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Exposição Virtual lembra os 100 anos de “Raibrito”

Há 100 anos nascia o primogênito de uma família potiguar: Raimundo Soares de Brito. Na cidade de Caraúbas, cresceu, conheceu o Oeste Potiguar, trabalhou nas capitais alencarina e do RN.

O Doutor Honoris Causa da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN) inscreveu-se como historiador, escritor e colecionador de História.

Na oportunidade do centenário de seu nascimento, organizamos a Exposição Virtual “Raibrito, um observador do cotidiano”, para celebrar o homem, o pesquisador e sua contribuição à cultura norte-rio-grandense.

A exposição, pensada inicialmente nos seus moldes tradicionais, em razão do isolamento social em vigor, adquiriu o formato virtual.

As páginas que antes foram pensadas como painéis, agora podem ser visualizadas pelo celular ou computador, sendo essa ferramenta que permite uma visão mais abrangente das páginas.

Nesta quinta-feira (23 de abril), data do nascimento de Raibrito, a Exposição passa a ser disponibilizada pelo endereço www.raibrito.com.br.

Visite e conheça um pouco da história deste caraubense, cujo legado engrandece a cultura potiguar.

Nota do Blog – Tudo que for feito para manter viva a memória e o trabalho hercúleo que foi realizado por Raimundo, merece aplausos. Conheci-o, visitei sua hemeroteca que era instalada em sua própria casa. Quanto zelo por nossa história.

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Ruas e patronos de Mossoró

Por Marcos Oliveira

 

“Nesta Rua Lopes Chaves / envelheço, e envergonhado / nem sei quem foi Lopes Chaves.”

Mário de Andrade

Ruas e Patronos de Mossoró – Dicionário, de Raimundo Soares de Brito, é obra de referência na historiografia da memorialística mossoroense. Cada verbete é uma explicação simples à pergunta sobre quem foi o homem ou mulher que denomina a rua, a praça, a instituição.

Imagine um visitante, morador novo ou até mesmo um mossoroense menino passando pelas ruas Trinta de Setembro, ou Seis de Janeiro, ou, ainda, pelos bairros Doze Anos e Abolição, e perguntasse: qual o significado dessas datas e nomes?

Agora, ele passa pela Avenida Dix-Sept Rosado, ou Dix-Neuf Rosado, ou Duodécimo Rosado, ou ainda a Jerônimo Rosado. Puxa! Quanto Rosado! O que essa família significa para esta cidade?

O livro traz a informação biográfica resumida dos patronos das ruas e praças da cidade, mas também contém informações de antigos topônimos, fatos históricos, figuras populares, curiosidades, denominações de vilas, edifícios, instituições, e até auditórios.

São 300 páginas contendo 3.177 verbetes, e 08 páginas com fotografias antigas da cidade. Importante livro para estudantes, jornalistas e cidadãos, de modo em geral, que buscam conhecer e divulgar Mossoró.

Trabalho feito com a meticulosidade, tão característica de Raibrito.

Lançado inicialmente em 2003, esta segunda edição, atualizada e revista em vários aspectos, continua uma pesquisa de mais de cinquenta anos.

Raimundo, o Raibrito, nasceu em Caraúbas-RN a 23.04.1920, filho de José Soares de Brito e Raimunda Saul da Costa. Comerciante em Caraúbas, Fortaleza, Natal e Mossoró. Trabalhou como Agente de Estatística em Caraúbas, onde também ocupou o cargo de Juiz Distrital. Foi Agente Postal Telegráfico em Jucurutu e Caraúbas e Gerente Postal e Telegráfico em Mossoró e Assu. Servidor público da Prefeitura de Mossoró.

Casado com Dinorá de Oliveira Brito, dedicada companheira, são os pais de Maria do Socorro Brito de Figueiredo. Pesquisador, autor de mais de 50 títulos, dentre os quais: Caraúbas Centenária (1959); Alferes Teófilo Olegário de Brito Guerra, um memorialista esquecido (1980); Indústria e Comércio do Oeste Potiguar (1982); Legislativo e Executivo de Mossoró (1985); Nas garras de Lampião (1996); Ruas e Patronos de Mossoró (Dicionário – 2003); AMOL – seus Patronos e Acadêmicos (2008).

Raibrito integrou várias instituições culturais, dentre elas: Instituto Histórico e Geográfico do RN (Sócio Honorário); Instituto Cultural do Oeste Potiguar; Academia Mossoroense de Letras, Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, e Academia Uruguaiana de Letras (Membro Honorário). Recebeu alguns títulos honoríficos dentre eles:  Doutor Honoris Causa, pela Uern em 1995; Cidadão Mossoroense, Cidadão Natalense, em 2004.

