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Igreja quer colocar vigário Antônio Joaquim no seu devido lugar

Catedral, com Praça Vigário Antônio Joaquim em frente; ao lado, a Praça DIx-sept Rosado onde é construído o Memorial das Vìtimas da Covid-19 (Imagem do Google Eart)
Catedral, com Praça Vigário Antônio Joaquim em frente; ao lado (círculo verde), a modesta praça Dix-sept Rosado onde é construído o Memorial das Vítimas da Covid-19 (Imagem do Google Earth)

A Diocese de Mossoró vai propor à Prefeitura Municipal de Mossoró, o deslocamento do busto do vigário Antônio Joaquim do local onde é construído o Memorial das Vítimas da Covid-19 (veja AQUI), para a praça que leva o seu nome, em frente à Catedral de Santa Luzia. O assunto será levado ao prefeito Allyson Bezerra (UB) ainda essa semana.

O vigário-geral da catedral, padre Flávio Augusto Forte Melo, falou sobre a proposta durante missa dia passado (31 de dezembro), às 19h. Em meio à liturgia, ele perguntou aos presentes que lotavam a matriz, se concordavam com a mudança. Ouviu o “sim” de forma maciça.

Na Praça Vigário Antônio Joaquim está uma estátua do governador Jerônimo Dix-sept Rosado Maia  (25/03/1911-12/07/1951). Segundo o padre Flávio Augusto, a colocação do busto não implicaria na retirada da homenagem a Dix-sept Rosado. Ou seja, o pensamento é que os dois ilustres nomes da história local coabitem o mesmo logradouro.

O bizarro nesse enredo de muitas décadas, é que onde está o busto do vigário Antônio Joaquim é a “Praça Dix-Sept Rosado,” ao lado da catedral.” A ‘troca’ aconteceu no início dos anos 50 do século passado. Valeu o peso político do emergente clã Rosado na hora de botar a estátua do governador na praça mais importante da cidade.

História

Busto do vigário foi inaugurado pouco mais de dois meses após homenagem a Dix-sept Rosado (Foto: Reprodução)
Busto do vigário foi inaugurado pouco mais de dois meses após homenagem a Dix-sept Rosado (Foto: Reprodução)

Nascido na vila de Aracati-CE (hoje município) em 5 de novembro de 1820, Antônio Joaquim Rodrigues faleceu em Mossoró dia 9 de setembro de 1894. Foi religioso e político que empreendeu luta para elevar o povoado de Santa Luzia ao status de vila e, depois, cidade. Teve carreira política como deputado provincial (equivalente hoje a deputado estadual) em sete mandatos e exerceu papel religioso por mais de 50 anos na terra que o adotou.

Desde o dia 2 de dezembro de 1953 o seu busto foi fixado na Praça Dix-sept Rosado, ao lado da catedral, obra produzida pelo escultor Osísio Pinto, sob encomenda do industrial mossoroense José Rodrigues de Lima.

Pouco mais de dois meses antes da inauguração do busto do vigário Antônio Joaquim, na Praça Dix-sept Rosado, no dia 30 de setembro de 1953 a estátua de Dix-sept Rosado foi inaugurada no local. A obra foi executada por Ottone Zorlini, (Treviso, Itália, 1897-São Paulo-SP, 1967), reconhecido escultor ítalo-brasileiro. Ela tem 3 metros e 80 centímetros de altura e pesa 1.300 Kg. É ladeada por dois grupos de homens, mulheres e crianças, em tamanho natural, além de outros detalhes que lembram integrantes do seu governo, mortos no mesmo ano.

As esculturas foram esculpidas em bronze e o seu pedestal, em granito róseo, originário do município de Angicos-RN.

Ex-prefeito de Mossoró, Dix-sept Rosado morreu em acidente aéreo em Sergipe, no dia 12 de julho de 1951. Estava no cargo de governador do RN há pouco mais de cinco meses (posse dia 31 de janeiro de 1951).

Monumento a Dix-sept Rosado está na Praça Vigário Antonio Joaquim (Foto: Arquivo)
Monumento a Dix-sept Rosado está na Praça Vigário Antonio Joaquim (Foto: Arquivo)

*Fontes de informações e pesquisas históricas: Câmara Cascudo, Raimundo Soares de Brito, Geraldo Maia, Raimundo Nonato da Silva e VIngt-un Rosado.

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A historiografia do cangaço

Por Marcos Pinto

Massilon, coronel Isaías Arruda do Ceará e Lampião fazem parte de um enredo ainda incompleto (Fotomontagem BCS)
Massilon, coronel Isaías Arruda do Ceará e Lampião fazem parte de um enredo ainda incompleto (Fotomontagem BCS)

Nunca é demais repetir: é densa e vastíssima a bibliografia historiográfica da temática cangaço, no que consiste ao ataque lampionesco a Mossoró. Mas, nunca houve aprofundamento sobre os autores intelectuais do malogrado ataque.

Os dois principais jornais de Mossoró abordaram o episódio com manchetes instigantes, porém sem referenciar que o assalto à cidade fora objeto de complô formado por Tilon Gurgel, seu genro Décio Holanda, desembargador Felipe Guerra casado com uma irmã de Tilon Gurgel, que se acumpliciou com Jerônimo Rosado, seu amigo íntimo e compadre (vide Livro “Jerônimo Rosado” de autoria do consagrado historiador Câmara Cascudo – páginas 24/25 – coleção mossoroense – série C -vol XVIII. Editora Pongetti – RJ – ano 1967).

À página 35, o renomado mestre Cascudo tira carta de seguro: “Todas as frases ‘históricas’ têm uma documentação negativa, desmentidos formais de pesquisadores. Mas o real é que não foram ditas, mas foram programas subsequentes de veracidade indiscutível”.

Após o ataque, os jornais “O nordeste” – edição de 26.06.1927 estampa manchete ridícula e inverídica: “Jararaca falecera em viagem para Natal”, quando toda a cidade já sabia, à boca miúda, que cangaceiro fora assassinado à meia noite, no cemitério, por componentes da Polícia Militar, como queima de arquivo.

Na manhã do mesmo dia em que foi eliminado, ele  recebera a visita de uma senhora, à qual pediu para dizer ao prefeito Rodolfo Fernandes que tinha assunto confidencial para tratar com o mesmo. A imprensa nunca citou o nome desta senhora e qual a razão da mesma não ter dado o recado ao prefeito.

O mesmo jornal “O nordeste” estampa em edição de 09.07.1927, a Manchete “Massilon no Brejo,” referência ao Brejo de Pedra das Abelhas (atual cidade e município de Felipe Guerra-RN), onde residia Tilon Gurgel, também amigo íntimo do farmacêutico Jerônimo Rosado.

Este prestigioso jornal estampou somente dois anos e dez meses depois do ataque (edição de 12.04.1930) a elucidativa Manchete: “Isaías Arruda perto de Mossoró no dia 13 de junho de 1927,” referência a influente coronel cearense, de estreita relação com o cangaço. Indaga-se: por que o dono do “Nordeste” omitiu o fato de que Isaías era hóspede de Jerônimo Rosado em seu sítio “Canto”?.

Ouvi esta assertiva reiteradas vezes feita pelo tabelião Romeu Rebouças, que não pedia ressalvas.

Não resta dúvidas de que os historiadores Câmara Cascudo, Raimundo Nonato da Silva e Raimundo Soares de Brito (Raibrito), eram visceralmente vinculados à elite política dominante no Estado.

Câmara Cascudo privou da amizade de todos os governadores do ano de 1920 à 1955. Raimundo Nonato cerrou fileiras com Dinarte Mariz, desde o golpe getulista de 03 de outubro de 1930, tendo sido nomeado juiz de direito da comarca do Apodi no ano de 1957 pelo amigo/governador Dinarte Mariz. Observe-se que o prestígio e amizade de R. Nonato com o Dinarte era imensurável, que o R. Nonato assumiu a comarca do Apodi e no mesmo dia uma plêiade de amigos de Mossoró foram para a solenidade de posse. Foi organizada grande festa, sendo certo que o R. Nonato já havia sido professor em Apodi na década de 40 (1940).

