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Justino

Por François Silvestre

Dos recrutas da Bateria de Serviços, do regimento de Obuses, naquele ano do serviço militar, um merece destaque pela compleição humana antagônica a qualquer fisionomia de enquadramento militar.

Analfabeto, indisciplinado, desligado. Até no andar ele negava a “elegância” militar. Andava balançando-se. O que o fez ganhar o apelido de “Carnaval”.

E assim era chamado, até pelos superiores. Justino passou mais tempo hospitalizado ou preso do que no serviço regular.

Gonorreia, cavalo de crista, cancro. Ou prisão, pelas voadas nos dias de guarda ou reforço à noite. Usuário de maconha, numa época em que o baseado criava estigma. Ser chamado de maconheiro produzia briga na certa.

Tudo isso numa personalidade quase infantil. Sem qualquer resquício de culpa.

Expulsá-lo seria a confissão de má avaliação no recrutamento, coisa que traria mais problemas para o comando do que para o recruta mal avaliado. A expulsão cria uma mácula para o comandante, que o atormentará pela vida e prejudicará suas promoções. Só isso pode explicar a permanência de Justino até fim do serviço militar.

O sargenteante, Serafim, descobriu que “Carnaval” não sabia cantar o Hino Nacional. Encarregou a nós, recrutas da BS, para ensiná-lo. Tentamos, em vão.

Diante disso, orientamos para que ele ficasse apenas mexendo os lábios, nas formaturas. Numa dessas, Serafim aproximou-se de Justino e descobriu o engodo.

Chamou-o à sargenteação. Mandou-o cantar o hino. Saiu algo mais ou menos assim: “Ouviro no ipiranga um povo retumbante”. O sargento, irado, mandou parar. “Aqueles bostas nem pra isso servem”. Referia-se a nós.

Foi aí que Justino perguntou: “Sargento, o qui danado é retumbante”? Serafim quase tem um infarto.

Num serviço de cortar mato, eu fui atingido por um recruta. Usávamos a estrovenga para cortar o capim. Uma espécie de enxadeco invertido, com a Lâmina para frente, ao contrário da enxada.

Num giro desastrado, Vanildo girou a estrovenga que me cortou o ombro direito e me abriu um talhe na cabeça. Cai sangrando. Aperreio do próprio recruta e do Sargento.

Levado para o Hospital Universitário, (Onofre Lopes) os cortes foram suturados. Daí fui para o HGuN, Hospital da Guarnição de Natal, vizinho do 16/RI.

Numa enfermaria, com recrutas de todos os quartéis, quem estava lá? Justino. À noite, ele fugia pros lados do Bosque dos Namorados, fazíamos a vaquinha para comprar cigarros. E maconha pra ele.

Numa dessas noites, ele não voltou. Por volta das nove horas da manhã, confusão no Hospital. Era Justino que chegava dirigindo um ônibus da linha Alecrim/Santos Reis. Ele disse que estava ajudando um colega doente.

Numa das paradas, sobe o Cabo Damasceno, da nossa Bateria. O cabo o prendeu e mandou que ele levasse o ônibus para o HGuN. Com reclamação dos passageiros. Mais uma vez Justino na prisão. Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

A continência de Bolsonaro

Por François Silvestre

Prestei serviço militar no Regimento de Obuses, ali no Bairro de Santos Reis. Cinco Baterias. Três de artilharia, uma de Comando e uma de Serviços. Fiquei na de serviços. A menos importante de todas.

A hierarquia se dá também pelo número. A bateria de Serviços era a última numerada. E eu tinha o último número. Soldado 930. Portanto, eu só assumiria o comando do Quartel se todos morressem.

Na minha bateria também ficaram alguns amigos. Rilke Santos, Jaime Aquino, Isaías Almeida, Carlos Caju, Eduardo Lamartine, Noronha, Pedro Araújo, Justino. Era tempo da Ditadura, fui recruta e preso político lá mesmo. Domingo contarei isso.

Um rapaz das Rocas, Soldado Costa, que fez concurso de Cabo e continuou no exército, era fotógrafo. Tenho em Cajuais da Serra uma foto dele comigo, que ele tirou armando a máquina numa pedra.

No dia que recebemos a farda, fomos à primeira formatura. Três fileiras de soldados. O tenente Campelo ordenou “direita volver” e ficamos de frente para o Comandante da Bateria, o Capitão Ibiapina. Um bigode enorme e carranca fechada. Recebeu o comando, fez uma preleção sobre o serviço militar e perguntou: “Algum de vocês não quer servir no Exército? Se houver que dê um passo à frente”.

Eu estava na primeira fila. Tinha ouvido, no alojamento, todo mundo dizer que não queria ficar no Exército. Pensei que todo mundo iria dar esse passo. E dei. Só eu.

O capitão perguntou meu nome e número. Depois, mandou que eu saísse da formatura e fosse esperá-lo na Sala do Comando. Quando ele entrou, eu fiquei todo empertigado, posição de sentido, morrendo de medo.

Ele disse: “Descansar. Você diz que não quer ficar e agora posa de soldado”. Riu e sentou-se. O medo diminuiu. Passou bom tempo explicando as vantagens do serviço militar. Conhecimento da disciplina, armamentos, educação cívica. Não falou de política. Nem eu.

Eu disse acreditar, mas precisava estudar, vinha de família pobre, de região carente. Ele respondeu que admirava minha sinceridade, mas não haveria dispensa. Esse episódio fez com que aquele homem temido passasse a me tratar com certa cordialidade.

Permitiu minha a frequência à faculdade, pela manhã, quando eu passei no vestibular, ainda no Exército.

Esse enchimento de linguiça foi para comentar a continência que Bolsonaro prestou ao Juiz Sérgio Moro. A continência é um cumprimento entre militares. Iniciativa do subalterno, com a mesma resposta do superior. Só se bate continência estando devidamente uniformizado. Se o superior estiver em trajes civis, responde com um aceno da cabeça.

Não se bate continência sem cobertura, quepe ou gorro. É uma saudação regrada, de natureza regimental. Todo militar sabe disso. Menos Bolsonaro, que não é civil nem militar. É apenas boçal. Boçalnário.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.