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Para quem agitamos os nossos ramos?

Por Marcos Araújo

Hoje é Domingo de Ramos, festa cristã celebrada no domingo anterior à Páscoa. A data relembra a entrada triunfal de Jesus na cidade de Jerusalém. Diz a tradição que as pessoas jogavam seus mantos à Sua frente e agitavam ramos de palmeiras, saudando em cânticos o Rei dos reis.

A passagem tem registro nos quatro evangelhos canônicos (Marcos 11:1, Mateus 21:1-11, Lucas 19:28-44 e Lucas 19:41).

Foto ilustrativa (Autoria não identificada)
Foto ilustrativa (Autoria não identificada)

No Oriente antigo, era costumeiro cobrir de alguma forma o caminho à frente de alguém que merecesse grandes honras. A saudação com ramos a Jesus foi um acréscimo, superlativando a honraria. Estes eram símbolos de triunfo e vitória na tradição judaica e aparecem em outros lugares da Bíblia (Levítico 23:40 e Apocalipse 7:9, por exemplo.

Bem sabemos que a acolhida festiva de Jesus dura muito pouco, pois uma semana depois já o crucificam. Do dia de sua entrada triunfal ao seu martírio, a tradição cristã denomina de Semana Santa, ou de Semana da Páscoa.

Desta episódica semana, dois enlevos: i) a festa da exaltação ao Cristo, Rei do universo; e, ii) a celebração da Páscoa. A palavra páscoa tem etimologia na expressão hebraica “pesach”, e na grega “pascha”, ambas significam “passagem”.

Na forma religiosa, as expressões podem ter diversos significados, tais como: passagem da morte para a vida; passagem de Deus para nos salvar; passagem da escravidão para a liberdade, enfim, a passagem pela qual o homem que se encontra neste mundo, passa para um novo céu e uma nova terra.

Pois bem. Voltemos aos ramos dos judeus…A elevação de galhos, a salva com agito, foi algo novo naquele tempo. Um excesso. Não demorou muito para serem baixados e transformados em instrumentos de açoite. Os galhos ainda estavam por lá, largados nas ruas de Jerusalém, quando voltaram a ser utilizados na sexta-feira, desta feita para chicotear Jesus.

A mudança comportamental dos judeus é inata à condição humana. Em um dia, estamos endeusando pessoas e situações, euforicamente agitando os nossos “ramos” do elogio fácil e da idolatria; no outro, a pulsão pela destruição, desconstituição e morte social (senão, física) do elevado.

Nas redes sociais, o ídolo de hoje pode ser o “cancelado” de amanhã. No mundo virtual, “curtir” algo ou alguém tem a simbologia de “agitar os ramos”, do mesmo modo que o inverso pode ser o ato tanatológico do “bloqueio”, ou do polegar invertido. Por isso, está justificado o suplício musical reportado por Gustavo Lima ao ser “bloqueado”.

Freud explica isto ao se apropriar dos nomes dos deuses mitológicos gregos Eros e Thanatos para exemplificar as teorias das pulsões, que explica a formação psíquica de todos os indivíduos, entre desejo de vida e de morte. A elevação é símbolo da vida; o açoite, a simbologia da morte.

Essas pulsões são visíveis nos escritos das redes sociais em qualquer temática. São extremadas as posições entre vida e morte. Nem merece parâmetros para o presente lembrar dois respeitosos estilos literários: a poetisa Cora Coralina, destacava sempre a vida, integrando nos seus versos o homem e a natureza; já o inigualável Augusto dos Anjos é o portal traduzido para quem adentrava na dor e nas sombras que conduzem à morte.

Voltando ao dia de hoje, é próprio das festas religiosas buscar no cotidiano ligações significativas, para que o vivido no contexto da religião encontre sua relação com a vida em seu cotidiano. É assim que Jesus institui a ceia. Ele faz isto na páscoa judaica, dando a ela um novo sentido, para o nosso cotidiano (“… todas as vezes que comerdes… e beberdes..”). Por isso, no dia de Ramos, faz sentido perguntar: para que, ou para quem, estamos agitando os nossos ramos? Ou, contra o que, e contra quem, temos deles feito uso?

Marcos Araújo é professor e advogado

Faz somente seis meses, “taokey”?

Por Odemirton Filho

O governo do presidente Jair Messias Bolsonaro (PSL) chegou aos seis meses. Com sua linguagem coloquial e costumeiros arroubos, o presidente vem se notabilizando por dizer aquilo que lhe vem à cabeça, sem receio de ofender quem quer que seja.

É nítida a sua incapacidade para articular ideias e proferir um discurso coeso, não muito diferente, nesse particular, da ex-presidente Dilma Rousseff.

Com efeito, todo início de mandato traz a inexperiência daqueles que ainda não estão afeitos à máquina administrativa, sobretudo, porque o presidente nunca esteve à frente de qualquer Poder Executivo.

A equipe que formou, tem como expoentes os ministros Paulo Guedes, conduzindo a Pasta da Economia, e o ministro Sérgio Moro, capitaneando o Ministério da Justiça e Segurança Pública.

É precipitado, a meu ver, creditar fracasso ao governo. Ainda há um longo caminho para concluir seu mandato (se concluir). Porém, já se pode antever qual seu será o seu estilo de governar.

A pauta conservadora dos costumes será uma constante, além de se imiscuir em debates nas redes sociais que somente inflamam o já politicamente dividido país.

O presidente, como se diz, ainda não desceu do palanque e insiste em travar disputas ideológicas que nada acrescentam ao seu governo, como o combate ao tal marxismo cultural e a ideologia de gênero.

Com o Congresso Nacional a relação do governo é feita de altos e baixos, não sendo tão harmoniosa como prevê a Constituição Federal, a despeito do presente ter estado no Parlamento por quase trinta anos.

Na seara econômica o ministro Paulo Guedes tem envidado esforços com o escopo de aprovar a Reforma da Previdência, como crucial para equilibrar as contas públicas e atrair investimentos.

Entrementes, é interessante notar, que os especialistas na área econômica asseveram que somente a reforma previdenciária não é suficiente para retirar o país da crise e fazer o Produto Interno Bruto (PIB) voltar a crescer de forma significativa.

Uma das principais promessas de campanha do então candidato à Presidência era a ampliação do porte e posse de armas o que, de fato, cumpriu, expedindo Decreto nesse sentido.

Contudo, posteriormente, ante a resistência do Congresso Nacional, revogou o Decreto e expediu três novos, além de projeto de lei sobre o tema.

Nessa mesma linha, o ministro Moro encaminhou seu pacote anticrime ao Parlamento, todavia, a tramitação do projeto caminha a passos lentos.

No aspecto político, a primeira baixa se deu com o ministro Gustavo Bebianno, da Secretaria Geral da Presidência, envolto no escândalo das candidaturas laranjas do PSL. Com a prisão de assessores do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, no caso do laranjal, poderá ser o próximo a cair.

Posteriormente, o ministro da Educação, Ricardo Vélez, foi à lona, por manifesta incapacidade administrativa, além de frases infelizes, como a que os brasileiros se comportam como “canibais” quando no estrangeiro, bem como querer recontar o golpe de 64 por outro viés, minimizando aquele período negro.

Houve, de igual modo, uma baixa na equipe econômica do até então intocável ministro Paulo Guedes, quando o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Joaquim Levy, pediu exoneração, após declarações do presidente.

O ministro Sérgio Moro está no meio do fogo cruzado em razão do vazamento de conversas pelo site The Intercept Brasil entre ele e o Procurador da República, Deltan Dallagnol, na operação Lava Jato.

Entretanto, o ex-juiz ainda goza de credibilidade perante o governo e a opinião pública, mas se forem comprovadas a autenticidade dos diálogos sua permanência ficará, sem dúvida, insustentável.

Não se pode esquecer, ainda, as “pérolas” da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, do atual ministro da Educação, Abraham Weintraub e dos filhos do presidente (um deles sob suspeita de práticas nada republicanas). Tudo sob o olhar vigilante e mal-educado do guru ideológico dos Bolsonaro, Olavo de Carvalho.

Cabe ressaltar que o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, mostra-se, até o momento, o mais proativo, adotando medidas para “destravar os projetos de melhoria da logística do País, remover entraves burocráticos e reduzir exigências para a participação do setor privado em novos empreendimentos”.

Houve, é certo, uma baixa significativa no número de homicídios no país, mas não se pode aferir se existe uma relação direta com ações do governo federal ou se os estados-membros estão mais firmes no combate à violência.

Por outro lado, o desemprego continua em alta, na casa de 13 milhões de pessoas, e o consumo das famílias ainda não atingiu níveis que possam fomentar o crescimento da economia.

Faltam investimentos do setor produtivo, sem esses não há criação de postos de trabalho, aumento da renda e arrecadação de impostos.

Para o ministro Paulo Guedes a aprovação da Reforma da Previdência é uma verdadeira panaceia. Contudo, vale lembrar, que a Reforma Trabalhista iria criar milhões de empregos e, o que vemos, até o momento, foi mera retórica.

Cabe, ainda, menção ao relacionamento do governo com a comunidade internacional.

De início, a pretensão da mudança da Embaixada de Tel Aviv para Jerusalém causou mal-estar com os países árabes, tendo o presidente, de forma prudente, recuado. Aliás, não se entende a subserviência de Bolsonaro ao governo norte-americano. A vassalagem a Trump não condiz com o nacionalismo apregoado pelo presidente.

Ademais, recentemente, a Chanceler alemã, Angela Merkel, afirmou que é “dramática” a situação do Brasil em questões ambientais e de direitos humanos sob o atual governo e que ver com preocupação as ações do governo brasileiro em relação ao desmatamento.

Destaque-se, porém, que um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia está iminência de ser celebrado o que é um alento para a economia da nossa região.

Eis, em linhas gerais, os seis primeiros meses do governo Bolsonaro.

Por fim, é de se esperar que o governo pare de promover “um show de besteiras”, conforme afirmou o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, resgatando o país da crise social e econômica vivenciada há tempos.

Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça