Em Brasília, uma agenda especial com o juiz Marcos Mairton (Foto: STJ)
Em Brasília, nessa quinta-feira (07), reencontro o amigo Marcos Mairton. Atuou há anos na Justiça Federal em Mossoró.
Juiz auxiliar no Superior Tribunal de Justiça (STJ), gabinete do ministro Raul Araújo Filho, o cearense Mairton também é cantor, compositor, poeta e escritor.
Quando ingressei no Curso de Direito da Universidade de Fortaleza, em 1986, estava com vinte anos de idade, mas já trabalhava no Banco do Nordeste. Um bom emprego, que me permitia pagar com tranquilidade as mensalidades do curso, além de assistir às aulas sem o estresse de quem ainda busca uma vaga no mercado de trabalho.
O curso era noturno. Lembro que, no primeiro dia de aula, cheguei quando o sol ainda nem havia acabado de se por e deixei o carro no estacionamento externo do campus. Naquela época, não havia muita preocupação com assaltos ou furtos.
(Foto: Iago Ribeiro)
Um rapazinho de uns quatorze anos, que estava por ali, com uma flanela no ombro, prontificou-se a cuidar do carro até que eu voltasse:
“Pastorar” é um verbo que no idioma cearês significa “cuidar de uma coisa alheia, sem tocar nela; manter sob vigilância”. A palavra consta dos dicionários de língua portuguesa como sinônimo de “pastorear”, que vem a ser a atividade do pastor ao cuidar do rebanho. O sentido é praticamente o mesmo.
“Louro” é uma das muitas maneiras de se tratar alguém cujo nome se desconhece.
– Pode! – respondi, de pronto, imaginando que ele pretendia receber alguma paga pelo serviço de vigilância, mas tendo certa dúvida se um jovenzinho daquela idade estaria a postos quando eu retornasse, lá pelas dez da noite.
E fui para minha aula. Quando retornei ao estacionamento, ao final, lá estava ele. Não pediu nada. Seu cumprimento – “Diz aí, Louro!” – foi o sinal para que eu lhe desse algum dinheiro.
A partir daquele dia, deixava costumeiramente o carro naquela área do estacionamento, sob os cuidados do jovem que passei também a chamar de “Louro” – o que fazia até mais sentido, porque, diferentemente de mim, ele tinha os cabelos loiros.
Foi assim durante todo o meu curso de Direito. Estacionava, cumprimentava o Louro e ia assistir às aulas. Ao voltar, encontrava-o esperando o pagamento, ou, o “trocado”, como ele preferia chamar.
Mas nem sempre ficava nisso. Várias vezes dei-lhe camisas e sapatos, em bom estado de conservação, que não mais usava. Era quase uma amizade. Não chegava a tanto, porque a conversa nunca passou de “Diz aí, Louro!”, “Beleza, Louro!” e coisas assim. Logo, nunca fiquei sabendo onde o Louro morava, nem quem seria sua família, se é que tinha família e casa. Tampouco ele mostrava interesse na minha vida pessoal.
A par disso, recordo que muitas vezes cheguei a me questionar sobre o rumo que toma a vida de uma pessoa, conforme ela tenha oportunidade de estudar. E conforme faça uso dessa oportunidade.
Imaginei que o Louro, apenas uns cinco anos mais jovem que eu, deveria ter nascido em uma casa não muito mais pobre que a minha, na periferia de Fortaleza. Talvez tenha frequentado os primeiros anos do ensino fundamental em uma escola pública, como eu. Mas, em algum momento da vida, perdeu o interesse pelos estudos ou a condição de lhes dar sequência. É possível – talvez provável – que tenha sido incentivado pelos próprios pais a deixar o colégio, para contribuir com a renda da família. O contrário do que acontecera comigo, sempre estimulado a buscar nos estudos o caminho para melhorar de vida.
Independentemente dessas conjecturas, o fato é que, durante alguns anos, frequentamos a mesma universidade. Eu assistindo às aulas, ele “pastorando” meu carro. E, ao final daquele período, eu iria receber meu diploma de bacharel em Direito, enquanto ele continuaria sendo um “pastorador” carros, um “flanelinha”.
Passou o tempo. De bacharel em Direito, fiz o exame da Ordem dos Advogados do Brasil e tornei-me advogado; comecei a advogar no escritório de um amigo, e depois, no próprio departamento jurídico do banco onde trabalhava; entrei para o Mestrado em Direito Público da Universidade Federal do Ceará; passei em concurso para Procurador do Banco Central do Brasil; e concluí o mestrado.
Em 1999, já com o título de mestre, voltei à Universidade de Fortaleza, agora como professor do Curso de Direito, do qual fora aluno.
As aulas começavam às sete da noite, mas, no meu primeiro dia, cheguei à UNIFOR um pouco antes de anoitecer. Talvez por nostalgia, abri mão do estacionamento dos professores e deixei o carro na mesma área onde estacionava quando aluno.
Mal acabava de desembarcar, quando ouvi uma voz:
– Diz aí, Louro!
– Fala, Louro! – respondi com entusiasmo. – Tu ainda tá por aqui?
– Todo dia!
– Vai “pastorar” o meu?
– Claro!
– Tô de novo na área – falei sorrindo. – Mas agora como professor.
– É isso aí! Fez bonito! O senhor sabe que o estacionamento de professor é lá dentro, né? Mas, se quiser deixar aí, ninguém “bole”, não.
“Bole” é a terceira pessoa do singular do verbo “bulir”, que tem muitos significados na língua portuguesa. No idioma cearês é sempre utilizado no sentido de “tocar ou mexer em alguma coisa”.
Mas a palavra usada por ele que me chamou mais a atenção foi “senhor”. Era a primeira vez que se dirigia a mim daquela maneira. Certamente por respeito à minha, agora, condição de professor, demonstrando que, apesar de continuar frequentando a universidade apenas para vigiar os carros, reconhecia o valor dos que se dedicam ao ensino.
Iniciava-se, assim, mais um período de vários anos em que frequentei a Universidade de Fortaleza. Todas as noites, de segunda a sexta-feira. Raramente via o Louro, porque, como ele mesmo havia me alertado, o estacionamento dos professores ficava do lado de dentro do campus.
Nessa mesma época, fiz outros concursos. Fui advogado da União, depois tornei-me juiz federal. Deixei de ensinar em 2005, quando me afastei de Fortaleza, para assumir a primeira vara federal de Juazeiro do Norte. Dali, passei por Mossoró, Sobral e Quixadá. Até retornar a Fortaleza, em 2012.
Não voltei mais a ensinar, mas alguns anos depois do retorno a Fortaleza, fui convidado a dar uma palestra em um seminário na Unifor.
Um carro da universidade foi me buscar no fórum. Terminada a palestra, caminhei até a área externa, onde minha mulher me esperava em nosso carro. Passando pelo local onde costumava estacionar, lembrei dos tempos de aluno do curso de Direito.
O relógio marcava vinte e duas horas e mais um punhado de minutos. Alguns estudantes transitavam por ali, andando apressados em direção ao ponto de ônibus ou ao local onde haviam estacionado seus carros. Formava-se um engarrafamento na avenida que passa em frente à universidade. Alheio a todo aquele movimento, um homem de cabelos grisalhos estava sentado no meio-fio, demonstrando cansaço. Os braços apoiados nos joelhos, a testa apoiada nos antebraços.
No instante em que eu passava por ali, ele ergueu a cabeça e falou sorrindo:
– Diz aí, professor!
Era o Louro.
Marcos Mairtonda Silva é poeta, escritor, compositor e juiz federal
Certa vez, fui perguntado
Sobre como eu conseguia
Dedicar-me à poesia
Sendo eu um magistrado.
Vivendo tão ocupado,
Com as questões do Direito,
Como é que dava jeito
Para escrever rimando,
E também metrificando,
Fazendo verso perfeito?
Eu, antes de responder,
Calado, pensei assim:
Quem pergunta isso pra mim
Não conhece o “métier”
De quem tem que resolver
Toda sorte de conflito.
Que de perto escuta o grito
Da nossa sociedade,
Clamando por igualdade,
Pedindo pena ao delito.
Ser poeta e ser juiz
O que há de estranho nisso,
Pra quem tem o compromisso
De ouvir a parte o que diz?
Que vê o olhar feliz
De quem ganhou a questão
E tem a satisfação
De sentir que fez Justiça
Reparando a injustiça
Que atingiu o cidadão?
Eu penso que a poesia
Está em todo lugar,
E quem vive a julgar
A encontra todo dia:
Quando o parquet denuncia
Quando o réu faz sua defesa
Quando a polícia traz presa,
Gente por ela detida,
É a poesia da vida
Que me chega de surpresa!
A poesia aparece
Quando o advogado
No pedido formulado
Diz: – Doutor, ela merece,
Todo dia sobe e desce
A ladeira da “Queimada”
Carregando uma enxada
Para trabalhar na roça
Não é justo que não possa
Ser agora aposentada.
A poesia é presente
No olhar do acusado
Seja quando é culpado,
Seja quando é inocente.
Na testemunha que mente,
E na que fala a verdade.
Na imparcialidade
Que todo juiz queria.
Veja quanta poesia
Em nossa realidade.
Por isso eu acho normal
Que todo bom magistrado
Venha a ser considerado
Poeta em potencial.
Incorre em erro fatal
Quem quiser fazer sentença
Somente com o que pensa
Sem revelar o que sente.
Um juiz desse, é urgente
Que se afaste, de licença.
Tulio Liebman lecionava,
Que a sentença é assim,
Vem de “sentire”, em latim,
E, dessa forma, ensinava:
Que na sentença se grava
Não somente o pensamento,
Mas também o sentimento
Do juiz que a profere.
Que ninguém desconsidere
Esse grande ensinamento.
Se o poeta, realmente,
Não é mais que um “sentidor”.
Que chega a sentir que é dor
“A dor que deveras sente”,
Juiz não é diferente
Quando cumpre sua função.
Mesmo quando a decisão
Em versos não se transforma
Na aplicação da norma
Há uma carga de emoção.
Fique tranqüilo, portanto,
Meu colega, magistrado,
Se, agora, aí sentado,
Lhe surpreender o pranto.
Pois não será por encanto,
Magia ou maldição.
É só manifestação,
Que nesse instante sentiste,
Do poeta que existe
Dentro do seu coração.
Marcos Mairton é juiz federal nascido em Fortaleza-CE, escritor, músico e poeta
Ex-juiz federal em Mossoró, o cearense dos bons, além de poeta e escritor, Marcos Maírton, participa a partir de quinta-feira (25), no Rio de Janeiro, do Fórum Nacional dos Juizados Especiais Federais (FONAJEF). Atualmente, ele atua na Justiça Federal no Ceará. Abração, amigo.
O professor, assessor parlamentar e blogueiro Wilson Cabral comemora aniversário hoje às 18h, na Confraria do Cafezal (Memorial da Resistência, Mossoró). A data, na verdade, foi registrada no início da semana, mas o ritual desse grupo regado à prosa e ao cafezinho, manda que a festa seja sempre às quartas-feiras. Vou levar falta, mas à distância de 280 quilômetros vão meus desejos de saúde e paz ao aniversariante. Bebam todas por mim.
Faço questão de reproduzir uma correspondência eletrônica que recebi no dia passado. É do ex-vereador petista, em Mossoró, Luiz Carlos de Mendonça Martins. Vale muito pelo valor incomensurável que o próprio missivista possui, aos meus olhos e da sociedade local: “Prezado Jornalista Carlos Santos, bom dia. Muito grato pelo convite, em anexo, para o lançamento do seu mais recente trabalho literário. Infelizmente, caro Jornalista, se não estivesse com problemas de saúde, participaria do lançamento do seu livro, lá na capital do Estado, nesta quinta-feira. Caro Jornalista, fico devendo-lhe mais esta participação. Que a Providência conceda-lhe sempre Paz, Saúde, Fé e Coragem, para continuar o seu apostolado de fazer o jornalismo investigativo, a despeito das pressões dos governantes poderosos de plantão, nas diferentes esferas da Administração Pública. Que o evento de Natal possa superar o de Mossoró. São os nossos sinceros votos, de coração. Vossa Senhoria, pela sua trajetória de compromisso com a Verdade, a Ética e a Transparência, como profissional de imprensa, merece o reconhecimento da Sociedade Mossoroense e Potiguar pela sua contribuição em defesa da Cidadania e da Democracia, ao longo de vários anos de jornalismo. Atenciosamente, Luiz Carlos de Mendonça Martins“. P.S – Saúde e paz, professor.
Dona Maysa Almeida-Emery Costa, quando eu retornar à nossa querida Mossoró, lá pro dia 29, beicinho de setembro, vou “vitimá-los com o meu “Só Rindo 2”. Vocês não perdem por esperar. Câmbio.
Começa nesta quinta-feira (25), às 19h, a vernissage do artista Anchieta Amorim, nas instalações do Tenda Gastronomia (Mossoró). A exposição vai acontecer até o dia 10 de setembro. Sucesso.
O Grupo Arruaça de Teatro estreou o monólogo “Frei molambo” nessa terça-feira (23), às 20h, no Teatro municipal Dix-Hiut Rosado (Mossoró). É em cima de um texto da dramaturga Lourdes Ramalho e conta com a coreografia de Euclides Flor e com os bailarinos Marcelo Raposo e Luciano Almeida. Na interpretação aparece o ator Américo Oliveira e direção de Augusto Pinto, além da sonoplastia de Carlindo Emanoel.
Saúde e paz para a odontóloga Sandra Raíssa Fernandes. Na quinta-feira (25), passa por cirurgia em Natal, programada para as 13h. P.S – Tem jeito não… pelo visto, mais uma vez vou deixar de “vitimá-la” com o meu livro. Prioridade é sua saúde, que se diga. Minha torcida para que tenhas pleno êxito e reapareça toda Barbie, com cinturinha de vespa.
Obrigado a leitura deste Blog à jornalista Ana Cadengue (Mossoró), professor e blogueiro Wallace de Azevedo (Santa Cruz) e jornalista Alex Viana (Natal).
Final de tarde muito agradável, na terça-feira (23), cá em Natal, onde estou desde o último sábado (20). O poeta iconoclasta, “boca de caieira”, Laélio Ferreira, foi-me anfitrião lá pras bandas da ribeira do Potengi, no Iate Clube. Prosa, claro que não foi leve. Nem poderia, com esse Gonçalves Dias canguleiro. Ganhei o livro biográfico do poeta Othoniel Menezes, seu pai.
Será na próxima sexta-feira (26), às 19h, numa promoção da Secretaria da Agricultura do Estado, a abertura da XVIII Exposição Agropecuária da Região Central e Exposição de Cabra de Leite, em Lajes, no Parque de Exposição deputado Nélio Dias. Vai acontecer até o domingo (28).
As atividades de greve da Universidade do Estado (UERN) continuam. Hoje, quarta-feira (24), às 9h, terá reunião do comando de greve. Já na quinta-feira (25), a categoria docente volta a se reunir, na sede da Aduern em Mossoró, às 9h. Ontem, movimento via Twitter transformou a greve num dos assuntos mais comentados nesse ambiente de rede, virtual, em todo o país. Até portais de notícias como o Terra e G1 repercutiram o feito, em que grevistas e apoiadores denunciavam o descaso com esse importante e estratégico equipamento de formação educacional.
Acompanhe este Blog também pelo Twitter (AQUI), com notas e comentários exclusivos, numa linguagem mais despojada e coloquial.
Impressiona o estado das vias públicas do Natal, sobretudo à medida que a gente se desloca de carro para setores mais periféricos. A Natal dos turistas é uma coisa, mas a Natal do cidadão comum é outra, lamentavelmente. Muita buraqueira e lixo. Quanto descuido.
Os parabéns do Blog ao engenheiro Sérgio Freire-Fernanda. O casal teve a graça de receber trigêmeos, nessa segunda-feira (22), em Fortaleza-CE. Saúde, principalmente, a todos.
O jornalista Pinto Júnior, diretor-geral do impresso Potiguar Notícias, deu-me generoso espaço na tarde passada na Band-Natal, em seu Conexão Potiguar. Falamos sobre lançamento do meu livro e outras amenidades.
Se houver como administrar meu tempo, aportarei no sábado (27) ou domingo (28) em Santa Cruz. Assuntos familiares e oportunidade de prosear com gente do lugar, lógico.
Lanço meu livro “Só Rindo 2 – A política do bom humor do palanque aos bastidores” no próximo dia 25 (amanhã) em Natal, no Restaurante La Tavola (Rua Rodrigues Alves, 44), Petrópolis, a partir das 19h. Espero receber uma multidão incalculável de meia dúzia de pessoas por lá: Juliano Freire, Regy Campelo, Roberto Miranda, Delma Lopes, Mirtes Almeida, deputado Gustavo Carvalho, secretário Betinho Rosado (DEM), Carlos garçom, Marco Aurélio Sá, Dessana Araújo, Eunice Ferreira, Vicente Neto, Antônio Capistrano, Washington Rodrigues, Janaína Amaral, Heitor Gregório, Alexandre Mulatinho, xarias e canguleiros.
Dupla com voz inconfundível, Ângela Maria e Agnaldo Timóteo vão se apresentar no Teatro Riachuelo (Midway Mall) no próximo dia 31 (quarta-feira), às 21h. Promessa de muita afinação e ótimo repertório.
Juiz federal, poeta, músico, escritor e compositor, Marcos Mairton é o entrevistado especial do programa “Ao som da viola”, neste domingo (10), na TV Diário.
Será a partir das 7h30.
Apresentado por Geraldo Amâncio, o programa vai explorar um pouco da arte poética desse cearense que enveredou pela magistratura, sem abandonar a paixão pela cultura.