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A solidão devora

Por Odemirton Filho

Imagem ilustrativa da Freepik
Imagem ilustrativa da Freepik

 Percebia-se o olhar distante. O senhor idoso, talvez com mais de oitenta anos de idade, por vezes abria um largo sorriso. Sentado em uma cadeira, após tomar o seu lanche vespertino, estava sozinho, embora na sala da casa que abrigava idosos estivessem várias pessoas.

No que estava pensando? Quem sabe na sua vida de outrora. Vinha à sua memória lembranças do passado, da infância, de seus pais. Se alguém perguntasse sobre a sua vida, ele, na maioria das vezes, falava sobre os tempos de menino e da juventude.

O velho senhor sempre recebia visita de seus familiares. Alguns colegas da casa, porém, foram esquecidos ali. Ninguém os visitava. Viviam assistidos pelos funcionários que trabalhavam no local. Eram a família daquelas pessoas. Por motivos diversos, que não nos cabe julgar, os familiares os abrigaram naquele local.

Aquele senhor, nos seus raros momentos de lucidez, lembrava do passado; dos almoços aos domingos; das inúmeras festas de aniversário ao lado de seus filhos e netos. Talvez, lembrasse da juventude, do namoro com sua mulher, há tempos falecida. Lembranças de tempos idos e vividos. Tempos de alegria. Agora, o vazio; a falta de sentir o calor de um abraço.

O que ele mais gostava era se reunir com a família e amigos. Reuniões festivas, regadas a bebida e comida. Vez ou outra viajava com sua mulher. Iam passear por aí, conhecendo outros lugares, outras pessoas. Hoje, vez em quando algum familiar vinha buscá-lo para dar uma volta pela cidade. Todos estavam cuidando da vida, tinha pouco tempo, diziam.

Era bem cuidado, estava cercado por várias pessoas, todavia, vivia calado, em seu mundo. Nada, absolutamente nada, substitui a presença e o amor de quem amamos. Há, é claro, quem goste de viver sozinho, apreciando a própria companhia. Ele, que se privou de várias coisas para dar o melhor aos filhos e netos, estava longe dos seus.

Às vezes, quando todos estavam recolhidos em seus quartos para dormir, ouvia-se o velho senhor cantar, baixinho:

A solidão é fera, a solidão devora, é amiga das horas, prima-irmã do tempo, e faz nossos relógios caminharem lentos, causando um descompasso no meu coração”.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça

Uma solidão cercada de amigos

Por Honório de Medeiros

Ariclê suicidou-se, tempos atrás. Mas quem foi Ariclê?

Uma atriz global. Suave, delicada, simpática. E solitária.

Antes de morrer estava fazendo o papel de mãe de JK, no seriado homônimo. Terminou sua participação e saltou do décimo andar do prédio onde morava, mergulhando para a morte.

"Pássaro solitário sobre o Tejo" (Foto: Honório de Medeiros)

Não é somente por ter sido atriz que sua morte chamou a minha atenção. Nada disso.

O que chamou a atenção é que todos quantos foram a seu sepultamento eram seus amigos, muito embora ela fosse uma pessoa solitária. Morava sozinha, e segundo o relato do porteiro do prédio – ah, os porteiros de nossos prédios, testemunhas silenciosas e onipresentes das nossas vidas – quase não recebia visitas.

Todos os amigos cobriram Ariclê de elogios. Não podia ser diferente. É da nossa tradição elogiar os mortos. E todos realçavam os laços de amizade existentes entre eles e até contavam, aqui e ali, algum fato vivido juntos.

Nada diferente de velórios em outros mundos afora. Mas não frequentavam o seu apartamento, esses amigos. Não invadiam sua cozinha, bisbilhotavam sua biblioteca, usavam seu banheiro, deitavam-se em seu sofá.

Ali estava um ambiente íntimo cheio de ausências.

Ariclê era uma pessoa solitária… Quase posso imaginar sua solidão tão comum em cidade grande. Conhece ela muitas pessoas, é conhecida e respeitada por muitas outras, trata-as por amigo, ou amiga, recebe o mesmo tratamento, mas com certeza não telefona para qualquer um deles para convidá-los a partilhar uma taça de vinho e um pouco de dor nas madrugadas melancólicas.

