“O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.”
Mario Quintana
“O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente.”
Mario Quintana
Por François Silvestre

(Para Guida Zerôncio, Eva Barros e Sueleide Suassuna)
Não se trata da prática notarial nem dos traslados cartoriais. Muito menos da prática burocrática, seja das justificativas ou dos requerimentos. Não. Isso aí não é escritura, na dureza do escrever, ou na arte de tentar substituir o ruído sonoro dos fonemas.
Trato aqui da escritura doída a que se referiu Clarice Lispector. “Antes de mais nada, pinto pintura. E antes de mais nada te escrevo dura escritura”.
Em Clarice a dureza da escrita não era dificuldade na criação. Era a impossibilidade de espantar a dor íntima que fluía intensa no texto tenso.
De sua terra, na distante Ucrânia, dizia ela nunca ter posto os pés, nem para sair, posto que o fizera ainda no colo. E se fez recifense de pátria adotiva. Ao passar por Natal registrou: “Essa cidadezinha sem caráter”. De Brasília: “Uma prisão a céu aberto”.
Num veraneio de Muriú, Guida Zerôncio preparava a pós-graduação com base na obra de Clarice. Lacan e a ucraniana roubaram a cena naqueles dias. Até Omar Guerreiro, desligado da literatura, mas muito inteligente, fazia citações de “A Hora da Estrela” e “Perto do Coração Selvagem”.
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Se há um arquétipo que ateste a conceituação de Lacan sobre a fotografia do inconsciente que o texto produz, esse modelo é Clarice. E na poesia, Zila Mamede.
Em Graciliano Ramos a dureza tinha duas dimensões restritivas. A restrição humana do Sertão e a necessidade de enxugar a linguagem. Na sua obra mais popular, ele depenou até o título. Retirou a grandeza substantiva de “O Mundo Coberto de Penas” para a escassez adjetiva de “Vidas Secas”.
Guimarães Rosa plagiou de garimpo o som vocálico das andanças, na voz dos modelos eleitos por seus ouvidos de nhambu. “Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que fui o primeiro que cri”.
Ao seguir essas veredas, o moçambicano Mia Couto confirmou Lacan: “O tiro certeiro sempre carrega algo de quem dispara”.
O autor fotografa o texto, mas é o texto quem o revela. Quando a escrita for apenas palavras postas, sem o condão da “dura escritura”, o texto será um daguerreótipo com a lente embaçada. A revelação revelar-se-á uma mancha escura. Uma coisa é escrever. Outra é redigir.
“Na várzea grande do Capibaribe, durante o mês de Agosto, reúnem-se em Congresso todos os ventos do mundo”. Joaquim Cardozo, mestre do cálculo matemático e da poesia aritmética. Dizia ter vindo para uma estação de águas nos olhos da paixão.
Mario Quintana, que a Academia de Letras rejeitou, foi bem maior do que a imortalidade das pompas infantis, cujas rimas das crianças foram as primeiras inspirações do poeta. “Procurando os seus guardados no fundo de uns baús inexistentes”.
É isso. Uma coisa é escrever, outra é redigir.
François Silvestre é escritor
“As pessoas não se precisam, elas se completam… não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.”
Mário Quintana
Por Odemirton Filho

Chega-se a uma fase da vida que colocamos o pé no freio. A correria de tempos passados perde o sentido, pois se começa a perceber que mais dia, menos dia, tudo ficará para trás. Assim, ao amadurecer, começamos a dar mais valor a companhia daqueles que amamos.
Prezamos ficar ao lado dos nossos pais, achamos bom ouvir as suas histórias, adoramos sorrir com o seu sorriso; gostamos de curtir os nossos filhos e netos. Qualquer brincadeira ou palavra dita pelos netos é motivo de alegria. O que parecia tão trivial, começa verdadeiramente a ser importante, a ganhar o valor merecido.
Adoramos curtir a nossa própria companhia, a navegar nas lembranças e saudades que marcaram a alma. Tudo se torna leve. Já não queremos carregar em nossa bagagem o peso dos problemas. Tentamos esvaziar o coração, deixando-o bater num lento compasso.
Cada um procura vivenciar aquilo que faz bem. Vamos à praia e olhamos o horizonte, no qual vislumbramos o eterno. Quem gosta de sentir o cheiro da terra, sobretudo quando cai a chuva, encontra refúgio em uma fazenda ou num sítio. Toma-se uma taça de vinho, uma dose de cachaça, de uísque ou uma cervejinha para relaxar. Quem pode viajar por aí, viaja.
Vamos à missa ou ao culto para alimentar a fé; lemos um bom livro, uma boa crônica, daquelas que afloram bons sentimentos. Passeamos pelas ruas; e começamos a olhar os pássaros que habitam as árvores. Eu, por exemplo, gosto de ver – após regar as plantas do meu quintal – um lindo beija-flor batendo as asas em volta, ligeirinho, ligeirinho.
Enfim, queremos viver e curtir o singelo. Na realidade, o que há de mais valioso na vida.
Certa vez, o poeta Mario Quintana escreveu:
“De repente tudo vai ficando tão simples que assusta. A gente vai perdendo as necessidades, vai reduzindo a bagagem. A opinião dos outros, são realmente dos outros, e mesmo que seja sobre nós, não tem importância. Vamos abrindo mão das certezas, pois já não temos certeza de nada. E isso não faz a menor falta. Paramos de julgar, pois já não existe certo ou errado, e sim a vida que cada um escolheu experimentar. Por fim, entendemos que tudo que importa é ter paz e sossego, é viver sem medo, é fazer o que alegra o coração naquele momento.
E só”.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
Por Odemirton Filho

Os primeiros versos de um poema de Mario Quintana dizem assim: “lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano vive uma louca chamada Esperança”…
Terminamos mais um ano. Aos trancos e barrancos? Talvez. Mas terminamos. Começaremos uma nova jornada. Jornada de lutas, alegrias e tristezas. A vida é essa eterna batalha, e precisamos estar preparados.
O que nos espera? Sei lá! Só Deus sabe. Contudo, temos que estar firmes e fortes pra o que der e vier. Cada um tem os seus problemas, suas lutas e objetivos. “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Em um mundo tão cheio de guerras, onde se matam milhares de pessoas em razão da irracionalidade e ganância de uns poucos, inocentes padecem. Não é de hoje que o homem se digladia, é de sempre, e sempre será. Sem esquecer da fome, da miséria e das doenças, mundo afora.
No Brasil dividido entre a direita e a esquerda, os problemas e o radicalismo político-ideológico continuarão. As promessas descumpridas, a roubalheira nos quatro cantos do país, o velho compadrio, o toma lá, dá cá, também.
Nas famílias, e todas se parecem, só mudam de endereço, as picuinhas e as desavenças acontecerão. Relacionamentos são difíceis, é da natureza humana. Sentimentos menores, infelizmente, fazem parte da alma do homem.
Entretanto, apesar dos pesares, não devemos desesperançar. A vida é uma mistura de emoções, há bons e maus momentos. Estamos vivos, vivos! E isso é motivo para agradecer. Peçamos a Deus saúde pra enfrentar a vida, peçamos ao bom Deus amor no coração.
Agradeçamos pelo ano de 2024; e esperemos que o ano de 2025 seja um dos melhores de nossas vidas, pois “a sabedoria humana está nessas palavras: esperar e ter esperança”.
Na inspiradora reflexão do cardeal José Tolentino de Mendonça: “a esperança mantém-nos vivos. Não nos permite viver macerados pelo desânimo, absorvidos pela desilusão, derrubados pela força da morte. Compreender que a esperança floresce no instante é experimentar o perfume do eterno”.
Odemirton Filho é colaborador do Blog Carlos Santos
Por Marcos Ferreira

Ontem pela manhã, na calçada do extinto Cine Pax, topei com o escritor e jornalista Nelson Rodrigues. Sim, um homônimo. Havia por volta de dois anos que eu não tinha notícias desse rapaz. Parece só lembrar da minha existência quando está precisando que eu faça a correção e copidesque de algum livro de sua autoria. Então ele cata meu número no telefone e liga cheio de amabilidades.
Esse esbarrão e um breve diálogo foram inevitáveis. Após alguns minutos, de olhos aboticados, tentou me arrastar para o assunto do homem-bomba que detonou explosivos na Praça dos Três Poderes, sobretudo na frente do STF. Conhecendo suas convicções de extrema-direita, logo me esquivei dessa discussão. Por diversas vezes ele publicou artigos virulentos na Gazeta de Negócios contra a esquerda e ministros do Supremo Tribuna Federal. É um sujeito mirrado, branco e de farta cabeleira. Não tem um metro e sessenta, porém se insinua destemido. Um homem pequeno com uma boca grande. Exibe no antebraço direito (tinha que ser no direito!) uma tatuagem de uma caveira colorida com uma faca atravessando o crânio na vertical.
Nelson Rodrigues, a exemplo de outros, vive suspirando por um óbito na academia. Já foi preterido em duas ocasiões e tal frustração segue sem remédio. Certos indivíduos e certas academias de letras são tão benéficos para o engrandecimento da literatura quanto uma gonorreia. Há muitas e honrosas exceções, obviamente, mas ponha a carapuça quem quiser. Não nego que tenho minhas queixas quanto a essas instituições que, por exemplo, deram assento a um José Sarney da vida e bateram a porta na cara de um artista do verso e da prosa como Mario Quintana.
Pois é. Essa falsa ideia de imortalidade intelectual e literária sempre mexeu com a cabeça e o coração de literatos de todos os naipes. Não interessa se o aspirante a imortal já esteja com um pé na beirada e o outro na cova.
Podem chorar as pitangas, dizer que sou feio e descer o malho. Essas igrejinhas da compadrice não me seduzem e acabou-se. Mas esqueçamos (antes que desabe sobre minha cabeça uma chuva de canivetes) essa história de medalhas, espadas e fardões. Não estou a fim de abespinhar o ego ou os brios de seu ninguém. Até porque, volto a frisar, muitas dessas entidades têm nos seus quadros valiosos manejadores da língua portuguesa que fazem jus a qualquer agremiação desse jaez. Meu receio, trocando em miúdos, é que a literatura possua mais adeptos do que amantes.
Bem. É tarde. Passa de uma hora. As rasga-mortalhas que vivem nos espaços da caixa d’água da senhora Raimunda fazem um concerto agourento com voos rasantes sobre nossos domicílios. Não me incomodam nem um pouco. De alguma maneira também sou um animal de hábitos noturnos. Às vezes a quetiapina não dá conta do recado e (assim como agora) entro pela madrugada escrevendo acerca de questões que podem muito mais descontentar do que agradar aos meus leitores.
Ainda sobre as corujas deste setor, que perturbam o sono da senhora Raimunda, torço que encontrem outro reduto ou ponto de recreação. Como se costuma dizer, o “canto de mau agouro” daqueles seres alados, além de atrapalhar o repouso de alguns, põe pressentimentos assustadores na senhora Raimunda. Não se pode negar que o barulho que as referidas aves produzem é de fato excessivo.
Até Maria dos Navegantes, nora da importunada Raimunda, diz sentir uma espécie de calafrio sempre que as rasga-mortalhas se pronunciam. E olhe que Navegantes, conforme já nos revelou, não é uma pessoa supersticiosa. Seja como for, por seu quarto ser no andar de cima, a senhora Raimunda é quem mais sofre com o grasnar de uma população de dez ou quinze voadoras daquele tipo.
Por um lado essas criaturas têm uma ligeira semelhança com o Nelson Rodrigues. Isso no tocante à questão do escriba mossoroense desenvolver e ocultar um exercício de mau agouro direcionado aos imortais da academia de letras. Pois sabe que só com a morte de um imortal ele talvez seja imortalizado.
Marcos Ferreira é escritor
“Sonhar é acordar-se para dentro.”
Mario Quintana
“Maravilhas nunca faltaram ao mundo; o que sempre falta é a capacidade de senti-las e admirá-las.”
Mario Quintana
Por Hildeberto Barbosa Filho
Parece já existir certa bibliografia em torno dos tempos pandêmicos. O confinamento em suas respectivas casas levou alguns escritores a pensar, refletir e escrever, a partir das circunstâncias singulares dessa tragédia que se abateu sobre o mundo e sobre a humanidade.

O isolamento, a solidão, o sentimento de exílio, associados ao medo e à ansiedade diante de tempos tão nublados, como que cria condições especiais para o ato de escrever, de escrever e de ler, numa voltagem mais intensa, sobretudo se pensarmos nos gêneros íntimos e testemunhais.
Ocorrem-me estas considerações porque tenho, diante de mim, o livro Confidências literárias (Mossoró, RN: Sarau das Letras, 2021), do escritor Clauder Arcanjo, no qual exercita um diálogo com alguns autores e autoras de suas “afinidades eletivas”, primando sempre pelo cuidado poético com a palavra.
Clarice Lispector, Beatriz Alcântara, Emily Dickinson, Walt Whitman, Hilda Hilst, Miguel de Cervantes, Eugênio de Andrade, Nicanor Parra, Ferreira Gullar, Fernando Pessoa, Cora Coralina, Cecília Meireles, Lília Souza, Adélia Prado, Carlos Drummond de Andrade, Mário Quintana, Manoel de Barros, Helena Kolody, Marcos Ferreira, Manuel Bandeira, Adélia Maria Woellner e Vinícius de Morares constituem o seleto elenco dos seus interlocutores.
Vê-se logo que Clauder Arcanjo mescla, em suas escolhas, poetas e prosadores, clássicos e modernos, consagrados e desconhecidos, sinalizando, assim, para a riqueza e a diversidade de seu olhar de leitor sensível à variedade dos métodos de produção literária e à particularidade de cada visão de mundo.
Na “Nota ao Leitor”, o autor assinala: “Lembro quando os escrevia, uns três por semana, à época em que estava ´confinado` em um hotel em Vitória (ES), lendo e escrevendo para não enlouquecer, em pleno início da pandemia”, e, num recado mais direto para o leitor, faz este apelo: “Que Confidências literárias o faça (re)visitar as obras dos autores e autoras que me acompanham ao longo da minha vida de leitor-escritor; e que você, assim como eu, sinta-se motivado a se confidenciar com eles (as). A boa leitura nos é altamente inspiradora”.
Sem dúvida: a criação literária tem, na leitura, especialmente na leitura das obras literárias, uma de suas fontes mais ricas e um de seus processos mais decisivos. Quando um Harold Bloom assegura que um poema dialoga ou está em conflito com outro poema; quando um T. S. Eliot afirma que nenhum poeta pode ser conhecido sozinho, ou quando um Jorge Luís Borges fala de precursores desse ou daquele escritor, temos aí o selo de uma corrente unindo vozes e visões.
Clauder Arcanjo é um leitor-escritor e, por isto mesmo, poderia situá-lo muito bem dentro da tradição moderna de uma poética da leitura. Uma leitura que não se esgota na simples experiência emocional ou intelectiva, no indispensável prazer da subjetividade, no estímulo à meditação e ao pensamento, no gozo da sensibilidade e no voo da imaginação. Mas, principalmente, numa leitura que tende a encaminhar o leitor para o desafio da sua própria criação e, portanto, da realização de sua própria obra.
No diálogo com Clarice, há certa altura, escreve o autor: “No sereno da tarde, volto para dentro. Dentro de onde? De mim? De ti? Um silêncio anterior ao mundo dito civilizado. O oco de tudo a me revelar que é preciso abrir mão das platitudes para sentir as altitudes. {…} A literatura é um tributo à loucura de si mesmo”. Já no primeiro parágrafo do diálogo com Whitman, afirma que “O homem sofre de um silêncio absurdo”, e no prosear com Fernando Pessoa, revela: “Preso às obviedades da vida, caminho como se o infinito estivesse à minha frente. {…} E a Poesia teima em renascer, sem metafísica, na esquina menos festejada”.
Atento ao estilo e à técnica, assim como ao universo emotivo e intelectual, de cada escritor, Clauder Arcanjo traz à tona, na medida do possível, as inclinações psicológicas e as atitudes perceptuais de cada um deles, nas suas diferenças e aproximações, ao mesmo tempo em que se descortina a si mesmo, na sua geografia sentimental, nos seus predicados ideológicos e nas suas preferências estéticas.
Fazendo suas confidências literárias, este cearense de Santana do Acaraú, poeta, romancista, contista, editor, convida-nos a uma viagem de volta ou a uma viagem de descoberta pelas páginas artísticas dos escritores que leu e cuja leitura nos sugere, a seu modo também artístico e pessoal.
Hildeberto Barbosa Filho é poeta, escritor e professor da UFPB, além de membro da Academia Paraibana de Letras
“Ah, esses moralistas… Não há nada que empeste mais do que um desinfetante!”
Mario Quintana
Por François Silvestre
(para Guida Zerôncio, Eva Barros e Sueleide Suassuna)
Não se trata da prática notarial nem dos traslados cartoriais. Muito menos da prática burocrática, seja das justificativas ou dos requerimentos. Não. Isso aí não é escritura, na dureza do escrever, ou na arte de tentar substituir o ruído sonoro dos fonemas.
Trato aqui da escritura doída a que se referiu Clarice Lispector. “Antes de mais nada, pinto pintura. E antes de mais nada te escrevo dura escritura”.
Em Clarice a dureza da escrita não era dificuldade na criação. Era a impossibilidade de espantar a dor íntima que fluía intensa no texto tenso.
De sua terra, na distante Ucrânia, dizia ela nunca ter posto os pés, nem para sair, posto que o fizera ainda no colo. E se fez recifense de pátria adotiva. Ao passar por Natal registrou: “Essa cidadezinha sem caráter”. De Brasília: “Uma prisão a céu aberto”.
Num veraneio de Muriú, Guida Zerôncio preparava a pós-graduação com base na obra de Clarice. Lacan e a ucraniana roubaram a cena naqueles dias. Até Omar Guerreiro, desligado da literatura, mas muito inteligente, fazia citações de “A Hora da Estrela” e “Perto do Coração Selvagem”.
“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”. Se há um arquétipo que ateste a conceituação de Lacan sobre a fotografia do inconsciente que o texto produz, esse modelo é Clarice. E na poesia, Zila Mamede.
Em Graciliano Ramos a dureza tinha duas dimensões restritivas. A restrição humana do Sertão e a necessidade de enxugar a linguagem. Na sua obra mais popular, ele depenou até o título. Retirou a grandeza substantiva de “O Mundo Coberto de Penas” para a escassez adjetiva de “Vidas Secas”.
Guimarães Rosa plagiou de garimpo o som vocálico das andanças, na voz dos modelos eleitos por seus ouvidos de nhambu. “Pela fraqueza do meu medo e pela força do meu ódio, acho que fui o primeiro que cri”.
Ao seguir essas veredas, o moçambicano Mia Couto confirmou Lacan: “O tiro certeiro sempre carrega algo de quem dispara”.
O autor fotografa o texto, mas é o texto quem o revela. Quando a escrita for apenas palavras postas, sem o condão da “dura escritura”, o texto será um daguerreótipo com a lente tapada. A revelação revelar-se-á uma mancha escura. Uma coisa é escrever. Outra é redigir.
“Na várzea grande do Capibaribe, durante o mês de Agosto, reúnem-se em Congresso todos os ventos do mundo”. Joaquim Cardozo, mestre do cálculo matemático e da poesia aritmética. Dizia ter vindo para uma estação de águas nos olhos da paixão.
Mário Quintana, que a Academia de Letras rejeitou, foi bem maior do que a imortalidade das pompas infantis, cujas rimas das crianças foram as primeiras inspirações do poeta. “Procurando os seus guardados no fundo de uns baús inexistentes”.
É isso. Uma coisa é escrever, outra é redigir.
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“A arte de viver é simplesmente a arte de conviver… simplesmente, disse eu? Mas como é difícil!”
Mario Quintana
“Há duas espécies de chatos: os chatos propriamente ditos e os amigos, que são os nossos chatos prediletos.”
Mario Quintana
Por Odemirton Filho
Tem dias que a gente olha para trás e enxerga quão longo foi o caminho percorrido. Tanta coisa vivida. Foi tudo tão rápido.
Lembramos das brincadeiras com os amigos de infância, do colégio e das farras na juventude. Tínhamos planos, mas poucos foram concretizados. As dificuldades da vida nos levaram por caminhos nem sempre traçados.
Passamos boa parte da vida numa correria medonha contra o tempo.
Essa pandemia deixará alguma lição? Sinceramente, não creio, a humanidade continuará como sempre foi.
Quer um exemplo? Alguns passam boa parte da vida em busca de construir patrimônio. Porém, esquecem que ao morrer os bens deixados servirão para os filhos disputarem a herança. O processo de inventário se arrastará por vários anos, repleto de ressentimentos. Há aqueles que chegam a brigar pela louça e talheres. Nesses vinte anos convivendo no meio jurídico já vi muita coisa. É triste.
Observamos o relógio a todo instante, numa vã tentativa de colocar rédeas no tempo. “O tempo corre, o tempo é curto: preciso me apressar; mas ao mesmo tempo viver como se esta minha vida fosse eterna”, poetizou Clarice Lispector.
Sim, o danado do tempo escapa das nossas mãos.
Não podemos viver do passado, no máximo lembrar os bons momentos, tentando esquecer aquilo que nos fez mal.
Certa vez, assisti a um seriado na TV sobre Juscelino Kubitschek. Na cena, JK estava sozinho, em casa. Lembrava dos pais, da irmã e dos amigos. Chorava. Estava em profunda solidão. Tudo passa, até a ilusão do poder.
Pois é. Não podemos fugir do tempo.
Como diria Mario Quintana: “nós somos escravos do tempo. Só os poetas, os amantes e os bêbados podem fugir, por alguns instantes.
Ah, e as crianças. As crianças, simplesmente, o ignoram”.
Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça
“Só se deve beber por gosto: beber por desgosto é uma cretinice.”
Mario Quintana
“O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar de quem por ele passa indiferente. E assim é com a vida, você mata os sonhos que finge não ver.”
Mario Quintana
Por Marcos Araújo
Nesses tempos em que nada se fixa mentalmente, que estamos dispersos e atônitos no cumprimento – ou desobediência – à diversidade de ordens para a sobrevivência (tomar ou não a Ivermectina, usar ou não a máscara, hidroxicloroquina serve ou não serve, isolamento social, algumas dessas orientações quiméricas e pseudocientíficas), lembrei-me do personagem Xidakwa, do conto “O Bebedor do Tempo”, do escritor português Mia Couto. Xidakwa não bebia cervejas, bebia o tempo. Todos nós estamos como ele, “bebendo o tempo” vivendo um dia por vez, sem saber como será o amanhã.
Aldir Blanc, músico genial, uma das vítimas da praga deste século, complementaria a tirada filosófica do personagem de Mia Couto com sua “resposta ao tempo”: “*Batidas na porta da frente, é o tempo / Eu bebo um pouquinho pra ter argumento / Mas fico sem jeito calado e ele ri / Ele zomba do quanto eu chorei /Porque sabe passar e eu não sei.” 
Não estamos sabendo passar o tempo. Porque dele não podemos desfrutar. Meus filhos pequenos ficaram sem comemorar dois aniversários. Meu pai, já idoso, que adora festa de aniversário, vai para o segundo ano sem comemoração. Amores interrompidos, amizades distanciadas, famílias separadas, trabalhos alterados… Com tantas proibições, vivemos a “conta-gotas”, suplantando segundos, minutos e horas, enquanto não somos contaminados pelo vírus.
E o tempo se passando inexoravelmente na celeridade poética de Mario Quintana: “*Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal…Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida (…)”.
Por certo, comungamos de um desejo coletivo em embarcar numa “Máquina do Tempo” (criação da imaginação singular do escritor inglês H. G. Wells, de 1895), para pular essa parte da história da humanidade.
A frase mais repetida na atualidade é “Cuide-se!”. Ou, a advertência sentencial: “importe-se com o outro!” Isso faria valer, em tese, o título desse escrito: E Pluribus Unum! (De muitos, um!). Esse foi o lema escolhido para unificar as 13 colônias na formação de um Estado Federal – os Estados Unidos da América como nação, por ocasião da declaração da independência em relação ao jugo inglês, em 1776. Os revolucionários, sob a inspiração do filósofo genebrino Pierre Eugene DuSimitiere, tomaram por princípio essa frase, para unificar os interesses diversificados dos diferentes Estados americanos.
Viver em sociedade implica, em tese, esse sentimento de que somos um só povo, uma só comunidade, uma só família (a família humana), ou seja, E pluribus Unum! Com sua autoridade moral, Padre Sátiro esta semana escreveu uma convocação aos mossoroenses para que todos se agreguem e se unam em um só propósito.
Insurretos, desorganizados e individualistas, não se aplica a nós brasileiros os ordenamentos mentais de coesão, solidariedade, ordem, disciplina e senso comum. Como diria Ary Barroso, por aqui “*Toda quimera se esfuma/ Como a beleza da espuma, que se desmancha na areia.”
Talvez até pudesse ser invocado o fato de que, do ponto de vista organizacional político-social, somos uma República Federativa. Seguindo o modelo das colônias americanas, o federalismo adotado pelo Brasil, desde a sua independência, tomou como base justamente a obra “The Federalist Papers”, de James Madison, Alexander Hamilton e John Jay (1993).
No Brasil, pelo menos nos termos da Constituição Federal, os Estados e os Municípios formam uma federação indissolúvel. Somos um só povo em um só Estado – o brasileiro. Na prática, porém, vivenciamos um divórcio, um conflito federativo sem precedentes, uma briga encimada por governantes ressabiados do dever de uma unidade constitucional obrigatória.
Assistimos, apáticos, à quebra da noção republicana de um só povo e uma só nação. Deve ser pela falta de exemplo dos nossos dignitários governantes. A deliberada beligerância entre Dória (São Paulo) e Bolsonaro (Brasil) é didática para dimensionar essa crise. Dos 27, apenas 05 Estados acorreram Manaus. Não é só a falta de nobreza no desempenho do cargo (noblesse oblige). Falta a noção de sacrifício. Marcel Mauss & Henri Hubert escreveram em 1899 “Sobre o Sacrifício” para dimensionar a importância de um líder que se sacrifica pelo seu povo.
Vale lembrar, nessas horas, o Cristo. Seu sacrifício em favor da humanidade foi o maior ato na edificação de uma fé que persevera por séculos. É Dele a frase que norteia a campanha da fraternidade deste ano: “Não rogo apenas por eles, mas também por todos aqueles que, por meio de sua palavra, vão crer em mim, para que todos sejam um, assim como, Pai, estais em mim e eu em Vós; para que eles seja um em nós…”(Cf.Jo, 17, 20-21).
Que tudo passe, e que não esqueçamos que somos unos!
Marcos Araújo é professor e advogado
“Amigo é a criatura que escuta todas as nossas coisas sem aquela cara que parece estar dizendo: — E eu com isso?”
Mario Quintana
“O livro traz a vantagem de a gente poder estar só e ao mesmo tempo acompanhado.”
Mario Quintana
“Ah, esses moralistas… Não há nada que empeste mais do que um desinfetante!”
Mario Quintana
“Ah, esses moralistas… Não há nada que empeste mais do que um desinfetante!”
“Louco é quem não procura ser feliz”.
Mário Quintana