho de 2025. Domingo passado, como raras vezes acontece, fui com Natália a um evento cultural. Cada vez mais a vida em sociedade (lugares cheios e com música alta) me desgosta. Não me sinto à vontade. Tenho a desagradável sensação de que vou topar com determinado indivíduo peçonhento, ou me envolver em algum tipo de situação embaraçosa. Ainda assim botei a cara fora e rumei para a referida programação.

Era por volta das vinte horas. Não descreverei o mencionado ensejo, cuja atração musical fez valer a pena colocar uma roupa melhorzinha e quebrar a rotina. Roupas comuns, devo destacar. Nada de coisa chique ou sofisticada: apenas uma calça jeans seminova, camiseta marrom de algodão e uns tênis baratos já com certa quilometragem. Ao contrário de mim, posso dizer que Natália estava graciosa, deveras bonita em um vestido preto bem-conformado, calçando sandálias de couro rutilante e com uma bolsa a tiracolo. Lógico que nesse dia ela foi a um salão dar uma arrumada no cabelo, algo com que não preciso me preocupar tendo estes escassos e grisalhos fios.

Apesar do introito, meu objetivo aqui não é relatar nada mais do passeio noturno de que usufruímos entre o Memorial da Resistência e a Estação das Artes Elizeu Ventania. O que de fato despertou minha atenção (tanto na ida quanto na volta) foi a lástima em que vive um expressivo número de indivíduos miseráveis que à noite podemos encontrar dormindo, deitados sob marquises de lojas no Centro, usando por cama somente pedaços de papelão e, quando muito, um cobertor velho e sujo com que se enrolam. Então, como fiz outras vezes, trago novamente este assunto para o BCS — Blog Carlos Santos. Sim, a miséria daquelas pessoas sempre me toca.

Fico agora a imaginar o que eles fazem, como se viram na rua para realizar coisas que, ao menos para nós, são tão banais, tão fáceis. Pois é, penso nessas pessoas diante da simples necessidade, por exemplo, de urinar ou defecar em algum ponto desta urbe. Podem crer. Esses infelizes devem enfrentar todo tipo de obstáculos quando são apertados por tais necessidades fisiológicas. Trata-se, repito, de figuras sem-teto, aos deus-dará. Não é difícil, a julgar pelo aspecto de alguns, deduzir que passam longo tempo sem tomar um banho, escovar os dentes, cortar o cabelo, fazer a barba. E as mulheres?

Como fazem, vivendo na sarjeta, para lidar com a menstruação, adquirir um absorvente? Suponho que são, entre os mendigos, as que mais sofrem. Miseráveis de várias idades ocupam nossas ruas, avenidas e praças. Entre esses estão crianças e idosos. Quanto a isso, porém, todo mundo tem conhecimento. O problema é que a grande maioria dos cidadãos abastados (é claro que há exceções) não dá qualquer importância; dizem para si mesmos que isso não é da conta deles, que é responsabilidade dos governos, dos homens e mulheres públicos. Muitos desses políticos também se fingem de cegos, olham tão só para o próprio umbigo. O Altíssimo, se quiser, que faça algo.

Mossoró, igual a outros municípios potiguares, brasileiros e do mundo, não dá a mínima para esses desvalidos, espantalhos urbanos que determinadas pessoas fazem de conta que não sabem de nada. Mas os “invisíveis” não podem ser ignorados por completo. Uma hora ou outra um deles nos atravanca o caminho, agarra um braço nosso e suplicam por caridade: algumas moedas, algo para comer. Há aqueles cristãos que se condoem, apiedam-se dos coitados, e lhes oferecem uma esmola, um prato de comida, um suco ou copo d’água. Cada um de nós, se tiver boa vontade, pode ajudar de acordo com suas condições. Basta ter amor ao próximo.

Marcos Ferreira é escritor

Para evitar populismo, capitalismo terá que evoluir

Por Ney LopesFome, mãos com pão, flagelo, pobreza

Uma questão em debate no mundo é o futuro do capitalismo, que é um sistema econômico baseado na propriedade privada dos meios de produção e sua exploração com fins lucrativos

Nos últimos anos, surgiram várias ideias e propostas para renovação do capitalismo, que vem sofrendo desgastes. A questão mais delicada é o aumento das desigualdades sociais.

Em alguns países, essa lacuna está cada vez mais ampla. O Brasil é um deles.

Vejamos alguns números, baseados no índice de Gini, criado pelo matemático italiano Conrado Gini como um instrumento para medir o grau de concentração de renda em determinado grupo.

O índice aponta a diferença entre os rendimentos dos mais pobres e dos mais ricos.

No Brasil, a pobreza atinge 31,6% da população no Brasil, diz IBGE

O rendimento médio mensal per capita dos 10% mais ricos é também 14,4 vezes maior do que os 40% mais pobres. Por outro lado, mais de 7,5 milhões de pessoas vivem com renda domiciliar per capita inferior a R$ 150 por mês. Incrivelmente neste contexto, quem ganha menos paga mais impostos no Brasil

Entre os 5% mais pobres, a renda média mensal per capita foi de R$ 87 em 2022. A despeito do valor abaixo de R$ 100, esse resultado representa uma expansão de 102,3% em relação aos R$ 43, de 2021 (a preços de 2022).