Uma semana após a sua posse, o celebrado historiador R. Nonato solicitou aposentadoria como juiz de Direito, valendo-se dos seus 36 anos de exercício como professor da rede estadual de ensino. Ao saber, da aposentadoria, o governador Dinarte esboçou um sorriso, dando a entender que o astuto e novel juiz de Direito lhe passara a perna.

Alguns historiadores/pesquisadores apropriam-se da história para torná-la oficial, elidindo ou ocultando o papel dos demais protagonistas que, no caso, são condenados ao esquecimento mediante a fragmentação de “fatos” e “verdades.” É um modelo que serve aos objetivos dos “protagonistas” oficiais.

Certas forças autênticas e criativas dos processos históricos são dissimulados por uma narrativa que acentua a ação da vontade de alguns sujeitos privilegiados.

Costumo enfatizar que o historiador escreve fundamentado em documentos oficiais irrefutáveis. Já o memorialista escreve o que quer, na maioria das vezes para agradar as elites dominantes, ocultando, deturpando, e dissimulando, atendendo assim às hostes políticas e partidárias as quais está visceralmente vinculado.

Inté.

Marcos Pinto é advogado e escritor

Escritores – Raimundo Nonato da Silva

Por Honório de Medeiros

Raimundo Nonato da Silva Foto: Relembrando Mossoró)
Raimundo Nonato da Silva Foto: Relembrando Mossoró)

Pensei que descobrira algo diferente, até mesmo estranho, acerca de Raimundo Nonato da Silva. Dizia respeito a sua ubiquidade. Ou predestinação. Deveria ter me precavido contra esse ataque de arrogância pueril e consultado meu Cascudo.

Não o fiz, e tropecei, logo nos primeiros passos da caminhada. Ali estava, em uma Acta Diurna, no livro cujo título é Raimundo Nonato, o Homem e o Memorialista, organizado por José Augusto Rodrigues e publicado em 1987, pela Coleção Mossoroense, para o qual contribuiu a fina flor dos escritores norte-rio-grandenses da época, em homenagem aos 80 anos do grande escritor Martinense:

                   Vida movimentada e curiosa. Está em São Miguel de Pau dos Ferros, 1927/28. (…) 1929/30 está em Serra Negra, até a Revolução de outubro, com a invasão dos bandos que exigem comida, bravateando. (…) Finalmente transferem-no para Mossoró, em 1931. Apodi, um ano depois.

Alguma coisa escapou ao olhar atento de Luís da Câmara Cascudo?

Eis a ubiquidade de Raimundo Nonato, flagrada e descrita pelo mestre: Raimundo em São Miguel, e, depois, escreveu Os Revoltosos em São Miguel 1926; Raimundo em Serra Negra do Norte, e, depois, escreveu A Revolução de 30 em Serra Negra; Raimundo em Mossoró e, depois, veio Lampião em Mossoró, o primeiro livro escrito por um potiguar acerca do Cangaço.

Raimundo Nonato é um portento, eis o que se extrai do que se lê nos textos dos que lhe homenagearam. Memorialista, romancista, poeta, historiador, cronista, biógrafo, etnógrafo, jornalista…

Em sua lendária produção literária, contam-se mais de oitenta livros, mas esse é um número duvidoso: somente pela Coleção Mossoroense, foram mais de 30, prego batido, ponta virada.

Estava em todos os cantos, no momento certo, e abordou muitos temas, como se percebe ao ler Histórias de Lobisomem (folclore); O Pilão (etnografia); Bacharéis de Olinda e Recife (história); Quarteirão da Fome (romance); Memórias de um Retirante (memórias); Província Literária (crônicas); Jornalista Martins de Vasconcelos (biografia); Lampião em Mossoró (história); Terra e Gente de Mossoró (pesquisa acerca do 30 de Setembro de 1883); Visões e Abusões Nordestinas (folclore); História Social da Abolição em Mossoró (história); Serra do Martins (história); Negociantes e Mercadores (história); Jesuíno Brilhante, O Cangaceiro Romântico (cangaceirismo), um livro canônico, referencial, e por aí vai, sem levar em conta os artigos, perfis, discursos, conferências e outros textos publicados em livros e revistas, enquanto participação, bem como jornais do Brasil adentro e afora.

