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Uma história da vida real

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Nas Seleções do Reader Digest que meu pai colecionava na década de 50 eu lia, anos depois, entre menino e adolescente, uma seção cujo título era “Histórias da Vida Real”.

Não mais me recordo de qualquer dessas “histórias”, exceto uma: durante a Segunda Guerra Mundial, as moças americanas eram incentivadas a participarem do esforço comum americano escrevendo para seus compatriotas combatentes mundo afora.

Um desses combatentes começou a se corresponder com uma garota do interior de um daqueles estados americanos do Oeste.

Passaram-se os anos e as cartas, que começaram cordiais, mas distantes, assumiram um teor cada vez íntimo, com troca de confidências, sonhos, planos e tudo quanto diz respeito a, finalmente, uma correspondência amorosa.

Tudo corria perfeitamente bem, exceto pela recusa obstinada da moça em enviar, para seu correspondente, uma fotografia e o nome da cidadezinha na qual morava. Todas suas cartas eram enviadas da Estação Central de Trem da capital do seu Estado.

Ele argumentava dizendo que gostaria de ter, perto de si, não apenas suas cartas e tudo quanto de bom elas lhe traziam, mas, também, uma imagem sua para a qual pudesse olhar naqueles momentos terríveis pelo qual estava passando.

Ela lhe respondia, justificando-se, que o amor, entre eles, começara pelo espírito, e assim deveria continuar até o momento em que, finalmente, pudessem se encontrar frente a frente, e uma fotografia poderia lhe dar uma falsa impressão que a realidade viria desmascarar.

Finalmente a guerra terminou. Ele lhe escreveu para combinar o encontro e ela lhe pediu que estivesse em certo dia e hora marcados, na Estação Central de Trem da capital do seu Estado, quando seria reconhecida por trazer, nas mãos, um ramo de rosas.

Essa era a única forma de reconhecê-la que ele dispunha: não sabia nada dela, de sua aparência, família, em qual cidade vivia, e, mesmo, se seu nome era real ou fictício. Todas as conversas mantidas por correspondência diziam respeito a aspectos da guerra e abstrações sentimentais.

No dia e hora combinados, meio-dia em ponto, lá estava ele. Para o trem e ele salta e olha, ansioso, para todos os lados.

Há poucos transeuntes na Estação. Ninguém que aparente ser uma moça desacompanhada portando um ramo de rosas nas mãos. Começa sua frustração.

Será que foi enganado ao longo de todos os anos? Será que tudo quanto ela lhe dizia por carta, o amor que nascera, os planos construídos, eram mentiras?

Parado, a maleta aos pés, a expressão ansiosa, ele olhava em todas as direções tentando encontrar uma explicação para um possível atraso, tal qual um acontecimento de última hora, um obstáculo inesperado…

O tempo passou. Uma hora depois, convicto que tinha sido iludido, ele começou a se dirigir para o guichê de vendas de passagens. Pretendia ir embora o mais rápido possível. Quando se aproximou do guichê viu, sentada, próxima ao local, uma senhora de aproximadamente sessenta anos trazendo, em suas mãos, um buquê de rosas.

“Então é isso?”. “Ela é esta senhora, e por essa razão não teve coragem de me enviar uma fotografia sua?”

Parado, perplexo, pensou em se esconder – não era possível aceitar que aquela senhora fosse sua amada! “E agora?” perguntou a si mesmo, deveria honrar o amor espiritual com o qual se comprometera e que independia de idade ou poderia justificar sua fuga alegando ter sido manipulado?

Não resistiu. Aproximou-se. “Senhora, seu nome é Lucy?”, indagou usando o nome usado por ela nas cartas.

“Não, ela me pediu para ficar aqui algum tempo, com essas rosas na mão, aguardando que alguém viesse a sua procura; ela está ali”, e apontou. Um pouco além, vindo em sua direção, com outro buquê de rosas nas mãos, uma belíssima mulher lhe sorria, enquanto acenava discretamente…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Auschwitz-Birkenau

Por Bruno Ernesto

Auschwitz-Birkenau sob o foco do autor da crônica
Auschwitz-Birkenau sob o foco do autor da crônica

O próximo dia 27 de janeiro marcará oitenta anos da libertação de Auschwitz-Birkenau, o mais famoso e emblemático campo de concentração nazista, onde foram mortas mais de um milhão de pessoas, a maioria delas judeus.

Qualquer fato histórico sobre a Segunda Guerra Mundial é impressionante, porém – tenha certeza -, por mais que você leia, escute ou assista qualquer coisa sobre Auschwitz-Birkenau, nada se compara a andar por aquelas instalações e pôr as mãos em suas paredes. Até o sol e as sombras são diferentes.

Embora seja uma história bem relatada e documentada, com vasto material escrito, diversas vezes retratada no cinema, documentários, e em incontáveis histórias, imagens e imaginário, andar por suas instalações é indescritivelmente angustiante.

