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O sol nasce para todos

Por Aldaci de França

O pôr do sol na Fazenda Poré, uma beleza do nosso sertão
O pôr do sol na Fazenda Poré, uma beleza do nosso sertão, foto de Genário Freire

 

Essa frase ou chavão como queiramos definir, se escuta diuturnamente e acontece certamente pelo enunciado do seu sentido, que diz: “todos(as) merecemos um lugar ao sol”.

Esse pensamento cabe ao viés da poesia popular nordestina e especificamente ao repente exímios representantes ou atores, que improvisam versos, chegando  inclusive a se surpreenderem com o feito em seus desafios poéticos.

Como ativista da poesia popular nordestina através do repente, e, ainda, por ser repentista atuante, além de produzir importantes eventos, tenho a preocupação em conscientizar esse segmento. Apesar de muito talentosos, muitos ainda não se consagraram como expoentes da cantoria nordestina.

Promovente de cantorias de pés de parede (eventos populares realizados em calçadas de modestas moradias ou de residências de fazendas no interior do Nordeste) e de Festivais de Cantadores do Nordeste, principalmente nas zonas urbanas dos municípios, sempre objetivo difundir melhor essas manifestações culturais de raiz. É uma de minhas maiores missões.

Eu mesmo reflito que como promotor de eventos com esses artistas, populares, temos ensejado mais a divulgação de nomes consagrados do que aberto espaço e palco aos poetas repentistas que precisam de um lugar ao sol. Gente que precisa aparecer, ser vista, ser ouvida, ser conhecida.

Com isso, percebo que há muito temos protegido aqueles que nem necessitam mais de serem tão acobertados por nós, e, por consequência, esquecido dos que ainda estão no anonimato ou muito pouco tem aparecido no cenário do espetáculo da cantoria. Não é fácil fazer a arte do repente ao calor do desafio poético.

Nada está perdido: ainda há tempo para corrigirmos essas distorções cometidas ao longo dos anos.

Uma das soluções para o problema pode ser encontrada agora nas leis federais de fomento à cultura, como a Paulo Gustavo e Aldir Blanc. Precisamos facilitar a difusão da cultura nordestina e de tantos talentos, inscrevendo projetos. É uma tarefa que exige mobilização e enfrentamento também da burocracia.

Lembremos dos que não têm sido contemplados com as leis mencionadas e incluamos os seus nomes no elenco de repentistas que escolheremos para abrilhantarem nossos projetos. É um apelo aos setores públicos, às universidades, às organizações diversas que lidam com a cultura, também no campo não governamental.

Essa atitude será por demais justa e pertinente, e, como resultado, beneficiará aos que não tem tido o espaço merecido nos projetos culturais realizados Nordeste a fora.

As árvores frutíferas não existiriam sem o pomar. Evitemos o pecado da omissão. O sol estar para todos.

Aldaci de França é poeta repentista, escritor, cordelista e coordenador dos Festivais de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina

O renascimento do Clube da Poesia em Mossoró

Por Aldaci de França

Ilustração do G1
Ilustração do G1

O Clube da Poesia, que tem como principal objetivo difundir a poesia popular nordestina, através do repente e de manifestações culturais afins, como o cordel, a declamação, oficinas e cursos, surgiu na década de 1990, no então restaurante “O Sujeito” (Mossoró). Seu cartão de apresentação foi uma boa cantoria, seguida de outros bons desafios poéticos, com repentistas de Mossoró e Região, e de diversos estados do Nordeste.

Com a mudança de nomenclatura de O Sujeito para “Clube Carcará,” o projeto Idealizado e coordenado pelo poeta Crispniano Neto transferiu-se para o  Clube do Sindicado dos Trabalhadores da Educação do RN (SINTE/RN), e em seguida para o Clube Aceu/Uern. Dessa feita, essa ação cultural passou a ter a minha coordenação em parceria com o professor Josué Damasceno.

Para a realização desses eventos culturais, contamos com o apoio  do próprio Sinte, Universidade do Estado do RN (UERN), além da Unimed Mossoró. Sem esse amparo cultural, provavelmente teríamos tido mais dificuldades para a viabilizarmos o projeto

Sob a nossa coordenação, foram realizados 23 cantorias de grande êxito, com renomados repentistas nordestinos e cantadores bem referenciados regionalmente.

DEPOIS DO INTERVALO de alguns anos com essa ação cultural paralisada, resolvemos tentar a sua revitalização, com o propósito de realizar cantorias de forma itinerante em nossa cidade, objetivando contemplar  admiradores(as) da poesia popular nordestina. Assim, o caminho foi percorrer diversos bairros de Mossoró,  como também acreditando  nas presenças de apologistas do repente de toda a nossa região.

O retorno do Clube da Poesia, se justifica na ausência de um calendário anual de boas cantorias, em Mossoró, onde o interesse maior seja fortalecer a cultura de raiz em nossa cidade. Precisamos destacar a sua valorização com a realização do Festival de Repentistas do Nordeste no Mossoró Cidade Junina (MCJ), por exemplo. E, neste 2023, chegou à XXI edição.

Outros eventos procuram difundir a poesia popular, no entanto, se faz necessária uma maior visibilidade em relação ao repente – que é patrimônio cultural do Brasil desde 2021, caso você não saiba. É referência da identidade da região Nordeste.

Com a pretensão de colocarmos em práticas esse objetivo, neste 06 de outubro de 2023, às 19h, estaremos na rua Juvenal Lamartine, 1676, na residência do poeta Zé Teles, Bairro Santo Antônio, à reabertura do Projeto Clube da Poesia. Vou me apresentar ao lado dos Irmãos Bessas, Antônio Domingos, o próprio Zé Teles e outros convidados.

É hora, ou passa da hora, de recomeçarmos. Então, vamos!

Aldaci de França é professor, poeta repentista, escritor e coordenador do Projeto Clube da Poesia em Mossoró.

Poetas populares

Por Antônio Vieira

“A nossa poesia é uma só
Eu não vejo razão pra separar
Todo o conhecimento que está cá
Foi trazido dentro de um só mocó

E ao chegar aqui abriram o nó
E foi como se ela saísse do ovo
A poesia recebeu sangue novo
Elementos deveras salutares

Os nomes dos poetas populares
Deveriam estar na boca do povo
No contexto de uma sala de aula
Não estarem esses nomes me dá pena

A escola devia ensinar
Pro aluno não me achar um bobo
Sem saber que os nomes que eu louvo
São vates de muitas qualidades
O aluno devia bater palma

Saber de cada um o nome todo
Se sentir satisfeito e orgulhoso
E falar deles para os de menor idade
Os nomes dos poetas populares”

Antônio Vieira é poeta baiano