O trecho do rio Apodi-Mossoró, que compreende entre as cidades de Governador Dix Sept Rosado-RN e Mossoró, começou a secar rapidamente. Situação deixa os produtores rurais em desespero, principalmente a partir da Barragem de Lagoa de Pau.
Nesta região, os produtores fizeram poços, mas a produção de agua foi inviável. Dizem que o rio está secando devido uso excessivo da água por grandes projetos de fruticultura e porque as comportas da Barragem de Santa Cruz não têm como aumentar a vazão, por esta emperrada desde 2012.
Acompanhe o vídeo com reportagem do jornalista Cézar Alves, diretor e criador do Mossoró Hoje.
Veja imagens da barragem do Centro da cidade de Mossoró nesse domingo (2), feita com uso de drone, por Glauber Soares, o bom advogado e professor, que também é mestre nas lentes.
Com fotografia, por drone, é possível ver duas pontes no Centro da cidade.Rio Mossoró-Apodi nasce na Serra de Luís Gomes.
As águas barrentas do rio Apodi-Mossoró transpõem a barragem e revelam sua força crescente, em face de chuvas constantes em seu trajeto.
É o segundo maior rio potiguar, com cerca de 210 km de extensão. A partir de seu nascedouro na serra de Luís Gomes, Alto Oeste do RN, ele passa pelos municípios localizados na chapada do Apodi e, depois de banhar a cidade de Mossoró, deságua no oceano Atlântico, entre os municípios de Grossos e Areia Branca. Seu estuário, que começa ainda em Mossoró, em condições incomuns, permite a produção de sal em escala industrial.
Na margem direita, o rio Mossoró tem como afluentes os rios Carmo-Upanema, Umari e Pitombeira; na margem esquerda, os rios Tapuio, Grande e Bom Sucesso.
Aprecie.
Imagem no sentido estuário-Centro da cidade de Mossoró.
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Durante a semana conversei demoradamente com um ex-agrônomo da antiga Maisa (Mossoró Agro Industrial Sociedade Anônima). Lembramos das grandes áreas de maracujá, acerola, manga, melão, melancia e a cultura original, o caju. Na Maisa também havia uma área bem representativa com o cultivo de sapota.
No auge da produção da empresa, registrava-se uma área de cultivo por safra de cerca de 4000 ha de melão e melancia. A empresa foi a grande responsável pela abertura inicial do mercado do Reino Unido e depois conquistou a Europa e os Estados Unidos, colocando o melhor melão do mundo no mercado de frutas frescas mais exigente do planeta (veja vídeos abaixo produzidos nos anos 80 e 90, inclusive reportagem nacional com o jornalista Goulart de Andrade, falecido em 2016, na ativa, com 83 anos).
A Maisa tinha ainda uma fábrica de suco e uma fábrica de castanha, ambas de excelente padrão técnico.
O escritório da Maisa, que ainda se pode observar as suas ruínas ao passar pela BR 304, era uma estrutura invejável para os padrões da época. Havia dentro do escritório um restaurante terceirizado para atender apenas aos funcionários que ali trabalhavam e que residiam na sede do município de Mossoró ou em Fortaleza.
Uma imagem que nos faz lembrar do padrão Maisa é a presença no estacionamento de diversos veículos importados usados pelos seus diretores. No final da década de 80 era raro encontrar um desses veículos rodando pelas ruas de Mossoró, mas no estacionamento do escritório eram vários os exemplares. Lembro bem que pela primeira que conheci uma Cherokee foi exatamente lá.
O fim
A pergunta que cabe e que já foi feita por vários leitores dessa coluna é: por que uma empresa do porte da Maisa fechou as suas portas?
Claro que não estamos aqui querendo trazer para o debate as inúmeras razões que levaram ao fracasso da empresa, mas a exemplo de outras agroindústrias que também fecharam as portas na mesma época, como a Frunorte Ltda, Agro Now e Fazenda São João, um ponto que pesou muito para a descontinuidade dessas empresas foi a instabilidade financeira que o país atravessou.
Todas essas empresas trabalhavam com crédito agrícola e se submeteram à inflação exorbitante que em março de 1990 alcançou 84,22%. Essas empresas também se submeteram a diversos planos econômicos, alguns deles de grande fracasso. Elas não alcançaram o período da nova matriz econômica instalada a partir de 1999 no segundo Governo de FHC.
Acreditamos que se tivessem ultrapassado a instabilidade econômica da década de 90, ainda estariam vivas.
Outro aspecto que contribuiu para o fechamento dessas empresas foi a instabilidade do câmbio, onde houve um período em que a valorização do real de forma artificial passou de 4 reais por dólar para 0,80. Isso foi fatal para as empresas exportadoras de frutos, pois os contratos dessas empresas eram todos feitos em moeda estrangeira. Foram poucas as empresas que conseguiram se readaptar e redirecionar o produto para o mercado nacional.
Também não podemos esquecer que a partir do momento em que alguma dessas empresas passaram a cumprir com os compromissos dos empréstimos bancários corrigidos pela gigantesca inflação, houve dificuldade de se manterem adimplentes com os bancos. Esse problema contribuiu muito para que algumas fossem tomadas pelos bancos e leiloadas ou mesmo vendidas para assentamentos rurais.
É o caso da Maisa em que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) constituiu a partir do início da década de 2000 o assentamento Eldorado do Carajás II, formado inicialmente por mais de 1000 famílias assentadas e a Frunorte, onde em apenas uma das fazendas localizada no município de Carnaubais, o Incra instalou três assentamentos. Também em parte das terras da Fazenda São João, há dois assentamentos instalados. Um que fica na RN 015 e outro que fica na comunidade rural de Alagoinha.
Grande Maisa
A região que hoje é denominada de Grande Maisa é a mais produtiva do Polo de Agricultura Irrigada RN – CE que vai de Touros – RN até Limoeiro do Norte – CE, numa distância de cerca de 400 km.
A Maisa representou, na prática, uma verdadeira escola de produção de frutas. Os agrônomos que ficaram desempregados após o fechamento dela adquiriram áreas por compra ou arrendamento no seu entorno (Pau Branco, Sítio Jardim, Pedra Preta, Córrego Mossoró, Mata Fresca, Cajazeiras, Santa Maria, Aroeira, Cacimba Funda, entre outros) e se instalaram no formato de associações, cooperativas ou empresas individuais.
Esses técnicos representam o principal pool de produtores da região da Grande Maisa e continuam adquirindo áreas para ampliar a produção ou servir como alternativa para o plantio alternado ano após ano (descanso das áreas), prática muito necessária nas culturas de melão e melancia.
Preservação e construções
A nova lei aprovada na semana passada na Câmara dos Deputados pode mudar a realidade de construções ao longo do trecho urbano do Rio Apodi – Mossoró.
Rio Apodi-Mossoró no centro da cidade de Mossoró (Reprodução)
O plano diretor dos municípios poderá determinar uma área de preservação menor nas regiões urbanizadas do que a prevista hoje em lei federal, desde que estabeleça regras para “não ocupação de áreas de risco de desastres” e que os empreendimentos instalados sejam de “utilidade pública, interesse social ou baixo impacto ambiental”.
A lei hoje determina que as construções urbanas são proibidas a menos de 30 metros de rios e lagos menores. O tamanho da faixa aumenta de acordo com o tamanho do curso d’água, podendo chegar a até 500 metros de preservação no caso de rios ou lagos com largura superior a 600 metros. Se o projeto for sancionado, a área de proteção pode ser menor.
O texto que será discutido no Senado teve apoio do governo e do setor de construção civil, mas passou sob protestos de ambientalistas.
Como a nova Lei não estabelece uma faixa mínima para as cidades corre-se o risco de que ocorra invasão de novas áreas por construções. Outro aspecto negativo é que os prefeitos e vereadores estarão mais sujeitos a pressões locais por flexibilização.
Na semana passada visitamos a terra que era conhecida como Pedra de Abelha e que hoje é o município de Felipe Guerra. Passados quase 50 anos da época em que nasci e morei naquele triângulo compreendido por Apodi – Caraúbas – Felipe Guerra, pouca coisa mudou na zona rural compreendida pelas principais comunidades.
O principal fator de pouca evolução na qualidade de vida das pessoas que vivem na zona rural dessa microrregião ainda é o isolamento das comunidades rurais em relação às sedes dos três municípios em função da falta de uma estrada pavimentada de menos de 20 km que ligaria a sede do município de Felipe Guerra à RN 233, na altura das comunidades de Mariana e Língua de Vaca.
Felipe Guerra tem potencial para alargar sua economia e melhoria da qualidade de vida de sua população (Foto: Web)
Felipe Guerra II
O melhor trajeto para essa Estrada (pedimos licença para denominá-la de Estrada Pedra de Abelha) seria ligando a sede do município de Felipe Guerra iniciando com a construção de uma pequena ponte no Rio Apodi – Mossoró na chamada Cidade Baixa (Pedra de Abelha antiga) passando inicialmente pelas comunidades de Boqueirão, Tabuleiro, Fazendas Itaoca e Vita Mais e Cangalha.