Não é possível fazer isso porque o incômodo causado é muito grande. Transtorna a vida das pessoas. Atrapalha suas rotinas. E elas também têm lá seus problemas, não estão dispostas a emprestarem seus ouvidos para ouvirem o que não conseguem resolver em si mesmas.

Antigamente as pessoas colocavam as cadeiras nas calçadas e contavam estórias, relatavam histórias, riam, faziam rir, e se solidarizavam umas com as outras. Mas isso faz muito tempo. Hoje não é mais possível, há a violência urbana, a televisão manieta, o celular aprisiona, as portas e janelas estão todas fechadas.

Enclausurando-nos, estamos nos fechando para o mundo e para os outros. Nossa convivência passa a ser virtual. Podemos até almoçar juntos com um grande amigo, vez ou outra, mas quando a noite chega, no cotidiano, é cada um por si e Deus por todos.

Não por outra razão estamos cada vez mais sozinhos. Embora possamos até mesmo estar acompanhados. Porque não nos dispomos a ser solidários, a estabelecermos pontes sólidas em direção ao outro. Pontes construídas com o cimento do sacrifício, da empatia, da história comum.

Não por outra razão, quem sabe, Ariclê morreu. Para quem ela ligaria, no final de uma noite qualquer, de um dia qualquer, para dizer “venha, estou triste, preciso de você?”

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN.

Sozinho

Por Ary Dulcídio

Era um garoto de modos taciturnos, nunca teve muitos amigos, ou melhor, nenhum. Depois que se mudou de sua cidade natal para estudar, nem a família sobrou.

Sempre tentou se enturmar, mas sua estranheza acabou por torná-lo definitivamente solitário. Embora isso fosse o que mais o incomodava, percebera que seus esforços seriam insuficientes. Nem mais tentava se socializar.

Sobrevivia por meio de uma mesada que recebia dos pais. Morava sozinho, um pouco isolado do centro da cidade, em um casebre, com apenas uma suíte, de um tio que passava uns anos no exterior. Estava no período de recesso da faculdade na época da história que se segue.Todos os dias, naquele tempo, eram iguais. De manhã, preparava a comida para o restante do dia; à tarde, desenhava e pintava até a exaustão; e à noite, antes de dormir, lavava a louça que sujara durante as refeições. Era organizado e metódico.

Como o ciclo da vida, sua rotina prosseguia. E continuou, até que, certo dia, ao resolver tomar seu leite matinal, se surpreendeu: havia uma pontual xícara que repousava, suja de café, sobre sua bancada fria de granito.

Sentiu um misto de medo e dúvida. Realmente, fizera café no dia anterior, mas se lembrava perfeitamente da imagem satisfatória de sua pia limpa.

Devia ser coisa da sua cabeça. Checou a porta da frente e estava trancada. As janelas eram todas gradeadas. Isso foi suficiente para ele continuar o dia normalmente.

Rotina santa de cada dia – já havia passado a manhã cozinhando, a tarde desenhando e pintando; agora, ele se via novamente lavando a louça de noite. Dessa vez, lavara tudo, com certeza absoluta, não restava mais nada largado à pia.

A última coisa que se pode lembrar sobre aquele dia é seu olhar inquietante em direção à xícara, antes de guardá-la em seu devido local.

Dormiu bem. Seguramente havia trancado a porta.

O sol já raiava. Ele precisava tirar a prova. Foi como um raio até a cozinha.

Não podia ser possível… após olhar aquela cena, correu imediatamente para verificar: a porta estava trancada. Já não entendia mais nada. A xícara estava novamente suja de café e apoiada sobre a pia. E, dessa vez, fora pior, ele nem havia feito café no dia anterior e, mesmo assim, sua cafeteira estava suja. Imediatamente a lavou junto com o utensílio de porcelana.

O medo e a dúvida o faziam delirar. Acabou por não preparar comida pela manhã. Do sentimento de aflição, veio a ideia, e a tarde foi artisticamente produtiva. No início da noite sua casa estava lotada de desenhos e pinturas daquela imagem que tanto o perturbava: a xícara vazia com resquícios de café.

Decidiu-se. Passaria a noite acordado e descobriria de uma vez por todas o que estava acontecendo.

Foi à cozinha e pegou a mais afiada e lustrosa de suas facas. Lá estava ele sentado na escuridão de sua sala, rodeado de seus quadros e rabiscos, enquanto empunhava aquele fatal utensílio.

Não havia certeza, mas sentia que alguém o observava. Apertava cada vez mais a pegada no cabo de sua arma branca, que agora quase deslizava devido à sudorese anormal de suas mãos.

O sol voltava a raiar mais uma vez. Nada de extraordinário havia acontecido.

A frustração era perceptível em seu rosto. Foi à cozinha e lá estava tudo como havia deixado na manhã anterior: nenhuma xícara ou cafeteira fora do lugar e a porta continuava trancada. Novamente, não podia ser possível… nada acontecera justamente quando resolveu tomar providências.

Tentaria outra vez, mas de maneira diferente. Passou o dia e a tarde em meio à produção de sua arte, e à noite, já era hora de pôr seu plano em prática.

Deixou preparado o melhor café que fizera em toda a sua vida, pôs a faca do dia anterior dentro de sua jaqueta e saiu de casa, assegurando-se de trancar a porta, em meio à escuridão.

Durante sua caminhada por entre os grandes espaços vazios nos arredores de sua casa, pensava em sua solitária vida e, após duas horas assim, decidiu que era hora de voltar.

Retornou à sua casa. Ao se aproximar da porta de entrada, foi pondo sua mão lentamente sobre a maçaneta e, após um suspiro, girou-a. Desta vez, estava destrancada – um calafrio subiu pela sua espinha.

Adentrou a casa já com a faca em mãos e assim chegou à sala. Não pôde acreditar. Realmente havia alguém: um homem estranho admirava de pé as obras que o esperavam enquanto tomava seu café. Na cintura do desconhecido, estava pendurado um molho de chaves que reluzia à luz lunar que invadia o cômodo pelas frestas da janela.

Com o medo, as mãos do artista ficaram trêmulas e a lâmina que empunhava agora ia de encontro ao chão. O som metálico que o utensílio produziu chamara a atenção do estranho e os dois homens se fitavam.

O medo, que cercava o dono da casa, ia embora à medida que se aproximava do estranho e, com um súbito abraço unilateral, de sua parte, já não sentia medo algum. E, em meio às lágrimas, teve a oportunidade de não se sentir sozinho pela primeira vez em sua vida.

Ary Dulcídio é estudante

Solidão e liberdade

Por Honório de Medeiros

Encontrei Antônio Gomes em Pau dos Ferros, no rumo de suas terras na Serra das Almas, fugindo do frio na Europa.Tomamos um café coado no “Maria”.

Me disse que gostara muito de uma frase minha postada no blog.

– Qual?

“Somente é livre quem pode dizer não”. Mas observo que primeiro é preciso dizer sim ao projeto de dizer não para ser livre.

– Você sempre um sofista!

Ele riu e observou, quase que como para si mesmo, que “isso tudo o levara a compreender a solidão, no final da vida, de tantos artistas e pensadores…”

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Estado do RN

O tempo passou e me formei em solidão

Por José Antônio Oliveira de Resende

Sou do tempo em que ainda se faziam visitas. Lembro-me de minha mãe mandando a gente caprichar no banho, porque a família toda iria visitar algum conhecido.

Íamos todos juntos, família grande, todo mundo a pé. Geralmente, à noite.Ninguém avisava nada, o costume era chegar de paraquedas mesmo. E os donos da casa recebiam alegres a visita.

Aos poucos, os moradores iam se apresentando, um por um.– Olha o compadre aqui, garoto! Cumprimenta a comadre.E o garoto apertava a mão do meu pai, da minha mãe, a minha mão e a mão dos meus irmãos. Aí chegava outro menino. Repetia-se toda a diplomacia.– Mas vamos nos assentar, gente. Que surpresa agradável!

A conversa rolava solta na sala. Meu pai conversando com o compadre e minha mãe de papo com a comadre. Eu e meus irmãos ficávamos assentados todos num mesmo sofá, entreolhando-nos e olhando a casa do tal compadre. Retratos na parede, duas imagens de santos numa cantoneira, flores na mesinha de centro… casa singela e acolhedora.

A nossa também era assim.Também eram assim as visitas, singelas e acolhedoras. Tão acolhedoras que era também costume servir um bom café aos visitantes. Como um anjo benfazejo, surgia alguém lá da cozinha – geralmente uma das filhas – e dizia:– Gente, vem aqui pra dentro que o café está na mesa.

Tratava-se de uma metonímia gastronômica. O café era apenas uma parte: pães, bolo, broas, queijo fresco, manteiga, biscoitos, leite… tudo sobre a mesa.Juntava todo mundo e as piadas pipocavam. As gargalhadas também.

Pra que televisão? Pra que rua? Pra que droga? A vida estava ali, no riso, no café, na conversa, no abraço, na esperança… Era a vida respingando eternidade nos momentos que acabam…. era a vida transbordando simplicidade, alegria e amizade…

Quando saíamos, os donos da casa ficavam à porta até que virássemos a esquina. Ainda nos acenávamos. E voltávamos para casa, caminhada muitas vezes longa, sem carro, mas com o coração aquecido pela ternura e pela acolhida.

Era assim também lá em casa. Recebíamos as visitas com o coração em festa… A mesma alegria se repetia. Quando iam embora, também ficávamos, a família toda, à porta. Olhávamos, olhávamos… até que sumissem no horizonte da noite.

O tempo passou e me formei em solidão. Tive bons professores: televisão, vídeo, DVD, internet, e-mail, Whatsapp … Cada um na sua e ninguém na de ninguém. Não se recebe mais em casa. Agora a gente combina encontros com os amigos fora de casa:– Vamos marcar uma saída!… – ninguém quer entrar mais.

Assim, as casas vão se transformando em túmulos sem epitáfios, que escondem mortos anônimos e possibilidades enterradas. Cemitério urbano, onde perambulam zumbis e fantasmas mais assustados que assustadores.Casas trancadas.. Pra que abrir?

O ladrão pode entrar e roubar a lembrança do café, dos pães, do bolo, das broas, do queijo fresco, da manteiga, dos biscoitos do leite…

Que saudade do compadre e da comadre!…

José Antônio Oliveira de Resende é professor de Prática de Ensino de Língua Portuguesa, do Departamento de Letras, Artes e Cultura, da Universidade Federal de São João del-Rei (MG)

A dor de uma saudade – Pedaços da alma

Por Marcos Pinto

Quando  eu  for, um  dia desses

Poeira  ou  folha  levada

No   vento  da   madrugada ,

Serei    um  pouco  do  nada

invisível ,   delicioso“.   (Mário   Quintana).

Assoma  enigmática  e  cruciante.   Traz  consigo  espectros  dolentes   de  pedaços  da  alma.    Magistral, entre  soluços  de  dor, desliza   na tépida  face  a   lágrima  mais  bonita  do  sentimento  humano  –   a  lágrima  da  saudade.  Nasce   de   risos   que   já  se  foram,  de  sonhos  que não  se  acabam,  e  de   lembranças  que  jamais  vão  embora.

Lágrima  que  emblematiza   e    amalgama-se   nos  mistérios  envolventes  da  saudade.   Nessa  saudade,  reside  a  certeza  de  que  algo  muito especial   ocorreu   em  nossas  vidas.    Saudade  que  não   mata, mas  fere  todos  os  dias. Na  envolvente  alquimia  das  imagens    do passado, surge    a   firme  convicção   é  e   sempre   será  a  sentença  de  um  morto  que  chora  pedaços  da  alma.   O que  é  o  amor,   senão   o desenrolar   espectral    de  uma  futura  e  incisiva   saudade ,  perfilando  os  nossos  mortos   para  que  permaneçam   tão  vivos,  como  se vivos fossem.

A amplitude  envolvente  do  transcendental  bem-querer   sentencia, sem  recuos,  que  em  cada  ausência  notada  e  anotada  existe  uma   eternidade.   Eternidade   de  noites  mal  dormidas    pelo   assédio  de  remorsos   oriundos   de   fraquezas  e  indecisões.   Na  célere   procissão das  interrogações ,  o  sorriso  segue   na  frente    mentindo  e  escondendo  a  sua  dor.

Alguém  já   estigmatizou  no   epitáfio  do  coração,  que   ” a  saudade   é  um   sentimento  que,  quando  não   cabe   no  coração  escorre  pelos olhos”.   Fuga  dos  momentos  ou  momentos  de  fuga?.   Saudades   certas  de  momentos  certos  de  certos  momentos   de  pessoas  que  deixaram  o  seu  inconfundível   DNA    em  nossa   geografia  do  bem-querer.