Os dados estatísticos indicam que os 10% mais ricos no Brasil, que em 2019 concentravam 58,6% de toda a renda nacional, agora detém 59% dos ganhos. Já a metade da população mais pobre representa uma fatia de 10%.

O 1% mais rico do Brasil, formado por 1,5 milhão de pessoas, controla quase 25% da renda total do país.

Não se trata em absoluto de “demonizar” a riqueza. Apenas, conciliar as ações, de modo que o próprio crescimento da economia seja pensado como um crescimento também pró-pobre.

Ou seja, um crescimento, que puxe a renda da base ao invés de beneficiar essencialmente o topo, como vem ocorrendo.

É sem lógica a afirmação de que a riqueza vem do trabalho e a pobreza de quem não quer trabalhar. Essas situações existem, mas não são regra geral, nem podem servir de orientação única para os governos.

As pessoas e empresas precisam de medidas de sucesso, que não sejam simplesmente o lucro e crescimento.

O capitalismo injusto põe em risco a democracia. Abre espaço para o populismo inconsequente, que cresce diante das contradições da sociedade.

Não há milagre nas finanças públicas, como igualmente não há nas finanças privadas.

Aumentar a progressividade da tributação – ou seja, cobrar mais de quem ganha mais – é uma das medidas necessárias para promover a distribuição de renda.

Os países da OCDE, templo do capitalismo mundial, agem assim.

Para resolver o problema fiscal, o Brasil precisa ter redução de gastos, realocação de gastos, mas também aumento de arrecadação. Para evitar o aumento de carga tributária, realmente já elevada, que seja cobrado imposto de quem está pagando pouco.

Há bilionários no mundo, quer têm uma associação e pensam assim.

Carol Winograd e seu marido, Terry, são exemplos na Califórnia. Ela declarou:

“Acho que milionários e principalmente bilionários têm mais para dividir, enquanto há muita gente que tem menos do que precisa. Os recursos precisam ser divididos melhor. E isso (desigualdade) está se tornando um problema mais grave nos últimos anos”.

A declaração será coisa de comunista, como sempre alegam os superconservadores?

O capitalismo é realmente um sistema econômico que preserva as liberdades individuais, já evoluiu em várias etapas da história, por isto sobrevive.

No futuro, terá que evoluir ainda mais.

Ney Lopes é jornalista, advogado e ex-deputado federal

Memórias de uma árvore ambulante

Por Marcos Ferreira

Ilustração da Freepik
Ilustração da Freepik

Hoje estive pensando (aqui e acolá pratico esse exercício) e chego à conclusão de que sou uma espécie de árvore ambulante. Falo dessa maneira me referindo a certos frutos, alguns até apreciáveis, que fui espalhando ao longo desta minha relação de mais de três décadas mourejando na lavoura das palavras.

Sei que é meio chato, ao menos para alguns leitores, outra vez eu aparecer com um texto falando sobre mim. Alguém dirá que é falta de ideias ou do que escrever. Compreendo quem me critica por isso. Pois o que não falta nesta cidade, especialmente no âmbito político, é matéria para uma crônica. Melhor dizendo, várias.

Neste momento, porém, prefiro deixar a política e os políticos de lado. O que tenho para hoje é isto, tema pessoal. Quero recordar, ainda que a minha memória não seja muito confiável, algumas passagens que considero relevantes ou valiosas.

Então, para expor uma fase crucial em que pude ampliar meu acesso a livros, vou mexer no meu passado. Houve uma época (quando eu limpava quintais no Santa Delmira e trabalhava de vigilante noturno em quarteirões do bairro, a pé e com um tipo de cassetete) em que um vizinho de nome Antônio, pintor de residências, vez por outra me chamava para ajudá-lo.

Naquele tempo, repito, meu contato com livros era próximo de zero. Até porque, por falta de afinco e necessidade de arrumar dinheiro, sendo eu o mais velho de onze irmãos (dois faleceram), deixei a escola na quinta série primária, onde ingressei totalmente analfabeto com onze anos. Estudar era quase um luxo. Sapateiro, o meu pai tinha só a quarta série. Minha mãe, analfabeta.

Acho que outro ponto que desagrada o leitor são esses relatos, decerto já expostos em crônicas anteriores, sobre meus apuros da juventude. Sobretudo nas gestões dos presidentes João Batista Figueiredo e José Sarney. Depois, como se não bastasse, veio uma desgraça ainda pior: Fernando Collor de Mello.

Mas falemos sobre o meu importante contato com a sala de aula. Desde cedo me revelei um asno diante dos algarismos, embora os meus professores de matemática fossem bons. Todavia, no tocante à língua portuguesa, aconteceu o contrário em relação à aritmética. Foi um choque quando eu descobri que podia ler e escrever. Na sequência, como um tipo de encantamento, os livros se tornaram para mim objetos mágicos, portais que me levaram muito além daquele meu mundo de privações e sombras. Fui um ignorante em matemática, volto a dizer, tirei apenas notas para não ser reprovado, trocar de ano, mas me senti à vontade com nosso idioma.

