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Valorização do Dólar frente ao Euro compromete fruticultura

Por Josivan Barbosa

O produtor de frutos tropicais está vivenciando um problema decorrente da valorização do dólar frente ao Euro. Como a Europa é o principal mercado de exportação de frutos tropicais produzidos no Semiárido, a desvalorização do Euro frente ao dólar provoca problemas de redução nos volumes de frutos que os importadores fariam com os contratos fechados em euro.

Euro e Dólar tem relação direta com fruticultura do semiárido (Foto ilustrativa)
Euro e Dólar tem relação direta com fruticultura do semiárido (Foto ilustrativa)

A situação representa mais uma dificuldade para o produtor de frutos tropicais na nossa região, uma vez que já está tentando administrar uma elevação de cerca de 30% nos custos do produto devido os preços de combustível e insumos (sementes, fertilizantes e agroquímicos, embalagem e frete marítimo).

Os contratos são estipulados em euro ou em dólar. No caso do cliente externo que paga em euro, ele tem que desembolsar um incremento de 30% decorrente dos insumos e mais o valor em razão da desvalorização do euro. Isso implica em menor volume de fruta a ser importada.

Outro grande problema enfrentado pelo produtor de frutos tropicais é decorrente da instabilidade do transporte marítimo, como falta de navios e a logística de alguns portos, como por exemplo o Porto de Natal.

Novas Estradas

O Governo do Rio Grande do Norte precisa a partir de janeiro incrementar um programa de construção de estradas que são prioritárias para o desenvolvimento do negócio rural na região. As principais estradas são: Estrada do Cajueiro (BR 437), Estrada do Caju (ligando a sede do município de Severiano Melo com a divisa com Tabuleiro do Norte), Requalificação da Estrada do Camarão e a Transchapadão (ligando o distrito de Soledade em Apodi à divisa com Tabuleiro do Norte via Chapada do Apodi). Além disso, não podemos mais esperar que a nossa Costa Branca continue isolada do resto do Estado pela falta de duas pontes (Grossos Areia Branca e uma ligando a Costa Branca com a BR 437 (Porto do Mangue – Macau).

Estrada do Caju

A Estrada do Caju é fundamental para o escoamento da produção de caju a partir de Severiano Melo, Itaú, Rodolfo Fernandes, Apodi e Alto Santo (CE) para o grande mercado da região de Fortaleza. A Estrada do Caju representa a menor distância para a ligação do município de Severiano Melo com a BR 116 via Tabuleiro do Norte. Claro que haveria a necessidade de uma parceria com o Governo do Ceará para a construção do trecho que vai da divisa até o distrito de Olho D´água da Bica, onde inicia-se a pavimentação. A região de Severiano Melo detém o melhor nível tecnológico para a produção de caju do Semiárido.

Trecho da Estrada do Caju no último período chuvoso. (Fonte: CTARN – UFERSA)
Trecho da Estrada do Caju no último período chuvoso. (Fonte: CTARN – UFERSA)

Uma forma do produtor agregar valor ao produto é a venda do caju de mesa (pseudo fruto do ponto de vista botânico). Mas, como o produto é altamente sensível a danos mecânicos, não pode ser transportado em estradas de péssima qualidade. O mercado da grande Fortaleza representa uma grande oportunidade para o caju in natura (fruto fresco).

Atualmente o produtor de Severiano Melo que trabalha com o caju de mesa prefere enviar para a região de Campina Grande cujo mercado representa apenas 10% do volume da grande Fortaleza.

Severiano Melo e região circunvizinha já possui mais de 10 mil hectares de caju para a produção de castanha e caju de mesa.

A partir da castanha do caju e do fruto in natura ocorrem os movimentos econômicos, desencadeando o comércio com outras cidades, fortalecendo sua base econômica, o que implica na geração de  empregos locais com valores de remuneração bem acima do valor do salário mínimo.

O município de Severiano Melo dispõe de apenas uma agroindústria, o que força a necessidade de escoamento da produção para outras regiões com a região de Aracati onde tem grandes empresas processadoras de caju para fabricação de polpa e suco.

Estrada do Camarão

A carcinicultura é um dos setores que conseguiu projetar-se como uma grande fonte econômica para o Estado do Rio Grande do Norte. É importante ressaltar que, no Brasil, esse nicho de mercado deu seus primeiros passos na década de 1970, quando o Governo do Rio Grande dom Norte, por meio do seu então governador Cortez Pereira, criou o “Projeto camarão” para estudar a viabilidade do cultivo desse crustáceo em substituição à extração do sal, que havia sido até então uma forte atividade econômica na região.

Fazenda de engorda
Fazenda de engorda em Pendências (Fonte: CTARN – UFERSA)

A estrada do camarão liga o município de Pendências a Porto do Mangue. A estrada começa na RN-118 e se liga a RN-404 e foi feito em 2005 pelo governo federal com o intuito de melhorar o transporte do camarão.

Atualmente a estrada encontra-se praticamente toda destruída, havendo necessidade de uma requalificação geral.

A importância da requalificação da Estrada do Camarão pode ser exemplificada pela empresa Potiporã.

A 195 km de Natal, no município de Pendências, encontramos a maior fazenda de engorda de camarão do Brasil, a fazenda Potiporã. São 1,2 mil hectares com 86 viveiros para os crustáceos, 60 berçários e 35 quilômetros de canais produzindo em média 800 toneladas de camarão por mês. Levando o título também de maior indústria de processamento e beneficiamento da carcinicultura, a empresa distribui seus produtos para todos os estados brasileiros, de Manaus a Porto Alegre.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Ufersa

Cultura do caju renasce em pleno semiárido do RN/CE

Por Josivan Barbosa

Quando se pensa que não há solução para os grandes problemas do Semiárido, basta verificar o que está acontecendo com a cultura do caju na região de solos arenosos polarizada pelos municípios de Apodi, Severiano Melo, Itaú, Rodolfo Fernandes, Alto Santo-CE, Tabuleiro do Norte-CE, Potiretama-CE e Iracema-CE.

Nessa microrregião do Semiárido os produtores estão dando exemplo de como conviver e produzir com rendimento satisfatório em condições de baixa precipitação.

Após seis anos de seca, estima-se que a área cultivada com cajueiro anão precoce – com vários materiais genéticos lançados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) – já aproxime-se de 30 mil hectares. Aos poucos o produtor foi abandonando o cajueiro gigante, que é pouco produtivo e muito susceptível a baixa precipitação, e implantando os pomares de sequeiro com cajueiro anão precoce que, se bem conduzido, começa a produzir em até 18 meses após o plantio, usando mudas enxertadas de boa qualidade.

Durante a última seca, estima-se que cerca de 95% do cajueiro gigante (tradicional) foi dizimado. O produtor que acreditou na tecnologia foi instalando os novos pomares com cajueiro anão precoce e hoje a diferença é gigantesca.

Com o preço da castanha de caju nas alturas, mais valorizada do que o camarão, o produtor que acreditou na tecnologia está fazendo a diferença.

Serra do Mel

Os produtores de caju da vizinha Serra do Mel precisam aprender com os produtores de Severiano Melo e região circunvizinha. Não adianta insistir com o cajueiro gigante, pois os períodos de seca, a cada dia, ficam mais frequentes e assim, quanto mais rápido partirem para o cajueiro anão precoce, mais breve será o período de recuperação dos prejuízos causados pelo período da seca. Claro que o pequeno produtor precisa de ação mais enérgica da Secretaria de Agricultura do Estado no sentido de acelerar a distribuição de mudas de qualidade.

Receita estadual pode ter alento com royalties

O próximo governador do RN Sem Sorte pode encontrar uma situação fiscal bem mais favorável do que a atual em função do aumento do preço do petróleo no mercado internacional. Tributos sobre combustíveis pesam no preço final ao consumidor, mas geram receitas relevantes, principalmente para os Estados, o que talvez explique a dificuldade dos governadores em acompanhar o governo federal – que reduziu as alíquotas de tributos federais – e também reduzir as alíquotas do ICMS incidentes sobre o diesel.

As perspectivas positivas para a produção nacional e para o preço internacional de petróleo em 2018 e 2019, ainda que resultem em choques de custos para alguns setores (no caso da alta dos preços), devem impulsionar a arrecadação dos Estados e prover algum alívio na dramática situação fiscal em que muitos deles se encontram.

A distribuição de royalties do petróleo, altamente relacionada à preço e produção e definida na Lei 12.734/12, garante certa repartição dos ganhos de exploração e produção da commodity entre União, Estados e municípios, mas mantém os ganhos concentrados nos Estados produtores.

Mais royalties para o RN

Primeiramente, existe uma relação direta entre o preço, a produção de petróleo e a arrecadação de royalties. As estimativas indicam que uma alta de 1% no preço do Brent gera impacto direto de 1,35% nas receitas de royalties.

O Rio Grande do Norte, quarto maior produtor nacional, responsável por 2,6% da produção total e da distribuição de royalties no ano passado, mas que obteve a 18ª posição no pilar fiscal do Ranking de Competitividade, além de nota 3,9 no Monitoramento Fiscal de Estados e Municípios, equivalente a uma situação fiscal muito fraca. Com base nas perspectivas para o petróleo deste e do próximo ano, o Estado deve receber, respectivamente, algo em torno de R$ 312 milhões e R$ 322 milhões em royalties, montante que pode ser considerado razoável se comparado ao déficit primário de R$ 422 milhões de 2017.

Campos maduros

A produção de petróleo no RN pode se beneficiar das alterações na legislação que a Petrobrás quer impulsionar nos campos maduros (aquele que produz há 25 anos ou mais ou aquele cuja produção acumulada já tenha consumido, pelo menos, 70% das reservas provadas).

A Petrobras está pleiteando à Agência Nacional de Petróleo (ANP) a ampliação da abrangência da regulamentação dos projetos de revitalização de ativos em fase de declínio da produção. Nessa linha, a ANP propõe reduzir as alíquotas de royalties para projetos de revitalização de campos maduros, dos atuais 10% para 7,5% a 5%, a depender dos ganhos de produção obtidos.

Pela proposta, o benefício é válido somente para a produção incremental gerada pelos investimentos em revitalização. A Petrobras, porém, defende que as alíquotas sejam reduzidas sobre todo o volume de produção do campo.

Royalties são utilizados erroneamente

Inúmeros estudos analisaram a aplicação dos royalties de petróleo em municípios beneficiados e chegaram à conclusão que muitos deles não utilizaram essa arrecadação para promover o desenvolvimento de suas regiões, obtendo muitas vezes desempenho econômico abaixo da média nacional.

O resultado é que esses municípios apresentam as mesmas deficiências das outras cidades brasileiras não beneficiadas, como fornecimento de serviços insuficiente e de baixa qualidade, problemas de infraestrutura urbana, déficit de habitação e educacional, dentre outros.

Para corrigir este grave erro do passado, cabe ao país, beneficiado com a renda petrolífera, utilizá-la daqui para frente de maneira eficiente, promovendo o desenvolvimento das regiões e a melhora dos indicadores socioeconômicos. Há uma proposta em estudo de destinar algo como 80% dos recursos da compensação de petróleo e gás natural para constituir um fundo federal, administrado pelo BNDES, enquanto os 20% restantes ficariam a cargo da administração direta dos prefeitos. O fundo renderia dividendos pro-rata para as prefeituras através de uma cota de participação e financiaria os projetos apresentados por Estados e municípios que comprovadamente servissem para compensar os impactos socioeconômicos e ambientais presentes e futuros das atividades petrolíferas.

Novos municípios

O Projeto de lei em discussão na Câmara dos Deputados que pode autorizar a criação de mais de 400 municípios tem alta chance de virar lei nos próximos 180 dias. A proposta transfere para as assembleias legislativas a decisão de criar ou não o município. Após essa votação, a população terá que decidir, num plebiscito, se apoia ou não o desmembramento (ou fusão). O texto, igual a um que foi vetado pela ex-presidente Dilma Rousseff em 2014, tem potencial para criar mais de 400 cidades, a maioria sem recursos próprios e dependentes de repasses federais. O projeto já passou pelo Senado Federal.

Josivan Barbosa é professor e ex-reitor da Universidade Federal Rural do Semiárido (UFERSA)