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Brincadeira sem graça

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa em estilo impressionista obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa em estilo impressionista obtida com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Sendo um tanto purista, imagino que a temática que abordarei a seguir (em razão de sua futilidade e puro modismo) não merece uma crônica. Considero que é uma matéria muito mais para a alçada e tratamento da imprensa. Tal sucesso, a meu ver, não faz jus ao arcabouço da literatura, ao texto pretensamente concebido com uma qualidade artística, literária. Besteira! De um modo geral, admito, a crônica se ocupa de histórias do cotidiano, por mais absurdas e ridículas que sejam. Dominarei meu estômago e escreverei acerca desse que é o grande bate-boca da vez.

Pouco antenado, alheio às discussões da hora e da moda, eu nem estava por dentro de nada. Não fazia a menor ideia do que temos em evidência na mídia. Hoje, entretanto, fui colocado a par dos últimos acontecimentos, do que existe de mais novo borbulhando nas redes sociais e noticiários. Estou de queixo caído. Tudo isso tem a ver, agora sem mais rodeios ou nariz de cera, com o avassalador despautério que toma conta desta nação.

Refiro-me, por fim, aos benfeitos, badaladíssimos e caros bonecos de silicone, réplicas hiper-realistas de crianças pequeninas. Eis a grande controvérsia que estão debatendo ultimamente e da qual eu não estava ciente. Só fiquei a par do quiproquó após um amigo me questionar a respeito dessa excentricidade.

Lógico que esses bonecos e bonecas tinham que ter um nome inglês, ou americanalhado. O brasileiro, salvo exceções, é um vira-lata quando está em jogo o próprio idioma. A americanalhação da nossa língua é do tamanho deste país. Basta darmos uma olhadinha nas denominações de centros comerciais, casas de pasto, condomínios, motéis e, entre diversos outros, até os prostíbulos são internacionalizados. Assim, pois, os brinquedos receberam o batismo de bebês reborn.

No meu ponto de vista, escolheram um péssimo nome. Em inglês, acaso alguém não saiba, reborn equivale, a depender do contexto, a “renascido” ou “renascimento”. Não vejo muita relação desse verbete com a questão da extrema semelhança, o ambicioso intuito de fabricar imitações de criancinhas tendo como principal componente o silicone. Se a coisa não pode ter um nome brasileiro, se a aplicação de uma palavra em inglês for inegociável, então suponho que, em vez da já consagrada denominação reborn, poderíamos empregar a termo inglês “humanoid” (humanoide). Esta representaria melhor os borrachudos. É o que me parece menos inadequado, menos desagradável no tocante ao nosso bom e massacrado português. Mas não quero me ater neste momento a questões de batismo. O buraco (profundo) é mais embaixo.

Pessoas já crescidinhas, sobretudo mulheres, agora andam para todo lugar com o seu ou a sua bebê reborn a tiracolo. Existem exemplares dessas coisas dos dois sexos. Tratados como criaturas vivas por seus proprietários, alguns indivíduos chegam ao cúmulo da caradura (talvez insanidade) de levar os siliconados para os hospitais, em especial a unidades de saúde do SUS, a fim de receberem consulta médica. Isso é de lascar, como diria o pesquisador Marcos Pinto. Claro que não estou aqui condenando os “papais” pelo simples fato de alguém, dentro das suas condições financeiras, ter um boneco ou boneca desse tipo. Minha crítica é quanto ao exagero.

Calculem só: durante seu expediente em um posto de saúde público, um profissional de medicina se deparar com uma dona (ou o dono) de um reborn querendo que o nenenzinho de borracha seja submetido a uma avaliação médica. Ocorrências dessa ordem têm se repetido, gerando muita confusão e dividindo opiniões. Analisando melhor, pode ser até um problema para a psiquiatria.

Longe de mim querer aqui apedrejar essas mulheres, algumas em comunhão com seus maridos ou esposas, que investem uma grana considerável nesse delírio de maternidade e paternidade. A depender da semelhança, realismo do produto, da grife e do fabricante, um Chucky desses pode custar uns treze ou quinze mil reais. Aí eu penso naquelas criancinhas de colo (as de carne, osso e espírito, devo ressaltar) que existem em toda parte deste país injusto, no âmago de famílias pobres, muitas das quais desesperançadas, sem assistência, privadas do essencial, do básico.

Penso ainda nas que se encontram nos orfanatos ou vivendo nas ruas com seus genitores. Uma população que não sabe, que nunca pegou, sequer viu tanto dinheiro. Meu pensamento se detém sobre os desvalidos, os pequenos oriundos das entranhas da exclusão, do útero da fome, punidos por sua procedência periférica. Sei direitinho o que é isso. Não falo por conjectura, teoria ou senso de humanidade.

O desprezo e a punição dobram de tamanho quando se trata dos inocentes de pele negra. Sim. Os pretos, as crianças pretas são as mais desprezadas, rejeitadas, mais covardemente repelidas, como se porventura a sua cútis da cor da noite representasse algo ofensivo, um insulto à sociedade dos brancos bem-nascidos, economicamente privilegiados.

Em minha pesquisa, a propósito, vi poucos bebês sintéticos pretos. É claro que existem, mas é evidente que são fabricados em número bem menor. Algo como a canção “Pra não dizer que não falei das flores”. A sociedade do poder monetário, dona das melhores oportunidades, detentora de prestígio e consideração, embora signifique uma quantidade inferior nesta pátria dita de chuteiras, autoproclamada país da bola, do futebol, do carnaval, essa sociedade precisa progredir sensivelmente para entender que os marginalizados são seres humanos. Precisa evoluir um bocado para não excluir e julgar pessoas com base em sua cor, opção sexual e religiosa.