Marcos Oliveira é escritor, professor e sobrinho do autor já falecido

O brilho da cultura potiguar em toda intensidade

Por José Romero Araújo Cardoso

Raimundo: uma vida dedicada à cultura (Ricardo Lopes)

Raimundo Soares de Brito sintetiza e personifica um dos mais luminosos pontos da cultura norte-riograndenese, pois com esforço e obstinação vem contribuindo formidavelmente para o enriquecimento das letras e da preservação da memória em território potiguar.

Nascido na bela terra das caraubeiras, fundada pelo General-Mór Souza Falcão, pernambucano que colonizouo chão, no dia 23 de abril de 1920, nosso mestre completou recentemente 90 anos de fértil existência.

A hemeroteca que estruturou é um dos mais importantes repositórios de informações sobre o Estado do Rio Grande do Norte, pois ávido colecionador de velhos jornais, velhos alfarrábios e tudo que tem letras e números, Raibrito impressiona pelo amor ao saber e pelo desprendimento, pelo desinteresse em servir a quantos que o procura para pesquisas, consultas ou informações referentes a tudo que envolve o Rio Grande do Norte, mas sobretudo Mossoró e região oeste.

Escritor de raros dotes, Raimundo Soares de Brito escreveu importantes trabalhos enfocando da indústria e do comércio na região a tratado memorialístico fantástico que preserva figuras populares fascinantes com as quais conviveu.

O livro por título “Eu, ego e os outros”, publicado pela Editora Queima-Bucha, consiste no reconhecimento do grande intelectual potiguar à importância da maioria dos personagens simples e humildes da nossa terra. Se não fosse Raimundo Soares de Brito, pessoas como Mané Cachimbinho, Pata Choca, etc., tinham caído no esquecimento completo.

A geografia e a história mossoroenses foram enriquecidas com a publicação dos volumes do Dicionário de ruas e patronos, frutos da obstinação e da perspicácia de Raimundo Soares de Brito.

Talvez um dos mais marcantes trabalhos de Raimundo Soares de Brito seja “Nas garras de Lampião”, publicado pela Coleção Mossoroense da Fundação Vingt-un Rosado. Esmiuçando o diário do “Coronel” Antônio Gurgel, prisioneiro do bando de Lampião em 1927, Raibrito legou-nos interessantes notas históricas sobre espaço e tempo das agruras vividas pelo bravo sertanejo que viveu indesejado drama antes e após o frustrado ataque bandoleiro a Mossoró.

Amigo pessoal de Raimundo Soares de Brito, sempre contestei a “mania exagerada de perfeição” que acompanha imemorialmente o grande mestre.

Exemplo disso encontra-se na relutância em publicar fabuloso trabalho memorialístico sobre o “Coronel” Quinca Saldanha, chefe político de Caraúbas (RN), que em um passado remoto, inexplicavelmente, atendeu aos apelos da Aliança Liberal e cerrou fileiras com o governo de João Pessoa no Estado da Paraíba, enviando, inclusive, jagunços para lutar ao lado das tropas legalistas em Tavares (PB), quando da guerra civil de Princesa em 1930.

Raimundo Soares de Brito é referência quando o assunto envolve o âmbito cultural no Estado do Rio Grande do Norte, pois com dedicação ímpar tornou-se uma das maiores autoridades das letras na região, razão pela qual a universidade do Estado do Rio Grande do Norte não titubeou em conceder-lhe título de Doutor Honoris Causa.

José Romero Araújo Cardoso é Geógrafo, professor-adjunto da Uern e mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

* Veja também AQUI uma reportagem especial sobre Raibrito, de autoria da jornalista Lúcia Rocha, mostrando sua vida e gigantesco trabalho de preservação cultural.

É delicado o estado de saúde de “Raibrito”

Notícia angustiante que me chega, através da jornalista Lúcia Rocha:

– Caros colegas, acabo de receber notícias sobre o historiador e escritor Raimundo Soares de Brito, o querido “Raibrito”, que está internado há um tempinho em Natal, onde passou a residir nos ultimos anos.

E acrescenta: “Segundo sua filha Socorro me passou, ele está está em fase terminal e pode ir a qualquer momento, embora por incrível que possa parecer as funções vitais respondem muito bem, mas o quadro não é bom, segundo a médica dele – com quem Socorro esteve conversando.

Nota do Blog – Notícia preocupante, Lúcia.

Preocupante, também, o destino do acervo fantástico levantado por esse pesquisador, historiador e escritor.

Nossas orações em favor do Raibrito.

Raibrito e o “vírus da pesquisa”

Por David de Medeiros Leite

(Comentários e indagações em uma crônica indignada)

Não sei precisar se faz dois ou três anos que Raimundo Soares de Brito está em Natal. Não sei quanto tempo faz que ele, por problemas de saúde, deixou sua casa em Mossoró e passou a morar em nossa capital, mais precisamente no bairro Neópolis. Deixou sua casa e seu arquivo.

Atentemos: trata-se da hemeroteca de Raibrito.