O nome da escola, cujo registro faço com saudosismo e não menos orgulho, chamava-se Instituto Dom João Costa, na Rua Duodécimo Rosado, no Nova Betânia. É onde atualmente funciona o Centro de Práticas Múltiplas Dom João Costa, que está vinculado à Faculdade Católica do Rio Grande do Norte.

Retomemos, antes que eu me perca, o assunto da minha atuação como ajudante de pintor. Num determinado dia, talvez em meados dos anos oitenta, convocado pelo referido senhor Antônio, ele que possuía uma pequena carroça puxada por um jumentinho para transportar os seus apetrechos (rolos, baldes, brochas), fomos pintar a casa de um bancário. Quem sabe ele já fosse ex-bancário, não sei. O homem, acerca do qual eu conhecia apenas a ligação com o banco, era uma pessoa bastante destacada na sociedade mossoroense. Chamava-se Luiz Aquino, dono de uma biblioteca com um grande acervo de importantes autores nacionais e estrangeiros.

Ganhei uma boa grana auxiliando o meu vizinho pintor, entretanto eu conseguiria algo mais valioso. É que o senhor Luiz Aquino, com quem não tive mais contato, havia amontoado numa espécie de quartinho uma considerável quantidade de livros que os cupins tinham danificado. Perguntei o que seria feito deles e Luiz me confirmou que iria jogá-los fora. Pedi aquelas obras e ele me deu tudo.

Coloquei a “biblioteca” na carroça. Em casa, utilizando um veneno contra cupins dado pelo senhor Antônio, consegui acabar com os insetos. Alguns volumes possuíam certas avarias, no entanto a maior parte estava em boas condições de legibilidade. Ganhei de Luiz Aquino, de saudosa memória, essa contribuição inestimável para o meu processo de fortalecimento da leitura e estímulo para iniciar a minha própria escrita. Esta página é mais um fruto que eu lanço ao sabor do vento.

Marcos Ferreira é escritor

Todo sábado (e outros dias) é assim…

Mendigo, pedinte deitado em farrapos no Mercado da Cobal em Mossoró - Paulo MenezesPor Paulo Menezes

Como diz a canção do cantor-compositor José Augusto, “todo sábado é assim”. A rotina se repete.

Perto da Mercado da Cobal (Central de Abastecimento Prefeito Raimundo Soares), onde faço a feira semanal, estaciono o carro sempre no mesmo local. A cena não é diferente do sábado anterior.

Deve ser, inclusive, o mesmo retrato de todos os dias da semana. A moradora de rua, com o sol já iluminando as primeiras horas da manhã, dorme em sono profundo – indiferente à violência dos dias atuais. Ao seu lado, um depósito desasseado com restos de comida, entregue às moscas, de uma boia que pelo aspecto não deve ter sido boa.

O colchão, roto, em frangalhos, na calçada imunda, serve de abrigo para o repouso do corpo adormecido.

A coberta, uma colcha  esfarrapada mais suja que o colchão, agasalha a mulher ajudando à mesma a enfrentar o frio da madrugada escura e silenciosa.

Sabendo que isso é uma amostragem de uma realidade por todo esse Brasil afora, uma gota d’água nesse país continente, onde há milhares de moradores de rua iguais à habitante da calçada da Cobal, é que vejo quão desigual e cruel é nossa pátria. Indago então a mim mesmo, ao ver o quadro semanal dessa desprotegida da sorte: que esperança ou sonho poderá ter a infeliz moradora de rua, onde um prato de comida depende da boa vontade dos transeuntes indiferentes?

Terá alguma aspiração na vida?

Verá alguma luz no fim do túnel?

Creio que não.

Seus dias e noites devem ser todos iguais. Sem luz, sem vida, sem futuro, sem esperança enfim.

Paulo Menezes é meliponicultor e cronista

Como se manter pobre para sempre (Os 10 Mandamentos)

Por Stephen Kanitz

Os 10 Mandamentos Para Continuar Pobre são:

1. Fale mal dos ricos.

2. Fale mal do dinheiro.

3. Reclame das contas que você tem a pagar.

4. Seja mesquinho: Não doe nada nunca. O que é seu, é seu.

5. Leia e colecione todo tipo de notícia ruim sobre a economia.

6. Atribua a sua situação econômica e a dos outros à sorte ou ao azar.

7. Fique revoltado quando souber de alguém que ganha um salário altíssimo.Quem sabe assim o salário deles diminui e o seu cresce.

8. Pechinche ao máximo, sempre: Quando for contratar alguém para realizar qualquer tipo de serviço, sinta-se feliz em conseguir fechar tudo a um preço inacreditavelmente baixo.

9. Culpe aos outros pela sua situação financeira. Os Bancos, por exemplo.

10. Tenha vergonha de prosperar: Quando alguém elogiar algo que você tem, diga que comprou na promoção.

Stephen Kanitz é consultor de empresas e conferencista brasileiro, mestre em Administração de Empresas da Harvard Business School e bacharel em Contabilidade pela Universidade de São Paulo