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Chega de saudade – mas ela fica

Por Gaudêncio Torquato

Praça no Centro de Luís Gomes (Foto: Web)
Praça no Centro de Luís Gomes (Foto: Web)

A festa de Senhora Sant’Ana ocorre no dia 26 de julho. Data marcada no calendário da alma. Em Luís Gomes, esse dia nunca foi apenas religioso: era um chamado. Um convite para voltar — quem estava longe — ou para se reconhecer — quem nunca saiu. A cidade, plantada no alto da serra, parecia respirar mais fundo nessa época, como se soubesse que era o seu momento de se oferecer inteira.

Recordo os velhos tempos de outrora, bucólicos e suaves, quando o mundo era pequeno e, por isso mesmo, imenso. Tempos em que os namoros juntavam os namorados na calçada da casa da moça, sob o olhar atento — e fingidamente distraído — dos pais. Bastava um banco, a lua e uma conversa sem pressa. Amar era simples.

A meninada se esbaldava na chuva. Bastava o céu escurecer e os pingos engrossarem para que surgissem corridas, gritos e gargalhadas. O prêmio era tomar banho nas biqueiras dos telhados, como se cada queda d’água fosse uma cachoeira particular. Ninguém pensava em gripe, perigo ou censura: era alegria pura escorrendo pelos corpos.

À noite, depois do desligamento do motor, a cidade mergulhava numa escuridão cúmplice. Era então que os grupinhos de amigos se reuniam na praça central. Conversas soltas, planos improváveis, silêncios confortáveis. A luz vinha das estrelas — e da intimidade.

Havia também as aventuras quase proibidas: os mergulhos nos grandes caixões do fazendeiro e político Gaudêncio Torquato do Rego, onde se guardavam o algodão e a farinha. Para nós, eram piscinas improvisadas, territórios de ousadia, histórias que ainda hoje arrancam risos.

A vida era um passeio no engenho de rapadura, um ritual na bolandeira onde se produzia a farinha. Tudo tinha cheiro, som e sentido. O açúcar não vinha da prateleira: nascia do esforço. A comida tinha história antes de ter sabor.

Os estudantes universitários — orgulho da cidade — se reuniam na calçada da farmácia de Valdecir Pascoal. Ali se falava das experiências de cada um, dos desafios fora de casa, dos sonhos grandes demais para a serra — e, claro, se fofocava sobre a vida alheia, porque nenhuma comunidade vive sem seus pequenos enredos paralelos.

Foram tempos dos padres Miguel Nunes, Raimundo Caramuru de Barros, Valdécio Lopes e do amado padre Oswaldo Rocha, figuras que moldaram consciências, apaziguaram conflitos e ensinaram que fé também é gesto cotidiano.

Foram tempos de bons amigos: José Hildo Fernandes, Istênio Pascoal, Augusto de Maria Vicenza, João Batista, Valter Sandi — nomes que hoje soam como capítulos de um livro que só nós sabemos ler por inteiro.

Como esquecer o Grupo Escolar Coronel Fernandes, diligentemente dirigido pelo professor Chico Dubas, onde se aprendia mais do que letras e números: aprendia-se a ser gente.

E havia o brincalhão Severino Ramos, que dizia querer morrer num desastre de avião que cairia na Rua Nova, em Recife. Sonhava até com a manchete do jornal no dia seguinte: “Morreu em plena Rua Nova o trabalhador Severino Ramos”. Ríamos, sem imaginar que certas histórias sobrevivem justamente porque nunca aconteceram.

A cidade respirava ar puro. As ruas eram cheias de árvores, ainda sem asfalto, e o tempo parecia ter feito um acordo com a tranquilidade. E havia a linguiça de Tia Bebi — gostosíssima, insubstituível, memória que insiste em reaparecer sempre que a saudade aperta o estômago.

Luís Gomes era o centro do mundo. A maior referência geográfica de nossas vidas. Tudo partia dali. Tudo voltava para lá.

Chega de saudade, eu digo. Mas ela fica. Fica porque há lugares que não passam. Apenas se transformam em nós.

Gaudêncio Torquato é jornalista, escritor, consultor e professor

Gaudêncio Torquato é eleito à Academia Norte-rio-grandense de Letras

Gaudêncio e o editor dessa página em evento político em 2018 (Foto: arquivo)
Gaudêncio e o editor dessa página em evento político em 2018 (Foto: arquivo)

Gaudêncio Torquato é o mais novo integrante da Academia Norte-rio-grandense de Letras.

Sua eleição aconteceu nessa sexta-feira (16). Ele vai ocupar a cadeira que teve como último acadêmico o escritor Nelson Patriota (veja AQUI).

Professor da Universidade de São Paulo (USP), consultor político e de marketing, jornalista e escritor, Gaudêncio nasceu em 8 de abril de 1945 (76 anos), em Luís Gomes – Alto Oeste do RN.

Há décadas está radicado em São Paulo-SP, com intensa atividade intelectual.

– Acabo de ser comunicado pela secretária da Academia Norte-Rio-grandense de Letras, acadêmica Leide Câmara, que passo a integrar a renomada instituição criada em 1936 por um grupo de intelectuais, à frente um dos mais notáveis nomes da cultura brasileira, o mestre Câmara Cascudo, e hoje comandada pelo poeta, professor, advogado e escritor Diógenes da Cunha Lima – manifestou-se.

Nota do Blog – Aplausos, meu caro Gaudêncio.

Parabéns por mais esse êxito.

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Oposição apresenta nova chapa à Prefeitura Municipal

Nilton (centro) apresentou chapa (Foto: Soraya Vieira)

Reviravolta na oposição em Pau dos Ferros. Como já era cantado em prosa e verso, o ex-prefeito Nilton Figueiredo (PL) não levou adiante sua postulação a novo mandato.

O recuo tem justificativa em obstrução legal, mas não o impediu de participar de articulação para escolha de chapa que venha a enfrentar o prefeito e candidato à reeleição Leonardo Rêgo (DEM).

Nessa sexta-feira (25), Nilton apresentou os nomes da advogada Marianna Almeida (PSD) e do vereador Renato Alves (PL).

Mariana já tinha sido anunciada como vice do próprio Nilton no último dia 4 de setembro (veja AQUI).

Agora, é içada à condição de cabeça de chapa, numa costura política que tem participação do deputado estadual Gaudêncio Torquato (PSD).

O outro candidato a prefeito é o médico e vice-prefeito atual de São Miguel, Salismar Correia (Solidariedade).

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Violência contra imprensa se avoluma em campanha

Por Gaudêncio Torquato (No Twitter)

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo já soma 130 agressões relacionadas à cobertura das eleições.

O texto é da jornalista Maria Cristina Fernandes no jornal Valor Econômico de hoje.

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PR realiza último encontro regional neste sábado

João: líder (Foto: Arquivo)

O Partido da República (PR) realiza agora (sábado, 07), o seu “Grande Encontro” estadual.

Acontece no Espaço América Futebol Clube, no Tiro, em Natal.

Reúne lideranças de Natal, Grande Natal e todo o Rio Grande do Norte.

Gaudêncio Torquato, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), jornalista, consultor e analista político, é o palestrante convidado, para abordar o tema “Momento político atual”.

O evento fecha ciclo de encontros regionais promovidos pelo partido nos últimos meses, que abrangeu todas as regiões do estado, sob o comando do seu presidente, pré-candidato a deputado federal João Maia.

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PR fará evento em Natal antes de importantes definições

Gaudêncio: palestra (Foto: BCS)

O Partido da República (PR) fará no próximo sábado (07), o seu “Grande Encontro” estadual. Fechará o ciclo de uma série de eventos regionais em municípios do interior, no Espaço América Futebol Clube, no Tirol, a partir das 9h.

O encontro irá reunir lideranças de Natal, Grande Natal e todo o Rio Grande do Norte.

Como convidado especial, Gaudêncio Torquato, professor titular da Universidade de São Paulo (USP), jornalista, consultor e analista político, que fará uma palestra com tema “Momento político atual”.

Depois do encerramento dessa etapa preparatória para a campanha estadual, o PR vai apresentar definições nos próximos dias sobre sua política de alianças e apoio a chapas majoritárias (Governo e Senado).

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Livro “Só Rindo” é novamente destaque em coluna nacional

O jornalista, professor e consultor de marketing Gaudêncio Torquato deu outro generoso espaço para o editor do Blog Carlos Santos.

Na edição de hoje (quarta-feira, 7) de sua coluna Porandubas Políticas no site Migalhas, publicou mais uma das histórias do nosso livro “Só Rindo II – A política do bom humor do palanque aos bastidores”, sob o título “Jumento, burro e o voto”.

Leia abaixo sua postagem:

Abro a coluna com uma historinha de Mossoró, contada pelo amigo Carlos Santos, com quem me encontrei nesta última segunda-feira.

Jumento, burro e o voto

Candidato a vereador em Mossoró (2004), “Ricardo de Dodoca” assusta-se à porta de uma eleitora na periferia da cidade. Olhos arregalados, oxigênio quase faltando, ele depara-se com um cartaz do adversário Flávio Tácito à parede de “comadre Maria”. Ela, teoricamente sua eleitora fiel. Com sinceridade angelical, própria das crianças, uma menina reforça a informação visual:

– Mamãe não vai votar no senhor!

– Por quê? – balbucia Ricardo.

-Porque o “padre” (como é conhecido Flávio) deu um jumento para ela.

– Ih… Ih… E o burro sou eu, que levou esse coice – constata o candidato com gagueira acentuada. (Livro Só Rindo 2)

Veja AQUI a postagem original no Migalhas.

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Flávio Rocha será candidato a presidência da República

Consultor político-eleitoral, professor e autor de diversos livros sobre marketing, o potiguar luís-gomense Gaudêncio Torquato esteve em Mossoró nessa segunda-feira (6).

Fez parte da comitiva do empresário e CEO do Grupo Riachuelo, Flávio Rocha, acompanhando o lançamento na cidade do “Movimento Brasil 200” (veja AQUI).

Em seus endereços em redes sociais, tascou:

– Flávio Rocha, empresário de perfil corajoso, define-se: será candidato à Presidência da República. Ouvi dele. A conferir.

Nota do Blog –  Estive com o professor Gaudêncio Torquato no evento. Feliz encontro, que se diga.

Ele já publicou várias histórias dos meus livros “Só Rindo – A política do bom humor do palanque aos bastidores” (I e II), em sua coluna digital “Porandubas” no site “Migalhas.”

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Uso de programa de governo em campanha complica Robinson

Robinson, Gaudêncio e José Gaudêncio em 2016 (Foto: divulgação)

O Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) abriu Inquérito Civil Público para investigar um possível ato de improbidade administrativa por parte do governador Robinson Faria (PSD).

Na publicação, o MPRN diz que levou em consideração “o teor da representação autuada como Notícia de Fato n.º 242/2016, na qual é atribuída ao governador do Rio Grande do Norte a conduta de ter favorecido o então candidato a prefeito de São Miguel, José Gaudêncio Diógenes Torquato (PSD), ao promover e participar pessoalmente do lançamento do Programa ‘Microcrédito Empreendedor’ no citado município em 10 de setembro de 2016”.

Ainda de acordo com o Ministério Público, “na data em questão, também estava programada, no largo do Mercado de São Miguel, a realização do comício da coligação “O Trabalho Vai Voltar”, evento encabeçado pelo então candidato a prefeito José Gaudêncio Diógenes Torquato e pelo seu irmão e deputado estadual José Galeno Diógenes Torquato (PSD)”.

A eleição foi vencida por José Gaudêncio.

Com informações do MPRN.

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O pleito eleitoral e os tipos

Por Gaudêncio Torquato

A campanha eleitoral deste ano será emblemática: mais curta, menos espetacularizada,  mais objetiva e parca de recursos, e se desenvolverá sob o pano de fundo das crises econômica, política, moral e de gestão. Serão eleitos 5.568 prefeitos e cerca de 56 mil vereadores. Qual o perfil dos futuros comandantes dos Executivos municipais?

A princípio, saltam à vista algumas posições: ante a estreiteza de recursos, os candidatos de boas condições econômicas teriam vantagem, a partir da organização de estruturas mais fortes e consequente maior aparato midiático; perfis mais conhecidos, inclusive políticos tradicionais e celebridades, construiriam sinais mais fortes no sistema cognitivo do eleitor; o clima de insatisfação social, a partir dos milhões (entre quatro e cinco) de pessoas que desceram da classe C para as classes D e E, aponta para uma opção do eleitor por candidatos identificados como contraponto ao status quo.

A ocorrer esta tendência, a campanha municipal receberá forte influencia do que podemos chamar de Produto Nacional Bruto da Infelicidade, que agrega as demandas nas frentes sociais – principalmente nas áreas da saúde e educação -, e bolsos comprimidos pela perda de emprego, renda e inflação alta.

A carga de escândalos que corrói o tecido político, e que ganha ênfase nos eventos do mensalão e do petrolão, gera impactos sobre os atores políticos, mas o PT, que comanda o país há 10 anos, deverá receber a maior repulsa do eleitorado, podendo se prever diminuição de seus comandos nos municípios. Significa dizer que a rejeição à mandatária-mor, Dilma Rousseff, respingará nos espaços locais, ao contrário da tradição, quando a federalização das campanhas municipais só ocorria em grandes centros urbanos, puxada pela polarização entre PT e PSDB.

Sob essa moldura, veremos um desfile de tipos, com ênfase para o grupo que mais condiz com o espírito do tempo presente: os assépticos. É previsível a ascensão de perfis distanciados da velha política, aqueles que poderão desfraldar seu lema: passado limpo, vida decente. Para se respaldar nesse refrão, esses candidatos certamente têm pouco tempo de vida partidária e muitos até podem estar ingressando só agora na seara política. Serão os candidatos na faixa de 30 a 50 anos. Ganharão confiança e terão o voto para mudar o disco.

Face às demandas gritantes das comunidades, o discurso de compromisso com programas sociais continuará a ser aplaudido. Nessa trilha, entrarão os perfis identificados com os braços sociais da municipalidade. Alguns já exercem atividades de assistência nas localidades e, sob esse trunfo, terão grande oportunidade de êxito. Não se pode negar a força dos políticostradicionais, aqueles que dominam a política local, formando currais e exercendo o populismo.

Infelizmente, continuarão a ser eleitos, porque a mudança política não ocorre de maneira abrupta. Em função de circunstâncias e situações criadas pela erosão política, empresários (pequeno e médio porte) serão chamados pelas comunidades para ingressar na esfera executiva municipal. Muitos vêem seus negócios em queda e aproveitarão o momento do país para experimentar outros caminhos.

Teremos um bom núcleo de candidatos saídos das frentes da religião (igrejas, credos, evangelhos). Na crise, expande-se o impulso da fé. Os eventuais candidatos desse grupamento até podem não ganhar o apoio de toda a comunidade, mas fecharão densos núcleos em torno de seus nomes. Terão chance em campanhas com muitas candidaturas.

Profissionais liberais – médicos, engenheiros, arquitetos, advogados, professores-, compõem um grupo muito respeitado na comunidade. Por seus méritos, serão chamados a compor chapas. A batalha dos gêneros ganha evidência em função da crise que solapa a esfera da representação política. A mulher é vista como uma pessoa que cuida melhor da casa, da família, da educação dos filhos. Tal imagem se transfere à política, embora saibamos que a corrupção não seleciona gênero. Teremos uma grande leva de candidatas.

Como já está dito anteriormente, esportistascelebridades – estrelas do Estado-Espetáculo -, pela ampla visibilidade alcançada nos campos, palcos e palanques formarão um contingente bastante competitivo. Terão muitos votos de bolsões das margens sociais. Haverá uma frente constituída por tipos com um discurso fortemente oposicionista contra os atuais governantes.

A linguagem oposicionista será muito ouvida e aplaudida em tempos de vacas magras. Ser contra é maneira de atrair os indignados.

Uma observação de pé de página. Por todas as regiões, ao lado dos eleitores Sem-Emprego, Sem-Terra, Sem-Teto, Sem-Escola, veremos também a categoria dos Sem-Discurso. Trata-se do contingente de competidores que apresentarão aos eleitores, em outubro, uma boca cheia de intenções, um bolso com dinheiro ralo e uma cabeça deserdada de ideias.

O país conta ainda com uma boa fornada de oportunistas Sem-Discurso, que se aproveitam da situação para subir na escada da vida.

Grande parcela dos 5.568 municípios deverá abrigar candidatos Sem-Discurso, até porque do tumulto das crises – política, econômica, moral e de gestão – emerge uma Torre de Babel que abre espaço para a banalização de escândalos e consequente nivelamento de perfis. Daí crescer a impressão de que todos são iguais. Ademais, nas últimas décadas, as doutrinas feneceram, as utopias faleceram, as tecnocracias se expandiram e as esperanças dão adeus.

A competição política é cada vez menos ancorada em ideologia. A administração das coisas substitui o governo dos homens. A matéria toma o lugar do espírito. No meio da lama moral, a sociedade clama por mais ação, mais verbas e menos verbos. Por falta de coisas concretas, substantivos e adjetivos tentam suprir o vácuo.

Os Sem-Discurso encherão o tempo dos eleitores com uma linguagem tatibitate. Vazia, sem propostas. A esperança é que o voto sai do coração para ocupar a cabeça. E assim será mais difícil comprar gato por lebre.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, além de consultor político e de marketing

As portas do amanhã

Por Gaudêncio Torquato

A maneira como os atores políticos jogam suas cartas no tabuleiro define o estilo de governar, podendo empurrar o País para a frente ou para trás. No caso brasileiro, o estilo é de ataque recíproco, que caracteriza o jogo de soma zero. É o que estamos assistindo. De um lado, as forças oposicionistas procuram jogar sobre o governo Dilma os desacertos da economia e as perdas sociais. De outro, as forças situacionistas, mesmo dispersas e diminuídas, tentam segurar a presidente na cadeira do Planalto. A briga de foice no escuro correrá até os idos de outubro de 2018.

“A adoção do Orçamento impositivo, pelo qual os recursos alocados pelo Parlamento serão usados nos fins destinados, sem manobras do Executivo, será uma das formas de equilíbrio de forças”.

Os contendores, em intenso conflito, procuram assumir o controle das ações de forma a ganhar os torneios (decisões do STF, julgamentos no TCU, votações parlamentares, escapadas da Operação Lava Jato) a qualquer custo. Há, porém, um modo diferente e oposto de fazer política: é a ação plural e proativa, voltada para a criação de recursos. Nesse caso, os participantes se esforçariam para melhorar os vetores da administração, buscando benefícios oriundos da educação, da cultura ou da pesquisa técnico-científica nos mais variados campos. Os países que avançam mais rapidamente são os que optam por esse modelo.

A história da ciência do planejamento registra dois exemplos clássicos para denotar visões opostas: o caso de Hitler, na 2a Guerra, típico da disputa por tirar recursos de outros para redistribuí-los (jogo de soma zero), e o do Japão pós-guerra, caso notável de estilo superior de criação de recursos e oportunidades.

Não é o caso do Brasil, onde a integração de forças suprapartidárias para superar a crise se torna a cada dia mais difícil, para não dizer impossível. Infelizmente, entre nós, o que se vê é uma feroz queda de braço, um jogo de perde-ganha. E pelas escaramuças a que já começamos a assistir, ultimamente, o jogo de soma zero deverá ganhar status oficial no tabuleiro eleitoral de 2016 e 2018.

Para escapar dessa perspectiva, impõe-se aos contendores o dever de avaliar os altos interesses da Nação, e não se deixar levar pelas baixas correntes que deságuam no oceano da mediocridade. O Brasil carece sair do ramerrão inócuo. Mas essa saída, pelo que se infere, só será possível após a tormenta da Operação Lava Jato e quando a economia der sinais de que está melhorando a vida das pessoas.

Depois disso, o que pode ser feito? Primeiro, substituir a guerra entre forças de oposição e situação por uma ação plena e rica de propósitos comuns. Há de se considerar que o país precisa fechar o ciclo da redemocratização iniciado em 1984 e abrir uma nova era.

A bandeira desse novo marco poderia ser este: democratizar a democracia, dar vazão ao esforço, que algumas nações já vêm empreendendo, para expandir a participação social no processo decisório, por meio de núcleos e entidades, visando a aumentar a inclusão social, melhorar as condições do trabalho, qualificar as políticas públicas, proteger o meio ambiente e os direitos humanos e evitar as pandemias (a cada temporada de verão, o país padece de uma epidemia, bastando ver a onda de microcefalia que se espraia).

A estratégia tem como lume o incremento da democracia participativa. Nessa esteira, emerge outro eixo, a busca de um projeto amplo para o País, consoante com o nosso estágio civilizatório. Programas dispersos, canhestros, para atender a conveniências eleitoreiras, serão substituídos por planos essenciais, integradores de necessidades geográficas, sociais e econômicas. No lugar de obras grandiosas ou projetos com viés de marketing – PACs, Bolsas Famílias, Minhas Casas, Minhas Vidas -, é necessário aperfeiçoar a estrutura de amparo social, melhorar o que existe.

Outra vertente deve contemplar a via partidária, fonte permanente de mazelas. Os dutos das 33  legendas estão entupidos. Os costumes, viciados. As práticas, carcomidas. Na esfera política, sofremos de uma dupla patologia: o aumento dramático da desmotivação e do abstencionismo e a sensação generalizada de que os cidadãos são cada vez menos representados. Daí a baixa credibilidade dos políticos. Urge revitalizar os partidos, dando-lhes substância. O Brasil pós-Lava Jato não suporta continuar com a prostituição partidária.

Outra frente está na relação entre os Poderes. Veja-se o Judiciário, por exemplo. Está determinando o modus operandi da política. O mesmo se pode dizer do Executivo, que alicia, com verbas e favores, apoios políticos. Não é possível mais convivermos com a invasão de um poder sobre o terreno de outro.

Os vácuos precisam ser preenchidos. A área infraconstitucional está esburacada, ocasionando intervenções do Poder Judiciário (que não apenas interpreta os vazios constitucionais, mas fabrica ritos). A judicialização da política há de merecer um basta. Os ditames da harmonia e independência dos Poderes carecem sair do papel. Quanto ao presidencialismo, urge também atenuar seus super-poderes. A adoção do Orçamento impositivo, pelo qual os recursos alocados pelo Parlamento serão usados nos fins destinados, sem manobras do Executivo, será uma das formas de equilíbrio de forças.

Por fim, a composição das altas Cortes está a exigir nova abordagem.  A nomeação de ministros para o STF, por exemplo, poderia imitar a liturgia da escolha em listas tríplices ou sêxtuplas organizadas por entidades. O fato é que nenhuma dúvida deve pairar sobre os atos da Corte Suprema. Sem a arrumação dos eixos institucionais, o País abrirá as portas do futuro com as chaves do passado. E ficaria patinando no mesmo lugar.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

* Publicado no Tribuna do Norte.

Um país separado por votos

Por Gaudêncio Torquato (Coluna Porandubas Políticas, site Migalhas)

O Brasil dividido ?

O Brasil saiu das urnas rachado ao meio. O racha, ao contrário do que muitos pensam, não mostra um país separado por regiões – Nordeste contra o Sudeste – mas por votos. É só olhar a aritmética eleitoral. Dilma conseguiu uma montanha de votos no Nordeste – mais de 12 milhões de votos de maioria, ou seja, 71% dos votos. Apenas 29% foram para Aécio.

Minas, o ponto nevrálgico

No país, Aécio perdeu por três pontos. O que aponta para seu Estado, MG, onde Dilma venceu por quase cinco pontos (4,82%), cerca de 550 mil votos. Se Aécio tivesse lá metade dos pontos de vantagem que obteve em SP, venceria. No maior colégio eleitoral (SP), Aécio ganhou de 64,31% a 35,62%, uma diferença de 28,62%. Como se recorda, os tucanos prometiam uma vitória em Minas com uma vantagem de mais de três milhões de votos.

Divisão mal feita

Se o país fosse dividido em dois, por regiões, como alguns radicais chegaram a propor nas redes sociais, não seria o Nordeste contra o resto. Ao Nordeste, seriam somados os Estados de Minas e RJ, onde a presidente obteve 58% dos votos válidos contra 42% da votação dada a Aécio.

Dilma, pior em 15 Estados

Em comparação com o 2º turno da eleição presidencial de 2010, quando venceu pela primeira vez, a presidente Dilma Rousseff piorou seu desempenho em 15 Estados e no DF. Nos demais 11 Estados, ela teve votação porcentual superior à registrada há quatro anos. Os maiores avanços ocorreram em SE e no AC, onde a votação da presidenta aumentou 25%. Logo a seguir aparecem RR (24%) e RN (18%). Todos nas regiões Norte e Nordeste. No outro extremo, as maiores quedas proporcionais ocorreram em DF (-28%), SP (-22%), AM (-20%) e SC (-18%).

Melhor desempenho

Na região Nordeste, maior reduto de Dilma, ela conseguiu melhorar seu desempenho em seis dos nove Estados da região. Além de SE e RN, houve aumento expressivo de sua parcela de votação em AL (16%) e no PI (12%). Onde houve piora, a queda foi pequena : 1% ou menos na BA, no CE e no MA, e 7% em PE, onde ganhou a campanha, para surpresa de muita gente que esperava vitória de Aécio, depois de receber o apoio da família de Eduardo Campos.

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A classe média, Colbert!

Do site Migalhas, Coluna Porandubas, por Gaudêncio Torquato

A política é um eterno retorno. Vejam este diálogo entre Colbert e o Cardeal Mazarino (Jules Mazarin, veja AQUI), durante o reinado de Luís XIV, na peça teatral Le Diable Rouge, de Antoine Rault :

Colbert : Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, senhor superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.

Mazzarino : Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas, vai parar na prisão. Mas o Estado é diferente ! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem !

Colbert : Ah, sim ? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis ?

Mazzarino : Criando outros.

Colbert : Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.

Mazzarino : Sim, é impossível.

Colbert : E sobre os ricos ?

Mazzarino : Os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta faz viver centenas de pobres.

Colbert : Então como faremos ?

Mazzarino : Amigo Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos. Cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável. É a classe média!

O Brasil que chega ao porto eleitoral

Por Gaudêncio Torquato

O Brasil que chega às eleições do próximo dia 5 se assemelha ao navio que chega ao ancoradouro, com instalações precárias, motor quase parando, depois de realizar uma travessia cheia de borrascas no giro por três grandes oceanos. Os passageiros, cansados e famintos, querem desembarcar o mais rápido possível para recuperar as energias e, quem sabe, tentar, mais adiante, embarcar num desses transatlânticos confortáveis, onde poderão viajar por águas mais calmas, viver momentos aprazíveis e ancorar em portos seguros.

A longa viagem não foi em vão. Passadas três décadas, o país que se aproxima de um novo pleito presidencial, com desfecho previsto para 26 de outubro, se mostra disposto a fechar um ciclo que pode ser registrado com o selo da “mesmice” e abrir uma era de “efetivas” mudanças.

As aspas no adjetivo objetivam realçar o propósito mudancista clamado pela imensa maioria da população e indicar que, doravante, promessas de candidatos nessa direção não ficarão no papel. Pois a sociedade descobriu “o caminho das pedrinhas” para fazer valer o jogo.

Esse é o primeiro traço do desenho que se faz do gigante que, como se percebe, deixou de dormir em berço esplêndido. O povo nas ruas sinaliza o encontro do cidadão com a pertinência que lhe dá o direito de se achar o legítimo dono do poder. A descoberta não é obra do acaso. Desenvolveu-se ao longo de anos a fio de convivência social com práticas depravadas na política, promessas nunca cumpridas por representantes do povo, escândalos em profusão envolvendo políticos, burocratas e grupos privados e partidos assemelhados em atitudes.

O senso crítico ganhou forma, avolumou-se, espraiando-se por um tecido social mais orgânico e agora disposto a cobrar a fatura dos governantes. O Brasil apresenta-se hoje como uma sociedade moderna, organizada em núcleos, setores e categorias, alterando, portanto, a antiga feição que flagrava multidões sem direção, contingentes desorganizados, massas amorfas.

Explica-se assim a redistribuição do poder, saindo do centro para as margens, da esfera institucional em direção aos novos polos de força que se multiplicam no território. São essas as alavancas das mudanças.

A descrença na política e em seus atores, expandida na esteira de escândalos, sinaliza a emergência de outros fenômenos, como a fragmentação partidária, o fim da polarização entre PT e PSDB e a inviabilidade de projetos de hegemonia. A pulverização partidária chegará ao ápice na próxima legislatura, quando no Senado, por exemplo, 18 legendas se farão representar (hoje são 16), o maior número de toda a História.

Já na Câmara dos Deputados, pesquisas apontam para a presença de 28 legendas (hoje são 22) e uma renovação que pode chegar a 50% – em 2010 foi de 44%. Essa dispersão torna mais difícil a meta de grandes partidos de se sentarem no trono da hegemonia, tornando-os cada vez mais peças do jogo de parcerias.

A polarização entre tucanos e petistas, que se desenvolveu ao longo das últimas duas décadas, indica cansaço. Só em Mato Grosso do Sul e Minas Gerais se vê ainda um debate entre os nomes dos dois partidos. Como se pode aduzir, esses fenômenos sugerem maior repartição de poder entre os entes, esforço redobrado na estratégia de formação de coalizões e, por conseguinte, maior sujeição do Executivo ao espectro partidário.

Que outros matizes se fixam no mapa do Brasil eleitoral? Seria possível afirmar, por exemplo, que o País está dividido?

Sob o prisma aritmético, levando em consideração as preferências eleitorais entre candidatos, a resposta é positiva. Tal divisão aponta, de um lado, para a substituição e, de outro, para a continuidade do mandatário-mor da Nação.

Mas, como já se disse, a ampla maioria da população concorda com a necessidade de mudanças na gestão e na política, seja com a candidata à reeleição, Dilma Rousseff, seja com os opositores Marina Silva (PSB) ou Aécio Neves, tucano. Não se pode negar, porém, que os ânimos estão acirrados também em função do recorrente discurso do PT, que teima em separar os habitantes do território em “nós” e “eles”, na defesa do apartheid que azeda relações de grupos e classes.

A situação agrava-se quando o PT, teimando em se dizer inocente, se torna fonte central de casos de corrupção. Não é por outra razão que o PT, mesmo que ganhe de novo a cadeira maior do Palácio do Planalto, não terá a força de outrora. Construiu uma imagem que se esboroou, perdeu coerência ideológica, abriu querelas internas e perdeu entusiasmo das bases, tornando-se sigla identificada com desmandos e desvios.

Também o PSDB, mesmo continuando à frente de Estados importantes, como São Paulo, terá uma fatia menor no bolo do poder, perdendo envergadura. Trata-se também de partido desgastado, porque não soube canalizar forças em seu papel de oposição ao governo federal.

O conjunto de fenômenos que marcam a atual quadra política se completa com uma leve guinada conservadora. Seria exagero defender a hipótese de que o País faz uma curva forte à direita. Mas é possível divisar tênue marca conservadora a partir de um PT empacotado na pasteurização, apesar de manter o bolorento discurso de luta de classes, sempre brandido por Lula.

O exemplo e o discurso do partido dão empuxo a uma onda contrária. Sob outro ângulo, o próprio perfil da candidata do PSB parece ser um corpo estranho ao habitat da sigla. Marina, evangélica, defende posições duras em matérias que ferem postulados da fé religiosa (ou batem no intocável e sagrado templo ambientalista), ganhando de críticos o epíteto de fundamentalista, expressão próxima do conservadorismo.

Este é o Brasil sociopolítico que aporta no ancoradouro das eleições. Sem mudar o casco o velho navio não suportará novo e longo trajeto. O próximo comandante, seja quem for, terá de levá-lo ao estaleiro para fazer nele uma boa reforma e garantir aos passageiros uma viagem sem sustos.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

* Texto originalmente publicado no jornal O Estado de São Paulo.

As redes sociais e as eleições

Por Gaudêncio Torquato

Três em cinco eleitores brasileiros estão nas redes sociais, algo em torno de 84 milhões de votantes. O dado é expressivo. Indica que a campanha eleitoral entrou bem nos corredores eletrônicos.

De julho até dias atrás, o Facebook registrou 58 milhões de mensagens relacionadas às eleições, propiciando curtidas, compartilhamentos, comentários a favor e contra.

O monitoramento tem sido acompanhado pela cientista política norte-americana Katie Harbath, estudiosa do uso das redes em campanhas políticas, em passagem pelo país.

A situação merece destaque pela introdução das ferramentas da era tecnotrônica em nossa seara política, até então afeita a rudes costumes e velhas práticas, particularmente na metodologia de cooptação eleitoral.

Do centro aos confins do território, que ainda dão guarida ao balcão de recompensas para se obter o voto, a chave eletrônica começa a abrir a cabeça de um eleitor cada vez mais antenado nas maravilhas do aparato ao seu redor, a começar do celular.

A par da planilha de grandes números, como 9 milhões de interações com conteúdo relativo aos últimos dois debates entre presidenciáveis, convém destacar os significados que esse novo ciclo expressa na vida das Nações, como explica Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de segurança nacional dos EUA e mentor de planos da CIA, no livro “A Era Tecnotrônica”, cujas características comportam a escalada das classes médias, a expansão do setor terciário, o gigantismo dos núcleos universitários, as indústrias de ponta, o incentivo às modernas tecnologias e os trabalhadores bem formados e informados, entre outras.

A importância da absorção do ferramental tecnológico pela política, em estágio avançado por aqui – eis que o Brasil está entre os cinco principais consumidores mundiais das redes – reside no fato de que este aparato eletrônico funciona como extensão da liberdade de expressão, um pulmão a oxigenar os fluxos institucionais, ampliando os circuitos da participação social, propiciando o deslocamento do discurso eleitoral para a esfera dos participantes.

Sob esse aspecto, ajuda a reforçar a expressão individual, valor central da democracia, e a dar vazão às demandas dos novos polos de poder que se formam na sociedade, no caso, as entidades de intermediação que se formam na esteira do declínio dos mecanismos tradicionais da política (parlamentos, representantes, etc).

A crise da democracia representativa, cujos sinais aparecem até no estrambótico desfile de pedintes de votos nos programas eleitorais, acaba promovendo a descrença social.

Uma locução de indignação emerge. As manifestações das ruas traduzem esse espírito.

As redes sociais, nesse vácuo, constituem o ancoradouro natural para acolher o clamor geral, as pontuações de um eleitor que se acha mal representado, a insatisfação do pagador de impostos que cobra pelos serviços que o Estado lhe deve. Descobre ele que, pela via eletrônica, sua voz pode chegar aos ouvidos de milhares de outros.

Ancorado no valor da pertinência social, exige o que é seu, defende pontos de vista, manifesta opinião sobre fatos, atos, e, nesse momento, sobre os candidatos, com direito de ser até malcriado.

Mais um dado citado pela pesquisadora Harbath explica o estrondoso sucesso da rede no Brasil: registra-se uma média de 1 bilhão de visualizações diárias, 65% das quais por internet móvel.

Não é de admirar que as redes se transformem em correias de transmissão do clima social.

A linguagem é a das ruas, inclusive no palavrório desbocado, nas interpretações maldosas de situações, na defesa, xingamentos e acusações a candidatos, o que deixa transparecer exércitos de um lado e de outro, a puxarem (sob soldo?) o cabo de guerra de candidaturas.

NESTA fase de experimentação, exacerbam-se os ânimos e o verbo resvala pelo terreno da calúnia e difamação, a demonstrar que se há certo descontrole nos meios tradicionais – como programas eleitorais no rádio e na TV – imagine-se a falta de controle nas novas mídias, mesmo sabendo que há mais de 100 solicitações exigindo a remoção de conteúdos nas redes.

As trombadas, pois, fazem parte deste iniciante capítulo que se desenvolve nas diferentes teias sociais e mídias, particularmente pelos jovens que registram elevado índice (85% deles) de consumo da internet.

É evidente que a maior parcela dessa participação se dá na vertente da distração e do entretenimento e não na vereda da política. Mas não é desprezível o contingente de usuários que sobem à tribuna eleitoral para acusar, defender, fazer campanha aberta por seus candidatos.

Se a lenga-lenga nas redes não chega a alterar os mapas eleitorais – são poucos os que mudam de posição – pelo menos consegue salpicar o desértico jardim político com respingos de querelas entre grupos.

O ensaio de politização nas redes é um bom sinal, a indicar que a política está mexendo com o ânimo social.

Já os candidatos precisam aprender a usar melhor os canais tecnológicos. Em vez de autoglorificação, deveriam se propor a interagir com os eleitores e a debater ideias com adversários.

É possível supor que na próxima campanha, o confronto entre candidatos seja intenso, mais frequente e direto. Um benefício que a eletrônica oferecerá à democracia, como se constata nos Estados Unidos.

Qualquer movimento na direção da meta de amplificar a locução social merece reconhecimento.

Urge, como diz a expressão, “democratizar a democracia”, ou seja, fazer um esforço para aperfeiçoar os mecanismos de participação social no processo decisório; propiciar o encontro da democracia representativa com a democracia participativa; revigorar os instrumentos por esta usados ( plebiscito, referendo, projeto de iniciativa popular); fortalecer os novos núcleos de poder( entidades de intermediação social); e incentivar novas modalidades de comunicação.

A engrenagem democrática, aqui e alhures, é um permanente exercício de retoque em suas ferramentas e peças.

Gaudêncio Torquato é jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação

O medo em campanha eleitoral

Por Gaudêncio Torquato (Coluna Porandubas Políticas)

O PT passou a adotar o medo como alavanca de campanha. Dilma representa a garantia de que as conquistas do povo não serão tiradas. Os adversários, se chegarem ao poder, eliminarão os benefícios. Essa é a mensagem embutida no programa partidário e anúncios publicitários. Pois bem, vamos aos fatos : em 1989, Fernando Collor ganhou usando o medo. Se Lula vencer o Brasil será um inferno. Mário Amato, então presidente da Fiesp, prometia : 800 mil empresários irão embora do Brasil. Em 1994, Fernando Henrique ganhou o mandato com o conforto (e a esperança) do Plano Real. Em 1998, ganhou no primeiro turno com o discurso do medo, tendo a volta da inflação como motivação.

Sarney, Lula, Dilma, FHC e Collor: cada um a seu tempo com o medo a seu favor (Foto: reprodução)

O medo – II

Em 2002, José Serra usou também o medo. A atriz Regina Duarte apareceu como porta-voz das trevas caso o PT ganhasse. Deu errado. “A esperança venceu o medo”. Lula chegava ao poder. Em 2006, Lula também se valeu do medo, desta feita contra Geraldo Alckmin, acusando-o de que, eleito, ele privatizaria a Petrobras, a CEF e o BB. Deu certo. Em 2010, Serra voltou a usar o medo, tentando mostrar a ligação do PT com Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, movimento com envolvimento no narcotráfico). Deu errado. Dilma ganhou com discurso da continuidade das políticas sociais de Lula. Hoje, o PT insiste no medo como alavanca de campanha. Dará certo ? Vejamos.

A teoria do medo – I

O medo não elege. Pode, sim, fazer parte do composto do discurso. Vejamos. Collor sinalizava a inovação na gestão. Era o novo, encarnava o espírito do tempo. O medo era apenas o pano de fundo da paisagem social. Fernando Henrique encarnou, por sua vez, a luta contra a inflação, era o artífice-mor do Plano Real. Foi eleito sob esse escudo duas vezes. Da mesma forma, Lula representou o contraponto à velha política. Era o ícone da dinâmica social. Comandou gigantesco programa social, tirando parcela da base da pirâmide social para o meio. E Dilma ganhou seu mandato sob essa engrenagem. A pergunta que agora se faz é : qual é a paisagem brasileira ? Como está o Produto Nacional Bruto da Felicidade ?

A teoria do medo – II

O que significa o medo como discurso de campanha ? 1. Ameaça de retorno do cidadão a uma situação pior do que a vivida por ele hoje ; ameaça de perdas de benefícios ; 2. Risco do país entrar numa era obscura, com volta da inflação e de ganhos obtidos pelas pessoas em diversas frentes. Lembremos que tais ameaças e riscos se manifestam ante os quatro impulsos do ser humano : a. o impulso combativo ; b. o impulso nutritivo ; c. o impulso sexual e d. o impulso paternal. Os dois primeiros impulsos estão ligados à conservação do indivíduo. A luta pela sobrevivência implica competitividade, oferta de emprego, dinheiro no bolso para cuidar das necessidades básicas do cidadão e de sua família. Nesse sentido, inflação, emprego, mais dinheiro no bolso, barriga cheia, harmonia social, segurança – são ingredientes do discurso eleitoral.

A teoria do medo – III

Ocorre que os programas sociais implantados pelo governo Lula e continuados no governo Dilma – que estão no foco dos impulsos acima mencionados – perderam muito sua capacidade de moeda eleitoral. O Bolsa Família já deu o que tinha de dar em matéria de voto. Pode cooptar as massas assistidas, mas grande parte delas considera que esse é um dever do Estado, a cargo de qualquer governante. Este é um fato que, possivelmente, o PT não tenha percebido. As manifestações de rua por todo o território abrem novos horizontes. Surgem no panorama os grupos do slogan : “queremos mais”. Saúde, educação, segurança, transportes. Coisas e equipamentos melhores e em maior quantidade.

A teoria do medo – IV

O medo só funciona quando as pessoas fazem a comparação : “estou no paraíso e poderei ser recambiado para o inferno”. Donde emerge a pergunta : estamos no paraíso ? As pessoas se sentem saudáveis, com saúde, com dinheiro no bolso, tendo fortes estruturas de segurança e meios de mobilidade urbana ? Se não estão vivenciando uma boa situação, o medo do amanhã arrisca a ser um bumerangue sobre a cabeça de quem patrocina o terror. Esta é a leitura que se deve fazer nesse momento sobre o medo. Incutir medo só dá certo quando o Produto Nacional Bruto da Felicidade for alto. A recíproca é verdadeira. Cuidado com o discurso do medo, senhores marqueteiros.

Nota do Blog Carlos Santos – Disse tudo, professor. Excelente exposição.

A estratégia não é nova ou artifício do PT. É recorrente. Serve a todas as ideologias em qualquer tempo ou conjuntura.

Quanto maior a ignorância da massa, mais fácil de a mensagem ser absorvida.

A difícil relação entre PT e PMDB

Por Gaudéncio Torquato

PMDB x PT

Se o PT tem 19 ministérios, quantos ministérios deveria ter o PMDB ? Pelos cálculos de analistas políticos, entre 12 e 15. Afinal, o partido tem a maior bancada de senadores, a maior bancada de deputados estaduais, as maiores bancadas de prefeitos e de vereadores.

Só perde para a maior bancada de deputados Federais, que é do PT. Petistas podem dizer : mas o governo é do PT. E o que é o tal presidencialismo de coalizão ? Brincadeira ? Ficção ? Rótulo para inglês zombar dele ? Ou será que o projeto hegemônico do PT despreza esse tal presidencialismo de coalizão ?

A Geni da República

O fato é que o PMDB, que age como uma confederação de partidos regionais, ganhou fama de fisiológico. Qualquer coisa que fizer acaba levando a pecha de partido que quer abocanhar fatias do poder. Veja-se a crise do momento. A questão é menos de espaço na Esplanada dos Ministérios e mais na frente das parcerias regionais.

O PT só pensa em eleger o maior número de governadores. Não quer abrir espaços ao PMDB. Ora, os deputados, ante a percepção de que serão sufocados, agem em defesa de sua sobrevivência.

Só em dois ou três Estados, o PT tende a apoiar candidatos do PMDB. E João Santana, de olho nas pesquisas, cochicha no ouvido da presidente : não dê trégua ao PMDB, mande brasa, o povão gosta disso, faça a faxina ética. Puro jogo de cena. Ou seja, o partido virou a Geni da República.

Internet terá maior importância em processo eleitoral

O jornalista, analista político, escritor e consultor comunicação Gaudêncio Torquato, nome de largo conceito no universo do marketing político do país, natural de Luís Gomes (RN), emitiu hoje alguns conceitos importantes, quanto ao papel da Internet na próxima campanha eleitoral.

Foi em seu endereço na rede de microblogs Twitter.

Vale ser lido. Serve como base de debate e reflexão.

Veja abaixo algumas de suas assertivas:

– Internet está se avolumando como meio de informação e expressão.

– Redes terão maior importância que na última campanha. Cresce número de usuários e participes se mostram mais engajados na política.

– Mas há um porém: vejo grupos opostos promovendo o que chamo de “canibalização recíproca”, um comendo o outro. Ambos se anulam.

– Ademais, o escopo crítico sai do meio da sociedade, não das margens. Esses conjuntos já são engajados em partidos e alas.

– Se a abordagem não for bem feita, inteligente, criativa, Redes serão um bumerangue para alguns candidatos. Cuidado!

– As Redes funcionarão como mídia de apoio, sistema auxiliar, meio de reforço de abordagens e posições. A conferir.

Nota do Blog Carlos Santos – Mossoró nas eleições 2012 é exemplo de uso com efeito bumerangue. Militância cibernética prejudicou candidatas Cláudia Regina (DEM) e Larissa Rosado (PSB).

O pós-campanha também tem um saldo desastroso, com picuinha infindável que só causaram prejuízos para ambos grupos políticos.

A infovia tem um metabolismo próprio e uma linguagem ainda em definição. É uma seara ainda muito delicada, terreno movediço, que precisa ser esquadrinhado com cuidado.

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Pequenas lições para 2014

Por Gaudêncio Torquato

O ano que se inicia será um dos mais competitivos das últimas décadas. Principalmente na esfera da política. As razões apontam para o esgotamento do nosso modelo de fazer política, a partir de velhas práticas de campanhas eleitorais.

O desenho é carcomido pela poeira do tempo: são raros os perfis identificados com mudanças; formas de cooptação eleitoral inspiram-se nos eixos históricos do fisiologismo e do corporativismo, sendo tênue o engajamento do eleitor pela via doutrinária; os eleitos, de forma geral, acabam se distanciando das bases, deixando de lado compromissos assumidos; a representação parlamentar, em razão do poder quase absoluto do presidencialismo, torna-se deste refém, obrigando-se a repartir com o Poder Executivo funções legislativas; em decorrência da ausência de programas doutrinários, imbricam-se interesses de lideranças e partidos, não se distinguindo diferenciais entre eles, condição essencial para qualificar o voto.

A impressão final é de que o retrato desfigurado está a merecer urgente retoque, se não em todas as nuances da moldura, ao menos em partes que ofereçam aparência asséptica ao edifício político. Fichas-sujas, por exemplo, não podem continuar no mapa eleitoral.

Os ingredientes que entrarão na composição da nova tintura hão de absorver a química de setores e categorias mais participativas, exigentes e dispostas a enfrentar a resistência de defensores de obsoleta arquitetura política. É oportuno lembrar que o corte da pirâmide social não mais se assemelha a um triângulo estático.

Os lados que o integram, a partir da base, mostram-se dispostos a sair da letargia, depois de décadas convivendo com a batelada de vírus políticos. Os movimentos sociais e a ocupação das ruas, no ano que findou, sinalizam a intenção de reencontrar o tempo perdido.

A coletividade parece descer do céu da abstração para ser uma força na paisagem, fazendo valer sua determinação, princípios e valores voltados para qualificar a vida política.

O curto dicionário abaixo poderá servir de baliza para milhares de candidatos na tentativa de aprimorar suas relações com a comunidade nacional.

Estado e Nação – O Estado, infelizmente, está bastante distante da Nação com que os cidadãos sonham. A Nação é a Pátria que acolhe os filhos, que se irmana na fé e na esperança de um futuro melhor; é o habitat onde as pessoas constroem os pilares da existência, constituem o lar, prezam antepassados, cultivam tradições. O Estado é a entidade técnico-jurídica, com seu arcabouço de Poderes, pressionada por interesses díspares e dividida por conflitos. Aproximar o Estado da Nação, formando o espírito nacional, constitui a missão basilar da política. Essa meta precisa ser o centro da agenda do homem público.

Representação – A representação política é missão, não profissão. É a lição de Aristóteles. Resgatar o verdadeiro papel da política – trabalhar pela polis – significa clarificar o papel do representante, as demandas das comunidades, as soluções para a melhoria dos padrões da vida social. A política não é um balcão de negócios. As angústias urbanas expandem-se na esteira do crescimento populacional. As periferias não constituem massa de manobra para exploração por siglas, líderes popularescos e oportunistas. Carecem de ações de efeito duradouro, não de quinquilharias e coisas improvisadas. Migalhas poderão alimentar o povo por certo tempo, nunca por todo o tempo. Um representante do povo se preocupa com metas, programas permanentes, medidas estruturantes.

Identidade – A identidade é a coluna vertebral de um político. É a soma de sua história, de seu pensamento, de suas percepções e de seus feitos. Um erro, que o tempo corrigirá, é construir a imagem incongruente com a identidade. Camadas exageradas de verniz corroem perfis. Dizer a verdade dá credibilidade. Os novos tempos condenam a hipocrisia, a simulação. Corretos são conceitos como lealdade, fidelidade, coerência, sinceridade, honestidade pessoal e senso do dever.

Discurso – O discurso deve abrigar propostas concretas, viáveis, simples. E, sobretudo, factíveis. A população dispõe de entidades que a representam. Resta ao político procurar tal universo. O povo quer um discurso sincero. Promessas mirabolantes, planos fantásticos, obras faraônicas, de tão banalizadas, já não despertam interesse. Até as monumentais arenas esportivas entram na lista de suspeições.

Grito das ruas – O grito das ruas faz-se ouvir nos espaços dos Poderes em todas as instâncias. Expressam a vontade de uma nova ordem social e política. Urge abrir os ouvidos e a mente para interpretar o significado de cada movimento. Quem não fizer esse exercício sairá do cenário. Uma linguagem comum se forma nos centros e nos fundões do País. O povo sabe distinguir oportunistas de idealistas.

Sabedoria – Sabedoria não significa vivacidade. Mescla aprendizagem, compromisso, equilíbrio, busca de conhecimentos, capacidade de convivência, racionalidade. Não é populismo. “Espertos” que procurarão vender gato por lebre poderão ser cozidos no caldeirão do voto.

Transparência – A era do esconderijo está agônica. Esconder (mal)feitos é um perigo. A corrupção, mesmo dando sinais de sobrevida, é atacada em muitas frentes. Grandes figuras foram (e continuarão a ser) punidas. Denúncias sobre negociatas agora são objeto da lupa dos sistemas de controle. O público e o privado começam a ter limites controlados.

Simplicidade – Despojamento, eis um apreciado conceito. Lembrem-se do papa Francisco. Ser simples não é pegar crianças no colo, comer cachorro-quente na esquina ou gesticular para famílias nas calçadas. A simplicidade está no ato de pensar, dizer e agir com naturalidade. Sem artimanhas nem maquiagens.

Lição final do filósofo e sociólogo José Ingenieros: “Cem políticos torpes, juntos, não valem um estadista genial”.

Gaudêncio Torquato é jornalista, consultor político e de comunicação, além de professor titular da Universidade de São Paulo (USP)

Amabilidades geniais entre dois gênios

Por Gaudêncio Torquato (Do site Migalhas, coluna Porandubas)

Se houver

Telegramas trocados entre o dramaturgo Bernard Shaw e Churchill, seu desafeto.

Convite de Bernard Shaw para Churchill: “Tenho o prazer e a honra de convidar digno primeiro-ministro para primeira apresentação de minha peça Pigmaleão. Venha e traga um amigo, se tiver“.

Resposta de Winston Churchill: “Agradeço ilustre escritor honroso convite. Infelizmente não poderei comparecer à primeira apresentação. Irei à segunda, se houver“.

Nota do Blog – Gênios, gênios, gênios.

Inimigos ou desafetos com tamanho grau de inteligência merecem todo o respeito do mundo. Tratam-se assim, por regra.

Os desprovidos disso, no máximo merecem a indiferença. E já é muito.

Gênios, gênios…

 

E agora, galera?

Por Gaudêncio Torquato

Ante a baixa da tarifa de ônibus nas capitais que sediaram as maiores manifestações populares dos últimos tempos, a indagação aguça a curiosidade de todos: qual será o próximo foco? O primeiro round da guerra que tem, de um lado, exércitos compostos por variados conjuntos da sociedade e, de outro, guerreiros defensores do establishment deve terminar com evidente vitória dos primeiros. O atendimento da demanda por Executivos estaduais e municipais (até o alcaide paulistano cedeu) será o jorro d’água para apagar faíscas que ameaçam multiplicar fogueiras acesas nas principais regiões do território.

Urge atentar para o sinal amarelo aceso no farol dos governantes e suas múltiplas significações: o som barulhento das ruas não carece mais de maestros de grandes orquestras, sejam políticos ou lideranças sindicais; não é preciso muito tempo para as massas afluírem às ruas; e a tuba de ressonância destes tempos efervescentes é o conjunto das redes eletrônicas da internet.

Se a reivindicação concreta das turbas for acolhida, como governantes de algumas capitais e Estados já o fizeram (gerando o efeito dominó), permanecerá a dúvida sobre os próximos passos da ampla movimentação social, eis que as palavras de ordem tentam expressar a amálgama de carências que compõem o Produto Nacional Bruto da Insatisfação, agrupando, entre outras, os estrangulamentos do sistema de transportes, a precária estrutura de saúde, as deficiências nas frentes educacionais e a crescente insegurança pública ante a avalanche de atos de extrema violência nas grandes cidades.

E agora, galera, as batalhas continuarão? Haverá questões específicas a serem proclamadas? Os administradores públicos, por sua vez, ficarão entre a cruz e a caldeirinha: atenderão às demandas ou farão ouvidos de mercador.

A questão abre um leque de abordagens. A primeira diz respeito à natureza das reivindicações. O pleito da redução da tarifa de ônibus posicionou na linha de vanguarda a esfera estudantil. Os jovens encontraram na vertente dos transportes uma causa próxima aos seus interesses, sem deixar de avocar outras demandas.

Vale registrar a energia de um universo de quem se reclamava inércia, desinteresse, apatia. Desde os “caras-pintadas” da era Collor não se via tanta disposição, a demonstrar que os exércitos estudantis são os primeiros a usar a musculatura e a entrar no palco de guerra, caso tenham motivo para tanto.

A mobilização estudantil ganha expressão diante de uma paisagem urbana tradicionalmente ocupada por soldados comandados por centrais sindicais. Nas últimas décadas, vale lembrar, infiltraram-se elas nas entranhas do Estado, em conluio que deixa transparecer preocupação com os cofres. (Basta anotar as grandes concentrações de massas a cargo das centrais nas festas do 1.º de Maio, animadas por sorteios de casas e carros.) É saudável, portanto, enxergar grupamentos jovens voltando às passeatas, empunhando bandeiras e fazendo ecoar demandas e palavras de ordem.

Ocorre que, para ser eficaz, a locução cívica dos estudantes carecerá, doravante, de clarificação de metas, sob pena de suas vozes se perderem na polifonia de uma Torre de Babel.

Não se quer dizer que tenham de esquecer o discurso que clama por mudanças em muitas frentes, como este que costurou o pano de fundo da reivindicação da tarifa zero para as passagens de ônibus. Governantes e atores políticos de todas as instâncias precisam ser monitorados, avaliados, cobrados e, assim, perceber que há vigilantes cívicos fazendo ronda no entorno de palácios, sedes de governo, cúpulas congressuais, assembleias e câmaras. Mas, para efeito de resultados imediatos, as manifestações de caráter massivo necessitam abrigar metas, de acordo com parâmetros de bom senso e capazes de abrir diálogo entre as partes.

Nessa trilha e por conexão com a redução de tarifas, seria razoável que, neste momento, os entes municipais e estaduais se debruçassem sobre os meios de mobilidade urbana, refazendo programas, reordenando cronogramas, com vistas à expansão dos sistemas e melhoria de qualidade dos serviços. Dessa forma, a movimentação adensará seu escopo e poderá obter mais vitórias.

O recado das ruas serve ainda de alerta para que gestores públicos passem a lupa sobre serviços precários em todos os setores da vida cotidiana. Afinal, aguda dissonância fere a sensibilidade tanto de plateias das cadeiras numeradas quanto de galeras das gerais: de um lado, a estética exuberante dos estádios de futebol, emoldurada por formas e traços futuristas, a denotar a absorção de avançados parâmetros tecnológicos; de outro, a acanhada e esburacada estrutura de serviços, cuja estética é pontilhada por corredores de hospitais locupletados de macas, filas quilométricas em postos de atendimento, superpopulação nos meios de transporte, vielas e becos apinhados de jovens drogados, chacinas seriadas nas periferias.

Para completar o cenário de contrastes, a falta de ônibus para acesso rápido aos majestosos estádios e a indignação por se cobrar de torcedores R$ 8 por um cachorro-quente. A imagem que se tem é a do reizinho que tenta esconder doenças nas habitações de seu reino com paredes folheadas a ouro.

Chama a atenção o fato de que as manifestações se desenvolvem sob o empuxo de integrantes de grupamentos centrais: estudantes de curso superior (e seus pais), simpatizantes de partidos de esquerda, punks, ativistas em defesa de igualdade de gêneros e minorias, funcionários públicos, profissionais liberais, etc. Os exércitos periféricos não formam os maiores volumes dos contingentes.

Sabendo que as correntes centrais influenciam as margens (a pedra jogada no centro faz marolas que chegam à beira do lago), pode-se imaginar desdobramento perigoso caso bolsões miseráveis sejam afetados em sua parte mais sensível, o bolso. Nesse caso (Deus nos livre dessa ameaça), a fome se juntaria com a vontade de comer.

Gaudêncio Torquato é jornalista, consultor político de comunicação e professor titular da USP

* Texto originalmente publicado, hoje, no jornal O Estado de São Paulo.

 

Só Rindo (Folclore Político) em divulgação nacional

O Blog e seu editor sentem-se lisonjeados com mais um registro do livro “Só Rindo, a política do bom humor do palanque aos bastidores”, na coluna Porandubas (edição 356), do jornalista, consultor político e de comunicação, além de professor da Universidade de São Paulo (USP), Gaudêncio Torquato.

Abaixo, reproduzimos o que ele escreveu e uma das histórias do nosso livro:

Chapa e perereca

Abro a coluna com mais um “causo” narrado pelo potiguar Carlos Santos em “Só Rindo”, um de seus livros.

A campanha rola solta e o velho costume do assistencialismo é posto em prática. Entre outras ferramentas, a doação de “pererecas”, ou seja, próteses dentárias, não perde o seu “charme”.

Um ancião, banguelo, assediado para trocar o seu voto por uma perereca, resolve fazer o negócio.

No dia da eleição ainda com uso de chapa impressa, ele aparece para votar, com a perereca no bolso. Vota e vai saindo com a cédula à mão, quando alguém da mesa receptora lhe avisa:

“Ei, o senhor tem que deixar a chapa aqui”, apontando para a urna.

Pensando tratar-se da perereca, o velhinho a retira do bolso e desabafa:

– Eu sabia que isso tinha enrolada!

Gaudêncio Torquato.