Arquivo da tag: Antônio Gramsci

De volta ao passado?

Por Paulo Linhares

Charles Baudelaire, imortalizado como “poeta maldito”, afirmou certa vez “que a mais bela das astúcias do Diabo é persuadir-vos que ele não existe” (“la plus belle des ruses du Diable est de vous persuader qu’il n’existe pas!”). Sem dúvida, uma tática literalmente infernal para coletar almas ingênuas daquelas pessoas candidamente crédulas de que o mal não lhes pode atingir. Ledo engano.

Não se deve esquecer, caro leitor,  que quando nos deslumbramos com o vertiginosos progresso da iluminação filosófica, das ciências e da tecnologia, a obsolescência do mal e a inexistência de Lúcifer, essa enganosa “estrela da manhã”, são perigosos equívocos e sua é a voz dos falsos profetas, que procuram satisfazer desejos egoístas, como ter poder, dinheiro ou influência; usam do engano, da chantagem emocional e do medo para conseguir seus intentos, segundo  a advertência  bíblica contida em Romanos 16:17-18.

Isto vem a ser lembrado, nestes ásperos tempos de incertezas e inquietações, em que os verdadeiros valores da dignidade humana e  da convivência pacífica dos povos são olvidados e substituídos pelo culto da violência e da intolerância. Isto faz lembrar a história daquele rapaz de humilíssima origem que, depois de galgar confortável posto na hierarquia estatal, conseguiu  precocemente um razoável aposentadoria e passou a viver às expensas do Erário, porém, não antes de defender com doentia obstinação valores canhestros perfilados no ideário daquilo que a filosofia política entende como “extrema direita”.Ver os seus olhos esbugalhados, o rosto crispado, a boca a babar numa gratuita demonstração hidrófoba de ódio, parecia ser apenas algo exótico de um fascista temporão que se consumiria em seu próprio delírio olavocarvalheano e no fraquejar das débeis coronárias. É bem certo que, vê-lo nessas insanas performances, faz lembrar o personagem da peça “Apareceu a Margarida”, o vitorioso texto do dramaturgo Roberto Athayde, escrito em 1973, que se tornou um dos clássicos da dramaturgia brasileira e que teve uma primeira montagem de sucesso com direção de Aderbal Freire-Filho e Marília Pêra no papel-título, no Teatro Ipanema, Rio de Janeiro.

Uma hilariante e bem construída metáfora do poder: numa louca viagem, dona Margarida esgrime seus dotes autoritários no exercício da bela arte de ensinar e defende valores que de há muito deveriam estar banidos da vida social. O mesmo ideário que nos rondam, nestes dias que correm.

O mais engraçado é que esse Dom Quixote às avessas, vendo em seu gorducho interlocutor a imagem irritante de um Sancho Pança a dizer incômodas verdades, rebatia com rútilos olhos e aos berros que “no Brasil não existe direita; todo mundo é de esquerda: Sarney, Fernando Henrique, Sobral Pinto, José Serra etc.” E se estas lideranças nacionais não eram suficientes, completava esse time ‘esquerdista’ com Adolf Hitler e Benito Mussolini.

O mais intrigante, e não menos hilário, era o ódio seminal que essa criatura temível dedicava a Antonio Gramsci, filósofo italiano cuja obra principal fora escrita  na prisão romana de Regina Coele, no longínquo 1934 que, após posto em liberdade, morreu precocemente aos 46 anos de idade. E deixou uma invejável produção intelectual que até hoje divide opiniões. Um pensador gigante, compreenda-o ou não.

Para tão bizarra figura – um Dom Quixote ao avesso, repita-se – esse tal Gramsci  irremediavelmente envenenou o “espírito universitário” brasileiro com suas teorias malsãs que tratam do conceito de hegemonia e de bloco hegemônico,  ademais de focar no estudo dos aspectos culturais da sociedade, tendo como eixo a chamada superestrutura na condição de fator  primordial para realização de uma ação de prevalência dos mecanismos políticos e ideológicos do Estado, bem assim das formas capazes de criar e de reproduzir o domínio político, a hegemonia.

Quando o interlocutor, numa  atitude de santa ingenuidade, argumentou que se Gramsci, com seus “Quaderni del carcere”, vem espraiando suas influência sobre pensadores de universidades do mundo inteiro, marxistas  e não necessariamente marxistas, é porque sua obra tem enorme vigor filosófico, foi ‘brindado’ com uma avalanche de impropérios dos mais chulos, óbvio, contra o desventurado pensador que foi vítima do fascismo de “Sua Excelência, Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Fascismo e Fundador do Império”, na verdade um ridículo e  caricato troglodita cujo fim foi ser dependurado, como algo menos que um reles suíno, num posto de gasolina de Milão. Aliás, um fim adequado para alguém que tanto mal fez ao seu povo e mesmo ao mundo.

Incrível que, com acertos e erros, Antonio Gramsci, continue vivo no pensamento de tantos estudiosos; é vigorosa presença no chão libertário das “universitas”. Bem a propósito disto, colaciona-se aquela assertiva de Lord Keynes, para quem “as ideias dos economistas e dos filósofos políticos, tanto quando estão certas ou quando estão erradas, são mais poderosas do que se pensa. Sem dúvida, o mundo é governado por pouco mais do que isso. Os homens práticos, que se acreditam imunes a qualquer influência intelectual, geralmente são escravos de algum economista já falecido. Os líderes loucos, que ouvem vozes vindas do ar, destilam sua exaltação de algum escrevinhador acadêmico de alguns anos atrás. Tenho certeza de que o poder de capitais investidos é enormemente exagerado em comparação com a gradual usurpação de ideias.”

Esta reflexão fragmentária e ligeira não deixa de estar centrada no momento ímpar e, até pouco tempo inimaginável, que vive a sociedade brasileira, uma das maiores democracias formais do mundo. Aliás, não deixa de ser ingênua a presunção de que os avanços das sociedades são sempre contínuos e irrefreáveis. Ora, os recuos e retrocessos lastimáveis estarão sempre na pauta das coisas humanas: de repente, um indivíduo civilizado pode regredir ao estado mais precário de barbárie, dadas as condições que o cercam, segundo a percepção de pensadores do porte de Robert Heilbroner e Karl Popper.

A extrema direita brasileira, que não existiria na alegoria daquele figadal inimigo do fantasminha Gramsci, ou queria fazer-nos crer que inexiste, embora definitivamente esteja no palco da política brasileira. E o mais grave é que essa versão outonal do extremismo de direita tupiniquim fica cada vez mais visível, animada pela campanha do seu candidato Jair Bolsonaro, vencedor da corrida presidencial no primeiro turno e vencedor no segundo turno com expressiva votação que ultrapassa os 57 milhões de votos, dez milhões a mais, em números redondos, do que obteve seu adversário Fernando Haddad.

A despeito da sua enorme aceitação popular, Bolsonaro apresenta elementos arcaicos e grosseiros que o diferenciam das experiências da extrema direita da maioria dos países europeu, exceto os fascistas de Mussolini e os nazistas do Alemanha. Por isto, será difícil fazê-lo entender, e aos seus seguidores também, que os 47 milhões de votos dados a Fernando Haddad merecem republicana consideração e respeito: na democracia contemporânea, a vitória da maioria jamais pode significar o esmagamento político da minoria.

Para quem já viu a chegada desses novos inquilinos do Palácio da Alvorada, finda sendo de enorme enfado essa “entrée triomphale” de mais uma trupe exótica que fala o dialeto do interior de ‘SanPaulo’,  assim mesmo, bem cantado e arrastado. Em primeiro de janeiro de 2019, os seguidores do capitão-presidente  amarrarão seus cavalos no mastro daquela bandeira enorme. E não adianta desejar outro cenário.

Aliás, em entrevista à imprensa nacional Bolsonaro declarou que o objetivo de seu governo é fazer “o Brasil semelhante àquele que tínhamos há 40, 50 anos atrás”. Essa nostálgica viagem “back to past” (ideal seria grafar isto em itálico que, porém, não serve para postagens nas redes sociais), é assustadora uma perspectiva de retrocesso de tudo o que a sociedade brasileira evoluiu nas conquistas da cidadania, sobretudo, na valorização social do papel das mulheres ou na inclusão política, social e econômica de extensos segmentos da população historicamente ‘tatuados’ com o signo da exclusão.

Mais curioso é que o dístico da campanha de Bolsonaro à presidência da República – “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” – é uma tradução quase literal do lema nazista “Deutschland Über Alles”, que significa “Alemanha acima de tudo” e do “Gott mit uns” (“Deus conosco”) que os soldados nazistas usavam na fivela do cinto. Como alento aquela advertência do filósofo Karl Marx, a quem a tosca extrema-direita chama de “vagabundo”, “beberão” etc., de que “A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. Vai ser o que dessa feita: tragédia ou farsa? Independentemente de qualquer resposta, certo é que a eleição de Jair Bolsonaro, em 28 de outubro de 2018, se constitui, ainda, num voo cego de imprevisíveis consequências.

Uma coisa é certa: os extremistas de direita já aparecem nas ruas e praças, nas universidades, igrejas,  nos quartéis e parlamentos, com suas próprias caras e não mais usam da astúcia de persuadir as pessoas de que a extrema direita não existe. Ainda mais agora, que venceram nas urnas, escorados em bordões rasteiros, factóides, “fake news” e num amontoado de propostas difusas. O mais grave é que pessoas de boa índole passam a incorporar o discurso granítico do ultraconservadorismo e deixam no meio do caminho os postulados que imantam o Estado Democrático de Direito.

Inolvidável que Jair Bolsonaro chega à presidência da República com alto grau de legitimação política, o que lhe permite colimar algumas promessas de campanha, em especial se tiver jogo de cintura para domar o Congresso Nacional, na configuração que tomará a partir de 1º de fevereiro de 2019. Manda o credo republicano que seja acatada a fala das urnas, que é a expressão maior da soberania popular: Bolsonaro é o presidente eleito, deve tomar posse e tentar fazer um bom governo, não apenas para retribuir a confiança depositada nele por 57 milhões de brasileiro, como também para convencer os outros 47 milhões, que apostaram em Haddad, do seu propósito de respeitar a Constituição, preservar o sistema de direitos e garantias fundamentais do cidadão, sobretudo, aqueles referidos às liberdades civis.

O nostálgico olhar de retrovisor de Bolsonaro soa como uma piada de péssimo gosto, justo quando todos os indicadores mostram que, a partir de 1º de janeiro de 2019, o imponderável será sempre uma possibilidade, e mesmo os mais avançados segmentos da sociedade brasileira podem retroceder cinco décadas, num enorme salto do tipo “de volta para o passado”, para aterrissar perigosamente em 1968, “o ano que não terminou” tão dramaticamente retratado na obra homônima de Zuenir Ventura. Quem viver, ou sobrevier, verá.

Paulo Linhares é professor e advogado

A economia reage

Por François Silvestre

A reação da economia, mesmo tíbia, começa a buscar jeito. Não por mérito do governo, mas apesar do governo.

Impossível demonstrar isso aos “liberais” tupiniquins que nunca leram Marx. Tudo bem, mas deveriam ter lido Keynes, o que não fizeram.

Os da esquerda leram Gramsci, que nunca entendeu bulhufas de economia. E os da direita leram Olavo de Carvalho, a maior fraude intelectual dos novos tempos.

Sobre Olavo, que conheci pessoalmente, há de se fazer uma justiça: Ele declarou que seus seguidores, no Brasil, são tão idiotas que o fizeram desistir de ideia de uma “nova direita”.

O certo é que a economia começa a espernear, mesmo que os economistas não saibam explicar o porquê.

Acompanhe o Blog Carlos Santos pelo Twitter clicando AQUI e o Instagram clicando AQUI.

O revolucionário e o ditador; ponto final

Conheço muito fã de Fidel Castro que adora mesmo as benesses do capitalismo selvagem do Brasil.

Cuba é um ícone de bravatas, estampado em camisetas, tatuagens e em discursos enfadonhos.

O filósofo Antônio Gramsci já falava disso há uma pá de tempo, essa ‘bipolaridade ideológica’. Uma considerável distância entre o pensamento e as atitudes de boa parte da “esquerda”, que no fundo sonha em copiar a burguesia.

Continua atualíssimo.

Aproprio-me da opinião do jornalista-escritor Carlão de Souza para definir, com suas palavras, o que vejo sobre Fidel Castro – que morreu hoje (veja AQUI) -, o líder da luta libertária em Sierra Maestra:

Admirava o Fidel revolucionário. Detestava o Fidel ditador. Foi um grande homem do século XX.

Ponto.

Acompanhe o Blog também pelo Twitter clicando AQUI.

Sobre a mudança que Robinson e Henrique não deveriam falar

Os dois principais candidatos ao Governo do Rio Grande do Norte – Robinson Faria (PSD) e Henrique Alves (PMDB) – vendem uma imagem difusa do que são. Não bate com o que parece e é.

Falam do “novo”, pregam “mudança”, tentam inspirar confiança pelo que são e agarram-se ao passado como garantia de futuro.

Rosalba e Micarla: "Natal Melhor" e "Para fazer acontecer"

Nenhum, sejamos sinceros, deveria falar em mudança, esse vocábulo surrado e que de forma recorrente aparece nas campanhas eleitorais nativas.

Inconscientemente, a massa-gente quer o “diferente”. Diferente para melhor, não para tornar tudo ainda pior.

A nenhum deles cabe falar em mudança, mas a ambos devemos cobrar um papel diferente na política e na gestão pública.

A competência, em vez do compadrio; o apoio ao servidor, em vez do afago no serviçal; a inteligência, no lugar da esperteza; a união de forças, em contraposição ao conluio.

Micarla de Sousa foi vendida como novo. Sua aliança tinha uma denominação que hoje soa como insulto à realidade que veio depois: “Natal Melhor.”

Rosalba Ciarlini (DEM), também. “Para fazer acontecer”, dizia seu slogan de campanha. Realmente. Não tem ficado pedra sobre pedra no Rio Grande do Norte.

A retórica e o avanço de um marketing ilusionista capturaram, nos dois casos, a “sociedade civil” que encarna o conceito de ‘aparelhos privados de hegemonia”, sustentado pelo pensador italiano Antônio Gramsci.

As duas chegaram ao topo numa onda mudancista, em suas respectivas campanhas, movidas pela construção de imagem feita por um marketing competente.

Bem… o resto da história você conhece. Seus efeitos Natal e o RN ainda vão sentir por muito tempo.

Sinceramente, não me iludo com nomes e fórmulas na política do meu lugar. Aqui, sempre mudam para que continuemos do mesmo jeito.

Ficarei satisfeito de não precisar votar apenas no “menos ruim”, quando minha aspiração é votar no mais capaz.

Quero alguém preferencialmente imperfeito!

Gente na acepção da palavra… com deslizes, humano, mas em condições de alterar nosso destino de terra prometida – que nunca se consagra para todos os potiguares.

Enfim, chega de mudanças!

Hegemonia – de quem e de quê?

Por Gaudêncio Torquato

O termo é usado a torto e a direito, de acordo com as conveniências do interlocutor, nem sempre correspondendo à complexidade conceitual que efetivamente abriga, com base no conceito, formulado por Gramsci, de que hegemonia implica transformar ideologia e plataforma política de uma classe em escopo de uma era.

No nosso cardápio cotidiano, a expressão “projeto hegemônico” reduz-se à ideia de amarrar um partido político ao tronco da perpetuação de poder. O exemplo a que se recorre é o Partido Revolucionário Institucional (PRI), que, ao controlar a máquina pública do México por 71 anos – de 1929 a 2000 -, foi guindado à posição de descobridor da “ditadura perfeita” por passar uma “eternidade” no poder sem golpes, participando de eleições periódicas e sob o pluripartidarismo.

No momento em que, por aqui, se formam alianças partidárias em torno do pleito municipal de outubro próximo, a polêmica sobre hegemonia volta à tona. O alvo do tiroteio é o PT, cuja meta de eleger o maior número de prefeitos, a partir das capitais e das grandes e médias cidades, acirra os ânimos de parceiros governistas, que o acusam de engendrar um projeto de domínio de longa duração.

