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Jandaíra, nossa abelha sertaneja, uma operária da caatinga

Por Paulo Menezes

O Brasil é rico em abelhas sociais nativas, da subfamília meliponínea de diversos gêneros com as mais variadas espécies. São as nossas conhecidas abelhas indígenas sem ferrão, muito vulneráveis à intervenção humana na destruição das nossas matas e por isso mesmo tem se tornado cada vez mais raras com risco de extinção.Na região de Mossoró, situada na zona oeste do Rio Grande do Norte, como em outras localidades deste bioma chamado caatinga, há uma abelha pertencente ao gênero Melipona, que produz um mel muito delicioso e que por ser nativa, é de vital importância para o nosso ecossistema. Ao coletar o néctar que o transformará em mel, ele efetua o milagre da polinização preservando por via de consequência a vegetação do semiárido nordestino.

Trata-se da Melipona subnitida, popularmente conhecida por abelha Jandaíra.

Assim, a criação racional da jandaíra surge como uma importante alternativa econômica e social para a meliponicultura no nordeste brasileiro, tendo em vista ser o mel um produto nobre, raro e de grande aceitação no mercado, inclusive sendo largamente usado na gastronomia mais sofisticada por renomados chefs de cozinha.

Os preços variam muito chegando a ser até dez vezes superior do que o mel da Apis melífera (abelha africanizada), dependendo da qualidade agregada ao produto. O resultado de sua comercialização dá dignidade ao homem do campo na medida em que gera emprego e agrega renda ao seu orçamento doméstico.

Por muito tempo se criou o mito que não se devia criar a Jandaíra por ser uma abelha de pouco rendimento, preguiçosa, por isso mesmo sem perspectivas econômicas.

Ocorre que comparando-se a produção do mel da Jandaíra com o da abelha africanizada, o que se deve levar em conta é o fator populacional da espécie, e não, simplesmente a safra analisada isoladamente. Enquanto uma colmeia da primeira chega a ter no máximo 1.000 operárias, a segunda possui 80.000 campeiras, residindo aí a diferença na produtividade.

No entanto, se for comparada a produção relacionada ao preço de comercialização do produto, enquanto o litro do mel da Jandaíra é vendido entre R$ 150,00 a R$ 180,00, a mesma quantidade de mel da abelha africanizada é negociada entre R$ 10,00 a R$ 15,00, havendo portanto uma valorização de até 10 vezes mais o valor do mel da Jandaíra.

ALÉM DA VENDA DO MEL, o criador tem ainda como alternativa para aumentar seu lucro com o manejo adequado da meliponicultura, venda ou aluguel de colônias para polinização de culturas agrícolas em estufas. Cito ainda a comercialização de enxames a governos estaduais e municipais para projetos de desenvolvimento sustentado.

Meliponário do autor do artigo em Mossoró (Foto: cedida)

Há vantagem na criação de abelhas sem ferrão, ser o manejo extremamente simples, sem necessidade de roupas especiais, máscaras, botas, luvas, pois a Jandaíra não possui ferrão e é muito mansa. As caixas racionais são mais baratas e a multiplicação de enxames bastante simples, fazendo com que o criador em pouco tempo tenha seu Meliponário ampliado com quantidade expressiva de colmeias e viabilizando economicamente a criação para dela tirar o seu sustento ou, em última análise, agregar ao seu orçamento familiar um complemento de renda em uma região tão carente.

Ressalte-se ainda que a criação racional dessa abelha é de grande importância para a preservação ambiental, pois por ser nativa, desenvolve um imprescindível papel na polinização de nossa caatinga, tão ameaçada no momento, já que algumas plantas só conseguem se reproduzir com a intervenção deste inseto, devido à sua adaptação durante milhões de anos.

Assim, continuaremos a ter no panorama do semiárido nordestino uma vegetação onde predominam árvores como angico, aroeira, catingueira, imburana, jurema, marmeleiro, sabiá, mofumbo, pereiro, juazeiro e tantas outras que fazem a riqueza da paisagem sertaneja.

Acrescente-se ainda que atividades dessa espécie, por serem consideradas ações para o desenvolvimento sustentado, já que incluem restauração ambiental através da preservação e plantio de árvores que servem de locais para nidificação das jandaíras, recebem financiamentos através do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), com juros subsidiados e de instituições de crédito como Banco do Brasil e Banco do Nordeste que geralmente apoiam projetos visando contribuir para o desenvolvimento regional.

Paulo Menezes é meliponicultor

Uma saudade a mais

Por Paulo Menezes

Há 18 anos, Antônio Menezes, o Tota, meu querido pai, partiu desta para outra dimensão. Nesse sábado (7 de março de 2020), completaria 102 anos. Viveu 84, bem vividos, com grande intensidade.

Feneceu deixando um legado aos 7 filhos, qual seja, um pai à toda hora presente, criando sua prole com a dificuldade de um orçamento apertado, mas dando aos filhos a educação necessária e um exemplo de vida.

Dele, guardo inúmeras e boas recordações, pois além do convívio doméstico, foi com ele que a partir dos 14 anos iniciei minha vida laboral na empresa “Menezes & Irmão”. Depois, o auxiliei como motorista do Jeep Toyota em nossas viagens semanais à salina de Jorge Moyse França, que ele gerenciava.

Antônio Menezes (Foto: arquivo da família)

O ajudei também na loja “A Preferida”, tendo sido ele o primeiro agente da Loteria Federal e Esportiva da cidade.

Nas férias escolares, conduzia toda a família para a encantadora praia de Tibau. Ali, no fulgor da juventude, vivi um período mágico de minha vida, construindo memórias afetivas tão profundas que nem o tempo conseguiu apagar.

O Tota, era amante das vaquejadas, e eu, pra variar, apesar de não gostar do esporte, estava sempre ao seu lado. Fui também seu companheiro das inenarráveis caçadas de nambu e avoete. Na verdade, nosso passatempo era mais um acampamento de amigos do que a caça propriamente dita.

Para ser franco, deixamos poucas nambus e avoetes viúvas em nossos finais de semana em que passávamos arranchados por esses sertões afora, sempre protegidos pela sombra de um juazeiro copado, uma catingueira florida ou uma oiticica de folhas largas e fria.

Chegávamos sábado à tarde, armávamos nosso rancho, uma lona de 10 x 8 metros, banheiro adaptado numa lata de querosene Jacaré, com direito a chuveiro e a um banho frio e reparador, após a caminhada matinal na caatinga verdejante e esplendorosa com o início da quadra chuvosa.

Estirávamos as redes, abríamos a garrafa de um bom vinho e o papo rolava noite adentro numa confraria em que limpávamos nossa mente do estresse da cidade grande, conturbada e violenta. Manhãzinha cedo, parafraseando o poeta e repentista Ivanildo Vila Nova, acordávamos com a natureza em festa, “pois no sertão quando rompe a alvorada, na floresta desperta a passarada, canta uma canção tão afinada que parece uma orquestra universal, num concerto de música diferente da orquestra sinfônica que Deus fez”.

Tendo como componentes o pio admirável das inhambus xintã e chororó, o canto sonoro das sabiás, galos de campina e corrupiões, o arrulho soturno da juriti, o cantar melancólico do anu-branco, cadenciado da rolinha fogo-apagou, belo e estridente da seriema, deixando a todos nós extasiados com tanta beleza.

Entre os participantes do lazer semanal havia um pescador arremessando a tarrafa e trazendo para a margem, do açude, curimatã, piau, tilápia e tucanaré, que cozidos ou fritos no fogo de chão, faziam parte do cardápio do almoço dominical. Final da tarde, hora de desarmar a barraca e regressar para nos prepararmos para a nova jornada na semana seguinte.

Dezoito anos se passaram de sua partida e em mim sua lembrança continua forte e muito presente.

Agora, com a chegada das chuvas e o prenúncio de um bom inverno, o vejo na calçada, início da noite, cadeira de balanço, rádio sobre o colo, olhar atento para os últimos raios do sol poente em fogo, afirmando:

– Hoje só me recolho quando o relâmpago “cortar” o céu do sertão.

Tempos bons. Saudades. Muita.

Paulo Menezes é apicultor

A seiva doce do massapê

Por François Silvestre

Mesmo a grafia indicando som aberto, a sonoridade do mato consagrou o som fechado, massapê. Mais bonito e mais próximo da sua compleição. Até porque cada palavra acaba incorporando na sonoridade da pronúncia o formato da coisa nominada.

Quando no sertão, vítima das secas e dos teóricos distantes, que se arvoram em conhecedores das dores daqui, as primeiras chuvas do ano adocicam a seiva dos tabuleiros e recepcionam a maciez colorida do capim de seda, o plantador de feijão remexe com as mãos a umidade do massapê. Depois, põe a mão em forma de aba sobre os olhos e paquera as torres do Nascente.

Os primeiros brotos da cebola braba animam-se nos quintais anunciando mais uma espera. Junta-se a eles o cantar dobrado do sabiá, que só canta assim nas vésperas de chuva. Em ano de seca fechada, o sabiá trina uma toada linear, sem dobra, sem risco do desafino. Ele não quer iludir as sementes guardadas num frasco de plástico, longe do gorgulho, que semearão a terra molhada para a colheita no tempo das fogueiras.

Quem sabe disso tudo é Tico de Quinola, habitante da ponta do banco de cumaru, na parte oeste do balcão da bodega de Priquitim, onde ele se aboleta desde cedo, a receber agrados de cachaça, acompanhada de pequenos pedaços de laranja ou mais raramente um naco de queijo de coalho.

Fala pouco, como toda gente sabida. Ouve primeiro, para não desagradar a opinião do freguês passante. Pode lhe custar uma dose perdida. Já foi aluno do “Almino Afonso”.

“Tão falando numa seca verde”, diz Leon de Amância, puxando conversa. Não foi suficiente pra Tico manifestar-se. Aguardou mais alguma extensão da fala. “Nem sei o que danado é isso, seca verde”? Essa observação meio pergunta de Leon foi a deixa pra ele expor sua opinião sem medo.

“Seca verde é o governo. Nós aqui só conhecemos secas cinza”. Falou animado, já recebendo uma boa bicada do visitante, acompanhada duma lasca de queijo. E aí deitou lição: “Mostrar juazeiro verde, mesmo na seca, não é vantagem. Nem floração do mofumbo. Nem pingos nas rochas da Casa de Pedra. Pra isso não se precisa das promessas calejadas do governo. E quem enricou com promessa foi São Severino dos Ramos”.

Nas telas das TVs do Sudeste, o Nordeste aparece muito rapidamente, nas previsões do tempo. E o Rio Grande do Norte inexiste. A moça passa a mão depressa pelo mapa daqui, enquanto se detém demoradamente nas nuvens de cada pedaço dos Estados de lá.

Mesmo assim, o furabarreira continua animando o matuto. O inchu e o inchuí tão nem aí. Enchem de mel claro suas capas, como a dar o dedo aos “sertanistas” de longe. Não conhecem nem as cidades onde moram e exibem cultura, querem conhecer o Sertão, que não permitiu ainda suas entranhas a ninguém. Quando muito, uma brecha à linguagem.

Enquanto isso, Tico de Quinola toma mais uma no cumaru de Priquitim. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.