Socorrem-me  tons  soturnos  de  devotada  cadência   sentimental.   Diante  tamanha  tristeza ,  como  não  sucumbir, afogado  no  sofrimento em  pranto ?.  Onde  estão  os  meus  mortos  queridos ?.   Como  não  quebrar  o  suporte  que  guarda  os  pedaços  da  alma?.

Onde  encontrar  um  oásis  de  alento  no  deserto  da   minha  alma ?.  Não  tenho, ainda,  um  coração  amigo   onde  possa  haurir   sonhos  e procurar  o  indescritível  alívio  da  confidência.   Onde  e   como  escoar  as  mágoas, ,   pesares    e   desgostos ?.  A  alma,  já  cansada  e desiludida,  segue  acabrunhada  de  pensamentos  tristes, cruciantes  como  remorsos.

Delineia-se  um   perfil  de  ingente  dor,  sob  o   látego  do  castigo  do  céu.  O  desalento  tinge  com  crepe   a  intensidade  da  cena,  dolorosa  e    de   imaginação  acesa,  fecunda  em  descrição.   Sigo,  ungido  e  consumido  pelas  sombras  do  remorso,  por  não  ter  feito  mais  e  sempre  mais  em  forma  de  caridade   e  fé.   É  mais  fuga  que  desvario  desenfreado.  Quero  minha  alma  estrangulada  pelo   mais  querido  dos  afetos.

Enchamos  o  nosso  baú  de  saudades   com  as  reminiscências  mais  antigas   dos  nossos  entes  queridos,  que   vivem   sob  o  resplendor  da  luz  divina.   Façamos  da  renúncia  um  traço  de  originalidade  da  alma.   Vida  que  é  sempre  um  monólogo  de  interesse  e  de  sonho.   Ou  você  segue  a  vida  com   o  sobressalto  da  esperança  ou  com  a  amargura  do   desespero.  Nesse  caminhar  merencório,  adote  a  mesma  grandeza   dos  ricos  de  espírito.

Fuja  do   mesmo   mudo  espanto,  sem  deixar  de  entoar   o   seu  singular   canto.   A   lufada    de  vento  que   brinca  com  a  folha  seca   é  a mesma   que  fica    ruminando   alguma  coisa  de  alma  penada,  num  segredar   entrecortado  de   alguma  coisa  retardada   de  há   muito.

Sigo   o  meu  destino   com  a  mesma   obstinação  desencontrada.   Desenvolvo  minhas  palavras    gesticulando  para  o  lado  de  dentro  da sensatez.  São  raríssimos     os  que  conseguem  ser  maiores  que  a  desgraça  e  o  desalento.

Inté.

Marcos Pinto é escritor e advogado

Poucos sabem viver sozinhos

Por Honório de Medeiros

Houve um tempo no qual eu morei em uma cidade pequena. Sentia tédio, principalmente aos domingos, quando tudo parava e as pessoas se recolhiam as suas casas.

Um dia me perguntaram: “como suporta viver aqui? Não há nada para se fazer.”

Depois fui para a cidade grande. Às vezes também sentia tédio, principalmente aos domingos. Menos, entretanto, pois perambulava por lugares onde pessoas se encontravam, falavam, riam, cantavam, brigavam, se deslocavam em vaivém incessante.

Tentando compreender, eu pensava com meus botões: “deve ser porque, aqui, há movimento, pois lá também existiam coisas para se fazer, embora a sós.”

“Mas não, não é o movimento, o bulício, o frenesi, uma vez que, mesmo assim, sinto tédio, embora em menor quantidade.”

“Então não é algo que está fora de mim, ao contrário, está dentro.”

“É minha alma inquieta, que se entorpece, em alguns momentos, com a aparência do algo-sendo-feito fora de mim.”

Pois a noção de que não nos sentimos entediados em lugares onde muitos estão em atividade, de que sempre há algo para se fazer, típica da e na cidade grande, é uma ilusão, entorpece nossa alma inquieta, e nos permite sobreviver à rotina.

Na verdade o tédio é uma consequência de nossa alma inquieta, viciada em não ficar a sós. Queremos movimento, cores, sons, sentir que estamos participando.

Mas quem não parou em alguma festa, por um momento, e se perguntou: “o que faço eu aqui?”.

Como somos empurrados, algumas vezes sutilmente, outras brutalmente, para participar desse convescote que é a vida comum, somos eternos inadaptados.

Poucos sabem viver sozinhos.

Poucos têm serenidade na alma.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN.