Por Ary Dulcídio
Era um garoto de modos taciturnos, nunca teve muitos amigos, ou melhor, nenhum. Depois que se mudou de sua cidade natal para estudar, nem a família sobrou.
Sempre tentou se enturmar, mas sua estranheza acabou por torná-lo definitivamente solitário. Embora isso fosse o que mais o incomodava, percebera que seus esforços seriam insuficientes. Nem mais tentava se socializar.
Sobrevivia por meio de uma mesada que recebia dos pais. Morava sozinho, um pouco isolado do centro da cidade, em um casebre, com apenas uma suíte, de um tio que passava uns anos no exterior. Estava no período de recesso da faculdade na época da história que se segue.
Todos os dias, naquele tempo, eram iguais. De manhã, preparava a comida para o restante do dia; à tarde, desenhava e pintava até a exaustão; e à noite, antes de dormir, lavava a louça que sujara durante as refeições. Era organizado e metódico.
Como o ciclo da vida, sua rotina prosseguia. E continuou, até que, certo dia, ao resolver tomar seu leite matinal, se surpreendeu: havia uma pontual xícara que repousava, suja de café, sobre sua bancada fria de granito.
Sentiu um misto de medo e dúvida. Realmente, fizera café no dia anterior, mas se lembrava perfeitamente da imagem satisfatória de sua pia limpa.
Devia ser coisa da sua cabeça. Checou a porta da frente e estava trancada. As janelas eram todas gradeadas. Isso foi suficiente para ele continuar o dia normalmente.
Rotina santa de cada dia – já havia passado a manhã cozinhando, a tarde desenhando e pintando; agora, ele se via novamente lavando a louça de noite. Dessa vez, lavara tudo, com certeza absoluta, não restava mais nada largado à pia.
A última coisa que se pode lembrar sobre aquele dia é seu olhar inquietante em direção à xícara, antes de guardá-la em seu devido local.
Dormiu bem. Seguramente havia trancado a porta.
O sol já raiava. Ele precisava tirar a prova. Foi como um raio até a cozinha.
Não podia ser possível… após olhar aquela cena, correu imediatamente para verificar: a porta estava trancada. Já não entendia mais nada. A xícara estava novamente suja de café e apoiada sobre a pia. E, dessa vez, fora pior, ele nem havia feito café no dia anterior e, mesmo assim, sua cafeteira estava suja. Imediatamente a lavou junto com o utensílio de porcelana.
O medo e a dúvida o faziam delirar. Acabou por não preparar comida pela manhã. Do sentimento de aflição, veio a ideia, e a tarde foi artisticamente produtiva. No início da noite sua casa estava lotada de desenhos e pinturas daquela imagem que tanto o perturbava: a xícara vazia com resquícios de café.
Decidiu-se. Passaria a noite acordado e descobriria de uma vez por todas o que estava acontecendo.
Foi à cozinha e pegou a mais afiada e lustrosa de suas facas. Lá estava ele sentado na escuridão de sua sala, rodeado de seus quadros e rabiscos, enquanto empunhava aquele fatal utensílio.
Não havia certeza, mas sentia que alguém o observava. Apertava cada vez mais a pegada no cabo de sua arma branca, que agora quase deslizava devido à sudorese anormal de suas mãos.
O sol voltava a raiar mais uma vez. Nada de extraordinário havia acontecido.
A frustração era perceptível em seu rosto. Foi à cozinha e lá estava tudo como havia deixado na manhã anterior: nenhuma xícara ou cafeteira fora do lugar e a porta continuava trancada. Novamente, não podia ser possível… nada acontecera justamente quando resolveu tomar providências.
Tentaria outra vez, mas de maneira diferente. Passou o dia e a tarde em meio à produção de sua arte, e à noite, já era hora de pôr seu plano em prática.
Deixou preparado o melhor café que fizera em toda a sua vida, pôs a faca do dia anterior dentro de sua jaqueta e saiu de casa, assegurando-se de trancar a porta, em meio à escuridão.
Durante sua caminhada por entre os grandes espaços vazios nos arredores de sua casa, pensava em sua solitária vida e, após duas horas assim, decidiu que era hora de voltar.
Retornou à sua casa. Ao se aproximar da porta de entrada, foi pondo sua mão lentamente sobre a maçaneta e, após um suspiro, girou-a. Desta vez, estava destrancada – um calafrio subiu pela sua espinha.
Adentrou a casa já com a faca em mãos e assim chegou à sala. Não pôde acreditar. Realmente havia alguém: um homem estranho admirava de pé as obras que o esperavam enquanto tomava seu café. Na cintura do desconhecido, estava pendurado um molho de chaves que reluzia à luz lunar que invadia o cômodo pelas frestas da janela.
Com o medo, as mãos do artista ficaram trêmulas e a lâmina que empunhava agora ia de encontro ao chão. O som metálico que o utensílio produziu chamara a atenção do estranho e os dois homens se fitavam.
O medo, que cercava o dono da casa, ia embora à medida que se aproximava do estranho e, com um súbito abraço unilateral, de sua parte, já não sentia medo algum. E, em meio às lágrimas, teve a oportunidade de não se sentir sozinho pela primeira vez em sua vida.
Ary Dulcídio é estudante