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Nó lógico

Por Honório de Medeiros

Arte ilustrativa Web
Arte ilustrativa Web

Atrás ocorreu o seguinte diálogo entre Bárbara, minha filha, ainda pré-adolescente e eu:

“Deus é Todo-Poderoso?”, iniciou ela.

“Isso.”

“Ou seja, Deus é Onipotente, não é?”

“É.”

“Se Ele é Onipotente, pode criar qualquer coisa, não?”

“Claro!”

“Ele pode, portanto, criar algo que o destrua, certo?”

“Pois é…”

Nesse preciso momento, eu já estou integralmente preocupado com o final da conversa.

“Se algo assim pode destruí-lo, então Ele não é Onipotente, pois não pode impedir que algo mais poderoso o destrua.”

De onde eu tirei a ideia de que deveria ensinar lógica à minha filha?

Restou-me apelar, lembrando-me de São Tomás de Aquino: “os desenhos de Deus não cabem na malha estreita da lógica humana!”.

Tomei uma vaia…

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

Comadre

Por Honório de Medeiros

Ilustração de Jok em página do autor da crônica
Ilustração de Jok em página do autor da crônica

O que mais me impressionava em Comadre, como todos nós a chamávamos, no aspecto físico, era seu rosto.

Nele, o sol e o suor escavaram miríades de rugas finas a recortar sua pele morena, gretada, compondo uma teia que aprisionava nosso olhar imediatamente.

Depois, as mãos. Mãos como garras. Fortes. Calosas. Descoradas por anos a fio de sabão e água.

Por fim sua vestimenta: sempre um vestido de cor clara, chita humilde, o mesmo modelo, de mangas compridas – que ela, por razões óbvias, usava arregaçadas – que ia até o tornozelo, tudo encimado por uma espécie de coroa de pano branco de margens largas, propositadamente feitas para receber e acomodar o saco de roupas a serem lavadas.

Pois Comadre, como se pode perceber do texto, era a lavadeira não somente lá de casa, mas de praticamente toda a família.

Estava sempre feliz. Na minha meninice de bicho arredio, dado aos livros e devaneios, alternados por impulsos nervosos de convivência alegre, sua gargalhada compunha o sábado, assim como o carneiro guisado e o cuscuz molhado na graxa, na hora do almoço.

Lá em casa, mais aos sábados do em qualquer outro dia por conta da feira, até o meio da tarde o vai-e-vem e converseiro era permanente.

Entrava-se e saiam. Saiam e entravam.

Todos confluíam para a área-de-serviço, contígua à cozinha: O leiteiro, a lavadeira, o pessoal que vinha com a feira semanal, parentes de outras cidades, aderentes, contraparentes, amigos, amigos dos amigos.

Todos embalados por uma xícara de café e pão com manteiga.

Conversava-se, cantava-se, declamava-se, discutia-se, fofocava-se, trocavam-se receitas de bolos e de remédios.

Naquele local, sem que me desse conta naquela época, a solidariedade fincava raízes e se propagava: todos se uniam para se amparar mutuamente.

Escutavam-se mágoas, partilhavam-se alegrias, construía-se teimosamente a delicada trama de uma vida ancestral, fadada a desaparecer, na qual todos formavam a unidade, e a unidade era a sobrevivência.

Comadre, então, como eu diria muito tempo depois, quando o passado passou a interromper cada vez mais meu presente, era um modelo de sobrevivência.

Paupérrima, viúva ainda jovem, criou sua dezena de filhos lavando roupa e sempre com aquela alegria de viver que me deixa, ainda hoje, perplexo e angustiado.

Poderia ter sido um personagem de um Tolstoi tardio, quando o cristianismo primitivo passou a ser sua segunda natureza.

Vezes sem conta, quando próximo de sua tão sonhada aposentadoria, eu lhe perguntei: “Comadre, por que a senhora é tão feliz?”

“Meu filho”, respondia-me com aquele seu sorriso luminoso estampado na face engelhada, “Deus não nos quer tristes.”

“Mas Comadre”, retorquia eu, “e o sofrimento que nós vemos no mundo?” “E a violência, a fome, as doenças…?”

“Olhe, meu filho, como posso duvidar de Deus? Ou acredito ou não acredito.”

E seguia lépida e fagueira, a chistar, trouxa na cabeça, alegre, feliz, sem sequer desconfiar que sua lógica simples dera um nó em toda a minha metafísica.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário do Governo do RN e da Prefeitura de Natal

Deus me proteja

Por Bruno Ernesto

Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia, na Polônia Foto: Bruno Ernesto)
Santuário da Divina Misericórdia em Cracóvia, na Polônia Foto: Bruno Ernesto)

Aviso ao eventual leitor desavisado que, antes que ele perceba, não me julgo tão religioso quanto você pensa. Todavia, tenho fé e não sou ateu, embora creia genuinamente em Deus.

Após minhas férias e, pois, retomar o rumo da vida terrena da minha insignificância que alguns tantos julgam ser – embora, íntima e nitidamente, tenham sentido minha ausência -, logo que coloquei os pés na minha amada cidade, rumei para o templo sagrado do elixir mais democrático que existe – mais até que as famosas “Landsgemeinde” dos Cantões suíços -, me pus a saborear um café espresso bem prensado, tão reconfortante, feito quem volta o berço em busca de afago materno.

Há três coisas que são excelentes, quando bem prensadas: café, livros e paçoca de carne seca.