Originalmente, primeira parte do complexo – denominada de Auschwitz I e composta por 28 edificações de tijolos aparentes -, era uma instalação militar no sul da Polônia e que, após a invasão alemã em 1939, foi transformada em uma prisão para presos políticos e, somente a partir de 1941 é que teve início a utilização das câmaras de gás, e é lá onde está localizado o famoso letreiro com a infame frase “Arbeit macht frei” (O trabalho liberta), que representa o sadismo dos nazistas.

Para quem, assim como eu, se interessa pela história da Segunda Guerra Mundial, nada mais marcante que poder conhecer pessoalmente onde a história se materializou.

Cada prédio, suas salas e pátios, por si, já permite contar um infindável numero de histórias macabras como, por exemplo, as experiências médicas de Josef Mengele no bloco 10.

O terror do bloco 11, conhecido como o bloco da morte, onde os prisioneiros infratores eram submetidos a um julgamento sumário, e cuja sentença invariavelmente era a morte por fuzilamento, logo ao lado da sala de julgamento. Bastava o sentenciado sair da sala, despir-se na sala ao lado, descer uma pequena escada para o pátio lateral e ser posto de frente ao pelotão de fuzilamento para encontrar o seu fim.

No bloco mais à frente, já em direção à câmara de gás e um pouco antes dela, pode-se ver a trave de enforcamento.

Horror maior foi ter entrado na câmara de gás, correr as pontas dos dedos em sua parede e sentir que os veios escavados nela eram, em verdade, as marcas de arranhadura das unhas de suas vítimas, agonizando em busca de fuga enquanto o gás cianídrico obtido do pesticida Zyklon B as sufocava e, logo ao lado, o crematório lhes aguardava.

Ao lado, via-se a pomposa casa de Rudolf Höss, o comandante encarregado de Auschwitz, onde ele sua família desfrutavam de uma vida em outra dimensão, separados do inferno por ele comandado e que, ele próprio, encontrou o seu fim em 16 de abril de 1947, numa forca posta bem na entrada da câmara de gás do campo de extermínio que ele comandou.

Em verdade, o complexo de Auschwitz-Birkenau é bem maior que se possa imaginar, pois esses 28 blocos que compõem Auschwitz são apenas a primeira parte da máquina de morte nazista, sendo o campo de Birkenau, localizado logo ao lado dele, e que pode ser alcançado em poucos minutos de carro, muito maior, e cuja primeira visão de quem vão visitá-lo são os trilhos nos quais chegavam os vagões abarrotados de prisioneiros. Simplesmente é inacreditável.

Como já pontuei em outras oportunidades, a história, por vezes, é muito irônica, pois, naquele 27 de janeiro de 1945, Auschwitz foi libertada pela Primeira Frente Ucraniana, que na época fazia parte da União Soviética, e era comandada com mão de ferro por Stalin, e hoje é a Ucrânia quem luta para se ver libertada da Rússia.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

“Soldado Silva”, uma aventura da 2ª Guerra na batida de João Barone

João Barone lança livro em Natal - sábado, 6 de maioO baterista da banda Os Paralamas do Sucesso, João Barone, que também é escritor, lança o livro “Soldado Silva – A jornada de um brasileiro na Segunda Guerra Mundial” no próximo sábado (6), em Natal, às 15 horas, no Museu da Rampa, Rua Coronel Flamínio, 1, bairro de Santos Reis.

Ao resgatar fotos e objetos que o pai, o soldado Silva, trouxe da campanha na Itália, João Barone conta a emocionante história de um brasileiro comum antes, durante e depois da Segunda Guerra Mundial. Seu livro transmite para os dias de hoje o real significado dessa epopeia vivida por 25 mil brasileiros, que cumpriram seu dever e deixaram um legado para a posteridade.

Soldado Silva é o terceiro livro escrito por ele, mas o primeiro dedicado às memórias de seu pai como combatente na Segunda Guerra Mundial. A publicação é da editora Livros de Guerra e foi lançada ano passado.

Pracinhas começam viagem de volta, saindo do porto de Nápoles Foto: livro)
Pracinhas começam viagem de volta, saindo do porto de Nápoles Foto: livro)

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O cão

Por Marcelo Alves

Günter Wilhelm Grass (1927-2015) nasceu na outrora Cidade Livre de Danzig, que, pelo Tratado de Versailles, de 1919, não pertencia nem à República Polaca nem à Alemã de Weimar. Coisas da Europa de então. Embora Danzig seja hoje parte da Polônia, Grass criou-se alemão. Lutou na 2ª Guerra Mundial. Foi ferido e feito prisioneiro de guerra. Trabalhou como pedreiro. Daí, estudando, virou escultor e desenhista.