Se ora eu me debruço sobre essa questão polêmica, se critico essa brincadeira estúpida, vão se queixar junto ao senhor Lázaro Amaro dos Santos, advogado criminalista, músico e compositor. Foi ele quem trouxe ao meu conhecimento tal celeuma. Sugeriu que eu abordasse esse tema espinhoso. Da próxima vez, tenham fé, posso não colocar o dedo direto na ferida, esquecer por um instante o socialismo, trazer à tona um assunto ameno, uma croniqueta mais leve e bem-comportada.

O Brasil, assim como muitos neste planeta desajustado, é também conhecido por seu desequilíbrio na distribuição de renda. Quero citar o escritor, médico, cientista social, grande humanista e expoente no combate à fome, o saudoso professor e político Josué de Castro. Em uma de suas declarações mais difundidas, ele afirmou o seguinte: “Metade da humanidade não come; e a outra metade não dorme, com medo da que não come.” Está correto. Josué de Castro continua atualíssimo.

Enquanto isso, como sabemos, alguns investem uma grana alta em brinquedos reborn. São figuras abastadas, que estão de barriga cheia. Não querem saber da miséria dos seus semelhantes. Boa parte é de mulheres que decidiram voltar a brincar de boneca depois de adultas. Uma brincadeira sem graça.

Marcos Ferreira é escritor

Há 50 anos morria o homem que explicou a pobreza no Brasil

Por Edison Veiga (D.W.com)

Josué de Castro representando o Brasil na ONU (Foto: Brasilianischen Nationalarchiv)
Josué de Castro representando o Brasil na ONU (Foto: Brasilianischen Nationalarchiv)

Logo depois que se graduou, o médico Josué de Castro (1908-1973) passou a dividir seu tempo entre o consultório e uma fábrica de tecidos no Recife — onde atuava como médico do trabalho. O patrão acusava os funcionários de indolência. Depois de examiná-los, Castro sentenciou: “a doença dessa gente é fome”.

O jovem médico acabou demitido da indústria. Mas o assunto, uma chaga do Brasil daquela época que persiste no Brasil do século 21, jamais saiu de seu foco. Morto há exatos 50 anos, Josué de Castro, continua sendo um intelectual necessário para a compreensão da pobreza brasileira, principalmente por seus livros Geografia da Fome, de 1946, e Geopolítica da Fome, de 1951.

“Ele deu início a uma longa tradição de estudos, mobilização e políticas públicas sobre o tema da fome, assim como são marcos do mesmo processo a campanha iniciada por Betinho [o sociólogo e ativista Herbert de Sousa (1935-1997)] e, em 2003, o binômio Fome Zero e Bolsa Família”, afirma o economista Marcelo Neri, diretor do Centro de Políticas Sociais FGV Social.

Professora na Universidade de Brasília (UnB), a enfermeira Helena Eri Shimizu destaca que Castro “mostrou a real fotografia da fome no Brasil”, revelando que “era um problema oriundo das desigualdades sociais”.

GEOGRAFIA DA FOME foi inovador porque demonstrou as origens socioeconômicas do problema, esvaziando as explicações deterministas, então vigentes, sobre a situação. “O livro examina os regimes alimentares de cada região brasileira e as possibilidades oferecidas pelos fatores naturais, destacando a organização das formas de propriedade e as relações de trabalho vigentes”, explica o sociólogo Rogério Baptistini Mendes, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie. “A fome, desgraça que aflige os seres humanos que ingerem alimentos insuficientes para suprir as necessidades da vida, é tratada como consequência da organização econômica, política e social, não simplesmente como sensação fisiológica devida à carência de oferta, por exemplo.”

“Até então a fome era vista principalmente como um episódio crítico, uma crise que era atribuída a fenômenos naturais, como uma seca, ou temporários, como uma guerra”, contextualiza a historiadora Adriana Salay Leme, que recentemente defendeu seu doutorado sobre a obra de Castro. “No livro, ele sintetizou as discussões da época mostrando que essa fome provocada por uma crise, que ele chamou de fome epidêmica, não era mais importante que a fome endêmica. Por fome endêmica, ele entendia um fenômeno cotidiano e menos intenso, que podia não matar por inanição, mas que matava lentamente a população por doenças associadas.”

Leme acrescenta que o médico foi bem-sucedido em seus esforços para “divulgar esse alargamento do sentido de fome”. “Aí, tem algo essencial para pensarmos a fome nos dias de hoje: a ligação entre acesso aos alimentos e renda. A renda é um fator determinante para a capacidade de acessar alimentos de uma família e isso fez com que ele ligasse o olhar para a fome com pobreza e não com os fenômenos naturais”, diz ela.

Em Geopolítica da Fome, Castro levou o tema para uma escala mundial, novamente desnaturalizando a pobreza e explicando os fatores geográficos, biológicos, culturais e políticos que levam à fome. Mendes enfatiza que o livro “sepulta” a ideia de que o aumento populacional da Terra implicaria em oferta insuficiente de recursos.

“Na obra, há uma análise da lógica de funcionamento do sistema alimentar mundial, formado na esteira do colonialismo e baseado na antiga divisão internacional do trabalho”, diz o professor. “Hoje, num mundo em que a agricultura é intensiva e voltada para a produção de commodities, sobretudo nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, fica fácil compreender que a fome das populações é devida a um processo que gera riquezas que ficam concentradas.”

Para Neri, a obra de Castro “é um divisor de águas”. “Embora escritos há quase 80 anos, sua mensagem continua atual. O mundo tem produção agrícola mais do que suficiente para alimentar toda a população. O mesmo valia e vale para o Brasil”, argumenta o economista.

“Ele mostrou que os interesses políticos e a concentração de riquezas são as verdadeiras causas do flagelo alimentar que condena indivíduos e sociedades”, sintetiza Mendes.