A partir desse último ponto, o melhor roteiro e mais fácil de justificar junto aos órgãos de controle é via o tradicional distrito de Santana que já pertence ao município de Caraúbas do ponto de vista legal, mas que está umbilicalmente ligado ao município de Felipe Guerra em função da demanda por serviços públicos.
Felipe Guerra III
A partir do Distrito de Santana a estrada passaria pelas comunidades rurais de Lagoa do Pacó, Apanha Peixe II, Mariana e Língua de Vaca. Em geral, cada comunidade rural possui cerca de 100 famílias. As famílias dessas comunidades precisam diariamente se deslocar para as sedes dos três municípios (Felipe Guerra, Apodi e Caraúbas) a procura de serviços públicos (educação, saúde e seguridade social) e acesso ao comércio e outras demandas características do setor rural.
Felipe Guerra IV
Do ponto de vista do turismo regional, a construção dessa estrada traria acesso fácil ao balneário Apanha Peixe II, um dos melhores locais de recreação de toda a microrregião. A Lagoa de Apanha Peixe teve a sua parede construída em 1963 e possui capacidade de 10 milhões de metros cúbicos e ocupa, quando cheia uma área de 225 hectares. A bacia hidrográfica é de 395 km quadrados e a cota máxima é de 40 m. A lagoa do Apanha Peixe é um dos principais reservatórios de pesca artesanal da microrregião, juntamente com as Lagoas do Pacó e do Boqueirão, sendo que o acesso aos três reservatórios seria beneficiado com a construção da Estrada de Pedra de Abelha.
Caverna Catedral no Lajedo do Rosário em Felipe Guerra, uma atração turística pouco explorada (Foto: Fernando Chiriboga)
Felipe Guerra V
Além da facilitação do acesso as comunidades rurais citadas acima, a Estrada de Pedra de Abelha facilitaria a vida das comunidades rurais que ficam do lado do município de Apodi, como Pindoba, São Lourenço, Rio Negro, e à futura instalação do Projeto de Irrigação Santa Cruz do Apodi, que terá uma área irrigável de mais de três mil hectares.
As principais atividades econômicas que justificam a construção da Estrada de Pedra de Abelha são a carcinicultura, agricultura irrigada, pesca artesanal e cerâmica. A microrregião está avançando na construção de infraestrutura para a atividade de carcinicultura e a agricultura irrigada já é uma realidade local.
Recentemente, uma empresa tradicional do Polo de Agricultura Irrigada RN – CE adquiriu uma área de 500 ha que pretende explorar para a produção de melão e melancia. A área é bastante arenosa o que facilitará a exploração para estas culturas no primeiro semestre do ano e com foco no mercado interno. Há três empresas instaladas do município de Felipe Guerra que já trabalham com melão, melancia, banana, goiaba e mamão.
Felipe Guerra VI
A construção da Estrada de Pedra de Abelha beneficiará ainda a tradicional atividade econômica do artesanato da palha de carnaúba e da cerâmica, sendo que, também, trará benefícios para a indústria da palha de carnaúba e da cera de carnaúba. A estrada apresenta ainda um excelente potencial para ampliar as atividades econômicas da microrregião no tocante à agricultura familiar, pois facilitará o escoamento da produção de pequenos agricultores para os programas de compra direta do Governo Federal e do recém-criado programa de compra direta do Governo Estadual.
Felipe Guerra VII
A estrada de Pedra de Abelha facilitará muito o acesso dos jovens do município de Felipe Guerra que se deslocam diariamente para a Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA) – Caraúbas, único campus universitário da microrregião que atende a todas as comunidades rurais dos três municípios e que a partir da sua construção tem oferecido inúmeras oportunidades de formação profissional, através dos seguintes cursos: Ciência e Tecnologia, Engenharia Civil, Engenharia Mecânica, Letras – Inglês, Letras – Libras e Letras Português.
Felipe Guerra VIII
A gestão municipal de Felipe Guerra já delineou a trajetória para convencer o Governo do Estado a colocar no orçamento de 2021 recursos para a construção da Estrada. Para isso, vai procurar os representantes da região junto ao Governo do Estado para que apresentem no OGE 2020 uma emenda de Bancada Estadual para a contratação de uma empresa para elaborar o projeto executivo da Estrada de Pedra de Abelha. É necessário que os nossos deputados estaduais visitem a região e sintam a necessidade da referida estrada.
Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Universidade Federal Rural do Semiárido