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Recado às nuvens

Por Marcos Ferreira

Já estamos no finalzinho de agosto e há muito não cai do céu uma gota d’água. Não ao menos nesta Mossoró, terra do Sol e do calor. E por este resto de ano, ao que indicam as sérias projeções da moça do tempo, não mais haverá de chover por aqui. Um verdadeiro suplício para a nossa ressequida aldeia.

Onde vocês estão, nuvens de chuva, que tantas águas derramam por este imenso país, no entanto não vêm aqui trazer uma garoa sequer? A fauna e a flora, o nosso poluído rio, os açudes e os trabalhadores do campo, todos estão por demais necessitados. A falta d’água, sobretudo na zona rural, faz brotar a fome com espantosa velocidade, contribui drasticamente para a escassez de alimentos.nuvens, céu, menino, escada, pinturaHá muita poeira sobre nossos telhados e espíritos, em nossos olhos e corações. Venham lavar as nossas almas, benditas nuvens. Tragam algumas boas chuvas para esta província de céu escandalosamente azul. Sim, um pouquinho de gris não fará mal a estes longes onde é possível estrelar ovos no asfalto.

Quando a chuva vier, quem sabe uma por quinzena, aí daremos uma festa. Faremos, por que não, uma dança da chuva. Que tal, senhoras nuvens chuvosas?! Imagino que não estou pedindo muita coisa, posto que há diversos lugares neste Brasil e no mundo padecendo justamente devido ao excesso de precipitações pluviométricas, usando aqui expressão bem típica dos meteorologistas.

Vindo a chuva, de preferência no período da tarde, sairemos para as calçadas de peito aberto. Buscaremos as calhas, as biqueiras com maior volume d’água. Homens, mulheres e crianças, todos numa confraternização líquida e pura. Algumas pessoas, como se dava outrora, usando sabonetes e xampus.

Nesses dias, em caráter excepcional, os patrões dispensarão os seus empregados mais cedo, para que estes possam usufruir do grande e abençoado evento de uma tarde de chuva. Assim como se fazia em jogos de copa do mundo de futebol. Mossoró inteira prestigiará a duradoura, volumosa e serena água caindo do espaço, sem necessidade de guarda-chuvas nem ocorrência de raios e trovões.

— Obrigado! — diremos olhando pro céu.

Ninguém se incomodará (quero me referir ao público feminino) se o cabelo arrumado e engomado na véspera perderá o efeito da pranchinha e do secador. É provável que tais mulheres, sabedoras de que se trata de uma semana com chuva iminente, evitarão gastos desnecessários com salões de beleza.

O ponto alto na programação recreativa dos mossoroenses, não importando a classe econômica do indivíduo, seu status ou religião, será unicamente um longo e revigorante banho de chuva. Pode ser em qualquer parte do município onde a pessoa se encontre, debaixo ou não de uma biqueira. O que vale, senhoras nuvens, é nos deixarmos lavar e envolver pelo abraço benfazejo da água.

Aqueles que porventura estiverem no meio do trânsito, guiando os seus veículos, não podem se furtar dessa experiência. Orienta-se, pois, que estacionem de imediato e se exponham ao fenômeno pluviométrico (eis a palavrinha outra vez). Cidadão algum há de ignorar ou desmerecer tal acontecimento.

Será uma imagem graciosa, um colírio para os olhos, assistirmos à meninada festiva em meio ao aguaceiro, bandos de moças com as suas roupinhas casuais e ainda mais coladas a seus corpos pela ação da água, felizes, descontraídas, suscitando pensamentos outros em nossas cabeças de marmanjos à espreita. Dias venturosos serão esses, senhoras nuvens. Tudo isso depende de vocês.

Tragam chuva para Mossoró. Pode ser, como eu disse, apenas uma por quinzena. Contanto que seja duradoura e, se possível, à tarde. Que o bom São José me perdoe por tê-lo driblado, prescindo da sua intercessão junto a vocês, amigas nuvens carregadas. Deus sabe que assim procedo por causa nobre.

Minha terra é bonita, embora a violência, a criminalidade, ofusque e contradiga a nossa propaganda de povo hospitaleiro, gente pacata; essas velhas e batidas peças publicitárias de que o Palácio da Resistência faz uso sem muita veracidade e nenhum pudor. De resto, amigas nuvens, este é um lugar interessante. O que está nos faltando, e desde sempre, é a dádiva de um refrigério climático.

Não lastimarei que em minha rua, que possui escoamento extremamente precário, fiquemos com a água na altura dos joelhos. O que é que tem?! Será este um pequeno transtorno em favor de um bem maior, coletivo. Outros locais ficarão alagados, a exemplo do Centro, ainda assim agradeceremos.

Vocês precisam ver o pequeno rio em que se transforma esta Euclides Deocleciano, aqui no Conjunto Walfredo Gurgel, quando bate uma boa chuva. É um espetáculo! A água invadia as casas e aí os moradores, sem o socorro dos políticos desta urbe há décadas, tiveram que construir barreiras diante de suas portas. Aqui em casa ela ultrapassa o portão e vem lamber a minha soleira.

Todavia, amigas nuvens, não se preocupem com isso. Não lhes compete. Esse é tão só um problema crônico de drenagem que nossos homens públicos, principalmente por parte daqueles que se aboletaram na cadeira da prefeitura, têm ignorado olimpicamente há longos anos. Por ora, façam chover.

Nesses começos de tarde, quando o calor nesta província atinge níveis abrasadores, por mais de uma vez abandono esta escrivaninha e vou para debaixo do chuveiro. Poucos minutos depois, ao deixar o banho e percorrer alguns metros até alcançar uma toalha pendurada no varal, eis que meu corpo já se encontra praticamente seco. O vento que circula parece originário de uma fornalha.

Tragam-nos chuva, amigas nuvens. Não liguem para as goteiras no meu telhado. Eu me viro aqui com umas panelas e baldes. Estamos carecidos do líquido que vem do alto. Nossas árvores vêm sofrendo. O céu de Mossoró está num completo desmantelo azul, como naquele soneto do Carlos Pena Filho.

Será bom, repito, um pouco de gris no espaço. Daí a pouco o Sol reaparece e todas as cores retomarão exuberantemente os seus devidos lugares. Mas a chuva, ao menos uma a cada quinze dias, representará uma bênção. A vegetação renascerá das cinzas, os pássaros cantarão intensamente, a orquestra dos sapos e rãs convocará seus membros para uma apresentação em caráter urgentíssimo.

Ah, amigas nuvens! A água é a origem da vida. E nossas vidas ficarão mais alegres com a chuvarada. Atendam, se acaso me ouvem, esta súplica mossoroense. Prometo, para me redimir com São José, acender uma vela ao padroeiro das chuvas no sertão. Fico por aqui. Suponho que já falei muita água.

Marcos Ferreira é escritor

Imagens e sentidos do meu sertão

Meu Carnaval tem sido de descanso e trabalho em marcha lenta.

Estava precisando para recarregar baterias. Tenho um ano em movimento, que promete ser de grandes desafios.

Eu preciso deles, os desafios. São meu combustível.

Mas tirei um dia para mirar o sertão; sentir seu cheiro, ziguezaguear por suas estradas e veredas e falar com sua gente.

Comer arroz-de-leite, lavar o rosto com água geladinha da cisterna, procurar (sem sucesso) o camaleão mimetizado na folhagem e seguir em frente, sem a pressa de chegar.

Ouvir. Observar. Falar pouco (ô! Tentei).

São coisas que me fazem bem. Sou capiau da cidade, realimentado pela vida campesina.

Até neblinou ao longo de pouco mais de 400 quilômetros percorridos.

Eu pedia chuvas caudalosas, antes de viajar. Há-as permanentemente em meus sonhos. Vislumbro-as da casinha – imaginária – fertilizando o chão que dá cria à vida semeada.

O sertão verdinho, animais pastando, o sertanejo sorrindo, é como retempero para continuar a rotina que me empolga nesta página e outras tarefas.

Voltei olhando pela janela do carro e no retrovisor o que ia deixando para trás e ao largo: aquele sol engolido por nuvens densas, teimando em ficar.

Eu não me demorei. Mas trouxe todas as imagens e impressões em meus sentidos. Não ficaram para trás; carrego-as em mim.

Reencontrei-me para continuar minha marcha. Já no beicinho da noite avistei minha cidade.

Hora de começar tudo de novo. Em paz!