Hoje escrevo sob forte emoção. Minhas mãos tremem mais do que costumam tremer. Meu coração está partido, lacerado. Impossível deter as lágrimas que minam dos meus olhos. Na manhã de ontem, após encontrá-la morta, enterrei Gudãozinho, minha gatinha querida e única companhia nesta casa agora ensombrecida.
Está sepultada no meu quintal. Neste momento, portanto, não tenho amenidades para contar. Estou de luto. A noite vai caindo angustiosa e tristonha.
Anteontem ela saiu para dar o seu habitual passeio noturno e não retornou. Já tarde, antes de ir dormir, chamei por ela várias vezes. Nada de ela aparecer. Costumava atender a esses meus chamamentos, pois sempre dormia dentro de casa. Não dormi direito. Na madrugada, nas vezes que levantei para ir ao banheiro, fui ao quintal e tornei a chamar por Gudãozinho. Inútil. Não apareceu.
Pela manhã, ao me ouvir chamando por Gudãozinho, a dona da casa aos fundos da minha me deu a triste notícia: Gudãozinho e mais dois gatos da rua de trás tinham amanhecido mortos por envenenamento nos quintais próximos. Fui à rua de trás pegar minha gata.
Uma mulher, tutora de um dos gatos mortos, veio falar comigo, os olhos inchados de tanto chorar. Disse-me que achava que o envenenamento foi proposital. De minha parte, ainda atônito, nem sei o que pensar.
O que sei é que minha Gudãozinho se foi com cerca de nove meses de idade. Tinha tanta vida pela frente! Recentemente fora submetida à cirurgia de castração e estava totalmente recuperada, esbanjava saúde e beleza. Quando não se entregava às suas sonecas do meio-dia, passava boa parte do tempo brincando, correndo aqui dentro e pelo quintal, puxando conversa comigo, ronronando.
Essa inesperada e saudável convivência durou seis meses. Resgatei-a da rua, como já falei noutro momento, faminta e com severa desnutrição, com idade aproximada entre dois e três meses. Após algumas idas ao veterinário, medicamentos, cuidados e carinhos, ela não demorou a se fortalecer. Agora tudo isso acabou. Restaram só as lembranças, as coisinhas dela dispostas em seus lugares, como as vasilhas com a água e a ração que ainda não tive coragem de recolher.
Todo dia pela manhã, bem cedinho, pulava para dentro da minha rede a fim de que eu lhe abrisse a porta da cozinha. No móvel empoeirado da televisão vejo que deixou gravadas as suas pegadas. As caixas com que ela gostava de brincar, a caminha e a caixa com areia continuam no primeiro quarto. Não toquei em nada. Parece-me (ao menos tenho a impressão) de que ela não morreu.
Tento, porém, encarar a realidade, o triste fim de Gudãozinho. Sua imagem está intacta na minha cabeça. Enxergo-a nitidamente: os olhinhos azuis e vívidos, a pelagem felpuda, toda branquinha como o algodão, exceto por alguns tons de cinza nas orelhas, nas extremidades das patas e da farta cauda.
Era muito comunicativa, chamava minha atenção o tempo todo com seu ronronar. Uma hora roçava nos meus tornozelos, daí a pouco disparava, punha-se a brincar, traquinas.
É isto. Não vou me estender. Não reúno condições para continuar escrevendo, embora o meu coração esteja cheio de sentimentos para desabafar. No mais, portanto, me faltam palavras para descrever o quanto estou triste pela morte de Gudãozinho. Que o prezado leitor e a gentil leitora, ao menos hoje, aceitem por crônica esta nota de falecimento. Agora preciso de alguns dias de luto.
Marcos Ferreira é escritor