Repita-se, e acrescente-se, para que não reste dúvida: Raimundo Nonato foi o primeiro escritor norte-rio-grandense, salvo algum equívoco, a escrever acerca do Cangaço (Lampião em Mossoró); Coluna Prestes; e Revolução de 1930, no Rio Grande do Norte, bem como o primeiro escritor a lançar uma biografia, por instigação de Câmara Cascudo, de Jesuíno Brilhante.

É, portanto, com méritos, o patrono dos estudiosos do cangaceirismo no nosso Estado.

Ubíquo, prolífico, atento, presença certa durante um longo tempo no meio intelectual potiguar, até mesmo brasileiro, integrante de tantas quantas instituições culturais houve, e fundador de tantas e quantas outras, Raimundo Nonato da Silva, apesar de tudo isso, marcha lentamente para aquele limbo terrível onde habitam os escritores que o tempo encaminha para a penumbra.

Merece, sem dúvida, um estudo de sua vida e obra que é, a seu modo, um painel instigante, um retrato à contraluz, do Rio Grande do Norte no qual viveu, e de onde nunca se afastou sentimentalmente, mesmo quando foi residir no Rio de Janeiro.

Sobrevive, ainda, graças a leitores contumazes, pesquisadores renitentes, estudiosos teimosos que às vezes, por dever de ofício, outras vezes por curiosidade malsã, percorrem sebos em busca de um ou outro título citado em nota de rodapé.

Entretanto, quem há de escrever acerca do cangaceirismo no território potiguar, sem consulta-lo. E quanto à abolição em Mossoró, ou mesmo a Coluna Prestes e a Revolução de 30, este, por sinal, valioso até mesmo por um relato incidental, mas nem por isso menos importante: as relações entre os coronéis da época, fundamental para proteger Serra Negra do Norte ante a invasão iminente dos revolucionários.

A Revolução de 30, aqui no Nordeste, E Rio Grande do Norte, sabem alguns poucos, foi uma briga de coronéis que se estendeu até o Estado Novo…

Enfim: a vasta obra de Raimundo Nonato da Silva, o menino pobre nascido na Serra da Conceição e sobrevivente a duros custos, amante dos livros, escritor, alguém que mais do que qualquer outro, excetuando Luis da Câmara Cascudo, foi uma testemunha do seu tempo, não merece o esquecimento.

Este artigo é minha homenagem a ele.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Ave, Raimundos!

Por Marcos Araújo

“Mundo, mundo, vasto mundo,

se eu me chamasse Raimundo (…)”.

Carlos Drummond de Andrade

Mês que passou, foi estabelecida uma polêmica nos meios culturais e políticos do Estado após ser divulgada a apresentação de um projeto de lei da iniciativa do Deputado Nelter Queiroz, objetivando trocar o nome da Universidade do Estado do RN (UERN) para “Universidade Estadual Raimundo Soares de Souza”. O propósito era marcar o centenário do nascimento do ex-prefeito de Mossoró Raimundo Soares de Souza, um dos criadores da universidade.

Contudo, devido a uma manifesta resistência no ambiente acadêmico, o deputado proponente retirou o projeto, sem que tal fato represente qualquer demérito ao ilustre alcaide.

É fato que o Rio Grande do Norte teve – e tem! – muitos RAIMUNDOS que marcaram o seu microuniverso cultural, artístico, político e social.Aqui em Mossoró, rapidamente podemos recordar de três RAIMUNDOS do passado que muito contribuíram para sua edificação social, a saber:

1) RAIMUNDO Soares de Souza, Prefeito de 1963 a 1968, foi quem furou os primeiros poços profundos garantindo o abastecimento de água da cidade; depois, trouxe a energia elétrica; estruturou a rede municipal de ensino e criou a primeira Faculdade (que viria a se transformar na UERN);

2) RAIMUNDO Soares de Brito (Raibrito), pesquisador, historiador, arquivista, biógrafo, escreveu mais de quarenta títulos sobre fatos históricos e pessoas do Estado, principalmente de Mossoró e região Oeste, detendo em seu acervo mais de 15.000 biografias; e,

3) RAIMUNDO Nonato da Silva, escritor, historiador, folclorista, memorialista, pesquisador, professor, magistrado, jornalista, técnico em assuntos educacionais, autor de várias obras, um etnógrafo, embora martinense de nascimento, viveu boa parte de sua vida em Mossoró, até se mudar para o Rio de Janeiro, onde faleceu aos 86 anos de idade.

No presente, temos o professor RAIMUNDO Antonio de Souza Lopes, um genial escritor, poeta, biógrafo, editor, um ativista cultural que vem revolucionando o nosso Estado no mundo das letras, publicando suas obras e auxiliando novos escritores na compilação de dados, organização, revisão e publicação dos seus trabalhos.

Um RAIMUNDO também grafou o seu nome com letra de ouro na área do Direito no Rio Grande do Norte. Falo do jurista RAIMUNDO Nonato Fernandes, um dos maiores administrativistas que o país já teve. Foi ele Procurador do Estado e Consultor-Geral do Estado em seis governos diferentes (Dinarte Mariz, Aluizio Alves, Monsenhor Walfredo Gurgel, Tarcísio Maia, José Agripino em dois períodos), demonstrando ser detentor de uma confiança apartidária muito rara.

Tímido e humilde por excelência, lia, escrevia e falava francês fluentemente, sem nunca se vangloriar da sua poliglotia. Como administrativista de escol, conhecia nos originais a doutrina francesa de Maurice Hauriou, Léon Duguit, André de Labaudere, Louis Josserand  e Georges Vedel, porém, nos seus  pareceres se referia com maior frequência aos autores brasileiros, dentre eles Caio Tácito, Hely Lopes Meirelles e Seabra Fagundes, este último também um ilustre norte-riograndense, autor da teoria do controle dos atos administrativos.

O Prof. RAIMUNDO Nonato Fernandes tinha uma “memória de elefante”. Numa época em que não existia internet, ele lia diariamente o Diário Oficial da União e o Diário da Justiça, anotava em fichas todas as mudanças legislativas e os julgados dos Tribunais Superiores, chegando a possuir cerca de cem mil decisões catalogadas. Sempre era consultado pelos outros Procuradores do Estado, e sucessivamente incomodado pelos Consultores-Gerais que lhe sucederam com pedidos para tirar alguma dúvida.

Outro RAIMUNDO muito impactou minha noção de mundo: o meu avô RAIMUNDO Nonato do Rêgo. Um homem simples, semianalfabeto, um sertanejo honrado, um sábio que proferia diariamente orientações sentenciais que eram verdadeiras tiradas filosóficas sobre a existência humana. Seu pensamento sobre o que é o justo e o certo era muito mais sólido e concreto do que a Teoria da Justiça do filósofo norte-americano John Rawls (1971).

Duro feito uma rocha, ninguém podia chegar para ele falando de uma angústia existencial, de uma tristeza, essa que “nos assalta quando tentamos contemplar o abismo eterno do Nada”, como descrito por Arthur Schopenhauer, para que ele não respondesse com um lacônico:

– “Procure o que fazer. Isso é desocupação. Vá quebrar pedra que você se cura!”.

Destemido, quando se falava de morte, dizia com ceticismo:

– “Ela lhe encontrará, mais cedo ou mais tarde, e dela você nunca fugirá!”

Esse seu estoicismo pragmático parecia ser uma réplica do pensamento filosófico do romano Lucrécio (Da Natureza das Coisas). Desprovido de apego material, era um epicurista, por assim dizer, feliz com o pouco que tinha. Falando sobre a natureza humana, parecia ter lido Hobbes, destacando que “a pessoa quando não presta, começa de pequeno, pois espinho logo depois de nascido já começa a furar”.

Dele aprendi sobre o quanto é efêmera a fama e a glória. Pedia sempre que eu lembrasse que tudo passa, e que um dia todas as pelejas e torneios sociais cairão na mais vil das inutilidades. Também com ele aprendi a lição de que o mais importante nessa vida são as pessoas e o sentimento de afeto que nos une, e pedia para nunca perder de vista o olhar humano para o inenarrável milagre da compreensão e do amor ao próximo.

A importância desses RAIMUNDOS – e de outros não citados aqui por falta de espaço – na história da nossa cidade e do nosso Estado é indescritível. O nome diz muito. Raimundo tem origem a partir do germânico Ragnemundus, formado pela união dos elementos ragin, que significa “conselho”, e mundo que quer dizer “proteção”, e significa “sábio protetor”, “aquele que protege com seus conselhos”.

Sou muito grato a esses RAIMUNDOS.

Ave, Raimundos!

Marcos Araújo é professor e advogado

A historiografia e uma boa coincidência no 30 de setembro

A professora mossoroense Hélia Morais, graduada em História pela Universidade do Estado do RN (UERN), experimenta hoje uma feliz coincidência. Em pleno doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ela se reencontra com suas origens simbologias de Mossoró.

Hélia apresenta historiador em Minas Gerais (Foto: cedida)

Ministrando disciplina na graduação em História sob o título “Os outros da historiografia brasileira”, ela dá aula nesta segunda-feira (30 de Setembro, data magna de Mossoró) sobre o escritor Raimundo Nonato da Silva (já falecido) e sua contribuição para a historiografia potiguar

Em sua dissertação, ela mergulhou na vida desse personagem que deixou importante contribuição à memória mossoroense.

Identidade de Mossoró

“Raimundo Nonato escreveu o que talvez seja o livro mais emblemático sobre o 30 de setembro: A História Social da Abolição em Mossoró, de 1983. O livro é publicado pela Coleção Mossoroense no contexto do centenário da abolição e acaba por consagrá-lo como um dos principais nomes, senão o maior, ligado à escrita sobre a abolição mossoroense. Esta escrita auxilia na constituição da identidade de Mossoró enquanto ‘terra da liberdade’, ao elaborar uma narrativa que aponta os primórdios da abolição em Mossoró e as mudanças urbanísticas que marcaram a cidade. Numa abordagem que expressa uma espécie de ‘destino manifesto’ da cidade em direção ao ‘progresso'” que este acontecimento representava”, escreveu Hélia Morais.

Raimundo nasceu em Martins, em 18 de agosto de 1907. Faleceu dia 22 de agosto de 1993, aos 86 anos.

Nota do Blog – Conheci o professor, escritor, jornalista e juiz de direito aposentado Raimundo Nonato da Silva. Era uma presença obrigatória nos festejos do 30 de Setembro.

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Fatos forjados na história de Mossoró

Por Marcos Pinto

Tenho encontrado, não raros fatos, descritos por alguns historiadores e pesquisadores desta “Província” (Mossoró) completamente divorciados da realidade geradora da história. Em uns percebe-se a intenção deliberada de ocultar algum libelo ou vício que recai sobre um protagonista, em outros a evidência em proteger algum parente ou amigo, arrolados pela prática de não heroico nunca praticado.

Cito como exemplo a versão criada pelo clã Rosado e remuneradamente adotada por Câmara Cascudo, Edgar Barbosa e Raimundo Nonato da Silva, de que a viagem em que perecera Dix-sept Rosado tinha como objetivo ultimar empréstimo de trinta milhões de cruzeiros com os quais ampliaria os serviços de abastecimento d`água de Natal, Mossoró e Caicó.

O renomado João Maria Furtado, em sua inexpugnável obra intitulada “Vertentes”, publicada no Rio de Janeiro em 1976, pela gráfica Olímpica, contesta esta deslavada versão com argumentos eivados de rasgos de veracidade, cuja tese contestatória consta no livro “A(Re)Invenção do Lugar – Os Rosados e o País de Mossoró” do Prof. Dr. José Lacerda Alves Felipe, com o seguinte teor:

“Outras vozes davam objetivo diferente e menos mitológico à referida viagem, pois seu sentido real, estava relacionado à resolução de problemas criados com a partilha dos cargos estaduais entre lideranças e os partidos que elegeram Dix-Sept e que compuseram, portanto, a “Aliança Democrática” na qual Café Filho, julgando-se Presidente da República, nomeara apenas seus correligionários para os cargos federais do Estado”.

