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Sobre fé e religião

vazio, casa sem móveis, luz, tristeza, depressão, melancoliaQuem nasceu primeiro, a fé ou a religião?

“A fé é o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não veem” , disse o apóstolo Paulo.

Antes dos pregadores, muitos apenas vendilhões do templo, veio a crença numa força superior.

Veio a fé.

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Vontade, liberdade, verdade

Por Honório de Medeiros

Hannah Arendt nos encaminha, em Responsabilidade e Julgamento, à noção de que devemos a Paulo a ideia de “Vontade”. Paulo, tão crucial para a construção da doutrina da Igreja Católica, o verdadeiro fundador da filosofia cristã, com sua Carta aos Romanos.

Lê-se, em sua Carta aos Romanos, um momento antológico do processo civilizatório: “Assim, o que realizo, não o entendo; pois não é o que quero que pratico, mas o que eu odeio é (o) que faço” (1,15).Força-de-vontade

Terá sido para cumprir tal desígnio, o de fincar o alicerce da doutrina do Cristianismo, a razão pela qual Jesus o interpelou na estrada para Damasco? “Saulo, Saulo, por que me persegues? “Quem és, Senhor?”. “Jesus, a quem tu persegues. Levanta-te, entra na cidade e te dirão o que deves fazer” (Atos 9:5,6).

Sabemos que se deve à “Carta aos Romanos”, a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação (DCDJ), assinada entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica Romana em 31 de outubro de 1999, em Augsburgo, na Alemanha.

Também a Carta aos Romanos foi o ponto de partida para a Reforma Protestante: Lutero escreveu seu Comentário aos Romanos em 1515, e nele já se encontra seu pensamento acerca da Justificação.

Arendt nos mostra o percurso intelectual do conceito de “Vontade” no pensamento de Agostinho, tão importante para a filosofia cristã: “Sempre que alguém delibera, há uma alma flutuando entre verdades conflitantes” (Confissões).

A “Vontade” decidirá.

Assim como o mostra em Nietsche e Kant, além de nos pôr a par de que o fenômeno da “Vontade” era desconhecido na Antiguidade, e que sua descoberta deve ter coincidido com a da “Liberdade” enquanto questão filosófica, distinta de um fato político.

Vontade, Liberdade, Verdade.

Fundamental.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura do Natal e do Governo do RN

As redes sociais e o filtro da virtude

capa-redes-2Por Fred Rêgo

Ah…  As tão supérfluas e necessárias ´Redes Sociais` – como viver sem elas? Não sei responder, mas posso dizer que eu já sei viver sem depender delas – o que já é um grande avanço nos dias de hoje –  e,  como tudo na vida, elas têm suas vantagens e desvantagens – quem irá perceber uma ou outra é obrigatoriamente você mesmo, seja consciente ou inconscientemente.

Sendo direto, é você quem controla suas ´redes sociais`, da mesmíssima forma como as suas ´vontades`, ou se deixa ser controlado por elas –, simples assim.

O assunto abre um leque de temas bastante interessantes para o debate. Abro aqui um parêntese para a série da Netflix – “Black Mirror”, que aborda no contexto do mundo extremamente imerso nas redes sociais, a extrapolação das reações humanas por meio de uma ficção científica instigante.

Contudo, eu vou me deter a um  tema estritamente característico da espécie humana, e, que os “Digitais Influencer´s” e “Artistas” sabem muito bem explorar: a necessidade de se mostrarem virtuosos.

Preste atenção:  eu não disse quem eles têm necessidade de SEREM virtuosos mas de SE MOSTRAREM virtuosos – existe um abismo moral entre essas duas sentenças -, é impossível não fazer referência a São Mateus: “quando deres esmolas, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que o vê escondido, recompensar-te-á” (Mateus 6:3-4).

Acredito que seria melhor se tais ´influencers` praticassem o que propagandeiam aos quatro ventos, mas não é isso que a realidade inevitavelmente nos faz perceber: são categóricos com o “Fique em casa” – desconhecendo ou mesmo não se importando com a impossibilidade da maioria da população aderir a essa grife – mas não perdem a oportunidade de um feriadão em Fernando de Noronha, Jericoacoara etc.; pregam incansavelmente a respeito da importância do  “Lockdown” irrestrito – sem se preocuparem com o aparato comprobatório da tese – mas vão às suas redes sociais reclamarem por que seu box de Crossfit será fechado e/ou sua praia interditada, impossibilitando sua prática do surf.

O mundo moderno se transformou em algo que nenhuma distopia ´orwelliana ou ´huxleyana´ conseguiu prever – a Verdade virou algo subjetivo: existem até empresas que ´checam-na` e, ironicamente, que perdem ações judiciais por propagarem mentiras.

Nesse bojo, o PARECER virtuoso arregimenta um número muito grande de seguidores, que muitas vezes, inconscientemente, chegam a acreditar nessas “narrativas do bem”, mas, como nos exemplos do parágrafo anterior, são surpreendidos com a Verdade.

NESSE CONTEXTO, me refugio no conhecimento antigo, onde, no início, nossa civilização resolveu firmar os pés e apoiar a alma, exatamente na Grécia antiga e em Jerusalém. Em torno de 330 a.C., Aristóteles ensinava ao seu filho Nicômaco a Ética:

“É, portanto, correto dizer que alguém se torna justo realizando ações justas e moderado realizando ações moderadas; e ninguém poderá ter sequer uma mera perspectiva de se tornar bom sem realizá-las. Mas a maioria dos seres humanos omitem-se quanto a essa realização e se dedicam à discussão [da virtude], imaginando que filosofam e que isso os tornará bons; são como pacientes que ouvem meticulosamente ao que o médico diz, mas deixam completamente de cumprir suas orientações”. (ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco, 4ª edição, p. 89. Editora Edipro.).

E sem esquecer da nossa alma, tomemos bastante atenção nas palavras de São Paulo:

“Meus filhinhos, não amemos com palavras nem com a língua, mas por atos e em Verdade. Nisto é o que conheceremos se somos da verdade, e tranquilizaremos a nossa consciência diante de Deus, caso nossa consciência nos censure, pois Deus é maior do que nossa consciência e conhece todas as coisas”. (Primeira epístola de São João, 3 : 18 – 20).

A intenção desse pequeno texto é fazer você, assim como eu que convivemos nesse campo de batalhas de narrativas que se tornaram as redes sociais, refletir e se questionar a respeito das fontes que você toma como referência – elas vivem o que pregam? E quando falo em ´campo de batalha` é de uma forma bastante positiva, pois o ambiente democrático necessita dessa constante para que, por meios antagônicos, cheguemos a conclusões discutidas e acatadas pela maioria.

Vejo muita gente, incluindo os ´influencers´, apontando o dedo para a “polarização” política no Brasil, mas vamos lembrar que sem ela não é possível a discussão verdadeira.

Deixo aqui um questionamento:  a quem interessa o fim da discussão política?

Fred Rêgo é acadêmico de Direito e engenheiro civil