Já pendendo à esquerda, participou da vida literária e política de seu país. E, sobretudo, escreveu poesias, teatro e romances. Fez-se um dos grandes escritores alemães de todos os tempos, arrebatando o Prêmio Nobel de Literatura de 1999.cão ferroz, lobo

A denominada “Trilogia Danzig” certamente representa o ponto alto na literatura de Günter Grass. É formada por “O tambor” (“Die Blechtrommel”) de 1959, “Gato e rato” (“Katz und Maus”) de 1961 e “Anos de cão” (“Hundejahre”) de 1963. São livros que misturam o realismo mágico com uma visível dimensão política. Mostram como o nazismo e a 2ª Grande Guerra afetaram aquela região da Europa. São fábulas, às vezes tristes, outras divertidas, que nos alertam para uma face cruel, mas por alguns negligenciada (quiçá simpatizada), da história. Dos três títulos, o mais badalado é “O tambor”.

Ele é considerado como um ponto de inflexão na literatura alemã. Como lembra a Academia Sueca do Nobel, “um recomeço após décadas de destruição linguística e moral”. É um romance ousado, agressivo até, que colocou Grass no pódio dos grandes escritores alemães e estabeleceu um altíssimo padrão para as suas obras (o que nem sempre é fácil para o trabalho subsequente). “O tambor”, claro, foi bater no cinema. O filme homônimo é de 1979, com direção de Volker Schlöndorff (1939-). Ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes no mesmo ano. E levou o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1980.

O “nosso” Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), já fazia rasgados elogios ao autor e sua obra: “Satírico autêntico é Günter Grass. Seu romance Die Blechtrommel (O Tambor), repelente e agressivo, já revelou todos os aspectos de sua personalidade literária: o estilo brutalmente naturalista em que conta um enredo fantástico, irreal, possível só como símbolo da realidade detestada; a agressividade contra todos os tabus caros à sociedade; a vontade do anarquista de épater le bourgeois. É uma farsa exuberantemente cômica e exuberantemente trágica”.

E chama a nossa atenção para o terceiro título da trilogia: “Tudo isso caracteriza também o romance Hundejahre (Anos de Cão), que fez logo sensação na Alemanha e no estrangeiro. Sátira violenta contra o nazismo e contra o novo regime de Bonn. Simbólica é a história do cachorro preferido de Hitler, que fugiu de Berlim antes da morte do Führer, chega à Alemanha Ocidental, procura novo dono e muda de nome”.

Acredito que é sobre uma parte da fábula de “Anos de cão” que devemos focar aqui. A estória do tal “cão de Hitler”. Um pastor alemão, por sinal. Lembremos que, na trama, alguns personagens são nazistas e, posteriormente, ex-nazistas, que simplesmente “mudaram de pele”. Tornaram-se homens respeitáveis. Como os tais “cidadãos de bem” de hoje. E isso se dá até com o cachorro de Hitler, lembremos.

Trata-se de uma literatura de “encontro com o passado”, é verdade. De alguém que foi criado e educado durante o Nazismo. O próprio Grass, chocando o mundo literário e político, no seu livro “Descascando a cebola” (“Beim Häuten der Zwiebel”), de 2006, autobiográfico, reconheceu expressamente haver sido membro, quando adolescente, do braço militar da SS.

Mas será que podemos transpor essa fábula cínica para o presente? E para a nossa terra? Histórias de criminosos nazistas que vieram parar na América do Sul pululam. Na Argentina, em especial, há até um mito do exílio de Hitler por lá. Os mitos são problemáticos. Mas às vezes são cruelmente reais. Josef Mengele (1911-1979), “O anjo da morte”, acabou no Brasil, isso é certo.

Será que agora até o “cão de Hitler” veio bater no Brasil? Tem tanto mito e pastor por aqui…

Marcelo Alves Dias de Souza é procurador Regional da República e doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL

Um pouco do bom humor de Winston Churchill

À escassez de inteligência em nossa política, além de bom humor mordaz, vale a pena a gente lembrar do ex-primeiro-ministro Winston Churchill, que comandou a Inglaterra na Segunda Guerra Mundial.

Resgatamos um vídeo de abertura de programa do Jô Soares na Rede Globo de Televisão, em que ele cita várias passagens bem-humoradas do reacionário e enfezado Churchill.

Uma delas, em duelo verbal e provocativo com a ‘amiga’ Nancy Witcher Astor. Ela foi a primeira mulher a fazer parte da Câmara dos Comuns no Reino Unido.

Jô também narra uma troca de correspondências entre ele e o escritor Bernard Shaw.

Veja.

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A saga de jovens franco-atiradoras treinadas para matar

Por Jacinto Anton de Vez Ayala Duarte (El País)

Eram majoritariamente muito jovens, algumas eram crianças. Vinham de toda a União Soviética. O Exército Vermelho as recrutou aos milhares na Segunda Guerra Mundial para usá-las como franco-atiradoras: deviam apontar suas armas à distância e estourar os miolos dos soldados inimigos, literalmente.

Era a missão delas, era esse o ofício para o qual foram meticulosamente preparadas e, embora matassem nazistas que haviam invadido e devastado seu país e muitas tivessem longas listas de vítimas –e algumas inclusive desfrutaram disso–, quase todas tinham desmoronado e chorado na primeira vez, ao alvejar um ser humano com sua arma.

Liudmila Pavlichenko à espreita na Segunda Guerra Mundial, camuflada para atirar (Reprodução)

Tampouco nenhuma delas, cercada por uma grande massa de camaradas sexualmente famintos, foi poupada de ter de suportar o assédio e o abuso de seus comandantes e colegas masculinos, geralmente bêbados: um verdadeiro combate em duas frentes. Embora várias tenham se tornado muito populares e até recebido o título de Heroínas da URSS, não puderam fazer carreira no Exército e, na volta para casa, foram muitas vezes xingadas de mulheres-machos ou prostitutas.

Quem conta isso é a pesquisadora russa Lyuba Vinogradova (Moscou, 1973) em sua chocante e ao mesmo tempo comovedora história dessas franco-atiradoras, Avenging Angels (publicada na Espanha pela editora Pasado & Presente com o título de Ángeles Vengadores, ou Anjos Vingadores). Reconhecida colaboradora de Antony Beevor e Max Hastings, Vinogradova –que teve publicada pela mesma editora sua obra sobre as não menos surpreendentes aviadoras soviéticas da mesma guerra (Defending the Motherland)– incluiu em seu livro depoimentos de algumas franco-atiradoras que ela mesma conheceu e entrevistou.

Como Ekaterina Terekhova, de 90 anos, que manca levemente, consequência de um ferimento de guerra em Sebastopol, que abateu trinta alemães. Embora pareça uma marca enorme, o número empalidece diante dos resultados de algumas de suas companheiras, como a lendária Liudmila Pavlichenko, considerada a melhor franco-atiradora de todos os tempos, à qual são atribuídas 309 mortes (Vinogradova questiona o dado), a maioria com sua espingarda semiautomática Tokarev SVT-40 com mira telescópica com aumento de 3,5 vezes (a maioria dos franco-atiradores, no entanto, preferia a mais simples espingarda de ferrolho Mosin-Nagant, mais precisa).

Elite das mulheres

As franco-atiradoras eram, junto com as aviadoras, a elite das mulheres soldado soviéticas, das quais o Exército Vermelho, diante da escassez de homens pela sangria da guerra, enviou à frente de batalha mais de meio milhão (muitas mais se incluirmos as partizans e as milicianas civis) para servir em todos os postos, desde a simples infantaria até sapadoras, artilheiras e operadores de tanque. A iniciativa contrasta com a oposição absoluta de Adolf Hitler a que as alemãs pegassem em armas.

As franco-atiradoras, que obrigaram milhares de soldados alemães a rastejar, foram treinadas como seus colegas homens e sofreram como eles os rigores de uma guerra selvagem, aos quais foram acrescentadas penúrias específicas como ter suas tranças cortadas, não dispor de roupas e calçados adequados, de instalações sanitárias específicas ou das medidas de higiene que requerem. A menstruação era um aborrecimento quando se estava caçando nazistas.

Muitas, diz Vinogradova, usavam calcinha e sutiãs que haviam trazido de casa sob a roupa íntima regulamentar de homem. Elas aprenderam a atirar, a se camuflar, a permanecer imóveis por longos períodos de tempo.

Estudos apontaram que elas podiam ter melhor desempenho na caça por serem mais tranquilas e pacientes. Contra si, a dificuldade de aguentar o violento recuo do fuzil.

“Era, naturalmente, muito mais difícil e traumático matar uma pessoa com uma espingarda do que em um avião”, diz. “A 200 ou 300 metros, através da mira telescópica, você vê perfeitamente o rosto da vítima, sabe muito bem quem está matando. Todas elas explicam que a primeira morte foi um grande choque. Algumas se acostumaram, outras não. Ao matar seu primeiro alemão, Lida Larionova pulou da trincheira horrorizada e correu para suas fileiras gritando: “Eu matei uma pessoa!”. Tonia Majliaguina, que era órfã, se lamentou depois de ter abatido sua primeira vítima: “Ele era pai de alguém e eu o matei!”.

A morte foi deixando de impressioná-las de forma gradual.

Rosto desfigurado

“Um cartucho, um fascista!”, incentivava Roza Shánina quando já tinha matado mais de vinte alemães. Ela morreu quase no fim da guerra, com a barriga aberta por estilhaços, tentando conter com as mãos os intestinos que se esparramavam e pedindo a seus companheiros que a matassem rapidamente. Quando recebeu a medalha que havia ganho, Bella Morózova fez o possível para mostrar apenas um lado do rosto. Uma bala havia entrado pela têmpora do outro lado, atravessando sua cavidade nasal e deixando-a sem um olho. Tinha apenas 19 anos. E voltou para a frente. O soldado que tinha se apaixonado por ela não mudou de opinião depois de vê-la desfigurada e depois da guerra formaram uma família e viveram juntos por muitos anos; um raro final feliz.

