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Bichos de sete cabeças

Por Bruno Ernesto

Gatos da Rua Chile em Natal, em 10 de novembro de 2025 (Foto: Bruno Ernesto)
Gatos da Rua Chile em Natal, em 10 de novembro de 2025 (Foto: Bruno Ernesto)

Que os gatos são místicos, os egípcios já sabiam disso há mais de cinco mil anos. E se você reparar bem, talvez o segredo deles seja levar uma vida sem muitos protocolos.

Essa aura, e o estilo de vida deles, bem que poderiam ter sido aplicadas indistintamente aos humanos. Talvez nos poupasse de muita coisa a longo da vida. Do dia já seria excelente, convenhamos.

A outra fama de que eles são boçais e que desprezam as pessoas, é muito injusta. Quer dizer: nem tanto. Às vezes é bom nos comportarmos como os gatos e, em certas situações, não seria má ideia ver, fingir que não é com você e ignorar solenemente. É plenamente compreensível.

Quem convive com gato, sabe que nada fica no mesmo lugar se ele achar interessante derrubar, e nem um estofado se livrará das suas unhas se ele achar que ali é um bom lugar para relaxar.

Todavia, se ele quiser passar despercebido, ele singrará por entre plantas, copos, garrafas, livros, móveis e cristais e você jamais saberá que ele esteve ali.

Na hipnagogia, enquanto você tenta dormir às dezesseis horas do domingo, após ler três ou quatro folhas de um livro que você teima em não terminar, talvez ele mie escandalosamente ao pé da porta até você levantar e ir lá abri-la para, depois, solenemente, ele desistir de sair e, ao invés, caminhar vagarosamente para a cozinha, para ali cochilar numa cadeira; não sem antes lhe encarar de soslaio e bocejar, como quem diz:

 – Apague a luz e saia daqui.

– De meia em meia hora venha me ver.

– Talvez me esconda e você pensará que fugi. Ficarei lhe observando lá de cima do armário enquanto você corre pela casa e me procura por todos os cantos. Menos neste.

– Talvez eu mude de ideia, se não cochilar.

Quem é meticuloso demais, irredutível demais, insistente demais, certo de tudo demais, compreensível demais, clemente demais, sorridente demais, triste demais, aberto demais, fechado demais e tudo demasiadamente demais – até mais que o próprio pleonasmo -, precisa de um gato para se aprumar.

Não faça um bicho de sete cabeças por tudo, pois a vida requer outro ritmo e nada há de errado em mudar de ideia sem dar explicação.

Bruno Ernesto é advogado, professor e escritor

Triste fim de Gudãozinho

adesivo-de-parede-pata-de-cachorro-gato-com-coracao-2-carinhoPor Marcos Ferreira

Hoje escrevo sob forte emoção. Minhas mãos tremem mais do que costumam tremer. Meu coração está partido, lacerado. Impossível deter as lágrimas que minam dos meus olhos. Na manhã de ontem, após encontrá-la morta, enterrei Gudãozinho, minha gatinha querida e única companhia nesta casa agora ensombrecida.

Está sepultada no meu quintal. Neste momento, portanto, não tenho amenidades para contar. Estou de luto. A noite vai caindo angustiosa e tristonha.

Anteontem ela saiu para dar o seu habitual passeio noturno e não retornou. Já tarde, antes de ir dormir, chamei por ela várias vezes. Nada de ela aparecer. Costumava atender a esses meus chamamentos, pois sempre dormia dentro de casa. Não dormi direito. Na madrugada, nas vezes que levantei para ir ao banheiro, fui ao quintal e tornei a chamar por Gudãozinho. Inútil. Não apareceu.

Pela manhã, ao me ouvir chamando por Gudãozinho, a dona da casa aos fundos da minha me deu a triste notícia: Gudãozinho e mais dois gatos da rua de trás tinham amanhecido mortos por envenenamento nos quintais próximos. Fui à rua de trás pegar minha gata.

Uma mulher, tutora de um dos gatos mortos, veio falar comigo, os olhos inchados de tanto chorar. Disse-me que achava que o envenenamento foi proposital. De minha parte, ainda atônito, nem sei o que pensar.

O que sei é que minha Gudãozinho se foi com cerca de nove meses de idade. Tinha tanta vida pela frente! Recentemente fora submetida à cirurgia de castração e estava totalmente recuperada, esbanjava saúde e beleza. Quando não se entregava às suas sonecas do meio-dia, passava boa parte do tempo brincando, correndo aqui dentro e pelo quintal, puxando conversa comigo, ronronando.

Essa inesperada e saudável convivência durou seis meses. Resgatei-a da rua, como já falei noutro momento, faminta e com severa desnutrição, com idade aproximada entre dois e três meses. Após algumas idas ao veterinário, medicamentos, cuidados e carinhos, ela não demorou a se fortalecer. Agora tudo isso acabou. Restaram só as lembranças, as coisinhas dela dispostas em seus lugares, como as vasilhas com a água e a ração que ainda não tive coragem de recolher.

Todo dia pela manhã, bem cedinho, pulava para dentro da minha rede a fim de que eu lhe abrisse a porta da cozinha. No móvel empoeirado da televisão vejo que deixou gravadas as suas pegadas. As caixas com que ela gostava de brincar, a caminha e a caixa com areia continuam no primeiro quarto. Não toquei em nada. Parece-me (ao menos tenho a impressão) de que ela não morreu.

Tento, porém, encarar a realidade, o triste fim de Gudãozinho. Sua imagem está intacta na minha cabeça. Enxergo-a nitidamente: os olhinhos azuis e vívidos, a pelagem felpuda, toda branquinha como o algodão, exceto por alguns tons de cinza nas orelhas, nas extremidades das patas e da farta cauda.

Era muito comunicativa, chamava minha atenção o tempo todo com seu ronronar. Uma hora roçava nos meus tornozelos, daí a pouco disparava, punha-se a brincar, traquinas.

É isto. Não vou me estender. Não reúno condições para continuar escrevendo, embora o meu coração esteja cheio de sentimentos para desabafar. No mais, portanto, me faltam palavras para descrever o quanto estou triste pela morte de Gudãozinho. Que o prezado leitor e a gentil leitora, ao menos hoje, aceitem por crônica esta nota de falecimento. Agora preciso de alguns dias de luto.

Marcos Ferreira é escritor

Crepúsculo do domingo

Por Marcos Ferreira

Meu muro frontal é baixo, conforme declarei num texto publicado não faz muito tempo. Deito os olhos no comprido da rua. O domingo boceja sob um manto de arrebol. O domingo vai saindo de cena feito um velho exausto. Sim, examino esta estreita e esburacada Euclides Deocleciano à hora do crepúsculo. Para ser mais dramático, talvez à maneira de um poeta parnasiano, digo que o domingo está morrendo, agonizando em lânguidos raios sanguíneos na linha do horizonte.

Já não mais é tarde nem ainda é noite. Há um impasse entre o claro e o escuro. O tempo se encontra momentaneamente enguiçado no lusco-fusco, todavia pende devagarinho para os braços da noite. Assim mesmo nos restam uns retalhos de claridade solar. Os tensos postes desta via, como militares em fileira, continuam apagados. Logo, entretanto, acenderão as suas fortes luminárias de led.gato debaixo de pano

Não há cadeiras nas calçadas. Suponho que meus vizinhos esticaram a sesta, estão ocultos em suas casas, possivelmente deitados, curtindo o ócio após uma semana puxada. Sobretudo as donas de casa, que parecem nunca ter descanso, reféns da herança maldita das infindáveis tarefas domésticas. É injusta, machista, essa cultura que impele as mulheres aos afazeres do lar, enquanto a marmanjada assiste a futebol na televisão, no bem-bom do sofá, de uma cama ou de uma rede.

O vento açoita as acácias, derrubando folhas secas; ergue poeira dos paralelepípedos sujos e tortos. Dois vira-latas brincam de gato e rato, gozando da ausência de veículos. Só agora, a propósito, surge uma picape de vidros fumês. Os cães suspendem a brincadeira por um instante e a retomam logo após. A seguir um levanta a perna e urina ao pé do poste sobre a calçada da senhora Raimunda.

Os pássaros começam a se recolher na mangueira aos fundos. Uns quatro morcegos dão voos rasantes de uma ponta à outra do meu quintal, passam raspando sobre o muro, ganham o espaço aéreo da rua e, audazes, repetem essa e outras manobras arrojadas. Onde estão as andorinhas? Alguém sabe dizer? Nem sei a última vez que as avistei. Este céu sem andorinhas é como um mar sem o sobrevoo de gaivotas. Sequer há pombos. Noto que os pombos também andam sumidos.

A senhora Raimunda surge na calçada com uma vassoura. Põe-se a varrer a cerâmica rústica. A poeira sobe. Alguns minutos depois, quiçá ofegante, interrompe a varrição. Olha para um lado e outro, porém não se dá conta da minha espreita. Percebe que um motoqueiro se aproxima e volta para dentro. Ela sabe que há ocorrências de assaltos no bairro. Agora surgem dois gatos no terreiro de Cristina, a vizinha aqui defronte. É um bichano amarelo e o outro é um cinza felpudo.

Após farejarem e demarcarem o perímetro, os cachorros dobraram a esquina da lanchonete de Zecão. Nenhum possui coleira. Possivelmente alguém lhes reivindique a tutela, contudo vivem soltos. São animais dóceis e ordeiros. Exceto por alguns sacos de lixo que, vez por outra, aparecem rasgados nas calçadas. Semana passada, por exemplo, ouvi a senhora Raimunda contrariada por causa disso.

— Que cachorros safados! — ralhava sozinha.

O vento assobia. Às vezes semelha um uivo nas rótulas das portas e janelas; ergue a areia das pedras, desacata os ramos das árvores e os fios do posteamento. O bairro inteiro parece imerso numa atmosfera modorrenta. Os rádios estão mudos. Por incrível que pareça, não ouço os aparelhos de som executando o nauseante gosto musical de alguns cidadãos. Tenho estômago fraco para certos sucessos gritados por uma récua de cuspidores de microfone que se consideram artistas.

Neste momento são os gatos que aproveitam a ausência daquela dupla de vira-latas brincalhões. Os felinos, como é típico da espécie, também brincam, encenam um combate inofensivo. Um salta sobre o outro, rolam pelo chão. O amarelinho, um tanto menor, dá um zapetrape no cinza, que reage da mesma forma. A senhora Raimunda retorna à calçada, posto que o motoqueiro vai longe.

Vem outro carro. Passa devagar. Os gatos sobem a calçada. A senhora Raimunda não receia o condutor do automóvel. Decerto acredita que indivíduos atrás de um volante não cometem crimes à mão armada, só os que pilotam motocicletas. É verdade, seja dito, que pouco se tem notícia de assaltantes guiando carros. A predominância (e daí advém o preconceito) é dos criminosos sobre motocicletas. Eu mesmo presenciei um vizinho sendo pilhado aqui diante do meu portão.

Dois sujeitos armados tomaram a carteira e o celular do homem. Fiquei me tremendo do lado de cá do muro. Recordei que trinta anos atrás sofri esse tipo de violência. Novamente dois bandidos. Um deles (ambos estavam encapuzados) botou o revólver atrás da minha cabeça. Nessa ocasião sequer me assustei. Horas depois, porém, bateu aquele mal-estar, uma sensação de quase morte.

Enfim os postes acenderam. Os morcegos intensificam as acrobacias aéreas. É incrível como não esbarram em nada. Ainda não são dezoito horas. Está próximo da noite se configurar. Pouco a pouco, em pontos esparsos, vão surgindo alguns moradores. A rua vai ganhando vida. A senhora Raimunda já se encontra sentada numa cadeira na calçada, em companhia da nora Navegante, também numa cadeira de balanço, tendo sobre o colo sua pequena e mimada cadela Pretinha.

Dentro de minha casa já está escuro. Penso em acender as luzes, no entanto me detenho por mais uns minutos observando a paisagem da Euclides Deocleciano. Zecão aparece na calçada, nu da cintura para cima, trajando bermuda estampada e sandálias de borracha. Hoje, pelo que percebo, não abrirá a lanchonete. Será que tem jogo do Flamengo? Sim, ele é flamenguista, e do tipo apaixonado.

Chega a ser divertido ouvi-lo torcendo em dia de jogo. É um show à parte. Se o time está perdendo ou no sufoco, xinga os jogadores, critica o técnico, esculhamba o juiz, larga um palavrão aqui, outro acolá. Ninguém se aborrece com Zecão. Os vizinhos gostam dele. Inclusive eu, que nutro, digamos assim, uma simpatia pelo rubro-negro. Isto, devo dizer, sem nunca ter vestido uma camisa do Flamengo. Só me interesso mesmo se o time já estiver na iminência de ser campeão.

O domingo está praticamente liquidado. Volto para dentro e acendo as luzes. Minha gata Gudãozinho ronrona aos meus pés. Olho a panelinha dela e coloco mais um pouco de ração. Sento à mesa e tento finalizar esta crônica crepuscular de modo a compensar o tempo empregado pelas senhoras e senhores. Eis um final nada brilhante, mas é o que eu tenho para hoje. Zecão acabou de gritar gol.

Com licença. Vou dar uma olhadinha no jogo.

Marcos Ferreira é escritor

Gatos e cachorros no palácio

Nesse momento de vácuo e instabilidade no poder, em Mossoró, fica fácil distinguir cachorro de gato, no Palácio da Resistência (sede da prefeitura).

Gato gosta da casa; cachorro, do dono – atesta um adágio japonês.

Uns, por sua natureza, sempre paparicam o prefeito (a) de ocasião. Zelam pela “sombra” na boa casa; outros, na verdade, são fieis à pessoa (gente rara).

Qualquer dúvida, é só olhar o ostracismo a que foi relegada a ex-prefeita Fafá Rosado (PMDB)…

Saber separar gato de cachorro e utilizá-los no que possuem de melhor, é tarefa para líderes e não chefes, que costumam misturar as pelagens e terminam vítimas dos gatos, por não valorizarem os cachorros.

É a sapiência oriental que nos ensina…

Aprendamos!

Gatos e cachorros na ‘casa’ do poder

Os japoneses tem um axioma milenar, que particularmente contesto, por conhecer bem os animais postos em comparação, numa analogia aos homens. Mesmo assim, o conceito merece ser repetido:

– Cachoro gosta do dono; gato gosta da casa.

Nesses tempos de quase transição do poder numa certa cidade do interior do Rio Grande do Norte, é fácil perceber o movimento dos ‘felinos’. Transitam entre salas, cubículos, escadarias, salões, mesas e cadeiras.

Não vêem a hora de encontrar os novos ‘donos’ para se enroscarem entre suas pernas. Precisam ser simpáticos.

Eles querem continuar na ‘casa’.