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“Frutos poéticos” junta versos inspirados em Antônio Francisco

Livro reúne grupo de autores inspirados em Antônio Francisco Arte para divulgação)
Livro reúne grupo de autores inspirados em Antônio Francisco (Arte para divulgação)

A poesia do poeta mossoroense Antônio Francisco envolve, com sua força poética e beleza, quem a escuta em algum momento da vida. Um grupo de jovens, que cresceram e se fizeram poetas inspirados pela obra de Antônio, apresenta ao público, no próximo sábado (20), uma coletânea de poemas que tem em Antônio sua principal inspiração.

“Frutos poéticos de Antônio Francisco” apresenta a poesia dos “Poetas mirins”, meninos e meninas que conheceram a poesia pela obra do mestre.

O lançamento do livro acontecerá na Praça do Memorial da Resistência, às 18 horas. O livro foi organizado por Antônio Francisco, Lígia Morais e Etevaldo Almeida, contemplado no edital de seleção de projetos multiculturais da Lei Paulo Gustavo 02/2023, operacionalizado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Ministério da Cultura, além do Governo Federal.

Integram a antologia, os poetas Moisés Marinho, Hérculys França, Marina Guimarães, Clara Bezerra, Davi Lima, João Neto, Ester dos Santos, Liane Bezerra, Quitéria Jales, Sofia Rêgo, Sofya Julyana, Ingrid Natália, Bia Cortez, Ana Cecília, Segundo Neto, e Andressa Nascimento.

Nota do BCS – Maravilha! Antônio é sempre inspirador e esses frutos são prova disso.

Estaremos lá, se Deus quiser.

Antônio Francisco participa da organização da obra Foto: divulgação)
Antônio Francisco participa da organização da obra (Foto: divulgação)

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Lirismo torto

Por François Silvestre

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Quem nasceu no pé da serra, e depois subiu a serra, e depois morou na serra, tem por destino certo viver com a cabeça nas nuvens.

Quem nasceu na beira do rio, e depois entrou no rio, e depois nadou no rio, tem por destino certo viver contra a correnteza.

Quem nasceu longe do mar, e depois chegou-se ao mar, e depois nadou no mar, tem por destino certo enfrentar a força das ondas.

Quem nasceu na beira do mato, e depois entrou no mato, e depois se perdeu no mato, tem por destino certo ser presa do caçador.

Quem nasceu na entrada da rua, e depois entrou na rua, e depois morou na rua, tem por destino certo enganchar-se na multidão.

Quem nasceu na franja da bandeira, e depois marchou com a bandeira, e depois se enrolou na bandeira, tem por destino certo fugir de todos os hinos.

Quem nasceu ouvindo hinos, e depois cantou os hinos, e depois ensinou os hinos, tem por destino certo fugir de todas as bandeiras.

Quem nasceu na porta da biblioteca, e depois se fez de biblioteca, e depois sumiu na biblioteca, tem por destino certo esconder-se por trás dos livros.

Quem nasceu no patamar da igreja, e depois entrou na igreja, e depois rezou na igreja, tem por destino certo duvidar das orações.

Quem nasceu na rua do fórum, e depois entrou no fórum, e depois conheceu o fórum, tem por destino certo zombar da pompa forense.

Quem nasceu ao som da política, e depois entrou na política, e depois conheceu a política, tem por destino certo a escolha entre a mentira ou a fuga.

Quem nasceu na escada da escola, e depois entrou na escola, e depois aprendeu na escola, tem por destino certo rever quase tudo que aprendeu.

Quem nasceu no primeiro verso do soneto, e depois atravessou os quartetos, e conseguiu passar dos tercetos, tem por destino certo desvencilhar-se das rimas.

Quem nasceu no escuro do mofumbo, e depois saiu do mofumbo, e viu a luz pelas mãos da parteira, tem por destino certo rir-se da vida e desdenhar da morte.

Quem nasceu na porta do bar, e depois entrou no bar, e depois se embriagou no bar, e lá teceu o seu ninho, tem por destino certo recitar a verdade do vinho.

François Silvestre é escritor

Os nomes

Por Manuel Bandeira

Arte ilustrativa Web
Arte ilustrativa Web

Duas vezes se morre:

Primeiro na carne, depois no nome.
A carne desaparece, o nome persiste mas
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
— Tantos gestos, palavras, silêncios —
Até que um dia sentimos,
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros.

Santinha nunca foi para mim o diminutivo de Santa.

Nem Santa nunca foi para mim a mulher sem pecado.

Santinha eram dois olhos míopes, quatro incisivos claros à flor da boca.
Era a intuição rápida, o medo de tudo, um certo modo de dizer “Meu Deus, valei-me”.

Adelaide não foi para mim Adelaide somente
Mas Cabeleira de Berenice, Inominata, Cassiopeia.

Adelaide hoje apenas substantivo próprio feminino.

Os epitáfios também se apagam, bem sei.
Mais lentamente, porém, do que as reminiscências
Na carne, menos inviolável do que a pedra dos túmulos.

Petrópolis, 28.2.1953

Manuel Bandeira (1886-1968) foi crítico literário e de arte, tradutor, poeta e professor

Amigo querido

Por Flora Figueiredo 

Arte ilustrativa Web
Arte ilustrativa Web

Por onde andamos

nós, que raramente nos falamos?

Engolidos pela pressa

Ou pela saga do compromisso?

Ó Deus, que maratona é essa?

 

Deixo um recado de saudade

Para você pensar.

Por mais que a vida corra e o mundo agite.

Por favor, acredite:

o nosso coração não muda de lugar.

 

O tempo e a distância

Costumam nos arrastar.

É como se folhas de outono

Se separassem pelo sopro de algum vento.

Mas nosso coração não muda de lugar.

 

Conservo a mão estendida,

O peito aberto.

O ombro compreensivo.

O pensamento alerta.

A qualquer hora você pode me chamar.

O meu carinho permanece vivo.

 

É que nosso coração não muda de lugar.

Flora Figueiredo é poeta, tradutora, compositora e escritora

Ocaso e cerveja

Por François Silvestre

Imagem com recurso de Inteligência Artificial para o BCS
Imagem com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

Envelhecer não faz ou desfaz ilusão/

não pede zelo, no desmazelo

do atropelo. Não./

 

É entre dores, saudades, confusões da mente/

a alegria de não ter morrido novo./

Só.

 

Será alegria?/ Ou apenas o consolo de ainda lhe restar/

o tempo escasso da sobremesa/ no banquete

miserável servido entre o fugaz sabor da vida?

 

Fugaz! Feito armadura num herói da mentira/ cuja espada

cai ante a vitória de um vencedor inexistente./

 

É isso? Não. Não é. A vida não é./

Qualquer verbo serve à definição da vida/

Menos o verso Ser./ A vida existe, resiste, desiste, consiste, mas não é/

A vida comporta todos os verbos,/ menos o verbo ser. A vida não É.

 

O velho se vê no espelho quebrado pela raiva do tempo./ Trincas são rugas./

Fugas da memória/ com a melancólica mentira do esquecimento.

 

Esquecer é doença?/ Não. É fuga./ Quase nojo do que persegue./ Do lembrar no que se ateve, ou deixou de atrever-se./

 

Mas, a constatação: Velho é a carcaça do herói que esqueceu de morrer novo./

E pra desvalor da própria vida,/ esbanja desmantelo de membros e cérebro.

 

Para o desfecho, volto ao título./ O ocaso da vida/ descendo nas quebradas do poente./

O sol esmorece desaquecendo até sumir./

Eu, insistente de heroísmo nenhum, perdi a chance de morrer novo/ tô vivo e contente,/ olhando pra morte e descrente,/ sem deuses pra rezar,/ sem preces pra orar,/ sem crenças de confortar,/ guardando as tardes, cada uma como seja./

Meu ocaso, minha tarde e a cerveja!

François Silvestre é escritor

Para lembrar Zé Lima, a poesia de Lalauzinho de Lalau

Lalauzinho de Lalau, poeta, radialista e locutor de eventos esportivos ligados ao campo, homenageia o também poeta, compositor e cantor José Ivan de Lima, 67, o “Zé Lima”, falecido nessa sexta-feira (07).”

E o faz, com poesia, claro.

Hoje a morte levou Zé
Poeta humilde e pacato!
Era um apresentador,
Era um cordelista nato!
Um cantador natural,
A sua terra natal
Era, Santana do Mato.

Zé Lima era um porta-voz
Das festas de cantoria!
Levou coisas do sertão,
Onde ninguém conhecia!
Ganhou vários festivais
Com canções boas demais;
Mas, que pena chegou seu dia.

E a viola companheira,
Triste com o seu violão!
Mar de Lama, Forró bom,
Também a Flor do Algodão!
Vem Morena e Cerrado;
São canções que eu tenho lembrado
Da sua composição.

Adeus amigo Zé Lima,
Vejam a vida como é!
Meus sentimentos a família,
Que lhes conforte na fé!
Hoje só resta a saudade;
Partiu pra eternidade,
Hoje a morte levou Zé.

Não sabemos quando vamos,
Só Jesus de Nazaré!
E o poeta quando morre,
Morre sabendo quem é!
Isso é a coisa mais certa;
Um poeta, vai ser sempre um poeta,
Adeus, meu amigo Zé.

Leia tambémMorre em Mossoró o poeta, compositor e cantor Zé Lima

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Guardar

Por Antônio Cícero 

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por

admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por

ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,

isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro

Do que um pássaro sem voos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:

Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:

Guarde o que quer que guarda um poema:

Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

Antônio Cícero – (1945-1924) foi poeta, crítico literário, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras

*Vídeo gravado do programa Conversa com Bial, com Antônio Cícero e a irmã cantora Marina Lima.

Teste

Por François Silvestre

Arte ilustrativa com uso de IA do BCS
Arte ilustrativa com uso de IA do BCS

Não é uma crônica,

nem verso, só teste.

 

uma tentativa de volta,

sem revolta, sem vista ou veste.

 

Nua, quase crua, sem casa,

na rua.

 

E por falar em nua, a velhice no banheiro

é pior do que espelho.

No reflexo espelhado há cortes, escolhas de lados.

Disfarce.

Lá, recanto do banho ou descarrego,

não há escape, revela-se.

 

Pele? Que nada, descasca, sem casca.

E no despenar-se vai o resto. Que nem merece narrar.

Foi teste.

 

Viver é esperar na porta do banheiro.

Após a fila, impaciência, do desassossego que desbanca,

o alívio enfim,

E o fim é contemplar as pelancas!

François Silvestre é escritor

Horas de vida

Sob os acordes de Elias Epaminondas, a poesia de Marcos Ferreira.

Eu vou levando minha nau para outros portos…

Eu vou deixando para trás todos os charcos…

(Horas Mortas)

Horas de vida!

Belíssimo, meus amigos.

Pro dia nascer feliz.

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Por dever legal e por reconhecimento moral, respeitem os autores

Por Aldaci de França 

Arte ilustrativa do Bloguito
Arte ilustrativa do Bloguito

Diversos cantores que primam ou sempre dão prioridade a um trabalho bem elaborado, ou seja, músicas em que as letra se traduzem em mensagens que falam por nós, externando sentimentos, angústias, paixões, amor, romantismo, injustiça social e conflitos entre as nações, têm recorrido à poesia popular nordestina. Não faltam obras musicando poemas em formas diversas.

Esses cantores/compositores ou só intérpretes, garimpam o que há de melhor na produção poética contextualizado na poesia popular nordestina, para adornarem com músicas e melodias contagiantes, seus poemas irretorquíveis. Com isso, a poética nordestina ganha mais projeção e pode elevar bem mais o  nome e imagem de seus verdadeiros autores. Isso tem ocorrido devido a repercussão positiva de suas obras, gravadas por nomes respeitados da nossa música.

Mas, nem tudo são flores. Existem exceções, ocorrem desrespeitos, alguns ‘esquecimentos’ inaceitáveis.

Algumas obras poéticas gravadas por talentosos intérpretes da música brasileira estão aí, fazendo sucesso, sendo eternizadas: “Triste Partida” de Patativa do Assaré, gravada por Luiz Gonzaga, O Rei do Baião; “Vaca estrela e Boi fubá” dentre outras também do filho do Assaré, musicadas por Fagner; “Difícil Demais” dos Nonatos’, é carro chefe de um dos Cds de Flávio José, e na voz do forrozeiro, essa composição tem sido muito bem  ouvida pelos que se identificam com o romantismo e apreciam o gênero forró. Ele e outros discípulos do maior ícone da música brasileira, o pernambucano de Exu, Luiz Gonzaga, exaltam essa poética nordestina.

Acrescente-se aqui, que Amado Edilson gravou do norte-rio-grandense de Ouro Branco, Sebastião Dias, recentemente falecido, a “súplica dos ecólogos”, que posteriormente Fagner fez ecoar com o título modificado para “Canção da Floresta”. Essa mudança de título ocorreu em comum acordo entre o autor e o cearense de Orós, o que não aconteceu com Amado Edilson, pois, esse teve que reconhecer a autoria do poema musicado de Sebastião Dias e consequentemente pagar um valor em dinheiro ao autor referente ao direito autoral.

O poema em decassílabos “Mulher nova bonita e carinhosa, faz o homem gemer sem sentir dor,” com autoria de Otacílio Batista (in memoriam), poeta repentista e escritor, tem a coautoria do também saudoso poeta repentista José Gonçalves. Esse introduziu a melodia diferenciada ao trabalho, deixando-a pronta à gravação. No entanto, Zé Ramalho lança mão da referida composição e ‘autoriza’ Amelhinha a gravá-la, sem a permissão dos legítimos autores. Essa situação terminou provocando judicialização, tendo o indesejável imbróglio sido resolvido em acordo proposto no campo judicial.

Alceu Valença, uma das expressões da nossa música, também se utiliza da mesma prática, cantando modalidades do gênero coco de embolada, em suas apresentações, deixando transparecer que essas modalidades são de domínio público, mas sem apresentar provas contundentes para tal, enquanto os coquistas (emboladores coco) insistem na tese de que são os legítimos autores das referidas obras.

E assim, a “banda vai passando” e muitos se dando bem nas costas dos magistrais artistas e poetas populares, que produzem pérolas transformadas em músicas de melhor qualidade.

Apesar do exposto, vemos como positiva para os nossos poetas e compositores populares, a boa repercussão dos seus trabalhos gravados pelas grandes referências da música brasileira. O que se faz necessário, e com urgência, é que esses que estão em maiores patamares artísticos e, usufruem do talento alheio, venham a fazer o certo e reto – por dever legal e por reconhecimento moral.

Por favor, respeitem os autores.

Aldaci de França é poeta repentista, escritor, cordelista e coordenador do Festival de Repentista do Nordeste no Mossoró Cidade Junina (MCJ)

Métrica, rima e oração – base para uma boa produção poética

Por Aldaci de França

Reprodução de J. Borges
Reprodução de J. Borges

A cantoria nordestina é uma manifestação da cultura popular, fulgurante na região desde o início do Século XIX e teve o seu ponto de partida na Serra do Teixeira-PB. Por lá, os seus primeiros atores a praticavam em forma de trova medieval (estrofe de quatro versos).

Posteriormente, o paraibano Silvino Pirauá de Lima, repentista, pesquisador e cordelista ofertou o acréscimo de mais dois versos, o que proporcionou o surgimento da sextilha, estrofe de seis versos. Rima-se o segundo verso com o quarto e o sexto; para o primeiro, o terceiro e o quinto, não há necessidade da rima.