As franco-atiradoras lutavam em duplas e a morte da companheira, muito comum, costumava ser um trauma terrível. Algumas perderam até quatro.

Vinogradova acompanha a carreira de um bom número de franco-atiradoras durante a guerra. Casos muito notáveis, como os de Natasha Kovshova (capaz de atingir seus alvos no nariz, sua assinatura) e Masha Polivánova, uma das duplas mais notáveis de franco-atiradoras. Em 1942, em Sutoki-Byakovo, elas apoiavam um franco-atirador homem e um ataque deixou os três isolados.

Franco-atiradoras soviéticas jovens na Segunda Guerra Mundial enfrentaram muitos sacrifícios (Reprodução)

Foram feridos e as moças –seu companheiro rastejou e escapou– juraram em seu poço de atiradoras que não cairiam vivas nas mãos do inimigo (o que para uma franco-atiradora invariavelmente significava violação, tortura e execução). Tiraram o pino de segurança de suas granadas, esperaram a chegada dos atacantes e então as fizeram explodir, morrendo e levando alguns alemães.

Há casos como o de Sasha Shliakova, cujo capricho de usar um bonito lenço vermelho durante suas missões levou que fosse morta por um atirador alemão. Tania Baramziná, escolhida como franco-atiradora embora fosse míope e usasse óculos, foi capturada, torturada e morta com um lançador de granadas.

Vinogradova dedica um capítulo a Pavlichenko, que visitou os Estados Unidos e foi aclamada por multidões, à qual Woody Guthrie dedicou uma canção e que foi admirada por Chaplin, que beijou seus dedos fascinado, dizia que havia matado centenas de nazistas. “Acho a história dela muito estranha”, diz a autora. “Na verdade, acho que qualquer estrela com mais de 300 mortos, feminina ou masculina, é falsa. A propaganda precisava de heróis”. E Zaitsev, o grande atirador que aparece no filme Círculo de Fogo? “Muitos franco-atiradores que conheci foram muito céticos em relação ao seu desempenho. Lidiya Bakieva, que matou 76 alemães, me disse: “Você tinha muita sorte se conseguisse lhes dar um por dia. Matar dez, bem, isso exigiria que eles se alinhassem em fila esperando que você disparasse neles!”.

Duelos com ases alemães

Vinogradova menciona muitos casos de duelos de franco-atiradoras com sua contraparte alemã (sempre homens), inclusive com ases do fuzil. Como aquele que é creditado a Pavlichenko, que teria matado, depois de haver espreitado durante 24 horas, um tipo que tinha começado a caçar em Dunquerque e que tinha (de acordo com a caderneta que foi encontrada com o cadáver) 500 vítimas.

Esse seria um dos 33 atiradores alemães liquidados pela ucraniana.

Tosia Tinguinova teve seu duelo quando tinha vinte anos. Dispararam ao mesmo tempo. Ela matou o franco-atirador alemão. Foi salva pelo recuo do fuzil, que a afastou alguns centímetros, e a bala do inimigo perfurou a culatra de sua arma ao invés de atingi-la na cabeça.

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Busto de Hitler é guardado em segredo no Senado

Por Hugh Schofield (BBC News em Paris)

Escondido no porão, de paradeiro conhecido apenas por alguns poucos iniciados, está um busto de Adolf Hitler.

Nesta semana, a existência do busto foi revelada graças a uma investigação do jornal Le Monde. Também foram achados uma bandeira nazista de 3m x 2m e vários outros documentos e itens da época da Ocupação (período da Segunda Guerra em que a França foi ocupada pelas tropas alemãs).

O busto de Hitler foi exposto ao público durante a Ocupação em Paris (Foto: Getty Imagens)

O repórter Olivier Faye disse que ouviu de uma fonte a informação de que uma estatueta de Hitler havia sido mantida no Senado desde o final da Segunda Guerra Mundial, quando o palácio era a sede da Força Aérea da Alemanha Nazista (Luftwaffe).

Depois de muita resistência das autoridades, ele finalmente recebeu a confirmação do principal arquiteto do Senado, Damien Déchelette, que lhe perguntou: “Como você descobriu?”

Por que o busto ainda estava escondido?

A história exata de como o busto e a bandeira foram guardados nas entranhas de um edifício público tão importante permanece um mistério. Mas o resumo dos eventos provavelmente pode ser adivinhado com bastante precisão.

Em agosto de 1944, Paris estava tumultuada quando o exército alemão se rendeu às tropas do exército francês e da Resistência.