A discussão sobre o estado e o destino do acervo paira no ar. Vez por outra, emerge em meio à fumaça do saboroso café servido por Rafael Arcanjo, lá na rua Coronel Vicente Sabóia, ou numa discussão vespertina do ‘Sêbado’. Mas, infelizmente, são apenas conversas e comentários esporádicos, que, mesmo carregados de afeto, não possuem o condão de resolver o problema.

O cenário é, mais ou menos, assim: amigos indignados; Poder Público, silente; e as traças avançando…

E o mais complicado de aceitar, é o fato de sabermos que tudo foi fruto de um trabalho diuturno. As anotações, os recortes de jornais, as pacientes conversas e as perquirições mil, tudo ao longo de dias, meses, anos, décadas a fio, foram emoldurando um quadro surrealista que terminou por materializar-se no que conhecemos hoje como Acervo Raibrito.

Sem entrar especificamente no mérito do que proporcionou a situação na qual se encontra hoje o referido acervo, é evidente que existe uma pergunta que não quer calar: Que destino terá?

A parte que foi digitalizada, resultante do projeto Petrobrás/ICOP, está mais fácil de ser resgatada e novamente disponibilizada ao acesso virtual. No entanto, sabemos que a maior e mais significativa parte do acervo, lá na rua Henry Koster, espera uma solução, antes que tudo seja pó.

No entanto, mesmo diante de tal gravidade, não desejo falar em alternativas. Não elencarei possíveis soluções ou encaminhamentos. Não. A chamada vontade política não existe e não será um texto de minha autoria que mudará o azimute, consciente sou.

E, antes de tudo, chego mesmo a indagar-me: Escrever para quê? Ou, para quem? Não sei. Como catarse? Talvez. Nesta noite natalense, onde quase posso sentir o bolor dos papéis, não me vem à mente outra inspiração.

Este texto poderia ser considerado uma espécie de “crônica indignada”? Quanto ao “gênero” que, por ventura, possam atribuir a estas mal traçadas, não terei preocupação.

O que sei, e disso tenho certeza, é que todo norte-rio-grandense que se proponha a entrar na seara da pesquisa historiográfica deveria, antes de qualquer coisa, conhecer a trajetória de Raimundo Soares de Brito. Uma biografia recheada de abnegação, dedicação e, acima de tudo, de superação.

Imaginem vocês como um homem que inicialmente dedicava-se ao comércio e, numa segunda etapa, ao serviço público, despertou o interesse e motivou-se, sobremaneira, a pesquisar a historiografia potiguar. E o fazendo como autodidata, além de enfrentar outras tantas dificuldades materiais, percorria caminhos os mais difíceis possíveis.

Por tudo isso é que, nesse momento, prefiro mudar o rumo da prosa e comentar um pouco sobre o “vírus da pesquisa” de que fala o próprio Raibrito.

Numa determinada tarde, em meio a uma daquelas intermináveis conversas sobre fatos e personagens mossoroenses, indaguei-lhe sobre o seu despertar e consequente interesse pela pesquisa histórica. Raibrito, com a fleuma que lhe é peculiar, estirou o braço esquerdo e, levando o indicador da mão direita ao antebraço oposto, como que sugerisse a aplicação de uma injeção, respondeu-me didaticamente:

– Tudo acontece quando somos contaminados por um bichinho que costumo chamar de vírus da pesquisa. A partir daí, ninguém consegue parar.

Por mais simples que a metáfora usada possa parecer, naquele momento passei a compreender melhor a dedicação, o esmero, o denodo e a quase obsessão que o pesquisador sempre demonstrou em relação à sua saga de “Guardião da História do Oeste Potiguar”.

Ficou-me mais evidente o entendimento sobre seu total despojamento de vaidades e interesses próprios. A sua vida humilde, a casa simples, a modesta aparição em eventos e, até mesmo, pasmem, a enorme cautela em publicar. Tudo tinha sentido e explicação na “contaminação pelo vírus da pesquisa”.

A conclusão é mais que óbvia: Raibrito traduz, na essência, o que é ser um pesquisador.

Por tudo isso, se seu acervo não permanecer (como, infelizmente, parece factível), permanecerá seu próprio exemplo pessoal. Tão forte exemplo traspassará gerações e, em algum lugar do futuro, será observado por alguém.

Quantos raibritos existem em nossa realidade? Quantos pesquisadores labutam na difícil tarefa de preservação da memória de sua gente? Quantos são contaminados pelo “vírus da pesquisa” e vivem dilemas análogos? São indagações sem resposta, bem sei.

Somente a coragem, o desapego a bens materiais e uma forte dosagem de altruísmo podem explicar um pouco da motivação que possui a legião dos infectados pelo “vírus da pesquisa”.

Salve Raibrito!

David de Medeiros Leite é professor da Uern e sócio efetivo do Instituto Cultural do Oeste Potiguar (ICOP)