Carreira

Nascido no Recife, Josué Apolônio de Castro cresceu em uma região pobre da cidade, próximo aos manguezais. Queria ser psiquiatra. Começou a faculdade de medicina na Bahia e concluiu no Rio. A essa altura já havia decidido que em vez da saúde mental, cuidaria dos problemas decorrentes de má alimentação: especializou-se em nutrição.

Em 1932, segundo informações do Centro de Estudos Josué de Castro, o médico realizou uma ampla pesquisa sobre as condições de vida do operariado recifense. Mudou-se para o Rio e aos 28 anos foi admitido, concursado, como professor de geografia na então Universidade do Brasil, hoje Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Nos anos 1940, empreendeu viagens de estudos sobre alimentação e nutrição em países como Argentina, Estados Unidos, México e República Dominicana. Em 1943 tornou-se professor de nutrição do curso de sanitaristas do então Departamento Nacional de Saúde. Em seguida, foi nomeado diretor do Serviço Técnico de Alimentação Nacional, depois rebatizado de Comissão Nacional de Alimentação.

Ele ainda ocuparia diversos cargos importantes. Foi deputado federal por dois mandatos, presidente do conselho executivo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) e, em 1957, fundou a Associação Mundial de Luta Contra a Fome. Quando veio o golpe militar de 1964, ele era embaixador do Brasil na Organização das Nações Unidas (ONU) — acabou destituído do cargo e ficou exilado em Paris, onde morreu em 1973.

Nos últimos anos da vida, confessava sentir muita falta do Brasil. “Não se morre apenas de enfarte ou de glomerulonefrite crônica, mas também de saudade”, chegou a afirmar.

Castro chegou a ser indicado três ao Prêmio Nobel: em 1954, ao de Medicina; em 1963 e 1970, ao da Paz.

Um problema que persiste

“O Brasil se destaca internacionalmente no tema desde Josué de Castro”, ressalta Neri. “E hoje ainda mais, pelo paradoxo de ser um grande produtor de alimentos.”

Mendes lembra que oito décadas atrás o país era majoritariamente rural e “ensaiava a sua transição urbana e industrial”. “De lá para cá muita coisa mudou para permanecer igual. Os humilhados da terra, sem direitos políticos, sociais e trabalhistas migraram para as cidades movidos pelo efeito demonstração de um mundo que prometia mobilidade ascendente”, analisa o sociólogo. “O resultado foi a formação de um tipo novo de pobreza nas periferias das grandes cidades, onde a vida é precária. É para essa gente que os leitores de Josué de Castro olham hoje. Eles são vítimas do passado e do presente, estão num mundo que insiste em não os incorporar como cidadãos plenos, com direito à dignidade da vida e ao desenvolvimento de seu potencial humano. A sua fome dói.”

A historiadora Leme vê “mudanças e continuidades” no cenário. “Hoje não temos mais populações se retirando do semiárido quando há uma seca prolongada. Uma das maiores secas que esse território já teve aconteceu entre 2012 e 2017, mas políticas fundamentais como o Bolsa Família e o programa de cisternas, além de uma circulação mais rápida do alimento, fez com que essas famílias pudessem se manter em seu território”, comenta.

“Isso quer dizer que a fome epidêmica do semiárido mapeada por Josué diminuiu. Ao passado que a fome estrutural, que ele chamou de endêmica, se manteve”, explica ela. “Se a fome é estrutural, é apenas mudando a estrutura que vamos combatê-la efetivamente.”

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Todos têm chance

Por Inácio Augusto de Almeida

Quase todas as tardes, ao sair da faculdade, cruzava com aquela mocinha franzina e de olhos tristes. Seu vestido simples e as suas já gastas sandálias japonesas, destoavam do seu ar gracioso e inteligente.

Até que um dia…

– O senhor é o seu Inácio de Almeida?

A voz humilde e fraca surpreendeu-me. Fiquei meio atarantado, sem nem sequer saber o que responder. E para não ficar calado…

– Sim, sou eu.

Com a  vista baixa e tendo nas mãos alguns livros, ela se apresentou:

– Eu sou a Regina. Já li os seus livros.

– Ótimo.

Falei e já iniciava a caminhada quando ela insistiu:

– O senhor fala muitas coisas com as quais eu não concordo. É engraçado o que o senhor escreve, mas é irreal.

O português correto, a crítica, para ela, lógica; enfim, como poderia uma criatura tão simplória possuir tais conhecimentos? Respirei fundo e olhando-a nos olhos, para isso quase me abaixando, respondi-lhe:

– Você, minha filha, ainda é uma criança. Não se deixe influenciar por esta gente que eu ridicularizo. No fundo são bem piores, na realidade são uns calhordas. Usam as pessoas como instrumentos e depois fazem o que fazem…

Ela apenas riu. Riu e se despediu dizendo já ser hora de preparar o jantar, senão a patroa iria passar-lhe uma reprimenda.

O vulto se perdendo na distância e eu a rir…

Uns três dias depois, eis a mocinha novamente.

– Seu Inácio.

– Diga mocinha (não conseguia me lembrar do nome dela).

– Meu nome é Regina, disse rindo.

– Claro, claro que é Regina, e ri também.

– Eu vim aqui para ver se o senhor conseguia na biblioteca da faculdade alguns livros para mim. Eu lhe garanto que devolvo todos. O senhor não precisa se preocupar.

A coisa começava a ficar meio embaraçosa. Uma empregada doméstica a querer ler livros de nível universitário. A querer, não, pois segundo ela já os lia há tempos. Resolvi arriscar-me a pagar alguns livros…

– Vou conseguir para você os livros que desejar. Se não tiver na biblioteca eu os arranjarei em outro local.

Seus olhos encheram-se de brilho. Uma alegria enorme iluminou todo o seu semblante. A mocinha era pura vibração.

– Consiga para mim aquele do Josué de Castro, Geografia da Fome.

Passei a mão no queixo. E engoli a saliva umas duas ou três vezes.

– Claro. Venha amanhã que eu estarei com o livro.

E lá se foi a Regina preparar o jantar de uma patroa qualquer.

– Trouxe o livro?

– Boa tarde, Regina. O livro está aqui. Agora, diga-me uma coisa. A que horas você lê?

– À noite, depois de lavar os pratos do jantar. É quando minha patroa fica vendo novela e não me aperreia. Aí eu leio até tarde da noite. Tem dia, seu Inácio, que quase não durmo.

– Regina, acabe com este negócio de seu Inácio. Por que você não frequenta um colégio como todas as pessoas? Você é inteligente e tem muita força de vontade. É só você querer e dentro de alguns anos estará dentro de uma Faculdade.

Ela apenas riu. Não, não me disse nada, apenas riu. E quando iniciou a sua caminhada, virou-se e, com aquela sua extrema humildade:

– Eu tenho que ir. Está na hora de fazer o jantar.

E muitos e muitos foram os livros que consegui para Regina. O tempo passando, eu quase terminando o curso, ela, cada dia me parecendo mais magrinha.

E terminei tendo que pagar alguns livros. Regina há mais de um mês não aparecia.

“É a humanidade. A gente faz a coisa com a melhor das intenções e recebe como troco a desonestidade, a ingratidão. Mas isto não vai ficar assim não. Vou descobrir onde ela mora. Os livros eu recebo!”

Pergunta aqui, pergunta ali, consegui descobrir o endereço da patroa de Regina.

– Boa tarde, senhora. Eu desejo falar com a Regina.

A mulher baixinha, gorducha e com cara de imbecil olhou-me como quem olha para um ser do outro mundo.

– Aquela maluca eu mandei embora. Andava tossindo muito. Desconfiei que estivesse tuberculosa. Também, gastava o dinheiro todo com livros. Toda semana chegava com dois três livros diferentes.. Tinha a mania de passar as noites lendo. Era maluca e…

A velhota gorda a falar e eu a não ouvir mais nada. Tudo girava em torno de mim, como se eu estivesse embriagado. A muito custo consegui perguntar onde moravam os pais de Regina.

– Sei muito bem não. Parece que é para os lados das Barrocas.

E bateu a porta na minha cara. Certamente a novela da tarde ia começar…

Depois de gastar quase um dia todo, finalmente chego à “casa” dos pais de Regina. Uma choupana feita de estacas, enrolada em esteiras de palha e coberta de latas. No fundo de uma rede que avistei ainda de dentro do carro, um velho deitado. Ao seu lado, uma velhinha tão magra que tive dúvidas se era uma pessoa ou um esqueleto.

– Pode entrar moço. O senhor deve ser o seu Inácio. Regina falava muito no senhor. Mas não se preocupe, não. Os seus livros estão aqui. Era no que ela mais falava nos últimos dias. Pedia demais, chegava até a implorar para que eu não deixasse de entregar os livros ao senhor. Eu só ainda não tinha ainda ido porque estava esperando o Nicó (apontou para a rede) melhorar. Ele pede esmolas, é cego, e como está doente, não pode sair. E sem o dinheiro da passagem não pude ir entregar os seus livros. Mas eles estão aqui.

– No caminho de volta, lembrei-me do sorriso de Regina. Eu a dizer para ela que todos têm chance, ela a rir aquele seu sorriso puro.

“Todos têm chance, todos têm chance, todos têm chance…”

Inácio Augusto de Almeida é jornalista e escritor

A José Romero, uma lágrima e uma prece

Por Marcos Araújo

Em tempos de tecnologia, as notícias (boas ou ruins) vêm por aplicativos eletrônicos. Recebi uma mensagem do Prof. Benedito Vasconcelos reproduzindo uma nota do Departamento de Geografia da Universidade do Estado do RN (UERN), lamentando a morte do Prof. José Romero Araújo Cardoso.

Em Fortaleza, onde curso um doutorado, entre uma tarefa acadêmica e outra, brota uma lágrima nos olhos e paro para fazer uma prece para Romero. Rezo para sua alma. Rogo pela intercessão de Nossa Senhora para lhe dar acolhida.

Rezo também pela incompreensão que ele foi vítima. Preto e pobre, Romero foi alvo do estigma e do preconceito. Na Uern, creio – lastimo pelos alunos que se julgam sábios -, nunca recebeu a atenção devida.

Louco por Josué de Castro – outro negro, que travou uma luta contra a fome (acreditem os que veneram Lula, foi ele quem pensou antes do PT a renda mínima como combate à pobreza!) -,  odiava o regime militar por ter impedido a indicação do autor de Geografia da Fome ao prêmio Nobel da Paz.

Genial por excelência, sofreu também as contingências de um casamento fracassado. Enveredou pelo caminho tortuoso das drogas, em busca de um alento pelo desprezo conjugal. Sofreu, e muito!

Lembro de sua mãe e de sua tia. As duas largaram suas casas e passaram meses em Mossoró. Nessa luta, merece relevo a pessoa de Dona Chiquita, de saudosa memória, que assumiu a recuperação de Romero como meta de vida.

Naquela época não se entendia a dependência química como doença e a Uern até ensaiou um processo demissional, obstado depois por puro bom senso. Nesse tempo, recebia ele quase todo dia em nosso escritório. Eu e Lindocastro Nogueira, advogado da Associação dos Docentes da Uern (ADUERN).

Ouvimos as lamúrias do seu coração dezenas de vezes.

Depois de recuperado, convidei ele pelo menos cinco vezes para falar aos meus alunos no Curso de Direito. Dizia repetidas vezes: um dos homens mais inteligentes que tinha conhecido em vida.

Contudo, essa sociedade europeizada, branca e mesquinha, legatária genética de europeus de quinta categoria, não admite a inteligência dos descendestes de africanos. Um preto genial é uma ameaça. E ainda mais quando esse “preto” tem vícios comportamentais…Era mais Romero, na sua bizantinice de homem pecador do que muitos “Santos” de conduta impoluta.

Como lembrava o lisboeta Fernando Pessoa, gostava de Romero porque “tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril”.

Romero era gênio. Como tal, vivaz entusiasta dos seres humanos, sem cor, raça ou qualquer atributo de gênero.

Só incensava um deles: Vingt-Un Rosado! Para ele, nunca houve ninguém mais inteligente…Escrevia como ninguém, e, assim como o negro Castro Alves, tinha sede do saber.

Lembrando Castro Alves,

“Desta sede de saber,
Como as aves do deserto
– As almas buscam beber…
Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar”.

Requiescat in pace, Romero!

Deus te acolha e cure tuas mágoas.

Seu amigo, Marcos Araújo

Marcos Araújo é professor, escritor e advogado

Índole da vergonha

Por François Silvestre

País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.

Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.

Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.

Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.

Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freire abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.

Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. E a índia não era fácil, era enganada ou possuída. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.

Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade. A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.

E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes. Da mesma Europa falida; italianos, alemães, poloneses, espanhóis, russos, escandinavos, somados aos orientais, de onde o sol nasce primeiro.

Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.

Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.

Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores. Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes.

Se o futuro dessa molecada que cresce agora for melhor do que estamos construindo, certamente terá vergonha do nosso presente. Tomara que assim seja, a vergonha de uma índole de mentira. E que essa molecada consiga repor, na prática, a antropologia do otimismo.

mais.

François Silvestre é escritor

Teatro de horrores

Por François Silvestre

País do futebol, samba, jeitinho, frevo, carnaval, hipocrisia moral, frivolidade religiosa, mungangas e trapaças, das contravenções consentidas, do complexo de inferioridade, da geografia ímpar e da historiografia distorcida.

Somos tudo isso. Democracias de intervalo entre ditaduras criminosas. Também somos isso. Portadores de ingenuidade marota, com método. Espertos no secundário, bobos no fundamental.

Somos incultos e ousamos fazer chacota de quem estuda. Sábio, aqui pra nós, não é o estudado. É o que “vence na vida”. E vencer na vida é demonstração ostensiva de fortuna, vida boa e esbanjamento.

Os estudiosos da nossa índole, na sua quase totalidade, optaram por análises superficiais e conclusões generosas. Geralmente certeiros nas análises, mesmo superficiais, e incertos nas conclusões, mesmo aprofundadas.

Sérgio Buarque viu bondade originária, que produziria índole pacífica. Não precisa muito esforço para se negar essa avaliação. Gilberto Freyre abasteceu-se de assertivas prováveis para emitir conclusões improváveis. Veja-se o caso da sua conclusão sobre a frieza do índio macho e facilidade de acesso ao nu da índia fêmea, que atraíra os navegantes.

Daí ele concluir a importância maior da índia fêmea sobre o índio macho na formação do nosso povo. A assertiva é verdadeira; porém a conclusão é falsa. Nem o índio era frio nem os navegantes vinham de terras pudicas. O índio não era frio, era natural. Desprovido da sensualidade erótica dos europeus. Se os navegantes quisessem erotismo, ficariam na Europa. Lá era o paraíso da putaria.

Darcy Ribeiro optou pela antropologia do otimismo, na crença de um futuro brilhante resultante da miscigenação. Decantava argumentos com base no resultado de um povo do porvir, que sairia de uma mistura ímpar na história da humanidade.  A naturalidade do índio, a espiritualidade do negro e a tecnologia do europeu.

E cada um desses vindo de outras misturas antigas. Alanos, suevos, godos, visigodos, árabes, latinos, mouros. Moçambicanos, bantos, haussás. Guaranis, tupis, nuaruaques, carijós, aimorés, marajoaras. Somados aos imigrantes mais recentes.

Euclides da Cunha, numa obra fenomenal, expôs a antropologia da resistência. Fixando sua observação num tipo humano, geograficamente localizado, capaz de reincidir, com abnegação, no confronto a todo tipo de adversidade. Não teve pretensões científicas, mas acabou produzindo ciência. Além da beleza literária de uma denúncia edificante.

Manoel Correia de Andrade, Rui Facó, Josué de Castro, Caio Prado, Ariano Suassuna, Câmara Cascudo e outros cuidaram da índole, costumes, tradições.

Ninguém conseguiu prever o atual teatro de horrores.

Ladroagem, violência, intolerância. Antropologia de símios bípedes. O futuro certamente terá vergonha do nosso presente.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Os 70 anos do “Geografia da fome”

Por José Gonçalves do Nascimento

O drama da fome está presente em obras importantes da literatura brasileira, em especial aquela produzida por intelectuais nordestinos. Em algumas obras, o tema chegou a inspirar cenas que, por sua força e dramaticidade, tornar-se-iam verdadeiramente antológicas:

Em “O quinze”, de Raquel de Queiroz, o personagem Chico Bento, após esfolar uma cabra que encontra pelo caminho, e estando cego de fome, leva à boca os dedos sujos de sangue, comprazendo-se no “gosto amargo da vida”. No romance “Vidas secas”, de Graciliano Ramos, a cachorra Baleia, há dias esfomeada, sonha com um mundo povoado por muitos e gordos preás. Em “A bagaceira”, de José Américo de Almeida, João Troculho, em diálogo com Lúcio, revela seu maior desejo: “comer até matar a vontade”.

Muito antes, Rodolfo Teófilo, ilustre humanista nascido na Bahia, mas radicado no Ceará, já havia tratado da temática, produzindo obras que se tornariam importantes peças de denúncia contra o terrível flagelo, caso do romance “A fome”, publicado em 1890.

Todavia, foi com Josué de Castro que a fome adquiriu estatuto científico, político e moral, não sendo encarada apenas como consequência de fatores climáticos e naturais, mas também, e sobretudo, como algo “provocado pelo homem contra outros homens”, a partir de ações políticas sistematicamente deliberadas.

Médico, geógrafo, cientista social, escritor, Josué de Castro é umas das figuras mais proeminentes do pensamento brasileiro.

Pernambucano, nascido em 1908, dedicou a vida inteira ao estudo da fome e da nutrição, escrevendo sobre o tema obras de elevadíssimo valor científico e literário. Uma delas é “Geografia da fome”, publicada em 1946, ao fim da segunda guerra mundial, e tida por Alceu Amoroso Lima como “livro-chave da realidade brasileira”, comparável apenas ao “Os sertões”, de Euclides da Cunha.

O livro foi pioneiro no sentido de trazer à baila a problemática da fome e suas implicações políticas e sociais no momento em que o tema era considerado um tabu. O próprio autor classificará o assunto como algo “perigoso e delicado”, afirmando haver “uma verdadeira conspiração do silêncio em torno da fome”.

“Será por simples obra do acaso – indagará ele – que o tema não tem atraído devidamente o interesse de espíritos especulativos e criadores do nosso tempo? Não cremos. Trata-se – continua – de um silêncio premeditado pela própria alma da cultura: foram os interesses e os preconceitos de ordem moral e de ordem política e econômica de nossa chamada civilização ocidental que tornaram a fome um tema proibido, ou pelo menos pouco aconselhável de ser abordado publicamente.”

Ao lado disso, há que se acentuar também a existência de certo sentimento de grandeza e ufanismo que fez com que a elite política e intelectual do Brasil ignorasse por tanto tempo o problema da fome, optando por destacar apenas elementos que pudessem enaltecer o nome do país, ainda que de forma maquiada. “A ‘Geografia da fome’ – assevera Barbosa Lima Sobrinho – veio desmitificar a ideia de que não havia fome no Brasil.”

Fatores de ordem política, econômica, social e cultural, como a concentração da terra e da renda, o abandono do campo, a urbanização desenfreada, a centralização do poder, a chamada “política de fachada” – sem esquecer, obviamente, a indiferença com que o fato sempre foi tratado – são aqui apontados como as principais causas do problema da fome ou da deficiência alimentar.

O livro divide o território brasileiro em cinco diferentes áreas alimentares, possuindo cada uma delas características específicas e níveis diversos de nutrição e subnutrição, tudo isso condicionado por particularidades históricas, geográficas, econômicas, sociais e culturais. São elas: 1) Área Amazônica; 2) Nordeste Açucareiro ou Zona da Mata Nordestina; 3) Sertão Nordestino: 4) Centro Oeste e 5) Extremo Sul.

Das cinco regiões que formam o mapa alimentar brasileiro, três são consideradas “áreas de fome”: a Amazônica, a da Zona da Mata e a do Sertão Nordestino. Segundo o estudo, estas são áreas onde pelo menos metade da população apresenta “nítidas manifestações de carência nutricional”.

É ONDE, segundo o autor, revela-se a “chamada fome oculta, na qual, pela falta permanente de determinados elementos nutritivos, em seus regimes habituais, grupos inteiros de populações se deixam morrer lentamente de fome, apesar de comerem todos os dias”. Conforme vem definido, fome oculta é aquela caracterizada pela deficiência de ferro, cálcio, sódio e de vitaminas do complexo B, dentre outros.

É a fome tipicamente de “fabricação humana”, nas palavras do próprio autor.

Josué de Castro morreu nos anos setenta em Paris, onde se encontrava exilado por força da ditadura militar, instalada em abril de 64. Morreu de infarto após tentar sem sucesso voltar ao Brasil e retomar a luta contra o terrível flagelo, que mais e mais se acentuava.

Mas sua obra, em especial “Geografia da fome”, ainda haveria de render muitos e bons frutos, inspirando ações de solidariedade, assim como políticas de governo. Alguns exemplos:

Nos anos oitenta, o então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Hélder Câmara deflagra amplo movimento de combate à fome, objetivando erradicar o problema até o ano 2000. No início dos anos noventa, o sociólogo Herbert de Souza cria o movimento da “Ação da Cidadania”, que mobilizou parte expressiva da população e tirou da fome extrema muitos milhões de brasileiros.

O movimento acabou sendo assumido pela agenda oficial, tornando-se política pública. Anos depois, seria implantado o programa federal “Fome zero” que deu origem ao atual “Bolsa família”, o qual tem enormemente contribuído para a melhoria da qualidade de vida de parcelas consideráveis do povo brasileiro, concorrendo assim para a redução da miséria que ainda assola nosso país.

Não obstante os avanços até aqui obtidos, as mazelas apontadas há setenta anos ainda não foram superadas. O problema do latifúndio e da concentração de renda, apontado como principal responsável pela fome, continua a persistir e de modo cada vez mais acentuado. De modo que o livro “Geografia da fome” chega aos nossos dias mais atual do que nunca.

José Gonçalves do Nascimento é poeta e cronista

Nem pacífico nem ordeiro

Por François Silvestre

A maior fraude antropológica sobre a natureza humana do brasileiro foi a consagração dessa bobagem de que somos um povo ordeiro e pacífico.

Pra começo de conversa nem somos um povo. Somos um pré-povo, em permanente debandada, socialmente desnutrido e culturalmente embotado.

Quem pensou sobre a nossa identidade, não se arriscou ao apontamento do nosso destino. Sérgio Buarque, Gilberto Freire, Darcy Ribeiro, Rui Facó, Câmara Cascudo, Caio Prado, Josué de Castro, Manoel Correia de Andrade, Werneck Sodré e tantos outros só mostraram a nossa face. Às vezes deformada.

Somos violentos e desordeiros. Porém, a “valentia” da nossa índole é de natureza individual. Intrassocial. Em matéria política e de organização coletiva somos cordeiros. Arrebanhados. Valentes no varejo e covardes no atacado.

Todas as ditaduras aqui estabelecidas tiveram o amparo da nossa covardia. Pelo medo ou pela colaboração. E todas elas só caíram após a exaustão da sua própria superação. Nenhuma foi derrubada.

Nunca fizemos uma revolução. Só golpes. Nem reformas nós fazemos. Nossa organização partidária é uma quadrilha cartorial. Cada um em torno de uma legenda que nega o próprio nome e de um programa prostituído de adjetivos.

“A índole pacífica do nosso povo” é uma fraude antropológica. Verso de um poema de vaselina. A entrar no traseiro da incultura.

Fomos descobertos porque estávamos no caminho da ganância dos impérios e da aventura dos corsários. Num entreposto à disposição da ladroagem.

E nunca mais nos libertamos dessa sina. Roubados por portugueses, franceses, holandeses, ingleses e corsários de todos os mares. Depois, dependentes do império americano.

Mas não fica por aí. Os nossos representantes não se prestam à defesa da nossa terra. Pelo contrário, roubam-nos o que sobrou da roubalheira imperial.

Um pré-povo disponível ao saque. Assaltado pelos donos do poder econômico. Pacífico ante os mandões, mas violentos entre si. Ninguém está seguro na pátria da bandidagem. E no falso combate, os fascistas e seus holofotes assinalados.

A criminalidade crescente, sem controle, confirma a negação intrínseca da nossa falsa índole mansa. E quem deveria combater, colabora; na inutilidade festiva da mídia. As ruas são dos bandidos. Encurralados estamos entre a bandidagem e o controle de faz de conta.

Em política, no Brasil, não há correligionários. Há cúmplices. Conchavos eleitorais. Compra e venda. “Eleitos e eleitores” no mesmo forno de assar patifaria. Exuberância de geografia num país de pífia história.

Dizia Darcy Ribeiro que a naturalidade do índio, a tecnologia do europeu e a espiritualidade do africano formariam um grande povo. Resta esperar o futuro.

Constituinte Originária agora ou oportunidade perdida.

Té mais.

François Silvestre é escritor

* Texto originalmente publicado no Novo Jornal.

Geografia da Fome – Permanências e transformações

Por José Romero Araújo Cardoso e Marcela Ferreira Lopes

Publicado com grande aceitação em 1946, o livro Geografia da Fome de Josué de Castro propôs regionalização alicerçada nos padrões nutricionais apresentados pelo País, até então eminentemente agroexportador, cuja população concentrava-se majoritariamente na zona rural.

Analisando as condições alimentares apresentadas pela gente que habitava a área do sertão do Nordeste, Josué de Castro traçou linhas afirmativas sobre a região, frisando que a mesma teria condições de figurar de forma proeminente e positiva no mapeamento que realizou, em razão das características satisfatórias que a diferiam do conjunto brasileiro.

Conforme Josué de Castro, as longas e prolongadas estiagens tornam-se o diferencial no que tange à defasagem alimentar em épocas específicas e cíclicas que determinam a tormenta para a população sertaneja, independente de classes sociais.

A influência da falta d´água torna-se imperativa no rebaixamento das condições de vida local, pois marcada pela presença de rios intermitentes, sujeitos aos rigores climáticos, a área do sertão nordestino é condicionada pela ação dos agentes físicos, refletindo na elaboração próprio processo de produção do espaço.

Conforme o célebre cientista, o milho integra ativamente a dieta do homem sertanejo, destacando que ao contrário de outras áreas do planeta, na grande macrorregião que estruturou em sua proposta de regionalização há pontos positivos destacados no que diz respeito à utilização desse alimento pela população.

A inexpressiva presença de frutas ricas em vitaminas na dieta do homem regional está ligada aos fatores edafoclimáticos que notabilizam as condições naturais da região. Em manchas esparsas, a presença de frutos nativos como o umbu faz a diferença.

Ao milho, incorporavam-se verdadeira plêiade de outros alimentos, pois ao contrário da região açucareira, o sertão nordestino configurou-se embasado na produção para a subsistência, tornando-se bem mais democrática no quesito alimentação do que sua congênere litorânea, colonizada sob a égide do império mercantilista do cobiçado produto obtido através da empresa agrícola instalada, a qual definiu a ocupação territorial do quinhão português no Novo Mundo.

O binômio gado-algodão integrava indissociavelmente a paisagem sertaneja, quando da publicação da celebrada obra de Josué de Castro, estando integrado a esse a tradicional pecuária de pequeno porte.

A importância do rebanho caprino regional foi observada pelo autor. Metade do criatório nacional concentrava-se na região quando da publicação da Geografia da Fome no ano de 1946, com os Estados da Bahia e de Pernambuco ocupando a vanguarda.

Nos dias de hoje o rebanho de pequeno porte, abrigado no semiárido, com ênfase à caprinocultura, excede o percentual de noventa por cento. Os Estados que abrigavam majoritário percentual na época da publicação da Geografia da Fome, ainda continuam os mesmos.

Astúcia e impactação ambiental caracterizam a ação desses ruminantes doméstico de pequeno porte. A devastação do meio-ambiente ainda perfaz problema na cadeia produtiva da caprinocultura, pois os recursos tecnológicos utilizados ainda são incipientes.

A influência das culturas semita, negra e indígena na diversidade da culinária sertaneja também teve ênfase na Geografia da Fome, sendo indicada como fator positivo para a multiplicidade dos pratos regionais.

As secas ainda representam graves fatores desagregantes do quadro físico e humano da área do sertão nordestino. Períodos de estiagens prolongadas, marcados pela força inclemente da natureza, ainda assinalam tormentas indescritíveis. Não obstante esforço de órgãos mantidos pelos governos, grande estiagem como a que marcou os anos de 1979-1983 deixou cicatrizes profundas.

O sertão nordestino se despovoa com rapidez impressionante. A cultura do algodão, até certo ponto tida como democrática, implementadora efetiva da geração de emprego e renda, foi desestruturada graças ao advento da praga do bicudo, desconhecida até o início da década de oitenta do século passado.

O agrobusiness, com a fruticultura tropical irrigada exigindo espaço consideráveis, antes destinados à agricultura de subsistência, assinala novo processo de inserção regional na economia globalizada.

O vertiginoso processo de desertificação de boa parte do semiárido vem ocasionando mudanças radicais na paisagem da região. O desmatamento sem controle tem trazido consequências danosas para o bioma e para a população, incidindo em declínio nutricional significativo.

Transformações significativas vem sendo levadas avante na párea do sertão nordestino, pois modos de vida tradicionais vem sendo substituídos pela força avassaladora dos novos tempos que imprime consideráveis mudanças nas caraterísticas da geografia humana do lugar.

Quando do centenário de nascimento de Josué de Castro, em setembro de 2008, o Jornal do Commércio, de Recife/PE, publicou uma série de reportagens sobre a permanência da fome no nordeste, mostrando que apesar das denúncias efetivadas na Geografia da Fome, ainda permanecem os sinais da exclusão através das negras manchas da desnutrição crônica que se espraiam sobre a região, gerando verdadeiro cataclisma na defasagem das condições da qualidade de vida da população.

José Romero Araújo Cardoso é geógrafo, escritor e professor da Uern

Marcela Ferreira Lopes é geógrafa e graduanda em Pedagogia

Seca e fome na zona rural da região de Mossoró

Por José Romero Araújo Cardoso

Tenho o hábito de sair vagando pela zona rural da região mossoroense, visando conhecer mais sobre as atuais condições de vida da população da área em que resido, pois, dever do geógrafo que prioriza o humano em pesquisas e análises, faz-se necessário constatar in loco quais problemas mais agudos afligem o povo pelo qual se deve firmar compromisso a fim de contribuir para a busca de soluções que erradiquem níveis insatisfatórios revelados em indicadores socioeconômicos.

A atual situação apresentada pelo quadro natural da região semiárida, quando a efetivação de seca dramática se responsabiliza pela exponencialização de agudos episódios envolvendo a população local, vem intensificando a fome, sobretudo na zona rural, espaço onde a produção de alimentos se apresenta comprometida coma ausência de chuvas.

Crianças famintas são vistas com freqüência, pois se constituem elos frágeis da situação aflitiva que se instala no campo com o recrudescimento da intensa estiagem que assola o semiárido, sobretudo na região polarizada por Mossoró, tendo em vista a intensidade da ação dos alíseos de nordeste, viabilizada pela corrente marítima de Benguela, formados nas imediações do Arquipélago dos Açores, os quais em consonância com a opção desmedida pelo agrobusiness desestimula qualquer perspectiva de incremento à agricultura familiar como fator de suma importância à produção de alimentos que possam saciar a fome da população carente que sofre de forma impiedosa com a tragédia climática que castiga a região.

A fome vem imperando em comunidades rurais espalhadas pela região mossoroense.

Em São João da Várzea, concentração populacional campesina localizada ás margens da RN-117, caminho para os sertões potiguares e paraibanos, a falta de alimentos vem penalizando seriamente famílias inteiras que tem na agropecuária quase que a única fonte de renda a fim de manter os membros das famílias. Não é diferente a situação das famílias que habitam comunidades rurais ao longo da citada rodovia estadual.

No município de Governador Dix-sept Rosado, a fome vem assolando impiedosamente, não obstante a proximidade com o curso do rio Apodi-Mossoró. A ausência de infraestrutura que possa permitir o aproveitamento do valioso recurso hídrico intensifica o drama vivido pela população local, tendo em vista que é privilégio de poucos dispor de recursos financeiros que permitam irrigar plantações e dessedentar o criatório.

A seca vem destruindo plantações e matando o gado, deixando seres humanos em situações calamitosas, com a desnutrição atingindo principalmente, de forma inexorável, pequenas vidas que clamam por alimentos a fim de saciar a fome atroz que assume proporções calamitosas a cada dia que passa.

Em assentamentos rurais, aposta do governo federal a fim de repovoar o campo, a situação não é diferente, tendo em vista que a falta de água e o preço exorbitante cobrado para garantir abastecimento a partir de adutoras, vem inviabilizando a permanência da população na zona rural submetida, cada vez mais, de forma intensa, aos rigores da seca histórica que vem trazendo desalento e desconfortos materiais e espirituais àqueles que insistem em permanecer arraigado ao chão adusto e causticante do semiárido em sua zona rural.

A fome é uma realidade cruel que vem se responsabilizando pelas mais dramáticas situações de incertezas ao sofrido povo nordestino, sobretudo a parcela que habita o semiárido. A seca vem intensificando quadro de pobreza histórica que imemorialmente atinge deserdados do modelo adotado em nosso país.

Atitudes e ações devem ser mais enfáticas do que retóricas discursivas, pois a urgência que se descortina com relação à emergência do fazer imediato pelo povo sofrido e carente dessa região intensamente castigada pela seca e pela fome são condições sine qua non a fim de que o sentido da solidariedade seja implementado imediatamente. Antes que a fome se torne problema de graves proporções para a sofrida população de baixíssima renda que vem sendo vítima do maior flagelo da humanidade, o drama terrível da fome, denunciado intensamente pela grandeza e pelo humanismo do cientista brasileiro Josué Apolônio de Castro.

José Romero Araújo Cardoso é professor da Uern * Texto originalmente publicado no Blog de Carlos Escóssia