No palácio de Luxemburgo, funcionários da Luftwaffe em fuga deixaram para trás um cenário de caos, com paredes quebradas e móveis em pilhas. O mesmo acontecia no prédio vizinho, conhecido como Petit Luxembourg, então residência do comandante da Força Aérea alemã, marechal-de-campo Hugo Sperrle, e agora do presidente do Senado, Gérard Larcher.

Segundo o historiador Cécile Desprairies, para os franceses libertadores foi um momento de êxtase. “As bandeiras foram tomadas como troféus. Os prédios foram saqueados. Os libertadores levaram o que podiam. O mercado negro de mercadorias nazistas floresceu – e, de fato, ainda existe”.

O general Hugo Sperrle ocupou o escritório durante a ocupação na Segunda Guerra Mundial (Foto: Getty Imagens)

Em algum momento, na desordem, alguém no Palácio de Luxemburgo deve ter deixado de lado o busto de Hitler e a bandeira. Eles estavam encobertos e escondidos no porão, e o conhecimento de sua existência foi repassado ao longo dos anos entre um pequeno grupo de funcionários, depois que o prédio retomou suas funções como Senado.

Procurados pelo Le Monde, nenhum serviço ou ex-senador se disse ciente do tesouro nazista. Mas, como afirmou uma autoridade (pedindo anonimato) do Senado a Olivier Faye, “os senadores vêm e vão”. Eles não são os verdadeiros repositórios da tradição do edifício.

“Imagino que, de vez em quando, os conhecedores os vislumbrem, para se irritar um pouco”, diz Olivier Faye.

O que mais sobrou da Guerra?

Menos secreto – mas ainda pouco conhecido e certamente fora dos limites para os visitantes – é um bunker subterrâneo de concreto nos jardins do Petit Luxembourg. Foi construído antes da guerra como um abrigo antiaéreo para parlamentares e foi usado possivelmente como escritório ou para armazenamento pelos alemães.

Paris estava em caos quando a ocupação nazista terminou, em agosto de 1944 - nazismo, ocupação da França (Foto: Getty Imagens)

O bunker é, por si só, uma fascinante cápsula do tempo, contendo curiosidades como um “ciclomotor” para carregar baterias no caso de um blecaute, roupas de proteção de borracha para ataques de gás e um aparelho de rádio.

Há também duas relíquias militares alemãs: uma caixa contendo um aparelho de respiração e outra contendo uma lamparina a gás.

Em resposta às perguntas do Le Monde, o Senado finalmente produziu um inventário do que diz serem todos os itens alemães em sua posse. Estes também incluem um grande número de documentos e vários itens de mobiliário estampados com a águia do Terceiro Reich.

O que fazer com essa herança nazista complicada agora se tornou uma questão delicada.

O presidente do Senado, Gérard Larcher, ordenou uma investigação. Um destino provável é o novo Museu da Libertação de Paris, na Place Denfert-Rochereau, cuja peça central é o bunker de comando subterrâneo usado pelo chefe da Resistência Henri Rol-Tanguy.

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A justiça dos deuses

Por Honório de Medeiros

Os fenômenos físicos, sua repetição, o padrão idêntico de suas conseqüências uma vez presentes as mesmas causas, quando apreendidos, são expressos através de fórmulas – abstrações – em uma linguagem sofisticada, a matemática.

A certeza da inalterabilidade dos fenômenos físicos originou a consciência da causalidade, pelo mecanismo da associação de idéias: não pode haver chuvas sem nuvens; não pode haver vida, sem morte; ao sol, sucede a lua. E a expectativa de que todos os fenômenos ocorram da mesma forma, tanto na Grécia quanto no Egito, ontem como hoje, pertence ao mesmo gênero.Esses fenômenos, para os antigos, ocorreriam em virtude da “Justiça” dos deuses, entendida esta como “ordem”, “desígnio”, “determinação”, em um mundo na aurora de sua história. Surgiram, então, os intérpretes dos deuses, seus intermediários.

Assim os mais espertos fizeram uso da confusão entre um fenômeno físico e um fenômeno que é conseqüência da vontade do homem, tal qual a proibição de matar, ou a condenação à morte, e se colocaram como representantes dos deuses na Terra. Ainda hoje há quem creia que os terremotos são punições divinas.

Foi essa a história da Igreja Católica, por exemplo, até dias mais atuais. Não somente a Igreja Católica, claro.

Os japoneses, na Segunda Guerra Mundial, matavam-se tentando resistir ao poderio americano, em obediência ao seu imperador, que para eles era um deus. Hoje esses “deuses” foram substituídos por abstrações, como a “vontade do povo”, “a moral média da Sociedade”, “os ditames do Partido”, “os desígnios divinos”, “as lições da história”, e assim por diante.

Permanecem, entretanto, os intérpretes e intermediários, bem como os inocentes-úteis, aptos a serem manipulados. Ou seja, permanecem os lobos e as ovelhas, os predadores e suas vítimas.

Obviamente esse processo acontece ao sabor da vontade das elites dirigentes que o criam, mantém e acentuam.

