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Oi, meu amor!

Por Alice Lira Lima

Fotos da autora da crônica e seu pai, Caby da Costa Lima, publicadas em seu Instagram pessoal
Fotos da autora da crônica e seu pai, Caby da Costa Lima, publicadas em seu Instagram pessoal

Oi, meu amor, meu maior afeto, meu tudo.

Amanhã (hoje, domingo, 10) é aquele dia que eu entro no casulo pra que ele passe logo. A gente já sabe que não adianta dormir que a dor não passa, mas ainda não achei o melhor dos métodos pra passar sem danos por essa data [comercial, dizem] tão ‘dificultosa’, “não pelos anos que se já passaram. Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas – de fazer balancê, de se remexerem dos lugares”.

Se eu contar ainda mais sobre você, ajuda? Se eu disser e rir e sentir como a maior dor da vida pode ser porque eu tive a maior das graças — e não trocaria. É graça, é tão grande, é tão incrível que nesse emaranhado todo de mundo, calhou de eu existir como “Alicinha de Caby”.

Tenho falado tanto em você. Na verdade, não lembro se houve algum período na minha vida que não tenha você como meu assunto preferido, meu protagonista de um jeito ou de outro. Não acredito que isso mude.

Sinto saudade de te dar satisfação, acredita? O que entre a gente nunca foi uma questão de idade. Quantas vezes eu reclamei do quanto você ficava atrás de mim pra saber se “tá tudo lindo, filha?” e tinha o telefone de todas as pessoas que conviviam comigo, né? Ligava pra elas, aprendia os aniversários, queria saber a história da família toda, renovava (ou não) as piadas, demonstrava esse amor imenso-desmedido por mim que eu acho que te caracteriza mais até do que os próprios tamancos.

O resultado disso é que adoro como meus amigos te amam tanto também, sabem os silêncios todos, entendem que não sou a mesma e nem poderia, e dão um jeito de fazer o que você faria/gostaria (não sei como acertam tanto).

Achei umas formas de te dar satisfação que você adoraria e, por enquanto, elas ficam entre nós. A ridícula ideia de não passar o Dia dos Pais com você eu não assino, eu não topo. Este ano, por exemplo, eu sei que estou te dando um ótimo presente e a gente tá tão junto, juntinho, estou tão certa disso, meu painho.

Mas, como o seguro do luto morreu de velho ou nem viveu, amanhã é um bom dia pra fazer pipoca e guaraná e ficar quietinha assistindo a algo entre cochilos saudáveis.

Feliz Dia dos Pais, gente.

Que seja um dia bem bonito!

Alice Lira Lima é jornalista e filha do publicitário, narrador esportivo e radialista Caby da Costa Lima

Pequena crônica

Por Odemirton Filhopés na areia da praia, mar, beira-mar

Entre um gole e outro, lembranças de tempos idos. E vividos.

Nas areias da praia de Tibau, o menino brincava. Feliz.

Hoje, já adulto, caminha na beira do mar. Vê vários condomínios. Chiques. Velhas casas ainda resistem ao tempo; a modernidade.

O menino traz no coração lembranças e saudades. De tomar banho no mar e jogar bola. De ficar tostado pelo sol.

Pra quê tanta pressa? “É doce morrer no mar, nas ondas verdes do mar”, diria Caymmi. Devagar e sempre.

O menino-adulto sente o vento bater no rosto e o cheiro da maresia.

O cheiro da saudade.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de justiça.

Saudade

Por Sérgio Chaves

Nesses pouco mais de 100 dias isolado, tenho sentido uma saudade imensa de pessoas; algumas não verei mais levadas pela Covid-19 ou por outras doenças, cuja falta será sentida por toda minha vida. De abraços, encontros, beijos e tudo mais.

Saudades de sentar à mesa de um bar ou de um café vendo o tempo passar sem pressa. Saudade do trabalho diário, transformado em home office para alguns. Saudades de bater papo com amigas e amigos queridos.

Saudade de tanta coisa…Essa pandemia, além de tudo, nos deixa muito mais emotivos e sentidos. São tantas as histórias que ouvimos. São tantos relatos de solidão profunda quando se faz necessário a presença de alguém próximo. Famílias que não podem se despedir de seus entes queridos da forma como pensavam. Pessoas que vencem a Covid-19 quando não se tinha mais esperança e outras que são levadas a nocaute quando tinham todas as probabilidades de a vencerem.

Mas, no meio disso tudo, de toda essa saudade, me lembrei de ter em algum canto escutado a informação de que a palavra saudade é única e só existe em nossa língua portuguesa. Então resolvi pesquisar e vejam só que interessante descobri:

“A palavra saudade veio do latim solitas, solitatis, por meio das formas arcaicas soedade, soidade e suidade, sob a influência de saúde e saudar. Solitas, em latim, significa “solidão”, “desamparo”, “abandono”, “deixação”, do que resultam alguns dos significados que tem saudade: “desejo de um bem do qual se está privado”; “lembrança nostálgica e, ao mesmo tempo, suave, de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de tornar a vê-las ou possuí-las”.

Na gramática saudade é substantivo abstrato, tão abstrato que só existe na língua portuguesa. Os outros idiomas têm dificuldade em traduzi-la ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J’ai regret (francês) e Ich vermisse dish (alemão).

No inglês têm-se várias tentativas: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país), longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância). Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o sentimento luso-brasileiro de saudade.

São apenas tentativas de determinar esse sentimento que sente os povos de cultura portuguesa. Assim, essa palavra saudade não é apenas um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.

No que toca ao uso de saudade, essa palavra pode aparecer tanto no singular quanto no plural, conservando o mesmo sentido, o que ocorre também com  outras palavras, que pouco a pouco passaram a ser usadas no plural, muito embora o singular, com o mesmo sentido, também seja correto. Essa palavra portuguesa “saudade” foi considerada o sétimo vocábulo estrangeiro mais difícil de traduzir, segundo uma votação realizada por mil linguistas, levada a cabo pela agência londrina de tradução e interpretação Today Translations.

Por tudo que aqui se diz, o fato de uma língua não ter palavra que, por si mesma, possa traduzir-se por “saudade” não significa que o povo que a fala não conheça tal sentimento: tal conceito pode ser, nessa língua ou em outras, expresso por mais de uma palavra. Além disso, um povo pode conceber a ideia de “saudade” em combinação com outro(s) sentimento(s), do que resulta novo conceito, veiculado por uma ou mais palavras.

Diz o professor Napoleão Mendes de Almeida no verbete “Saudade, saudades” de seu Dicionário de Questões Vernáculas: “a capacidade de receber impressões é uma só na humanidade; não existe rigidez filológica capaz de obumbrar o sentimento de uma nação. Cremos ser procedimento psicofilológico correto este de aceitar em outros idiomas, ainda que não se conheçam, a existência de equivalências a palavra e a expressões nossas; que orgulho é este de achar que outros povos não vivem?”.

Finaliza-se o artigo falando sobre esse caráter único da palavra saudade e da impossibilidade de a traduzir em qualquer outra língua. Para isso, transcreve-se, aqui, um excerto da obra “A Saudade Brasileira”, de Osvaldo Orico (1948), que diz assim:

– “Nenhuma palavra traduz satisfatoriamente o amálgama de sentimentos que é a saudade. Seria preciso nos outros países a elaboração de um conceito que também amalgamasse um mundo de sentimentos em apenas um termo”.

Ficamos, pois, com a nossa “saudade”!(Luísa Galvão Lessa – Professora Doutora em Língua Portuguesa pela UFRJ, Pós-Doutora em Lexicologia e Lexicografia pela Université de Montreal/Canadá e pesquisadora Sênior da CAPES).

Talvez, por tudo descrito acima, o sentimento que nos leva a palavra saudade seja tão intenso, tão único, quanto a própria palavra, principalmente nesses tempos de isolamento social, quando quase tudo nos falta. Que tudo isso passe logo para que possamos matar toda essa saudade que carregamos no peito!

Sérgio Chaves é repórter social e cerimonialista

Reverência à minha saudade

A saudade tem um gosto paradoxal: faz bem e atenua a falta; faz mal porque nos avisa que não estamos próximos.

Sempre tenho saudades. Cultivo-as como um sacrário. Presto-lhes homenagens não apenas com a lembrança, mas com reverência.

Hoje, do filho distante; perto, assim mesmo.

O filho que está em “Sum” Paulo e que não sai de mim.

O filho amado, de quem sou fã.

Amado a distância; querido, quando perto.

Amém!

Assim é minha saudade: reverencial.

Feliz aniversário, meu filho!