Já registrei em outras oportunidades que as cafeterias são um mundo à parte e você, não raro, se depara com toda sorte de gente, assuntos e acontecimentos: ordinárias e extraordinários.

Lembro ao querido leitor que também já mencionei em outras crônicas, que há pessoas que não têm qualquer cerimônia ao conversar em viva-voz em ambientes públicos, de modo que, nos ternos das normas sociais e jurídicas, o que se fala passa a ser de domínio público. Ninguém pode obrigar o outro a desescutar. E digo, caro leitor: a maldade de gente boa é tão pior que a bondade de gente ruim.

Explico: tudo girava em torno de um portão quebrado. Não suportavam tanto descaso do condomínio com o portão de acesso dos veículos que ora quebrava, ora voltava a quebrar.

– É um absurdo! Total falta de absurdo! Diziam.

Pelo menos a reunião semanal no salão de festas do condomínio para mais um ciclo de orações estava mantida.

Vez ou outra, sussurravam contorcendo conto da boca, rogando a Deus que certos vizinhos não fossem orar dessa vez. Por fidelidade à informação, quase indaguei o motivo da insurgência. Por sorte, pontuaram que nem todos do ciclo, são tão fervorosos.

Foi aí, então, que avisaram no grupo de whatsapp do condomínio que o portão continuaria “enteditado” até o início da noite.

– Absurdo! Disseram.

– Faz dois anos que ele diz portão entedidato!

Quando falaram sobre a casinha do lixo, pelo fato de um dos sacos de lixo ter se rasgado acidentalmente no dia anterior e deixado cair seu conteúdo no chão da casinha, disseram que o lixo deveria ter caído bem no meio da sala do condômino, como castigo, ao invés de sujar a casinha do lixo do condomínio.

– Absurdo! Quem já se viu, sujar a casinha de lixo do condomínio! Que suje o seu apartamento como merecido! Multa! Deveriam olhar as câmeras!

A par da situação, ouvindo aquela destilação de ódio bem ali na minha frente, sem maior cerimônia, reverberava na minha mente o que o saudoso Rubem Alves dizia a respeito de religiosidade.

Dizia ele ninguém oferece à Deus algo de bom. As pessoas pensam que Deus é sádico. Sempre oferecem sofrimento em troca de uma bênção – subir quatrocentos degraus de joelhos se alcançar uma graça -, quando Deus – dizia Rubem Alves –, em verdade, quer apenas um jardim de delícias, e não sofrimento.

Ao que parece, ao invés de estar florido pelo ciclo de orações semanal, o jardim permanece verde, no que pertine à genuinidade religiosa de alguns de seus frequentadores mais fervorosos.

Vendo isso, apesar do medo escatológico, vejo que eu, que não participo de nenhum ciclo de orações, talvez escape do inferno.

Crer, orar e agradecer a Deus sozinho e sem alarde, dentro ou fora de um templo religioso, me parece mais genuíno.

Como Chico César canta: Deus me proteja de mim, e da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim. Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Última areia

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa da Freepik
Arte ilustrativa da Freepik

Todos nós sabemos que um dia a mais é um dia a menos. Muitos, porém, contam com mais prestígio e tolerância da parte do tempo. Isto, obviamente, para os indivíduos que são bem-aventurados, aqueles que usufruem do privilégio de uma existência longeva e, em inúmeros casos, com boa qualidade de vida. De um modo ou de outro, todavia, estamos morrendo desde a nossa mais tenra idade.

Não proponho agora que devamos mergulhar na tristeza, no baixo astral. De jeito algum. Apenas estou conversando com os meus botões. Penso na última areia que ainda me resta na ampulheta da vida. Ah, mas quem morre de véspera é peru! Alguém pode recorrer a esse adágio. Devo admitir que está certo. É preciso tocar o barco, não encalhar nas pedras do pessimismo e desânimo.

Temos que continuar perseguindo os nossos sonhos, fazendo os nossos planos e pelejando para concretizar nossos projetos. Não adianta cruzar os braços porque a qualquer dia ou hora vamos vestir um paletó de madeira. É isso. A Moça da Foice não negocia, não parcela nada.

O que penso, sendo franco, é que não há ninguém com mais ou menos predileção sob os olhos ou supostas ações do que se convencionou chamar de Divina Providência. Ledo engano. É cada um por si. Deus não se mete nas desgraças ou bonanças dos seus “filhos”. Principalmente depois do que fizemos com o Nazareno. Dizem que Cristo veio ao mundo para tirar ou salvar o Homem do pecado, no entanto não salvou nem tirou o pecado da Terra. A situação parece ainda pior.

Não pensem que sou um depressivo em crise, uma criatura blasfematória, um sujeito de pouca fé. Não é bem assim. Nem oito nem oitenta, como também se diz. Tenho a minha parcela (naturalmente pequena) de credulidade. Não descreio, não duvido da existência de um ser supremo. Com que autoridade? Nenhuma! Não aceito que sejamos mero fruto do acaso. Mas, diante de tantos e tantos, de infinitos, incontáveis horrores que acontecem sob as barbas do Criador, presumo que o Todo-Poderoso não tenha interesse em meter o bedelho nas desgraças que, em sua maioria, nós próprios originamos. Recuso-me, pois, a achar que saímos do útero do acaso.

Criancinhas sem pecado algum são assassinadas em todos os lugares do planeta. Cadê os anjos da guarda? Um ônibus desce uma ribanceira, noventa por cento dos passageiros morrem, e alguém assegura que foi Deus que livrou, que salvou os dez por cento. No meio dos mortos, não raro, crianças de colo, mulheres gestantes, pessoas bondosas. Entre os que escaparam, é justo que se diga, às vezes está um matador de aluguel, um traficante, um terrorista, uma escória qualquer.

Não engulo esse fatalismo e seletividade perversos. Imagino que Jeová não tem nada a ver com isso. As tragédias seguem acontecendo em escala planetária e inocentes pagam o pato por causa da, por exemplo, estupidez e genocídios de superpotências bélicas. Cadê o nosso Senhor e o seu exército de santos? É mais que evidente que estão no Éden, no Paraíso, no sossegado patamar celestial.

A propósito, desde que o mundo é mundo, o Inferno e o Céu recebem inquilinos às pampas. Então penso na vastidão desses dois endereços: um supostamente nas alturas e o outro nas profundezas, no fogo eterno. Se não estou enganado, convenhamos, é isso que o best-seller das Sagradas Escrituras afirma.

Estamos morrendo, repito. Acontece, felizmente, que não temos a menor ideia de quando o último sopro de vida nos deixará. Até lá, enquanto o seu lobo não vem, sejamos mais fraternos. Aproveitemos a vida que temos com leveza, sem o pesadelo da finitude. Viver nem sempre é estar vivo. Pensem nos lugares onde bombas caem sobre as casas do povo, dos civis em meio às guerras que “demônios” (políticos e militares) promovem confortavelmente, a salvo das ogivas e da fuzilaria.

Quanto a Deus, que tantos nomes possui, não façamos julgamentos exclusivistas. Acho mesmo que Ele não protege uma minoria de “abençoados” e deixa bilhões de “filhos” entregues ao calvário neste mundo sem jeito.

Marcos Ferreira é escritor

De um amigo que encontrou a fé

Por Honório de Medeiros

Ilustração da Biblioteca do Pregador
Ilustração da Biblioteca do Pregador

Certo amigo meu, até recentemente ateu, me contou acerca de sua conversão.

Disse-me ele que na meia-idade do conhecimento, na qual chegou por caminhos tortuosos, após perambulações de toda a ordem no universo da vida e dos livros, deu-se conta que era o momento de fazer um balanço em regra de sua vida passada e fazer um planejamento, mesmo que capenga, para o resto dos seus dias.

Um assunto, em especial, clamava por atenção: sua relação com a Fé.

Após esse primeiro ponto firmado, pôs-se a examinar o tema por um viés, digamos assim, oblíquo: entendeu que o importante era pensar acerca do mundo tal qual o estava encontrando, naquele momento. Colocou as mãos à obra.

Em sua procura, olhando para os lados, para trás e em frente, por todos os ângulos, de todas as formas, somente encontrou o horror, a escuridão mais negra, uma história de sangue e dor, excetuando-se um ou outro ponto de luz a sobreviver sabe-se lá como, nem por quê.

Explicou-me essa constatação fazendo um paralelo: “imagine”, disse ele, “o milagre da sobrevivência da Igreja no auge da Alta Idade Média, após a queda de Roma, quando iniciou o período que os historiadores antigos chamavam de ‘Idade das Trevas’”.

“O mundo se transformara, então, em um caos. A Igreja, entretanto, sobreviveu graças aos monges irlandeses, que no silêncio e na solidão de seus monastérios, copistas que eram, crentes integrais, legaram ao futuro a doutrina de Cristo”.

“É como se hoje em dia vivêssemos um período semelhante. Horror e escuridão, novamente, ou sempre, e o mal lutando com unhas-e-dentes para dominar, para ser hegemônico. Guerras, genocídios, estupros, roubos, torturas, infanticídios… A lista é infindável”.

“Se há o mal”, disse-me ele, para concluir, “então há o Bem. Se há o Bem, então há Deus”.

E, assim, por intermédio dessa estranha conclusão, de forma alguma absurda, ele chegou à Fé. E que Deus o tenha em seu regaço.

Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e do Governo do RN

*Crônica extraída do livro De uma longa e áspera caminhada, pela Editora Viseu.

O reflexo de Deus

Por Inácio Augusto de Almeida 

No quintal, olhando os primeiros frutos ainda não maduros da mangueira plantada quando cheguei, anos atrás, para morar nesta casa de quintal grande, neste bairro afastado, vi o que Deus faz e dificilmente notamos.frutos de mangueira, manga

Um simples caroço de manga transformado numa frondosa árvore com centenas de frutos a mostrar o milagre da multiplicação.

Olhando os frutos vi a grandeza maior e compreendi o quanto havia de beleza nas coisas que nos passam despercebidas.

Meu espírito viajou e sentiu-se na presença do Criador.

E me perguntei se um simples caroço de manga se transforma numa enorme mangueira, se qualquer semente, mesmo sem exigir cuidados, brota, cresce e mostra que a vida continua florescendo em toda a sua plenitude, por que então duvidar que o filho amado do Pai não consiga rebentar em nova vida e crescer, agigantar-se no renascer?

Os sinais de que continuaremos a jornada evolutiva estão em todos os lugares. Basta olhar com o coração.

Infelizmente não observamos com maior cuidado as estações do ano. Mas, mesmo com toda nossa desatenção, conseguimos ver que as folhas caem no verão e a vida se faz presente na primavera.

Isto apesar dos nossos olhos estarem sempre focados em futilidades. É a viseira do pragmatismo a nos deixar cegos para as coisas grandes e verdadeiramente importantes.

Tudo é belo, lindo, maravilhoso. A única coisa feia é o nosso olhar quando o afastamos do coração.

Veja um rio apenas com os olhos e certamente verás somente sujeira. Olhe este mesmo rio com o coração e ouvirás o zoar das cachoeiras, a beleza das corredeiras e a tranquilidade das calmarias. E mesmo o rio estando sofrendo a falta de amor do homem pela natureza, quando olhamos com o coração a poluição passará despercebida.

Um dia, quando eu não sei, nos convenceremos de que nossas angústias e medos são originados pelo desejo de sempre TER e SER cada vez mais e mais. Não colocamos limites para nossas ambições.

Ainda não nos convencemos que a felicidade está no FAZER. É o fazer o bem que nos permite crescer e nos coloca mais perto de Deus.

Já sabemos que nenhum bem faz mais bem ao coração do que o bem do amor. Então, vamos fazer o bem com amor e deitar por terra todas as dúvidas que nos assaltam quando da caminhada que empreendemos em busca da perfeição.

Perfeição que nos aproxima mais e mais de Deus.

Somos viajantes e nosso destino é o encontro maior.

O encontro com nosso Pai.

Volto a olhar as lindas mangas balançando por força da brisa vespertina deste dia tão lindo de céu azul anil e nuvens branquinhas como flocos de algodão que acabaram de brotar.

Como ter medo do renascer?

Inácio Augusto de Almeida é escritor e Jornalista

*Crônica dedicada à Sra. Sandra Rosado.

Não sou ateu

Por François Silvestre

Não. Ninguém é. Até quem não crê em nada, crê no nada. E o nada é um deus. Cada povo, cada gente, cada tribo, cada aldeia, cada ser pensante tem um deus. Mesmo negando os deuses dos outros. Por que deus é angústia. E a humanidade, angustiada, é uma fornalha de parir deuses. Uma maternidade de deuses. Enfermaria de crenças, com berços de amparo aos desvalidos que tentam explicação do que não entendem. Deus, céu, mar, luz do sol, fé

Nasci e me criei sob o tacão do deus hebraico. Nunca viajei com Abraão saindo de Ur, da Suméria, em busca do Golfo Pérsico. Não. Nasci no sertão mais peba dos sertões. Que nem é o de Guimarães Rosa. Mas, fui obrigado a dobrar os joelhos pro deus de Abraão.

Contar pecados no confessionário para emissários do deus hebraico. Punhetas e troca troca. Rezar orações sem saber o que significavam.

Aí, cresci. Aprendi e descobri o meu deus. Que não possui templos, não tem padres castos de mentira nem pastores picaretas. Bandidos que em nome do deus hebraico, coitado deus, enganam, roubam e assassinam o próprio deus.

Aprendi ainda jovem, com Spinoza, quem era Deus. A Natureza. Deus onipresente, que está em todos os lugares. Não há lugar onde ele não esteja. Não há. Ele é a rosa que desabrocha e é também a erva daninha que mata a roseira.

E como todos os lugares têm seu deus; os deuses da China, da Índia, do Tibete, das tribos africanas, dos hebreus, dos judeus, o Brasil também tem seu deus original. É Tupã. Sem templos, sem orações, sem cobranças.

Sua túnica é a sombra do jacarandá, no sol. Seu amparo é o caramanchão de bambus, na chuva. Taí meu deus. Tupã. Que não ampara nem justifica hipócritas santificados de exploração dos tolos.

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Espinoza e o Deus de Einstein

Por François Silvestre

Baruch de Espinoza, nascido Benedito, nasceu em Amsterdã em meados do Século Dezessete. Mas não é de origem holandesa. De família judia portuguesa, nasceu na Holanda porque sua família foi obrigada a fugir de Portugal. E a fuga deu-se por conta da perseguição inquisitorial do “santo ofício” português, uma das inquisições mais brutais da Europa católica.Adolescente ainda começou a estudar filosofia e geometria, aprofundou-se no conhecimento da era clássica e as influências do pensamento grego nas escolas da formação teológica do cristianismo. Tanto de Sócrates e Plantão, revisitados pela Patrística, que tem em Santo Agostinho seu nome mais ilustre; quanto de Aristóteles, restaurado pela Escolástica, que tem de símbolo maior Santo Tomás de Aquino.

Toda sua formação parte de princípios negadores da superstição e das crenças estabelecidas no conluio entre igrejas e Estados. Começou por questionar a própria família, negando preceitos e intolerâncias do judaísmo. O que produziu contra ele a extrema medida do chérem, que é a expulsão judaica, semelhante à excomunhão católica, sendo mais rigorosa ainda.

Contrariou os pensamentos de Descartes e Leibniz, seus contemporâneos. Mergulhou profundamente no estudo da matemática, ética e geometria. Na maturidade, produziu o seu pensamento relativo a Deus. “Deus sive natura”, isto é, “Deus, ou seja, natureza”.

E ensinou que Deus não cria a coisa, Deus é a coisa. Deus não é transcendente na relação como o Universo, é imanente. Não está fora, gerindo, controlando ou julgando. É contido nele. Sem consciência de administração transcendente.

flor que desabrocha é Deus, a erva daninha que mata a roseira também. A chuva que que fecunda a terra é Deus, a seca que a resseca também.

Deus dos nossos silvícolas, Tupã, é de igual imanência. Seus templos são matas, rios, florestas e tabuleiros. Quando precisa reclamar, não o faz sem antes clarear. Por isso o índio entende que a luz do relâmpago antecipa-se ao esturro do trovão.

Quando perguntaram a Albert Einstein se ele acreditava em Deus, ele respondeu: “Acredito no Deus de Espinoza”.

François Silvestre é escritor

Brincando de Deus em tempos de Covid-19

Estão brincando de Deus em Mossoró.

Deificação por fabricação populista eu já conhecia.

Agora, outra faceta: botar vidas humanas em perigo.

E, claro, com a tragédia, é só culpar outrem.

Nossa mortalidade por Covid-19 é 1,66 por 100 mil habitantes.

Já se foram cinco vidas.

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A era da insensatez e o caso do neto de Lula

Por Lenio Luiz Streck

Duas frases marcaram a semana: a blogueira Alessandra Strutzel (sim, temos de dar nome aos bois e bois aos nomes!) disse, ao saber da trágica morte do neto de Lula, de 7 anos: “Pelo menos, uma notícia boa”. E a do deputado Eduardo Bolsonaro (Deus acima de todos – eis o slogan da moda): A ida de Lula ao enterro “só deixa o larápio em voga posando de coitado”!

Houve ainda muitos outros “pronunciamentos” de ódio e regozijo pela morte do menino de 7 anos.Até onde chegamos? É o fundo do poço? O que Deus diria disso, ele que, conforme o slogan, “está acima de todos?”

Confesso a vocês – e Rosane, minha esposa e Gilberto, um de meus assistentes, são testemunhas – que esse episódio me abalou profundamente. Embarguei a voz. Triste pela morte da criança e estupefacto e magoado com a raça humana e com a reação das pessoas nas neocarvernas que são as redes sociais. Ah, blogueiros e influenciadores, coachings e quejandos, ah, quantos justos haverá em Sodoma? Abraão será um advogado que lhes conseguirá um HC?

Peço paciência para me seguirem no que vou dizer. No auge do macartismo, em audiência no Senado, o advogado Joseph Welch teve a coragem de perguntar ao senador McCarthy, o homem que deu nome à prática de ver comunismo em tudo:

Senhor, você perdeu, afinal, todo senso de decência?” Pergunto aos odiadores que comemoraram ou trataram com raiva de Lula o episódio fatídico:Senhores e senhoras, parlamentares, blogueiros, twuiteiros, whatsapianos e faceboqueanos: vocês perderam, afinal, todo senso de decência?”

Em tempos de hinos nas escolas, na era das acusações de marxismo cultural (sic), eu poderia muito bem falar aqui sobre o macartismo à brasileira. Não vou. Falo, hoje, sobre nosso senso de decência. Ou melhor, tento falar sobre o senso de decência que perdemos.

Também não vou falar — não diretamente — sobre aquilo que, agora, todos já sabem ter acontecido. Lamentavelmente, morreu o neto, de sete anos, do ex-Presidente Lula. Sobre isso, não há o que falar. É o zero total. É Timon de Atenas, de Shakespeare, propondo o fim da linguagem. Shakespeare, logo ele, que bem sabia que a linguagem é a casa do Ser (Heidegger).

Sou um hermeneuta. Bem sei que a linguagem é, como dizia Ortega y Gasset, um sacramento que exige administração muito delicada. Da palavra não se abusa; não se pode colocá-la em risco de desprestígio. É precisamente por isso que sei que sobre a morte de uma criança não se fala; lamenta-se. Chora-se.

Vou (tentar) falar, portanto, repito, sobre o senso de decência que perdemos. Confesso, é difícil: às vezes, a degradação e a desumanidade são tão grandes que também parecem impor o silêncio. Mas como Auberon Waugh dizia sabiamente, se é verdade que o mundo é um lugar horrível com pessoas horríveis, temos o dever sagrado de incomodá-los sempre que possível.

Eis a minha tarefa: incomodar as pessoas horríveis. O que dizer em tempos nos quais uma legião de imbecis, para usar as palavras de Eco, aproveita-se da morte de uma criança e utiliza as redes sociais para destilar ódio e externar a própria baixeza? É hora do grito de Schönberg: Palavra, oh Palavra, que falta me faz!!!!

O que dizer quando se torna normal que um deputado — o mais votado da história do país — vai às redes sociais, sempre as redes sociais, para dizer que “cogitar” a saída de Lula para o enterro do neto (saída que está prevista na lei, diga-se) “só deixa o larápio [sicem voga posando de coitado“?

Perdemos, afinal, todo senso de decência? Não, não tenho raiva. Sinto é…pena.

O que Deus, que está “acima de todos”, diria? Ou dirá? Deus, que disse que nunca mais inundaria a terra:

nunca mais será ceifada nenhuma forma de vida pelas águas de um dilúvio; nunca mais haverá dilúvio para destruir a terra”.

Deus disse também que sempre que houvesse nuvens sobre a terra, e o arco aparecesse nas nuvens, lembrar-se-ia “da eterna aliança entre Deus e todos os seres vivos de todas as espécies sobre a terra”.

E se o Altíssimo mudasse de ideia? E se Deus dissesse que, afinal, a humanidade deu tão errado que é hora de um novo dilúvio?

E se o critério de seleção para o dilúvio fosse aquilo que se diz, espalha, compartilha, no WhatsApp? Já pensaram? Como falei na coluna passada (ler aqui), que tal se Deus fizer uma PEC e alterar o estatuto do purgatório? Então, a partir de agora, o juízo final será feito por Ele a partir do exame do WhatsApp de cada um (e também do twitter e face). Uma olhadinha e Deus manda para o inferno.

Platão foi o primeiro a denunciar as fake news. Platão mostrou que dizer aos néscios que as sombras são sombras é uma coisa perigosa. Pode ser apedrejado. Como o sujeito que saiu da caverna o foi.

Dizer hoje, a quem está mergulhado nas redes e pensa que o mundo são as redes, que esse mundo é imundo, em que o joio fez fagocitose ruim no trigo, pode também ser perigoso. Denunciar isso pode dar apedrejamento. Por isso, Deus acertou em fazer essa PEC alterando o regulamento do purgatório. O critério é simples: uma olhadinha no whatts e face. E, bingo. Vai para o fogo do inferno!

George Steiner bem dizia: tornamo-nos a civilização pós-verbo. A banalização da linguagem, por meio das redes sociais, corrompe a ideia da verdade. O limite do que é socialmente aceito é colocado cada vez mais longe. O que é verdadeiro? Não há mais critérios. O que se pode dizer? Tudo, porque limites já não há.

A era da técnica e das redes sociais, que prometiam a democratização da informação, desenvolveram um vocabulário próprio; estabeleceu-se um novo jogo de linguagem. No lugar do paraíso da horizontalidade, o inferno da barbárie interior que se exterioriza. (“Hipocrisia, que falta você faz”, diz Hélio Schwartsman.)

Será que a blogueira que comemorou a morte do neto de Lula externaria o pensamento na fila do banco?

No princípio era o Verbo. E no fim, o que será? No final era o whattsapp? O facebook?

Nenhum homem é uma ilha. A morte de todo ser humano diminui a nós, que somos parte da humanidade. Talvez as palavras, sempre as palavras, de John Donne nunca tenham sido tão urgentes.

Mas um alerta: não pergunte, afinal, por quem os sinos dobram. A resposta pode vir pelo WhatsApp.

(Pergunto mais uma vez aos macartistas que recusam as regras do jogo de linguagem da decência e aderem ao jogo das redes, e já têm – sempre – comentários prontos: senhoras e senhores, perdemos todo senso de decência?)

Post scriptum: gesto humano foi, dentre outros, o demonstrado por Gilmar Mendes, conforme noticiou Mônica Bergamo (aqui). Também me emocionei quando li a matéria de Mônica. E entendi melhor ainda a minha emoção anterior.

Lenio Luiz Streck é jurista, professor de Direito Constitucional e pós-doutor em Direito

* Artigo publicado originalmente no site Conjur.

O indivíduo indivisível

Por François Silvestre

Cada pessoa é uma consciência universal. Limitada pelo seu caráter, sua instrução e suas conveniências.

E cada um carrega na finitude dos seus limites a dimensão infinita de suas pretensões. Tudo contido num invólucro de sistema, pela multiplicidade; de totum, pela individualidade e de quantum, pela energia. Da mesma forma como Teilhard de Chardin expôs a infinitude universal.

O indivíduo é finito na vida, no alcance, na visão. Mas é infinito na pretensão, nos sonhos e na autoavaliação. Seu universo íntimo, muitas vezes inconfessável, comporta todas as estrelas e ainda sobra espaço para reinventar conquistas alem da compleição espacial.

Talvez por isso, a fugir de sua insignificância, o indivíduo engana-se propositadamente da sua mortalidade. Ao crer no espírito, faz muito mais um exercício de vaidade e soberba do que um gesto de contrição.

Tem uma alma porque é importante e não pode morrer. Mas faz uma concessão.

Um ser superior criou a todos e todos, por ele, serão julgados. E esse ser superior é o guardião de cada um. E cada um se julga o protegido preferencial.

Em todos os lugares e em todos os credos. Na Gurguéia do Piauí, num vilarejo do Nepal ou num edifício dos Emirados Árabes. Claro que na Gurguéia haja mais fantasmas e aparições, pois as almas têm mais tempo livres e mais gente desocupada para vê-las. No Nepal, também. Já nos Emirados, elas nem são notadas.

Mas não se pode viver sem crer. Os deuses são inevitáveis, necessários e imortais. Todos eles. Quando o indivíduo se diz ateu, já está professando um deus. Aquele que ele nega.

Deus existe, mesmo que não exista. Seja como criador do Universo ou criatura da desesperada angústia humana. O deus hebraico, persa, orixá da África ou Tupã do Brasil. Não há homem sem deus. Nem angústia sem sofrimento.

Deus paira impotente no Universo finito da Terra. Cuida do resto e deixa a Terra aos cuidados dos patifes. Tudo sob sua criação.

E negar é uma forma de atestar. Quando o indivíduo nega uma opinião, ele atesta a opinião negada. Até a mentira é uma forma de homenagear a verdade. Ou como disse o Poeta “a mentira é uma verdade que se esqueceu de acontecer”.

O caráter tem cabresto; o desejo, não. Na compleição do caráter a deformação se dá pela ganância. De poder ou de dinheiro. O desejo independe da vontade.

Pois se é o indivíduo uma consciência universal, o que chamamos de sociedade é a soma disso. Ordenada ou não. Institucionalizada pela lei ou bagunçada pelos egos.

O Brasil vive sob o império da mediocridade individual, cuja soma produz o apequenamento do caráter coletivo. Na cabine onde comandam poderes e órgãos, cada um se exibe no seu pedestal de estultice. Consciências universais menores do que as nozes.

Té mais.

François Silvestre é escritor

A fala dos hipócritas

Por Inácio Augusto de Almeida

Isto sempre foi assim e não é você que vai mudar.

Eis o bordão principal dos que se cevam na corrupção e tentam convencer os verdadeiros seguidores de Cristo de que não é possível modificar o quadro de miséria e atraso gerado pela corrupção.

Logo em seguida emendam com o clássico:

Observe como você fica isolado e sofre.

Quantos eram os apóstolos? Uma dúzia, somente uma dúzia. E destes um era falso, o outro O negou por três vezes e os restantes não apareceram no momento de maior sofrimento.

Quem mais viveu isolado neste mundo do que Cristo?

Quem mais mudou o mundo do que Cristo? Terminou numa cruz. Mas por ter pregado e divulgado o conhecimento libertador, o trabalho que engrandece e a honestidade que glorifica, vive até hoje dentro dos corações  de todos os que acreditam no bem.

Quando na idade média os povos viviam na mais extrema miséria para que uma corte corrupta pudesse viver no fausto, os hipócritas de então prometiam um mundo maravilhoso que só seria conseguido através do sofrimento. E assim mantinham os explorados alimentados por esta falsa esperança num conformismo que possibilitava a manutenção daquele sistema altamente injusto.

Mas para os hipócritas de então não era necessário o sofrimento  a fim de alcançar a vida maravilhosa que prometiam aos que conheciam o espectro da fome, trabalhavam de sol a sol e  viam suas filhas serem transformadas em prostitutas para desfrute nos festins da corte corrompida. Festins dos quais os hipócritas participavam, seja no apoio moral que davam à canalhice, seja aproveitando o que para eles eram as delícias da carne.

E aos que levantavam a voz contra toda esta imundície ameaçavam com a fogueira em praça pública. Fogueira que levou à morte tantos gênios da humanidade.

E mesmo depois que mudanças radicais aconteceram, insistiram na manutenção deste modelo imundo.

Quantos não elogiaram a excelente galinha que degustaram nas mesas dos fazendeiros enquanto ouviam os gritos dos escravos sendo açoitados nos pelourinhos? E entre elogios ao almoço delicioso a que manjares de leite e coco se seguiam, validavam  a ignomínia, esquecendo-se que há dois mil anos um homem tinha morrido na cruz por pregar a igualdade entre os filhos de Deus…

Hoje procedem da mesma maneira quando em troca de doações calam frente à corrupção e a injustiça social.  Amortecem as consciências dando a entender a existência  de uma disciplina que os sujeitam a uma obediência servil.

E hipocritamente pregam o amor entre os homens.

Pregam, mas não praticam.

Ou não foi assim quando receberam doações de Mussolini e de Hitler? Alguma vez naquela época denunciaram o genocídio praticado contra os judeus? Calaram.

E até os dias de hoje calam.

Calam porque é conveniente calar. Calam porque as doações falam mais alto.

Assistem a todo tipo de corrupção e calam.

Validam todo tipo de caráter, já que testemunham o canalha afirmar que o outro é corrupto e ao ver os dois juntos lembra-se apenas das possíveis doações que poderão acontecer.

Felizmente, Deus na sua suprema bondade está aos poucos abrindo a visão dos seus filhos. E esta abertura tem que ser aos poucos.

A saída das trevas, se não feita de forma paulatina, pode causar cegueira. E Deus não nos quer cegos.

Deus nos quer livres e FELIZES.

Aos hipócritas a vala do esquecimento.

Que Deus nos proteja.

Inácio Augusto de Almeida é jornalista

Deus@acordamundo.com

Por Francisco Edilson Leite Pinto Júnior

Tem doença que é melhor a gente nunca se tratar: e o amor é uma delas (Ferida que dói e não se sente; descontentamento descontente; dor que desatina sem doer)… Outra doença que agora eu nunca mais vou querer me tratar é a obsessão por horário.

Eu não consigo chegar atrasado a um compromisso! Mesmo sabendo que as pessoas só chegarão duas horas depois do horário marcado, eu não consigo, eu não consigo… E foi essa minha obsessão por pontualidade que me levou a escrever este artigo.

Tudo começou quando fui convidado para fazer uma palestra de abertura em um evento científico. Cheguei, antes do horário – e como tive que esperar bastante para iniciar a palestra:

“Dá pra ser feliz no trabalho?”-, apareceu à oportunidade de conhecer o professor João Bosco Filho, doutor e enfermeiro. Conversamos sobre vários assuntos até que João me falou da sua tese: “As lições do vivo”. Foi aí que conheci uma pessoa incrível, Chico Lucas: homem do campo, que vive na comunidade de Areia Branca Piató. Um verdadeiro DOUTOR da vida!

E Chico disse a João, e este disse a mim: “Deus manda e-mails todos os dias para nós, mas o danado é que a nossa cegueira não consegue enxergar e ler essas mensagens!”… Caramba! Fui dar a palestra, mas aquilo não saía da minha cabeça: Deus, e-mails, cegueira… ora, é claro que Chico Lucas tem razão!

Afinal, Deus nos fez cego (lembram-se de Saramago: “Se podes olhar, vê; se podes ver, repara”?) e aí com “remorso”, querendo corrigir o nosso defeito de fábrica, se utiliza agora destas mensagens para nos fazer acordar, enxergar e reparar os desmantelos do mundo…

Cheguei em casa e fui pegar o livro o “Absurdo e a graça” do filósofo Frances, Jean-Yves Leloup, Pois eu desconfiava que ali, encontraria um email de Deus:

“Nessa noite, com obstinação e desespero, pensei ter procurado minha mochila em todas as latas de lixo da cidade, cerca de cinco horas da manhã, encontrei-me esgotado, em um bar de pescadores, perto da Criée, cais de Rive-Neuve. Desabei em um canto, a cabeça entre os braços, a soluçar como criança. Quando me acalmei, um garçom veio trazer-me um chocolate quente e dois croissants. Disse-lhe que não tinha pedido nada e que não tinha dinheiro. Ele respondeu-me que a senhora tinha pago. ‘Quem?’, perguntei. ‘ah! ela já saiu’… Um chocolate quente e dois croissants: creio que ali fiz minha primeira comunhão. Minhas lágrimas não eram mais as mesmas, eu sentia fundir em mim algo de infinitamente duro, e pela primeira vez, senti o que queria dizer ‘ter um coração’… não gosto nem de chocolate quente nem de croissants, mas não eram mais eles, era a presença real de um ser que é AMOR… Saberá um dia, essa desconhecida, que naquela manhã ela fez sair um condenado de seu inferno?… Sem muito compreender, havia recebido a comunhão e de vagabundo tornei-me um peregrino”…

Pois é caro leitor: Deus manda e-mails sim! E não pense que é só para o exterior não! Até porque como lembra Tolstoi em seu livro: “O reino de Deus está em vós”. Pois, Deus está dentro de cada um de nós… Veja então, um e-mail que Ele mandou para um conterrâneo nosso, o escritor Thiago Gonzaga:

“Sou filho de pais analfabetos. Meu pai morreu quando eu tinha seis anos de idade, minha mãe, empregada doméstica, ficou tomando conta da casa e dos três filhos pequenos. Nunca fomos incentivados a estudar, por pura falta de informação da nossa mãe, que achava, que, o nosso destino era aquele mesmo, de vida pobre e sem ‘visão’, nenhuma de futuro. Fato tão evidente, que, atualmente eu sou único graduado da família. Com a morte do meu pai, eu tive que começar a trabalhar muito novo, e consequentemente largar meus estudos, que pararam no início da terceira serie; deixei de estudar, quando começava a aprender a ler e escrever. Passei quase vinte anos da minha vida, como semianalfabet o, vivendo de ‘bicos’ e subempregos, em oficinas, construções e supermercados. Certo dia, já adulto por volta de 2002, eu procurava emprego nas ruas da cidade, e achei um jornal velho, que me chamou atenção por causa de uma foto, com uma mulher que achei bonita; era Clotilde Tavares. Levei o jornal pra casa, pois queria muito saber o que aquela mulher, com quem eu tinha simpatizado, escrevia. Eu não consegui ler de imediato o texto, passaram-se quase dez dias para compreender um pouco do que ela dizia. Na crônica, ela citava vários nomes e livros de autores potiguares que ela tinha lido e gostado, como Câmara Cascudo, Marize Castro e Luís Carlos Guimarães. Fiquei muito curioso para saber o que esse pessoal escrevia. Na mesma ocasião, minha mãe fazia faxina em um apartamento, e a patroa dela deu alguns livros para ela levar para casa, como incentivo para os filhos lerem; dentre esses livros, vieram alguns potiguares. A lit eratura potiguar abriu minha mente para outras coisas, e comecei a ler de tudo que chegava ás minhas mãos, literatura, filosofia, direito, os clássicos. Depois de ter formado uma pequena biblioteca, decidi que era tempo de voltar a estudar e recuperar o tempo perdido. Em 2004 fiz supletivo de 1º grau. Em 2005 comecei o supletivo de 2º grau (eu estava com 25 anos). Nessa época, a Prefeitura de Natal abriu concurso para Gari, e me inscrevi, como não tinha ainda emprego fixo, nem profissão, pois queria garantir uma estabilidade financeira pra poder comprar meus livros. Comparado a tudo que eu já tinha passado: ser gari era ‘lucro’ pra mim. Continuei comprando e lendo muitos livros, cheguei a ler 135 livros em um ano nesse período. Em 2007, fiz o Enem e ganhei uma bolsa do PROUNI para fazer Letras na UNP; entrei no inicio de 2008. Dediquei-me de corpo e alma ao curso. Quando paguei a disciplina de literatura do RN, a professora Conceição Flores percebeu que eu tinha muita afinidade com a literatura local e me incentivou muito a continuar lendo e estudando, (detalhe: ela não sabia da minha historia e eu não contei pra ela, nem pra ninguém da UNP) os professores só ficaram sabendo no final do curso quando saiu uma matéria comigo no jornal, com o titulo: “O GARI QUE VÊ COMO MISSÃO DIVULGAR A LITERATURA POTIGUAR”.

Bem caro leitor, realmente os emails estão aí, por toda parte: chocolate quente, croissants, pedaços de jornais velhos, etc. etc. enfim, só resta tentar agora enxergar cada uma dessas mensagens!

Acorda mundo! Acorda mundo!

Francisco Edilson leite Pinto Junior– Professor, médico e escritor.