Conforme Aurélio e Houaiss (2010), Pirauá criou também o martelo malcriado em dez pés, decassílabos, desafio ainda hoje solicitado nas cantorias de pés-de-parede, principalmente pelos mais veteranos apologistas do repente. Contudo, esses gênero da cultura popular não teria brilho nem estética plausível, sem a sua técnica básica: rima, métrica e oração, critérios fundamentais para uma boa produção poética, concernente à prática da poesia oral cantada pelos cantadores, repentistas e na poesia escrita (cordel e poemas em formatos diversos).

Métrica, rima e oração, em 1946, já eram praticadas pelo repentista Pinto do Monteiro e pela trindade dos Batista: Dimas Lourival e Otácilio, no Teatro Santa Izabel em Recife-PE, na primeira cantoria oficial da Veneza Brasileira, ação promovida pelo escritor e dramaturgo Ariano Suassuna, como ele mesmo disse na Apresentação do Livro dos Repentes, organizado por Jeci Bezerra e Ésio Rafael (1991). Certamente esses poetas seguiram os seus antepassados, nesse aprendizado.

Esse critério é indispensável nos desafios de repentistas por ocasião da realização dos festivais, e, é atentamente observado no julgamento das duplas de repentistas nesses eventos que melhor difundem a cantoria nordestina. E se perguntarmos, qual a justificativa para a implacável exigência de métrica, rima e oração nos eventos de Cantoria?

Indubitavelmente, a resposta convincente passa pela ideia de que toda produção literária, tem a sua técnica própria de narração que melhor adorna esteticamente a obra. Exemplo: o soneto não seria tão interessante, se não fosse composto por dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), com os versos rimando entre si, com métrica de dez sílabas, onde o autor procede com fidelidade ao desenvolver a temática escolhida. Entrelaça tudo na construção poética, rima, métrica e oração, regra que deve ser aplicada tanto na poesia improvisada quanto na escrita.

Concluindo, deixo para o leitor um dos sonetos que podem servir de esclarecimento da regra básica da poesia popular nordestina. Assim, conheçamos um dos nossos trabalhos poéticos extraído do livro (VERSOS EM FORMS DIVERSAS, segunda edição, Sarau das Letras, P.49, FRANÇA, Aldaci de.).

Longe de Reclamos

Não tenho um segundo para reclamar
Mas tenho uma vida para ser feliz…
Uma estrada longa para caminhar
E poder chegar onde sempre quis.

Em dificuldades nem quero pensar,
Peço autoestima pra quem se maldiz;
Da dor da ferida, nem quero lembrar
Ou chorar as mágoas dessa cicatriz!

Vou sorrir dizendo a quem me escuta:
“Soldado guerreiro não foge da luta”,
Nem teme arranhões de ponta de espinho!

Porque as batalhas perdidas e ganhas
Que empreendi em tantas campanhas,
Deixaram-me o norte do melhor caminho…

Aldaci de França é poeta, repentista, escritor, cordelista e coordenador dos Festivais de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina

E quando morrer?

Por François Silvestremorrer-linha-no-monitor-600x400

Ao nascer, nem lembro quando,

se chorei, nasci.

 

Infância de grotas,

chãs, pé de serra,

frutas, sacristias, chuva e seca,

se brinquei,

sorri.

 

Adolescência,

remanso das dúvidas,

morrem as certezas, velório das crenças,

era a passagem,

saí.

 

Maturidade,

o toque da ida,

o fazer ou desfazer,

ansiedade ou prazer,

em todas as estações, de cada idade,

Verão, praias cheias de gente vazia,

Inverno, neve de algodão, nas barbas do Nicolau,

tudo suavemente falso,

Outono, frutas nas bancas das calçadas,

Primavera, flores de plástico nos vasos das janelas.

 

Vida? Foi isso,

depois de nascer parti.

 

E quando morrer?

Morri.

François Silvestre é escritor

Eita bixiga taboca… isso só tem no sertão

Por Zenóbio Oliveira

Foto: Gustavo Bettini
Foto ilustrativa de Gustavo Bettini

Xarope de Malvarisco,
Pra curar tosse puxada,
Um rosário na portada,
Pra proteger de corisco,
Um cordão de São Francisco,
Pra frear assombração,
Catuaba com limão,
Pra animar velho coroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um pirão de Sabaru,
Na hora da gororoba,
Café de Mangirioba,
Com o mel do Capuxu,
Melador de Cumaru,
Pra curar constipação,
Uma piraca a carvão,
Pra espantar muriçoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Uma tigela de fuba,
Peneirada em urupemba,
Um cavalo de catemba,
De talo de carnaúba,
Reza braba que derruba,
Mau-olhado e maldição,
Duas moças num pilão,
Caçulando uma paçoca
Eita bixiga taboca
Isso só tem no sertão.

O povo escutando um jogo,
Num rádio antigo da SEMP,
Um bule em riba da trempe,
Com café pegando fogo,
Uma galinha com gogo,
Babando que só o cão,
Um galo ciscando o chão,
Doido pra achar minhoca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Tarrafa malha miúda,
Pra pesca de sabaru,
Banha de tejuaçu,
Pra dor de garganta aguda,
O chá da folha de arruda,
Pra descer menstruação,
Ninho de palha no chão,
Pra deitar galinha choca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Um baú na camarinha,
E um monte de troço dentro,
Uma horta de coentro,
No terreiro da cozinha,
Um poleiro de galinha,
Nos dois ganchos dum pinhão,
E o roçado de feijão,
Precisando duma broca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Quixó, fojo, landuá,
Arataca e arapuca,
Tocaia, facho, cumbuca,
Mundé de pegar preá,
Anzol, rede de pescar,
Negaça, sangra, alçapão,
Garrucha, funda, facão,
E espingarda de soca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Batata de macambira,
Pra fazer ração bovina,
Uma cerca de faxina,
Amarrada com embira,
Cortiço de Jandaíra,
Pendurado no oitão,
Um pinto na plantação,
Pinicando tamboroca,
Eita bixiga taboca,
Isso só tem no sertão.

Zenóbio Oliveira foi jornalista, repórter cinematográfico, poeta e escritor falecido dia 12 de julho do ano passado (veja AQUI)

Quero morrer de manhã

Por Ronaldo Cunha Lima

Imagem ilustrativa da Freepik
Imagem ilustrativa da Freepik

Quero morrer de manhã.
Janelas abertas.
Contemplando o sol e a vida.
Quero morrer de manhã.
Deve ser bonito um ocaso numa aurora.
Não quero camas brancas, cadeiras brancas
que fazem pensar que a gente vai morrer.
Quero morrer de manhã.
Os galos cantando.
O sol na vidraça,
e a vida passando lá fora.

Quero morrer de manhã.
A interminável noite virá depois
claro-escuro, de madrugada,
quero morrer de manhã.
Deve ser bonito um ocaso numa aurora
haverá sol, haverá luz, haverá vida
e ninguém há de pensar que eu vou morrer.

Ronaldo Cunha Lima (1936-2012) Nascido em Guarabira-PB, ele foi vereador e prefeito de Campina Grande-PB, deputado, senador e governador, além de advogado, poeta e escritor

*O autor faleceu com câncer no pulmão, numa manhã de 7 de julho de 2012.

Você Mulher

Por Marcos Ferreiramulheres

Você que malha Você que dança Você tão grande Você criança
Você que mostra Pra quem quiser A tua força Você mulher
Você da rua Você do vício Você do baixo Do meretrício
Você cantora Você atriz Você a outra Você matriz
Você do rio Você da praia Você de short Você de saia
Você que aprende Você que ensina Você que invade Minha retina
Você morena Você galega Você que passa Você que chega
Você pretinha Você branquela Você tão feia Você tão bela
Você frescura Você calor Você desfrute Você pudor
Você no meio Da multidão Sem ter emprego Nem profissão
Você de casa Que lava roupa Você que rega Você que poupa
Você que gera Que reproduz Você que é vida Você que é luz
Você que é toda Minha fraqueza Você a joia Da natureza
Você tranquila Você dilema Você a dona Desse poema
Você que ama Você que chora Você que fala Que vai simbora
Você pedaço De mau caminho Você torrente Você um ninho
Você picante Você açúcar Você correta Você maluca
Você humana Você defeito Você um alvo Do preconceito
Você batalha Você a paz Você tão frágil Você capaz
Você tapera Você castelo Você um sonho Você anelo
Você viola Você canção Você meu tema De inspiração
Você um pranto Você um riso Você metade Do paraíso
Você a rosa Você olor Você o beijo Do beija-flor
Você meu anjo Meu querubim Você eu digo Você pra mim
Você dos outros Você qualquer Você é tudo Você Mulher.

Marcos Ferreira é escritor

Quem morre?

Por Pablo Nerudacaminhar-descalco

Morre lentamente
quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajetos, quem não muda de marca
Não se arrisca a vestir uma nova cor ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente
quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente
quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os “is” em detrimento de um redemoinho de emoções,
justamente as que resgatam o brilho dos olhos,
sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente
quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida,
fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente
quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente
quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente,
quem passa os dias queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.

Morre lentamente,
quem abandona um projeto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples fato de respirar. Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda (1904-1973) foi poeta, Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e cônsul do Chile na Espanha e México.

Lucidez

Por Kalliane Amorim

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Treinávamos a ausência do mundo

com o rio passando a nossos pés.

 

A terra, o corpo, matéria tão comum…

A água, texto líquido, fluindo

rio abaixo, rio afora, rio mar…

 

E os olhos, claros, serenos,

nas formas que ali miramos

ficaram pra sempre presos,

presos de tanto olhar.

Kalliane Amorim poetisa e professora mossoroense falecida dia 10 de maio deste ano (veja AQUI).

*Poema extraído do livro Exercício de Silêncio da Editora Queima-Bucha

Musa morta

musa, mulher, fêmea, feminina ilustração maiorPor Marcos Ferreira

Sem nome, sem respeito, malfalada;
Com tinta no cabelo, um dente escuro.
A boca muito rubra quanto usada
No leito coletivo, atrás do muro.

O vício do cigarro e tanto nada
No olhar daquela vida sem futuro…
A cruz dentro do peito, ensanguentada,
Um feto sepultado no monturo.

A perna com platina… A tosse feia
-O busto avantajado de baleia,
A voz muito sonora, mas confusa.

Portanto, assim morreu na primavera
(Doente de si mesma e de quimera),
Na casa do meu peito, a minha musa.

Marcos Ferreira é escritor

*Extraído do livro “A hora azul do silêncio” do mesmo autor.

A hora azul do silêncio

Ilustração
Ilustração

Por Marcos Ferreira

No coração da noite segue uma tristeza

Com passos muito lentos e desmotivados,

Enquanto novamente a solidão retesa

A corda no pescoço dos abandonados.

 

Porém, no meu silêncio, com a luz acesa,

Eu vejo a roda-viva dos sonhos alados

Girando e espatifando toda natureza

De santos e demônios por todos os lados.

 

Também eu sei da vida azul dos vaga-lumes

Com suas lanterninhas, loucos de ciúmes

Da Lua sonolenta, que nunca se importa.

 

E tarde, na penumbra, junto à minha cama,

Reparo que um fantasma de mulher me chama

Ao reino vaporoso de uma deusa morta.

Marcos Ferreira é escritor

*Soneto originalmente publicado no livro “A hora azul do silêncio” do próprio autor.

Tarde

Foto ilustrativa
Foto ilustrativa

Por Kalliane Amorim

Em casa vazia, vazada,

estive preparando

aromas pra tua chegada:

 

Aromas de terra e água,

aromas de amores castos

na memória edificados…

 

Em casa, vazia, vazada,

a casa toda exalava

o físico, concreto, táctil

aroma de tua falta.

Kalliane Amorim poetisa e professora falecida no último dia 10 (veja AQUI).

*Poema extraído do livro Exercício de Silêncio da Editora Queima-Bucha