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Dias de aventuras

Por Odemirton Filho

Foto de Jânio Rêgo (Arquivo)
Tibau e suas “naus”, em foto de Jânio Rêgo (Arquivo/2018)

O barco estava ancorado. Seria o barco do velho pescador Tidó? Quem sabe.

O que sei é que eu e alguns primos estávamos na adolescência, e ficávamos conversando sobre a possibilidade de irmos até lá. Tomávamos coragem, e íamos. Eram cinco ou seis meninos púberes. Vez ou outra, um tio ou um primo maior de idade ia nadando à frente. Nadávamos o mais rápido que podíamos.

Medo? Sim, tínhamos. No entanto, o desejo de se aventurar era maior. Para um menino entrando na primeira adolescência o medo é de somenos importância. O que realmente importava era desbravar o novo, fazendo-se homem, com uma coragem inabalável; nenhum de nós queria ser tachado como um frouxo.

Não foi uma ou duas vezes. Inúmeras vezes fomos aos barcos que estavam ancorados na praia de Tibau, pois o mês de Janeiro era o momento de se libertar dos compromissos escolares. Era o momento de curtir as férias; de nadar, de jogar bola na areia; de “pegar ondas”, principalmente no período da lua cheia, quando o mar ficava agitado e perigoso. Não conto as vezes que nadava para sair da água, e o mar me puxava, como se tivesse mãos.

Quando chegávamos ao local, subíamos na embarcação e ficávamos mergulhando, sob um sol de rachar o juízo. Conversávamos sobre as próximas aventuras, sobre as paqueras que já começavam a despontar, enfim, conversávamos sobre assuntos de adolescentes.

Depois de um certo tempo, nadávamos de volta pra areia da praia. Estávamos exaustos, queimados pelo sol e com sede. Comprávamos um picolé e íamos para casa, à espera do almoço. À tarde, ficávamos deitados nas redes, no alpendre, jogando conversa fora e aguardando passarem na rua vendendo grude e gelé.

No dia seguinte, tudo de novo. Eram dias de imensa alegria. Sem pressa. A areia da praia e o mar eram nossos amigos inseparáveis.

Hoje, entretanto, “o mar não está pra peixe”. Quando estou à beira-mar, apenas vislumbro o horizonte e os barcos ancorados, mas já não tenho coragem, nem fôlego, de nadar até lá. Então, recordo-me da minha juventude; são lembranças açucaradas, ou melhor, salgadas, daqueles dias de aventuras.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Deus e os três paquetes em Tibau

Por Jânio Rêgo

Deixei a florada do ‘angico da pedra’, a companhia de Meia-Lua, os tapetes de ramagem esverdeada escondendo lajedos e desci a serra da Catingueira para o litoral.

Não foi por deleite, foi por obrigação.

Mas não vou mentir, gosto de ver o mar salineiro, os paquetes indo e voltando, e daquela lassidão conferida pelo vento permanente que sopra na praia de Tibau.

Além do mais, Tibau, (e isso a faz uma praia diferente das outras ao longo da costa brasileira) é um verdadeiro Sertão, só mais salgado e piscoso.

Curimatãs ovadas são exuberantes ciobas e as cavalas estão na mesa para repasto de veranistas alegres e sem obrigação de roçados pra plantar no mês de janeiro molhado.

Os cactos nascem nas dunas, as várzeas de carnaúbas beijam o vento marítimo, os pássaros são quase todos os mesmos que cantam pelo Sertão.

Defronte à casa onde me hospedam estacionam três paquetes (antes eram jangadas mais rústicas…) – ‘Deus é bom’, ‘Glória a Deus’, ‘Deus é fiel’ são os nomes deles. Penso que são oratórios desses que encontramos nas ante-salas das casas e nos pátios das fazendas sertanejas.

Quando Marcos Porto andava pela terra eu visitava Gado Bravo, localidade cujo nome expressa melhor que tudo esse encontro e semelhanças desse litoral único e singular com o Sertão.

Dessa vez fiquei circunscrito ao alpendre da casa de onde se avista as luzes da cidade portuária de Areia Branca. Não comi nem ‘gelé’ nem ‘grude’ mas fui compensado por um inigualável ensopado de ‘taioba’, um marisco que meu ‘mossoroísmo’ faz crer que só existe ali.

E só saí para uma breve visita à Lagoa do Córrego, refrigério e pouso de aves migratórias, um pequeno santuário que quase nenhum veranista conhece ou dá valor.

Valeu.

Afinal, Tibau é Tibau, já dizia o lendário pescador Tidó.

E o mais é pura maresia.

Jânio Rêgo é jornalista

O mar, os amigos e a saudade em Tibau

Por Paulo Menezes

Antes de mais nada, devo confessar que sou um saudosista incorrigível. Quando estou em frente ao mar, como ocorre no momento, ouvindo o barulho das ondas quebrando na praia, fecho os olhos por um segundo e de repente me vem à lembrança dos tempos áureos de minha juventude vividos com muita intensidade.

Tibau (a 42 quilômetros de Mossoró) foi palco desses anos dourados e que por isso mesmo se torna sempre presente nos meus constantes devaneios.

O “misto” de Isidoro era o transporte que nos levava à bela praia. A estrada era carroçável, com trechos muito arenosos, onde o caminhão necessitava muitas das vezes de nossa intervenção empurrando a condução afim  de que a mesma transpusesse a areia e prosseguisse viagem.

Após mais ou menos uma hora de percurso enxergávamos o coqueiral de Gangorra, aumentando nossa ansiedade em avistarmos as falésias vermelhas da encantadora vila. Era grande a emoção sentida quando o veículo subia o morro de Tibau ao fim do qual, maravilhados vislumbrávamos a beleza verde azulada do mar.

Ali, passávamos dois meses inesquecíveis de veraneio como se fora uma só família.

Manhãzinha cedo, íamos a pé, até à granja de Pergentino, distante mais ou menos um quilômetro, tomar leite de vaca, quentinho, tirado na hora. Antes do banho de mar, tinha a turma da “pelada”, onde com times definidos travávamos disputadas partidas de futebol.

No início da tarde seguíamos fagueiros esperar a chegada das jangadas onde ajudávamos a rolar com toras de carnaúba, a levar a embarcação até à praia, maneira artesanal de conduzir o paquete até o porto seguro. Assistíamos com admiração a partilha do pescado entre o mestre e demais pescadores.

Em dias chuvosos, participávamos como parte integrante dos arrastões, onde aos gritos de Tidó e Ananias, víamos milhares de peixes e camarões serem trazidos pela rede para a beira da praia.

Antes do entardecer ainda tinha as rodadas de pif-paf que entravam pela noite. Não faltavam ao carteado, eu, dona Odete Mendes, Nonato de Ananias, Funela, Pançudo, Dois de Ouro e Josefina.

Depois dos lampiões “Coleman” serem acesos para alumiar a noite, era chegada a hora da boemia. O ponto de encontro era o “morrinho” onde havia a reunião de jovens debutando seus primeiros namoros.

Quando as meninas recolhiam-se às suas casas, os mancebos então partiam para, noite adentro, oferecer-lhes a serenata que com muito romantismo quebrava o silêncio da fria madrugada.

Visitávamos os alpendres de casas da praia do Ceará, e de Tibau, da “Pedra do Chapéu” até a “Furna da Onça”, indo até as cercanias da distante casa de Joaquim Borges.

Finalizando a noite, reuníamos no bar de Manoel Marreira, onde tomando “umas e outras” tirando o gosto com sardinha e mortadela, comentávamos o sucesso da noite criança.

Terminava assim mais um dia de imensa felicidade para no dia seguinte começar tudo de novo.

Aqueles dois meses passavam num minuto. Duraram no entanto uma eternidade.

Não é à toa que Mário Quintana afirma: “A saudade é o que faz as coisas pararem no Tempo”.

Daquele tempo feliz, inesquecível, distante e de mudanças tão profundas, só restaram o mar, amigos e muita saudade.

Paulo Menezes é apicultor e ex-bancário

Morre “Tidó”, uma lenda viva de Tibau

Uma lenda viva, que se confundia com a história de Tibau, cidade-praia a 42 quilômetros de Mossoró, morreu hoje (sexta-feira, 27).

O pescador aposentado Raimundo Vieira de Melo, 91, conhecido como “Tidó”, morreu em Mossoró.

Há uma semana Tidó sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e esteve internado. Teve alta e faleceu na residência de uma sobrinha, que o acolheu há alguns anos.

O velório ocorreu no Centro Catequético de Tibau, à Rua Padre João Venturelli.

O sepultamento aconteceu no final da tarde deste dia, no Cemitério São Sebastião, em Tibau.

Com informações da jornalista Lúcia Rocha.