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Depoimento – XV

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS

B.O: N° 21-1402/2022

NATUREZA: DENÚNCIA DE CRIME CONTRA O PATRIMÔNIO IMATERIAL

DATA DA COMUNICAÇÃO: 06 DE JUNHO DE 2022

COMUNICANTE: LÚCIA EMÍLIA SILVEIRA DE ANDRADE E ALVAREZ

A senhora Lúcia Emília Silveira de Andrade e Alvarez Cabral, sessenta e cinco anos, casada, doutora em letras, professora aposentada, escritora e acadêmica imortal da Academia de Letras de Tugúrio, cadeira número dezesseis, e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia para oferecer denúncia, perante mim, escrivã de polícia, sobre fatos dos quais diz ter notícia. A depoente solicitou que se registrasse que possui competência intelectual, profissional e moral amplamente reconhecida nos devidos meios para avalizar a notícia crime que veio oferecer junto a esta delegacia e seu testemunho deve ser considerado inconteste e prova de si mesmo, para o bem da cultura e defesa do patrimônio imaterial deste país. Disse que tem conhecimento de fato atentatório contra o patrimônio imaterial e cultural do nosso povo que põe em risco a simbologia e ritualística literária dos acadêmicos e imortais, tanto aqui quanto no país de Camões. Acrescentou que o fato sobre o qual pretende se queixar veio a seu conhecimento recente e tão logo tomou ciência, decidiu, pelo dever que impera sua digna condição de acadêmica imortal, literata e jurada defensora da língua portuguesa, oferecer denúncia para que a intenção ofensiva dos seus autores não prospere nem dê frutos. Que soube do fatídico por ter sido convidada a participar de importante concurso literário nacional, na qualidade de juri, graças ao reconhecimento de sua dedicação às letras. Que, graças ao convite, tomou ciência do que as mentes ansiosas por notoriedade e oportunidade de visibilidade estão a produzir. A depoente exigiu que não fosse usado o gerundismo para a transcrição do seu depoimento. Satisfeita com a promessa e esforço desta escrivã, disse que, em virtude da referida participação, da ânsia pela inovação e desprezo pela nossa cultura, percebeu que há excessivos desvios de mentalidade e do bom uso da nossa língua, fazendo com que estilos muito bem determinados enfrentem uma avalanche anarquista de ataques. Que, do mesmo modo que um soneto é o que é, pela sua forma, ou um cordel não pode ser uma trova, pelas mesmas razões, um conto é o que é por sua estruturação. A nossa academia tomou, desde as sábias e irretorquíveis palavras do grande folclorista nacional, o imortal potiguar Câmara Cascudo, a estrutura destas peças, que são os dois mais nacionais estilos literários, o conto e a crônica, e com isso, o assunto está encerrado. Não há mais o que discutir. Assegurou que se encontrava habilitada para fornecer informações complementares sobre esse estrutura, caso fosse preciso e requisitada. O delegado achou por bem dispensá-la dessa obrigação e pediu para se ater aos fatos. A depoente exigiu que ficasse registrado nesta ocorrência que não concordava com a visão positivista de sua excelência sobre a redutibilidade fatídica do relato policial, mas que se compromete a atender seu pedido. Retomando a narrativa, disse que, graças à sua participação no concurso, tomou conhecimento da preferência de alguns literatas, como o doutor José Roberto Alves Barbosa, que ameaçam a solidez dos nossos rituais de escrita e bens imateriais. Que o acadêmico está a fazer concessões à neoliteratura que subvertem a estética da língua culta e bem trabalhada em favor da linguagem ordinária. Que a presente denúncia se sustenta em virtude de saber que esse acadêmico está a considerar positivamente produção de um ignoto Ayala Gurgel, que reuniu sob sua autoria uma contoria na forma de boletins de ocorrência, profanando uma coisa e outra, não é conto nem boletim de ocorrência. Que, se todo esse liberalismo for permitido, o que se pode prever não é o melhor cenário para a manutenção dos costumes mais arraigados de tão alta estilística literária. É perceptível o risco que nosso patrimônio corre, tendo que inserir na contologia contemporânea escreveniências banais como receitas médicas, anamneses, correções de provas, laudos periciais, e tudo o mais que for escrito mesmo sem a menor ou qualquer intenção literária. Estaríamos a erigir à condição máxima da obra de arte que dignifica a nossa língua casos da linguagem comum, só porque no passado algumas pessoas de destacado talento fizeram isso com as cartas. Que, para o bem da proteção da nossa cultura e defesa do nosso patrimônio imaterial, o devaneio que ora se instaura deve ser impedido e limites precisam ser impostos. Por fim, solicitou que os acusados sejam intimados e o trabalho do neoliterata desacreditado enquanto ainda há tempo para evitar que dê frutos. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