Em que pese os relevantes serviços prestados à cultura, pelo prof. Vingt-un Rosado, observa-se a intenção deste em fixar o falecido irmão Dix-Sept como herói cívico, como mártir que se sacrificou pela resolução do problema de água em Mossoró e no RN, afirmando que a “água era a própria história dos Rosados a começar do velho patriarca” (vide livro de sua autoria “O protocolo de Mossoró; …Coleção Mossoroense – 1998) ”.

Quando Vingt Rosado foi eleito prefeito de Mossoró em 1952 teve como uma das primeiras metas adotadas, a contratação dos historiadores Câmara Cascudo e Edgar Barbosa para, sob o “incentivo” de larga remuneração, utilizarem seus conhecidos naipes literários para traçarem uma espécie de culto à personalidade, atribuindo conotações heroico/históricas às pessoas de Jerônimo Rosado, Dix-sept Rosado e Ana Floriano, respectivamente pai e irmão de Vingt, e bisavó paterna da esposa de Vingt.

Assiste razão a Juarez Távora quando afirma que “O memorialista conta o que quer, o historiador deve contar o que sabe”.

A história deve ser contada a partir de documentos oficiais, e estes sepultam definitivamente a versão de que Ana Floriano comandou o famoso Motim das Mulheres. Senão vejamos. Em oficio datado de 4 de setembro de 1875, o então Juiz de Direito de Mossoró, Bel. José Antônio Rodrigues, comunica ao Presidente da Província do RN, dentre outros itens:

– “Presenciaria esta cidade a farsa mais ridícula de um grupo de 50 a 100 mulheres mal-aconselhadas por seus maridos e parentes, e capitaneadas por D. Maria Filgueira, mulher de Antônio Filgueira Secundes, D. Joaquina de Tal, mulher do camarista Silvério Ciriaco de Souza e D. Ana de Tal, mãe de Jeremias da Rocha Nogueira… (Vide livro “Escócia – 2ª Edição pag. 130:133 – Coleção Mossoroense – Vol. 989). D. Maria Filgueira era a mãe do Major Romão Filgueira.

O pesquisador historiador Lauro da Escócia fez, ainda os seguintes insertos históricos inexplicáveis:

– “Que o Motim das Mulheres” era composto por cerca de 300 mulheres, que Ana Floriano se armara com um espeto de ferro e postara-se na Agencia Consular Portuguesa em Mossoró, em uma escada defendendo o filho Jeremias José Damião e Ricardo Vieira do Couto, no atentado praticado por Rafael Arcanjo da Fonseca e outros, no dia 1º de janeiro de 1875. Que Ana teria dito: “quem subir a escada morre na ponta deste espeto”.

Vejamos o que diz o sobrinho-neto de Lauro, o jornalista Cid Augusto, em seu livro acima citado – pag. 153: “Contrariando a versão mencionada anteriormente, Jeremias presta, em seu texto, solidariedade a José Damião e ao Agente Consular Frederico Antônio Carvalho, o que pode significar que ele e Ricardo Vieira do Couto não estavam presentes no local do acontecimento, a Agência Consular Portuguesa. Em momento algum, Jeremias se refere a Ana Floriano”.

Jeremias faleceu em 1881.

Há que ressaltar que o próprio Cid Augusto, homem de reconhecido talento literário, procura, de forma incontida e insubsistente, infundir a ideia  de que Jeremias da Rocha Nogueira (seu ascendente) encarnaria a ideia abolicionista.

Todos os documentos são unânimes na configuração de que Mossoró teve desencadeado o movimento libertário somente em janeiro de 1883, culminando em 30 de setembro do mesmo ano. O resto é coisa para ser contada no “arco da velha” ou na “Povoa do Varzim”.

Inté!

Marcos Pinto é advogado e escritor

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