Impressiona que ainda se creia, ainda hoje, em Direito Natural, ou “garantismo social” quando qualquer conhecedor da história do Homem pode constatar, ao ler as primeiras compilações de leis escritas pela humanidade, que suas existências se devem, única e exclusivamente, à necessidade de impor a ordem dos dirigentes, líderes, chefes.

Isso sem mencionar que, com certeza, na pré-história do Direito, apenas a necessidade de sobrevivência do clã originava a imposição de condutas, nunca algo abstrato quanto qualquer ideia de Justiça. Se se acreditar – é possível que alguém pense assim – que esse ordenamento jurídico natural estaria à espera da maturidade da humanidade para ser colocado à sua disposição, bem, também se pode acreditar em Saci Pererê.

A conclusão é simples: as leis devem expressar a vontade da maioria, respeitados os direitos fundamentais da minoria, e as leis devem ser intransigentemente respeitadas por todos, principalmente por quem tem o dever de aplica-la, o juiz.

Um Tribunal cujos integrantes ousem dizer, publicamente, que a lei é aquilo que disserem que ela é, representa a mais odienta face do Estado em sua tentativa de subjugar a Sociedade que o antecede e da qual emana.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN.

O segredo eterno das decifradoras de códigos da 2ª Guerra

Da BBC Brasil

Ela disse que iria guardar os segredos do seu trabalho até o “fim dos seus dias”. Margaret Wilson, de 95 anos, foi treinada para fazer comunicação via rádio antes de ser transferida para Bletchley Park, na Inglaterra, em 1942, onde escutava as transmissões alemãs.

“É tudo o que eu posso te dizer. Um segredo é um segredo”, disse à BBC.

Durante o período, ela diz não ter se dado conta da importância do trabalho. No entanto, mesmo agora sabendo o quão importante foi, se nega a revelar a história completa.

Bletchley Park, na Inglaterra, em 1942, onde equipe escutava as transmissões alemãs (Foto: arquivo)

Apesar de pedidos de investigadores e familiares, Wilson diz: “Ninguém mais falou, então eu tampouco falarei”.

Margaret Wilson tinha 19 anos quando se juntou à Força Aérea Auxiliar de Mulheres. Uns meses depois, lhe pediram que assinasse o Ato de Segredos Oficiais e jurasse segredo para a vida diante de um juiz de paz.

Então lhe disseram que ela iria a um lugar chamado Bletchley Park. “Nunca havia ouvido falar daquele lugar”, conta.

No último novembro, uma colega sua, a Baronesa Trumpington, morreu aos 96 anos. Fluente em francês e alemão, Trumpington também trabalhou aos 18 anos em Bletchley Park durante a Segunda Guerra Mundial. Depois, tornou-se uma política conservadora inglesa, tendo sido ministra de Margaret Thatcher e membro da Câmara dos Lordes.

Em vida, Trumpington chegou a contar que as mulheres um dia receberam uma visita do então primeiro ministro do Reino Unido, Winston Churchill. “Ele disse: ‘Vocês são as galinhas que puseram os ovos de ouro, mas nunca cacarejaram'”. “E essa era a coisa mais importante: que não falássemos.”

Trumpington levou o segredo para o túmulo. Até agora, nenhuma das mulheres que trabalharam em Bletchley Park durante a Segunda Guerra rompeu o juramento.

Sem descanso

Bletchley Park fica a 75km de Londres, no noroeste da capital britânica. O local serviu como uma instalação militar secreta onde funcionavam os trabalhos de decifração de códigos alemães durante a Segunda Guerra Mundial.

Foi ali onde, com ajuda de pessoas como Margaret Wilson e a Baronesa Trumpington, o matemático Alan Turing fez criptoanálise das máquinas alemãs Enigma e Lorenz, fundamental para a derrota dos nazistas em muitos embates cruciais e, claro, para a vitória dos aliados.

Margaret participou de equipe em Bletchley Park (Foto: BBC)

As primeiras impressões de Wilson do lugar não foram boas.

Ela relata que ia trabalhar com um carro com janelas escurecidas “horríveis”, e o sargento responsável era um “imbecil miserável”.

Trabalhando de uma cabana de madeira, Wilson fazia parte de uma pequena equipe que escutava e gravava transmissões de rádio alemãs 24 horas por dia.

O foco eram pontos e roteiros das mensagens em código Morse que deviam detectar entre a confusão de outros barulhos e vozes das transmissões.

“Fazíamos isso todos os dias, sem descanso, durante oito horas. E nunca falávamos umas com as outras – nem sequer ‘sim’ ou ‘não’, ou ‘como você está’… nada.”

“Quando queria ir ao banheiro, tinha que levantar a mão e o sargento se sentava e fazia seu trabalho.” Isso ocorria, segundo ela, principalmente à noite, quando lavava o rosco para tentar se manter acordada.