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Depoimento – XIII

Por Ayala Gurgel 

Imagem ilustrativa com recursos de inteligência artificial para o BCS)
Imagem ilustrativa com recursos de inteligência artificial para o BCS)

B.O: N° 10-6492/2020

NATUREZA: DENÚNCIA CRIME – VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 08 DE AGOSTO DE 2020

COMUNICANTE: KELLY ANNE SORAYA DE ARRUDA MATIAS

A senhorita Kelly Anne Soraya de Arruda Matias, vinte e um anos, solteira, vendedora, universitária e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia e declarou, perante mim, escrivã de polícia, o desejo de prestar queixa de forma não identificada contra o senhor Félix Roberto Diniz Dantas por maus tratos e violência doméstica contra Débora de Almeida Dantas, cônjuge do denunciado. A depoente diz que, no início desta noite, por volta das dezoito horas e quarenta e cinco minutos, fez uma vídeo chamada para a senhora Débora de Almeida Dantas, com a qual mantém relação de amizade e compartilha o mesmo curso na faculdade, para falar sobre a aula da manhã de hoje, uma vez que a amiga faltou e o professor passou atividades para serem desenvolvidas em grupo e entregues até a próxima quarta-feira, dia treze de maio. Queria saber da amiga se desejava ficar no mesmo grupo que ela. Que não é incomum as duas se falarem, inclusive por meio de vídeo chamada, bem como realizarem atividades em grupo, o que ocorre desde o colegial, mas não é normal a amiga faltar às aulas sem avisá-la; que isso nunca aconteceu e essa foi a principal razão para procurar falar com ela. Que se lembrava de fato importante que pode também tê-la motivado a fazer a ligação, mas prefere falar adiante, pois quer primeiro narrar como foi a ligação. Que sua primeira tentativa de vídeo chamada resultou em vão, e que ela não sabe se foi porque o celular da amiga estava sem rede ou ela não pôde ou não quis atender, visto que não há como saber sobre isso. Diante da dúvida, não aguardou e enviou mensagem de texto na qual explicitou a necessidade de falar com ela sobre a última aula e o trabalho que precisava ser feito com urgência. Quase cinco minutos depois recebeu como resposta apenas um “ok”. A depoente mostrou ao delegado de plantão a tela do seu celular com a conversa aberta, para atestar o hiato temporal entre a mensagem enviada e a resposta recebida. Em seguida, a depoente narrou que, pouco depois, seu celular começou a vibrar, anunciando o recebimento de uma chamada de vídeo. Era sua amiga, Débora de Almeida Dantas. A depoente disse que a amiga estava sozinha no vídeo, na cozinha de casa, mas achou estranho porque a imagem se mexia um pouco, como se o celular estivesse apoiado em algum lugar que balançava ou alguém o estivesse segurando, enquanto gravava. Que aquilo era o tipo de coisa que sua amiga não costumava deixar acontecer, pois sempre usava o tripé e procurava um enquadramento que a valorizasse. A amiga, que sempre aparecia bem arrumada nas chamadas, mal havia se penteado. Aquilo não parecia coisa dela, ou coisa normal, pelo menos, mas, superado a impressão inicial, a depoente continuou a conversa. Disse que explicou sobre a atividade que deveria ser feita e como ela tinha pensado na distribuição do conteúdo, pois seriam quatro colegas na mesma equipe. Como notou apatia na sua amiga e vez outra um corte na fala, como um engasgar ou para engolir algo, ela perguntou se estava tudo bem, ao que ouviu como resposta que sim, e justificou que estava apressada porque ela e Félix Roberto estavam conversando sobre algumas coisas que precisavam em casa. A depoente disse que ao ouvir aquilo, cismou que houvesse algo de errado, pois conhecia a amiga há muitos anos e acompanhou o namoro dela com o atual marido desde o início. Sabia o suficiente para ter certeza que ela não gostava de chamá-lo Félix Roberto, a não ser que houvesse muita raiva ou alguma coisa muito séria. Que ao ouvir a amiga se referir ao marido pelo nome composto, foi tomada pela desconfiança que tinha algo de errado e precisou tirar suas dúvidas. Disse que tem ciência dos riscos aos quais as mulheres estão sujeitas e que o marido vinha tendo crises de ciúmes recentes depois que ela entrou para a faculdade. Que, em primeiro lugar, quis saber se o marido estava por perto, e, para tanto, falou apenas que mandava um abraço para ele, o que obteve como resposta um indiscreto “dou sim, ele está bem aqui”. Como não podia perguntar mais nada de forma direta e percebeu que a amiga estava querendo encerrar a ligação, que ela supôs por pressão do marido, a depoente disse que se lembrou de um código que as mulheres da sala tinham combinado para caso alguma estivesse em perigo, que chamaram de “o tchau do perigo”. A depoente disse que anunciou que ia finalizar a ligação e falou para a amiga não se esquecer do “nosso tchauzinho”. Que, para sua tristeza, foi exatamente o gesto que a amiga fez. Naquele instante, a depoente tirou todas as dúvidas e tem certeza que a amiga está em perigo, razão pela qual veio às pressas a esta delegacia prestar queixa e pedir providências imediatas. Insiste a depoente que o fato de sua amiga ter se referido ao marido pelo nome composto e feito o sinal de socorro no vídeo é um claro indício de que a vida dela corre perigo. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar). Veja abaixo, links para as postagens anteriores:

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Leia também: Depoimento XII  (20/04/2025)

Depoimento – III

Por Ayala Gurgel

Imagem gerada pela Inteligência Artificial do Grok do X para o BCS
Imagem gerada por Inteligência Artificial do Grok para o BCS

B.O: N° 03-7871/2019

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 03 DE DEZEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: IVALNETE MARIA APARECIDA IMACULADA E SILVA

A senhora Ivalnete Maria Aparecida Imaculada e Silva, vulgo Neta, quarenta anos, casada, ensino médio completo, do lar, residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia distrital em dia e hora agendados, na companhia de duas testemunhas e sua advogada, todas devidamente identificadas na forma da lei. A depoente narrou, perante mim, escrivã de polícia, que se encontrava profundamente abalada com o ocorrido e estranhava as acusações que pesam contra sua pessoa. Que não passa de um mal-entendido; que nunca foi sua intenção falar mal de ninguém, quanto mais de um defunto, muito menos ainda em frente à família enlutada. Que a mãe lhe ensinou que falar mal dos mortos pode trazer bastante azar e nunca faria uma coisa dessa. Solicitada para se ater aos fatos, disse que tem ciência da acusação aberta contra ela e que tudo não passa de mal-entendido. Quando indagada, assumiu que esteve no local da ocorrência e permaneceu ali por cerca de meia hora. Que o local a que se refere é a sala cinco da funerária central desta cidade e que ali ocorreu o episódio motivo desta oitiva. Que esteve a convite da família de um amigo de infância que havia morrido recentemente e há muito não se viam. Que foi justamente para o velório dele. Que convidou para irem ao funeral consigo duas pessoas, amigas de vizinhança, visto que o marido da depoente se recusou a acompanhá-la. Indagada, disse que as amigas às quais se refere são as mesmas que estão presentes como testemunhas nesta oitiva. Que tomou a atitude descrita para não correr o risco de ficar sozinha, pois não conhecia ninguém da família do morto além da amiga que a convidou. Que chegaram ao local por volta das oito horas da noite e não pretendiam demorar. Que nenhuma delas gosta de ficar em local onde há gente morta por muito tempo, especialmente à noite. Que, ao chegarem à funerária, não pararam na recepção e foram direto para a sala onde acontecia o velório, a sala de número cinco, conforme sua amiga e irmã do falecido lhe informou ao telefone. Ao adentrarem o recinto, percebeu que não eram as únicas a estarem atrasadas. Que a sala estava quase vazia, só haviam três pessoas no local, uma senhora e duas pré-adolescentes, todas sentadas no canto da parede. A depoente fez questão de explicar que quando disse que não havia mais ninguém não contabilizou o morto, que estava no caixão aberto no centro da sala, exposto à visitação. Que, chegando ao local, não viu sua amiga ou outra pessoa parecida com ela, que pudesse ser da família, nem qualquer pessoa conhecida, o que achou estranho, mas não parou para pensar no caso. Que, ao entrar na sala, fez uma saudação discreta à mulher e às meninas que estavam sentadas e foi direto ao caixão, para dar uma olhada rápida no morto. Que rezou um Pai Nosso junto ao falecido e somente depois foram se sentar, no lado oposto ao do grupinho que já estava na sala, para aguardarem a amiga ou outro parente. Que, nesse intervalo, para quebrar um pouco o clima chato de velório, ela começou a contar às amigas algumas lembranças que tinha do falecido. Indagada, disse que pode ter falado em voz alta, de modo que qualquer pessoa que estava na sala poderia ter ouvido o que ela falou. Sobre o conteúdo do que falou, disse que contou às amigas que se lembrava de poucos episódios sobre a vida do falecido, a maioria de quando eram crianças. Contou que o falecido costumava se vestir com roupas de mulher e brincar com as amigas, até altas horas. Que esse hábito foi mantido, escondido dos pais, até a adolescência; quando, em mais de uma ocasião, ela o ajudou a se maquiar antes de sair, mesmo tendo ensinado-o a fazê-lo sozinho. Que foi somente após o falecido começar a namorar com meninas que ele diminuiu o hábito, mas, vez por outra, passava na casa dela e os dois ficavam muito à vontade, e ele fazia questão de experimentar os sapatos e vestidos que ela tivesse. Que ele não gostava de outras coisas femininas além de vestidos, sapatos e maquiagem. Disse às amigas, naquela ocasião, que, certa vez, ainda na adolescência, ele levou para ela o seu primeiro cigarro de maconha e fumaram juntos. Que o falecido era muito divertido e que ela não sabe por qual razão os dois se afastaram. Disse que foi somente isso que falou às suas amigas naquela noite e não viu nada de mais nisso. Respondendo a pergunta do delegado, disse que sim, percebeu que enquanto falava do falecido a mulher e as duas meninas choravam bastante, mas não fazia ideia de quem eram ou por que estavam ali. Declarou que não sabia nada sobre a vida do falecido nos últimos dez ou doze anos, mas tinha certeza que ele não havia se casado e aquela mulher não podia ser esposa dele nem as meninas suas filhas, e se fossem da família deveriam saber muito bem o que ela estava falando, pois o próprio falecido abriu a boca e confessou tudo sobre sua vida sexual numa noite de natal em família. Que se lembrava muito bem da ocasião, apesar de não se recordar mais do ano, pois ele teve que ir dormir na casa dela após a confissão, e levou algum tempo para a família aceitá-lo, mas acabou dando tudo certo. Que a família não tinha mais segredos quanto a isso e aceitava seus namorados, por isso ela se sentiu à vontade para falar o que falou. Que não viu razão para se preocupar com a discrição sobre a intimidade do falecido, pois não acha vergonhoso ser gay. Quando perguntada, disse que se lembrava sim de ter falado às amigas que ela havia conhecido o grande amor da vida dele. Que se lembrava de ter dito isso e na mesma hora acrescentado que não se recordava mais do nome, mas sabia que os dois trabalhavam juntos quando se conheceram. Que, por mais de uma vez, teve vontade de perguntar àquela senhora o que era do falecido, mas como estava sempre chorando, achou por bem esperar a amiga chegar, pois não sabe lidar com gente chorona. Que isso demorou cerca de meia hora. Como não viu chegar ninguém da família, as três decidiram que estava na hora de irem embora. Que, ao saírem da sala cinco onde o corpo estava sendo velado, viu sua amiga no bebedouro e chamou por ela, que lhe perguntou o que faziam ali, visto que o velório estava sendo realizado na sala quinze. Que somente nesse momento percebeu que falou do morto errado na frente de uma família que ela não faz a menor ideia de quem é e que ficou morta de vergonha, mas não teve coragem de voltar e pedir desculpas. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

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Depoimento – II

Por Ayala Gurgel

Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS
Arte criada com recursos de Inteligência Artificial – AI Meta – BCS

B.O: N° 02-7871/2019

NATUREZA: COMUNICADO DE AÇÃO CRIMINOSA OU SUSPEITA

DATA DA COMUNICAÇÃO: 22 DE NOVEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: MARIA DO ROSÁRIO ANDRADE FREITAS

A senhorita Maria do Rosário Andrade Freitas, conhecida pela alcunha de Rose Mary, quarenta e dois anos, solteira, empregada doméstica e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia de polícia acompanhada de advogado, devidamente identificado, e solicitou ser ouvida pelo delegado responsável. A depoente narrou, diante de mim, escrivã de polícia, que trabalhou nos Estados Unidos por dez anos, onze meses e seis dias, sendo os últimos dez anos e cinco dias na mesma residência, que disse pertencer a um capelão do presídio do condado de Riverside, Califórnia, de onde partiu, após a morte dele. Que começou a trabalhar naquela residência um mês depois que seu patrão assumiu o posto de capelão e que ele lidava diretamente com os condenados que estavam no corredor da morte. Que era um homem respeitado, amado pela comunidade, levando uma vida cristã exemplar e participava de eventos de caridade. Deu como testemunho da boa fama dele o fato de que não apenas a igreja de Riverside o convidava para pregações e orientação de retiros, como também as igrejas de condados vizinhos. Não poucas vezes, disse a depoente, o capelão passava a semana fora, administrando retiros espirituais, e que, quando isso acontecia, ela ficava sozinha, na casa que pertenceu a ele, visto que confiava nela. Do ponto de vista físico, era bonito, alto, branco, asseado, com dentes ajeitados e voz calma e grossaboa de ouvir. Acrescentou que não sabe por qual razão um homem daquele porte não tinha se casado, e jurava, pela hóstia consagrada, que não era gay. Ao dizer isso, a depoente fez questão que constasse que ele vivia de forma celibatária e não havia nada que maculasse a honra dele como pastor e guia daquelas almas condenadas por crimes tão horrendos, a ponto de merecerem pena de morte. Que chegou à casa dele por meio de uma agência na qual ela trabalhou nos Estados Unidos e deveria ser um trabalho rotativo, como nas outras residências, mas ele exigiu mudança no contrato e ela ficou fixa, como doméstica. Que o trabalho do capelão junto aos condenados era o de levar conforto espiritual. Que mais de uma vez ele contou a ela sobre detalhes da missão, como fazia com cada um, sobre o que conversavam e como pedia que os condenados escrevessem cartas para Deus, nas quais deveriam confessar os crimes, e outras para as famílias das vítimas, declarando o arrependimento, ou, pelo menos, contando o que elas desejavam saber. Que o capelão lhe contava que as famílias, às vezes, queriam apenas saber onde estava o corpo, se a vítima tinha sofrido, quais foram as últimas palavras ou se o criminoso havia se arrependido do que fez. Que ele ouvia das famílias quais eram seus desejos e repassava aos condenados, com esperança de que lhes escrevessem ou dissessem algo que pudesse levar conforto aos enlutados. Que alguns condenados aceitavam escrever tais cartas, tanto aquelas endereçadas a Deus, confessando os crimes, tudo nos mínimos detalhes, tal como o capelão solicitava, quanto as endereçadas às famílias, de acordo com o que elas pediam. Que isso durou todo o tempo em que ele serviu no presídio. Em seguida, a depoente disse que a razão de estar na delegacia hoje, na presença de seu advogado, é que tem a intenção de devolver a quem de direito as cartas, que estão sob sua custódia desde que deixou a casa do falecido, dias depois da sua morte. Que foi ele mesmo que pediu em segredo para que ela não deixasse que as cartas viessem a público caso algo de ruim lhe acontecesse, e ela apenas cumpriu sua vontade, mas agora, passado o tempo que passou, se arrepende. Que não sabe exatamente como ele morreu, mas ouviu que foi infarto. De acordo com a depoente, ela ficou com as cartas e muitas memórias ruins do que viu naquela casa e não acha mais certo manter o segredo, de modo que decidiu confessar tudo à polícia e não pretende voltar aos Estados Unidos. Que hoje só consegue dormir à base de remédios e já pensou em se matar. Que as cartas endereçadas às famílias nunca foram entregues, embora o capelão tenha repassado uma ou outra informação aos interessados, dizendo tê-la obtido de ouvido. As cartas endereçadas a Deus, que ela chegou a ler algumas, são de perturbar qualquer alma cristã com tanto mal que há nos detalhes descritos. A depoente contou que o capelão ficava com as cartas para deleite próprio. Que lia e relia diversas vezes, enquanto tomava vinho. Que mais de uma vez presenciou ele cheirando o papel e se masturbando enquanto lia as cartas. Que, nessas horas, não era o mesmo homem que estava acostumada a ver como um amado pastor de almas, era outra pessoa, da qual tinha medo e não se atrevia sequer a lhe dirigir a palavra, menos ainda fazer qualquer comentário sobre o que viu. Que foi ele mesmo que chegou junto a ela e explicou o que fazia: aquelas cartas eram a única forma de obter prazer na vida. Era por meio delas que ele se sentia vivo, como se os crimes tivessem sido cometidos por ele, com a diferença de que não era ele que estava no corredor da morte. Que ele acompanhava a vida de cada um daqueles infelizes como se fosse a sua, se imaginando no lugar deles em cada cena do crime, cada gesto, cada sentimento. Tão logo o condenado era executado, procurava outro, para reviver tudo de novo. A depoente também disse que nunca falou com ninguém sobre o assunto com medo de colocar a própria vida em risco. Que ele não dizia nada, mas ela se sentia ameaçada pelo jeito que contava seus segredos. Que até hoje tem medo que ele possa perturbá-la, nos sonhos ou como alma penada. Que vai à missa todos os domingos e ao psiquiatra a cada três meses com a intenção de sair dessa situação e ter uma vida normal. Que ouviu o conselho do advogado e por isso veio entregar tudo o que tem e dizer tudo o que sabe. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

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Depoimento

Por Ayala Gurgel

Arte ilustrativa
Arte ilustrativa

B.O: N° 01-7871/2019

NATUREZA: INQUÉRITO INVESTIGATIVO

DATA DA COMUNICAÇÃO: 15 DE NOVEMBRO DE 2019

COMUNICANTE: PAULO FERREIRA DE SOUZA

O senhor Paulo Ferreira de Souza, trinta e cinco anos, comerciante, técnico em contabilidade, viúvo e residente nesta freguesia, compareceu a esta delegacia, em data e hora previamente agendadas, em companhia do seu advogado, tendo sido ambos identificados na forma da lei, e narrou perante mim, escrivã de polícia, que se encontra profundamente abalado com o ocorrido e sob efeito medicamentoso, de modo a apresentar pedido prévio de desculpas por explosões emocionais. O advogado do depoente pediu a palavra e destacou que, não fosse de extrema urgência o depoimento do seu cliente no presente momento, preferia voltar outro dia, quando este se encontrasse menos abalado, o que não foi aconselhado pelo delegado encarregado, para o próprio sucesso da investigação. Sobre o fato ocorrido, o depoente declarou ter conhecimento do medo que a vítima, sua esposa há cinco anos, tinha de cobra, afirmando não conhecer outra pessoa com tanto medo, razão pela qual sempre evitou brincadeiras envolvendo essa espécie peçonhenta. Que no dia do ocorrido havia três pessoas dentro do carro, de propriedade do casal e sob seu comando – o depoente, a esposa e uma prima dela, de nome Rosanir Ferreira Alencar – e que se encontravam na estrada carroçável que dá acesso à granja da família da esposa quando a senhora Rosanir passou o seu celular à vítima, com o vídeo de um gato mexendo num cesto de vime, algo que o depoente descreveu como “fofo” e passou cópia a esta delegacia. O vídeo, de acordo com o depoente, deve ter sido feito por alguém que ele não sabe afirmar quem, e se encontra disponível em vários sites, sendo amplamente compartilhado nas redes sociais, de onde provavelmente a senhora Rosanir o recebeu. Que o referido vídeo é feito de tal forma a prender a atenção do espectador, que se empolga com a brincadeira do gato com o cesto, ao som de música infantil, mas termina com uma cobra saindo do cesto e dando o bote em direção à câmera, ao som de um grito de filme de terror. Que o vídeo é uma pegadinha de mau gosto e até mesmo as pessoas que não têm medo de cobra costumam se assustar. Que não sabia do que se tratava quando a senhora Rosanir passou o celular à esposa, sua atenção estava focada na estrada, visto que havia chovido na noite anterior e o terreno se encontrava escorregadio. Que, se soubesse, nunca teria permitido. Que, no momento em que a esposa tomou o susto, jogou fora o celular, que caiu em algum lugar dentro do carro, e se agarrou a ele, puxando o volante e fazendo-o perder o controle, de modo que o carro veio a sair da estrada e capotar. Que tudo foi muito rápido, não teve como reagir e não viu nada. Que não sabe em que momento a vítima foi arremessada do carro ou quanto tempo durou a capotagem, apenas que foi muito rápido e quando se deu conta, estava de cabeça para baixo, preso pelo cinto, e viu ao longe o corpo da esposa, jogado no chão, próximo a uma moita de capim. [O depoimento, a pedido do advogado do depoente, precisou ser interrompido por alguns minutos para que o seu cliente pudesse ser assistido, uma vez que começou a apresentar dificuldades para respirar e crise de choro. Recomposto, o depoente continuou, perante mim, a narrativa da sua versão dos fatos]. Disse que a cena que viu e se encontra registrada na sua memória o apavora todos os dias. Que não consegue tirar da cabeça a imagem da esposa jogada no chão, suja de lama, com a cabeça inclinada em sua direção, a boca aberta e os olhos esbugalhados, como se gritasse por socorro ou de dor. Que, ao deitar todas as noites, costuma vê-la, ao seu lado, com a mesma expressão facial daquele dia. Que se não fosse a medicação que vem tomando regularmente, não conseguiria dormir ou ter algum momento de paz. Que pede a Deus todos os dias que apague tudo isso, que seja só um pesadelo e que se acorde, para descobrir que nada daquilo aconteceu. Disse que esse tipo de vídeo não deveria existir, que deveria ser proibido por lei fazer esse tipo de coisa, que o vídeo foi o responsável por tudo isso. Mesmo sem ser perguntado, confessou guardar rancor da senhora Rosanir, bem como de quem faz e compartilha esse tipo de vídeo. Não soube informar se, no momento do acidente, a vítima estava ou não com o cinto de segurança. Por fim, o depoente disse que não sabia e se mostrou bastante surpreso ao tomar conhecimento de que a causa da morte da vítima tinha sido não em virtude do acidente, com o pescoço quebrado, como ele supunha, mas de uma picada de cobra. Era o que tinha a relatar.

Ayala Gurgel é escritor, professor da Ufersa, doutor em Políticas Públicas e Filosofia, além de especialista em saúde mental

*O texto faz parte do livro homônimo e tem como desafio transformar a escrita ordinária, informal, em literatura, tal como os clássicos fizeram com as cartas (criando a literatura epistolar).

O desespero

Por François Silvestre

O depoimento de Lula foi recebido com naturalidade pelo Juiz Sérgio Moro. Também por vários veículos da imprensa, inclusive de direita. Porém, um veículo de comunicação, nobre, desesperou-se. A Globo News.

Sou telespectador deste canal. Nunca tinha visto o seu elenco, mais credenciado, de semi-gênios, tão esbaforidos. De ventas esfoladas, quase cuspindo na câmera, para desmerecer ou refutar as respostas de Lula.

Nem os promotores ficaram tão irados quanto a Globo.

Lula acertou no cabelouro da Globo, como o matador de boi. Não sou eleitor de Lula, mas fico rindo dos seus inimigos.

Incompetentes.

O Ministério Público não provou a materialidade desse crime. A Globo é tão desonesta quanto as empreiteiras. Desde a Ditadura.

Faltou Lula oferecer o triplex, por preço vil, aos presentes. Desde que pudessem transferir o imóvel, como compradores, provando a propriedade do vendedor.

Propriedade imóvel prova-se com escritura pública, registrada. O resto é política ou patifaria.

O excesso de acusação na pressa de atingir o acusado retira o alcance mínimo da verdade.

Lula é culpado ou inocente? Não sei.

Porém, a menos que se invente outra consciência jurídica, a dúvida protege o réu.

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