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Conversas nas calçadas

Por Odemirton Filho

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Um dia desses, estando no centro da cidade de Mossoró, naquele calor que conhecemos e sentimos, passei em frente ao prédio onde funcionava a Rádio Rural, o qual se encontra em reforma. Veio-me à lembrança uma história que escuto desde que “era criança pequena lá em Barbacena”.

Conta-se que padre Mota, que residiu no referido imóvel, costumava receber na calçada da casa, pessoas das mais variadas classes sociais, as quais vinham para conversar sobre os mais diversos assuntos. Como sempre havia muita gente, cada um tinha a obrigação de buscar e deixar no mesmo lugar a cadeira que iria se sentar; das pessoas mais humildes até políticos, comerciantes, profissionais liberais, todos tinham esse dever.

Bom, não sei se a história é verdade, tô vendendo a mercadoria do preço que comprei. O fato é que é costume nas cidades do interior as pessoas se sentarem nas calçadas, reunindo familiares, vizinhos e amigos para jogar conversa fora. Muitas das vezes, é claro, serve-se um cafezinho coado para acompanhar a prosa.

Lembro que Paulo Lúcio, meu vizinho no centro da cidade, tinha o hábito de reunir alguns amigos na praça que ficava em frente a sua casa. Lá, a conversa rolava até altas horas, principalmente sobre política.

Nos bairros mais afastados do centro da cidade, e nos municípios de menor porte, acho que o costume ainda persiste. Hoje, entretanto, ninguém pode enxergar duas pessoas vindo numa motocicleta que já fica com medo de ser vítima dum “assalto”.

As calçadas, de igual modo, serviam (ou ainda servem?) para os namorados, ambos sentados em cadeiras de frente uma para outra, sob o olhar atento da genitora da menina-moça. Existiam as mães que, enquanto “pastoravam”, rezavam o terço, às vezes tiravam um cochilo, mas não deixavam os namorados sozinhos; pra o casal se beijar era um aperreio medonho.

Em outros tempos, também era comum que algumas pessoas varassem a madrugada sentados nas calçadas das casas, às vésperas do dia das eleições, esperando receber algum “agrado” dos candidatos. Eu só não sei se atualmente acontece.

E neste dia, no qual lembramos os nossos falecidos, talvez, venha à lembrança algumas pessoas queridas, que sempre estavam presentes nas conversas das calçadas, no finalzinho da tarde, adentrando a noite, onde se desenrolava um bom bate-papo e muitos, muitos sorrisos. Bons tempos.

Enfim, as conversas nas calçadas, sem dúvida, fazem parte do cotidiano do nosso povo. No entanto, infelizmente, tornou-se um lazer perigoso, diante da insegurança e da violência que assolam o nosso país.

Que Deus proteja a todos que ainda preservam esse costume.

Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos

Conversas de calçada

Por Marcos FerreiraConversas de calçada - CRÔNICA - Marcos Ferreira

Subúrbio. Conjunto Walfredo Gurgel. Rua Euclides Deocleciano. Chega a tarde-noite (juntamente com os enxames de muriçocas) e os moradores desta periferia começam a surgir com as suas cadeiras de plástico e de balanço. Há grupos de indivíduos de vários tipos e em quantidades diversas. O círculo de que faço parte se reúne bem perto de minha casa. Ao fim do dia, portanto, quando não estou com outro compromisso ou escrevendo, saio para interagir com meus vizinhos. São conversas de calçada, onde se fala de tudo. Inclusive da vida alheia, que ninguém é de ferro.

A senhora Raimunda é peça valiosa nessas reuniões crepusculares. Bem-informada, está por dentro de quase tudo que se passa neste logradouro. Maldiz (e com razão) os motoristas e motociclistas que passam na carreira. Apesar da vista curta, ela dá conta de quem vem e de quem vai. É a minha personagem favorita desse elenco de palestrantes bem-humorados e tão criativos quanto sinceros.

Sayonara, filha da senhora Raimunda, sai com uma cadeira e o seu bem-amado cãozinho Pim-Pim, cheio de fofura e nada amigável. Jéssica Taline, social mídia e designer, integra-se à turma. Daí a pouco, também com uma cadeira de balanço e sua cadelinha Pretinha, comparece Maria dos Navegantes. Pretinha é o meu xodó. Aqui e acolá, quando vou pedir um pouco de café a Navegantes, Pretinha faz uma festa ao me avistar no portão. Um encanto de criatura. Mais afetuosa, mais sensível até do que certas classes de elementos incapazes de um gesto de amor ao próximo.

Rucilene e Erinaldo, casal espirituoso, brincalhão, sempre disponibiliza a sua calçada e algumas cadeiras para esse bate-papo tradicional, isento do rigor e das amarras da língua portuguesa. Em tal meio, de forma cristalina, fala-se o idioma do povo, não o linguajar rebuscado, calculado, de supostos intelectuais. Em companhia dessa gente me sinto à vontade, benquisto. Eles me transmitem isso.

Os diálogos avançam pela noite. Não raro há comida degustada ali mesmo, à calçada. Navegantes, Rucilente e Erinaldo são os principais adeptos de refeições do lado de fora, ao ar livre. Não falta, claro, uma pequena mesa e uma garrafa de café. Além disso, circulando de mão em mão, ouve-se o pipocar de uma dessas raquetes elétricas para combater o ataque dos mosquitos. Após determinado horário, porém, quando circula um ventinho generoso, os pernilongos dão um sossego. Os fatos e os boatos correm soltos. Zecão, o dono da lanchonete, larga um berro de entusiasmo. Gol do Flamengo! Assim se comporta Magno, outro torcedor do rubro-negro e esposo de Navegantes. A clientela de Zecão entra e sai. A senhora Raimunda filma tudo.

Figura especialíssima é a vizinha do meu lado direito, a simpática Cilene Freitas, eventual frequentadora de nossa confraria. Não conheço mulher tão alegre, tão de bem com a vida e cheia de coragem para enfrentar os obstáculos do mundo. A sua positividade transborda e nos contagia. Além de exímia cozinheira, é responsável, em grande parte, pelo vocabulário proibido para menores de dezoito anos que se escapa da boca dos adultos. Um tirinete de palavras e frases picantes.

Não só de amenidades e risos se constitui o colóquio desses cidadãos vulneráveis, desprotegidos. Discute-se, entre outras questões, os assaltos frequentes, o abandono do bairro, o problema do carro do lixo que deixou de passar na rua, serviço agora a cargo de um único gari que realiza toda a coleta quase de madrugada e vai distribuindo as poucas sacolas encontradas em esquinas estratégicas.

Este é o mais antigo conjunto de Mossoró e jamais um prefeito ou prefeita quis asfaltá-lo. Contrariando tudo isso, sobretudo o risco de sermos premiados com a visita indesejada de assaltantes, a gente reúne coragem e bom humor para se encontrar ao pôr do sol nesta esburacada Euclides Deocleciano.

Agora vejo que me alonguei neste relato. Os meus vizinhos devem estar lá fora. Acredito que algum deles já perguntou por mim.

Marcos Ferreira é escritor

IBGE inicia pesquisa urbana preparatória para o Censo 2022

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)  iniciou a Pesquisa Urbanística do Entorno nesta semana em todas as zonas urbanas do Rio Grande do Norte. Nesse levantamento, os agentes censitários observam a existência de calçada, iluminação pública, acessibilidade para pessoas com deficiência e outros sete componentes da infraestrutura urbana.

Trabalho preliminar é um diferencial que o IBGE traz este ano (Foto: Marcelo Lima)
Trabalho preliminar é um diferencial que o IBGE traz este ano (Foto: Marcelo Lima)

Três itens são as novidades deste Censo: ponto de ônibus; via sinalizada para bicicletas; e existência de obstáculos na calçada. A pesquisa foi realizada pela primeira vez na operação censitária de 2010. Dessa forma, será possível analisar a evolução dos quesitos existentes na pesquisa, à época, nos bairros e cidades.

Também é a primeira vez que favelas, ocupações, comunidades e outros do gênero (tecnicamente conhecidos como aglomerados subnormais) serão pesquisados. Vinculado ao Censo Demográfico, o levantamento está alinhado ao “Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11”: tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis.

Realizada até 12 de julho, a pesquisa é uma última atualização do espaço urbano antes de os recenseadores entrarem em campo, com as visitas de casa em casa, a partir de 1º de agosto.

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