Sem explicação

Ninguém lhes explicou nada sobre o trabalho, mas logo as mulheres foram ligando os pontos.

“As mensagens importantes chegavam em grupos de cinco letras, e isso era enviado rapidamente. É tudo o que eu posso dizer”, diz.

Wilson deixou seu trabalho em 1946, mas se manteve firme em seu juramento de segredo. Não falou nada a respeito do trabalho mesmo ao marido ou aos filhos.

Em 2013, quando aqueles que trabalharam em Bletchley receberam agradecimentos oficiais, parte da história veio à tona. Foi então que Wilson voltou a Bletchley, que agora é um museu. “Em poucos minutos me vi rodeada de pessoas importantes”, conta.

“Me diziam: ‘Margaret, você pode nos contar agora’ e eu respondia: “Vocês não são aqueles que juraram guardar segredo nem quem ouviu que jamais deveria revelar o segredo até o fim de seus dias”.

“O juiz me advertiu: ‘Vão tentar te fazer falar, te dirão que tudo bem falar, mas nunca diga nada’. Essa, para mim, é a última palavra.”

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História da vida real

Por Honório de Medeiros

Nas Seleções do Reader Digest que meu pai colecionava na década de 40 eu lia, entre menino e adolescente, uma seção cujo título era “Histórias da Vida Real”. Não me lembro mais de qualquer das “histórias”, exceto uma: durante a Segunda Guerra Mundial, as moças americanas eram incentivadas a participarem do esforço comum americano escrevendo para seus compatriotas combatentes mundo afora.

Um deles começou a se corresponder com uma garota do interior de um daqueles estados americanos do Oeste. Passaram-se os anos e as cartas, que começaram cordiais mas distantes, assumiram um teor cada vez íntimo, com troca de confidências, sonhos, planos e tudo quanto diz respeito a, finalmente, uma correspondência amorosa.

Tudo correu perfeitamente bem exceto pela recusa obstinada da moça em enviar, para seu correspondente, uma fotografia e o nome da cidadezinha na qual morava. Todas suas cartas eram enviadas da Estação Central de Trem da capital do seu Estado. Ele argumentava dizendo que gostaria de ter, perto de si, não apenas suas cartas e tudo quanto de bom elas lhe traziam, mas, também, uma imagem sua para a qual pudesse olhar naqueles momentos terríveis pelo qual estava passando.

Ela lhe respondia, justificando-se, que o amor, entre eles, começara pelo espírito, e assim deveria continuar até o momento em que, finalmente, pudessem se encontrar frente a frente, e uma fotografia poderia lhe dar uma falsa impressão que a realidade viria desmascarar.

Finalmente a guerra terminou.

Ele lhe escreveu para combinar o encontro e ela lhe pediu que estivesse no dia e hora marcados, na Estação Central de Trem da capital do seu Estado, quando seria reconhecida por trazer, nas mãos, um ramo de rosas vermelhas. Esta seria a única forma de reconhecê-la que ele dispunha: não sabia como era ela, em qual cidade vivia, e, mesmo, se seu nome era real ou fictício.

Meio-dia em ponto, conforme combinado.

O trem para. Ele salta e olha, ansioso, para todos os lados. Há poucos transeuntes na Estação. Ninguém que aparente ser uma moça desacompanhada portando um ramo de rosas vermelhas nas mãos. Começa sua frustração.

Será que foi enganado ao longo de todos os anos? Será que tudo quanto ela lhe dizia por carta, o amor que nascera, os planos construídos, eram mentiras? Parado, a maleta aos pés, a expressão ansiosa, ele olhava em todas as direções tentando encontrar uma explicação para um possível atraso, como um acontecimento de última hora, um obstáculo inesperado…

O tempo passou. Uma hora depois, convicto que tinha sido iludido, ele começou a se dirigir para o guichê de vendas de passagens. Pretendia ir embora o mais rápido possível.

Quando se aproximou do guichê viu, sentada, próxima ao local, uma senhora de aproximadamente sessenta anos trazendo, em suas mãos, um buquê de flores vermelhas. “Então é isso?”, se perguntou. “Ela é esta senhora, e por essa razão não teve coragem de me enviar uma fotografia sua?”

Parado, perplexo, pensou em se esconder – não era possível aceitar que aquela senhora fosse sua amada! “E agora?” disse a si mesmo, “deveria honrar o amor espiritual com o qual se comprometera e que independia de idade ou poderia justificar sua fuga alegando ter sido manipulado?” Não resistiu.

Aproximou-se.

“Senhora, seu nome é Lucy?”, indagou usando o nome usado por ela nas cartas. “Não, ela me pediu para ficar aqui algum tempo, com essas rosas na mão, aguardando que alguém viesse a sua procura; ela está ali”, e apontou. Um pouco além, vindo em sua direção, com outro buquê de rosas vermelhas nas mãos, uma belíssima mulher lhe sorria, enquanto acenava discretamente.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN