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Saudades do Menino do Poré

Por Marcos Ferreira

Quando meu pai e minha mãe morreram, exatamente nesta ordem, ele com apenas cinquenta e quatro anos de idade e ela com sessenta e dois, demorei alguns anos até conseguir escrever umas linhas (versos, aliás) sobre a partida e a ausência de ambos. Uma ausência irremediável e nunca confortada.

Senti algo semelhante, no sentido de me ver bloqueado, sem palavras, por ocasião do passamento dos mestres Dorian Jorge Freire, Raimundo Soares de Brito e Vingt-un Rosado. Pois é. Foram estes os três primeiros indivíduos de grande representatividade nos meios intelectuais de Mossoró que enxergaram o meu então microscópico talento naqueles começos da minha aparição nas letras.O Menino do Poré - livro

Raimundo Soares de Brito (carinhosamente sintetizado Raibrito) recortava todas as poesias e croniquetas que eu publicava aos domingos no caderno de cultura do Jornal O Mossoroense. “Você precisa publicar um livro com essas produções”, disse-me ele uma vez. Algum tempo depois, com apoio financeiro de Vingt-un, lancei o meu primeiro livro, Um Poema de Presente. Isto em 1996.

Dorian Jorge Freire, por mais de uma vez, brindou-me com notas de estímulo à minha escrita em sua coluna dominical na Gazeta do Oeste. Até que um dia, quando a Petrobras se ofereceu para relançar um livro de crônicas do emérito estilista, Os Dias de Domingo, o próprio Dorian fez este pedido a Clauder Arcanjo, então gerente da Base-34: “Quero que Marcos Ferreira seja o revisor”.

Ou seja, uma demonstração e tanto de prestígio, uma enorme honra e carinho para com um ex-sapateiro e Dom Pixote da literatura. Que me perdoe o prezado leitor Amorim, que há poucos dias me deu um carão aqui no Canal BCS (Blog Carlos Santos) por eu haver me autoproclamado Dom Pixote.

Todo este nariz de cera, chamemos dessa forma, é para evocar a memória de outro grande homem, filantropo e mecenas da cultura mossoroense, embora sempre discretíssimo nas suas ações: Milton Marques de Medeiros, o Menino do Poré, falecido aos 22 de abril de 2017, “a pouco menos de três meses de completar 77 anos”, conforme noticiou o Blog Carlos Santos no último 3 de julho.

A exemplo de Vingt-un, Raibrito e Dorian Jorge Freire, o Dr. Milton Marques não tardou a conquistar minha admiração e benquerença. Sobretudo após nos tornarmos mais próximos devido à nossa participação enquanto articulistas da Papangu, no início de 2004. Milton assinava a coluna Entrelinhas.

Assim como Dorian Jorge Freire, o Menino do Poré confiava a mim a revisão dos escritos que enviava, por e-mail, à revista do Túlio Ratto: “Ferreira, dê uma olhada aí, por favor. Escrevi meio à pressa. Deve ter algum escorrego”, dizia-me, vez por outra, algo desse tipo em telefonema para a redação da Papangu. Dificilmente eu encontrava qualquer escorrego. Texto limpo, de boa sintaxe.

Um pouco antes, véspera da minha estreia na Revista Papangu, Milton me convidou a entrevistar, junto com ele e o jornalista Marcos Antônio, da Rádio Rural, o professor João Batista Cascudo Rodrigues, de saudosa memória, para o canal TCM – TV Cabo Mossoró. Foi uma das seis primeiras entrevistas do marcante programa “Mossoró de Todos os Tempos”, apresentado por Milton.

Imaginem uma coisa dessas, prezado leitor e gentil leitora. Eu, um tímido incurável, que nunca ousara pedir uma música no rádio, súbito me vi diante de uma câmera de televisão. Era manhã, 22 de novembro de 2003. Ouvimos o entrevistado na Fundação Ozelita Cascudo Rodrigues, situada no Centro.

O depoimento de João Batista, impelido pela boa atuação dos outros dois entrevistadores, eu entrei mudo e quase saí calado, foi de uma riqueza ímpar. Sobretudo pela vasta cultura de João e por sua enorme capacidade de juntar o passado com o presente, num belo desfile de experiências e recordações.

Transcorridos vários anos, no finzinho do primeiro semestre de 2016, os papéis se inverteram e passei à condição de entrevistado do “Mossoró de Todos os Tempos”. Uma noite, ao nos reencontrarmos num evento cultural nesta urbe, Milton me convidou. E lá fui eu, de novo, para diante das câmeras.

Houve outras oportunidades em que Milton demonstrou atenção e carinho para com a minha pessoa e meu exercício literário. Foi desse modo enquanto atuei como editor de cultura, durante três anos, à frente do caderno Universo, em O Mossoroense, como também durante os mesmos três anos que passei ajudando a editar a brava Revista Papangu, ora de volta em plataforma eletrônica.

Ainda em 2016, ao me envolver na arriscada aventura de realizar a edição comemorativa de dez anos do meu livro de poemas A Hora Azul do Silêncio, que em 2005 conquistou o primeiro lugar nos “Prêmios Literários Cidade de Manaus”, sendo lançado no ano seguinte pela editora da Universidade Federal do Amazonas, Milton tocou no meu ombro e disse: “Conte comigo, Ferreira”.

Não só me disponibilizou os jardins da TCM para a noite de autógrafos, isto no dia 11 de novembro, como adquiriu significativa quantidade de exemplares. Nessa noite, entre outras personalidades da cultura mossoroense, como Elder Heronildes, Wellington Barreto e o saudoso João Sabino, falecido recentemente, Milton pediu a palavra e fez uma tocante apresentação deste autor.

Esse notável Menino do Poré, cuja simplicidade e bom trato humano lhe eram apenas duas entre tantas características admiráveis, está fazendo enorme falta a esta província tão carente de figuras sensíveis às letras e às artes como um todo. Era um homem imprescindível o Dr. Milton Marques.

Esta pequena e extemporânea homenagem deságua do meu peito agora em que me chega às mãos, com afetuosa dedicatória da amiga Zilene Medeiros, viúva do homenageado, a edição póstuma de Memórias de Milton Marques de Medeiros — O Menino do Poré, obra organizada pela jornalista, youtuber e escritora Lúcia Rocha. Belíssima história de vida de um cidadão fora de série.

Hoje, portanto, decorridos mais de quatro anos do falecimento do médico, do pai amoroso e marido de toda uma vida, homem de letras e autêntico visionário Milton Marques de Medeiros, peço licença ao prezado leitor e à gentil leitora para ofertar este singelo e emotivo tributo a tão estimado amigo.

Assim, caro Menino do Poré, onde quer que você esteja, saiba que não esqueci de você. Um grande abraço e até qualquer dia.

Marcos Ferreira é escritor

Viagem ao Poré

Livro é assinado pela jornalista e escritora Lúcia Rocha e foi lançado recentemente (Foto: Canal BCS)
Livro é assinado pela jornalista e escritora Lúcia Rocha e foi lançado recentemente (Foto: Canal BCS)

Só hoje (quarta-feira, 28), tardinha, pude pegar livro “Memórias de Milton Marques de Medeiros – O menino do Poré”, da escritora e jornalista Lúcia Rocha.

Farei essa viagem no tempo, para me reencontrar outra vez com Milton.

Será uma prosa diferente, porque apenas ele falará. Também diferente por isso mesmo, o que nunca testemunhei, como interlocutor, em tantas vezes que conversamos.

A gente se fala, camarada!

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Sessões de autógrafos de livro acontecem nesse sábado

Livro conta história de Milton Marques de Medeiros Foto: reprodução)
Livro conta história de Milton Marques de Medeiros (Foto: reprodução)

Vão ocorrer neste sábado, dia 17, em Upanema, sessões de autógrafos do livro Memórias de Milton Marques de Medeiros – O Menino do Poré. A obra foi organizada pela jornalista Lúcia Rocha. A autobiografia em memória conta, em ordem cronológica e em primeira pessoa, detalhes da vida do eterno Milton Marques de Medeiros – idealizador e fundador do Grupo TCM Telecom, médico, professor e comunicador.

O homenageado nasceu em 9 de julho de 1940, em Upanema e faleceu em 22 de abril de 2017, em Fortaleza.

A primeira sessão de autógrafos será às 9h na loja TCM e, à noite, também haverá programação especial, desta vez, na Fazenda Poré – que fez parte da história de Milton Marques de Medeiros e família Freire-Marques. Na ocasião, será realizada mais uma sessão de autógrafos na quadra do Centro Social do Poré e em seguida, será celebrada missa na Capela de Santo Antônio, na comunidade.

Além da presença da organizadora da obra, Lúcia Rocha, a Diretora Geral do Grupo TCM Telecom Zilene Medeiros, viúva de Milton Marques, também prestigiará a programação na Fazenda Poré.

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