Se a efetiva intenção petista é mesmo a de alargar os espaços municipais e estaduais para garantir o domínio sobre o imenso território federal (meta, aliás, comum aos partidos), precisa avaliar o risco de implementar a estratégia deixando aliados a ver navios. A estratégia de expansão de uma sigla tem que ver com a meta finalista dos atores políticos: conquistar o poder onde ele estiver. Chegar sozinho à direção do País é praticamente impossível na modelagem do chamado presidencialismo de coalizão. Por conseguinte, um partido deve abrir um olho para se ver e outro para enxergar os parceiros.

A concepção de que um único partido pode dominar a cena e intervir em todos os momentos da vida social e política, abrindo fronteiras nas camadas da população, é do velho Lenin e não condiz com os nossos tempos. A coerção, outro eixo da carroça hegemônica, não funciona mais. A esfera política, em todos os quadrantes, é plasmada pela expressão dos contrários. A contestação emerge até mesmo nas ditaduras (poucas) contemporâneas. Portanto, a ambição de um partido de tomar conta de todos os espaços, por uma infinidade de tempo, esbarra nos interesses da multifacetada cadeia partidária. Se os parceiros se sentirem excluídos do banquete, acabarão por se afastar da mesa em que permanecem sob desconforto.

Sob o ponto de vista ideológico, um projeto hegemônico é ainda mais complexo. Perguntas-chave: que ideologia deve compor a plataforma política? Que classe influenciará as outras? Como se recorda, Gramsci pregava a hegemonia de uma classe, à qual caberia o papel de persuadir os outros pilares sociais, constituindo-se, ela mesma, em síntese da coletividade.

Ora, o mundo mudou seus paradigmas. A arquitetura socialista desmoronou na onda do tsunami das economias abertas ao capital, cedendo lugar às alavancas da privatização de empresas, da concessão dos serviços públicos e da desregulamentação das relações de trabalho.

Floresceu um ideário social-democrata, juntando vetores do velho socialismo e vertentes do mercado, cuja imagem, hoje meio borrada, mostra o Welfare State (o Estado de Bem-Estar), com seus programas de segurança do emprego, direitos da cidadania, justiça e integração social. Se alguém quiser identificar traços de hegemonia ideológica, enxerga a social-democracia, na qual se distinguem matizes de um bloco conservador, à direita, e sinais de um núcleo avançado, à esquerda. Não há fortes diferenças na moldura governativa de 24 Estados – oito governados pelo PSDB, seis pelo PSB, cinco pelo PMDB e cinco pelo PT.

No compartimento da hegemonia de classe, a impressão é de que se vê mais um retrato bolorento, dos tempos em que o planeta dava os primeiros passos na era industrial. A ditadura do proletariado, pensada por Lenin, e retomada por Gramsci, que inseriu a classe operária no patamar hegemônico, é figura aposentada na gramática política.

Vejamos o Brasil de hoje.

A classe C, chamada de nova classe média, abriga 95 milhões de brasileiros, detém 46,24% do poder de compra e é a maior do ponto de vista eleitoral e econômico. Mas não detém hegemonia de pensamento e sua influência é tênue. Nossa composição social é uma polifonia de vozes, ideias e sentimentos, embalados em costumes, tradições e culturas regionais. Somos uma sociedade que preza valores de convivência, harmonia, justiça e solidariedade.

Radicalismos não criam raízes em nossa índole. Projeto sectário, que alimente polêmica ou provoque dissensão entre camadas sociais, soçobrará. Partidos nanicos até podem bater na tecla da luta de classes. Fazem seu papel. Não aumentam um palmo à sua altura quando vestem a indumentária da revolução industrial.

Incompreensível, isso sim, é o fato de um grande partido, como o PT, vir a público para tentar vender quinquilharias do arco da velha: a luta de pobres contra ricos, a defesa da supremacia socialista, a hegemonia da classe operária. Verbos em excesso não combinam com ações de menos.

Traços de opulência agridem o desfile dos excluídos, que ainda existem. O olho do povo capta engodos. Todo o cuidado é pouco na construção de um projeto hegemônico. De partido, ideologia ou classe.

Gaudêncio Torquato é professor, escritor e consultor plítico, natural de Luís Gomes (RN), mas há muitos anos atuando profissionalmente em São Paulo. (Texto originalmente publicado no jornal O Estado de São Paulo).