Por Marcos Ferreira
Talvez eu não passe do primeiro parágrafo, não estou em condições muito favoráveis, no entanto retorno a este computador para escrever alguma coisa. Qualquer coisa. Foram vinte dias sem produzir uma linha e ainda me encontro sem bússola e sem ânimo. Nesse espaço de tempo, entre ajustes nos meus psicotrópicos e efeitos colaterais, senti que esta cidade está cada vez mais desumana, insensível. Reparem nesse monte de gente desvalida que hoje mendiga em toda parte.
Olho à minha volta e reflito sobre minha condição. Esta é uma casa velha, cheia de buracos e cupins, certamente a mais modesta e feia desta Euclides Deocleciano, entretanto aqui estou guardado, protegido, com alguns pequenos luxos como uma geladeira, um ventilador e uma cafeteira. Tenho sempre algo para comer e vou conseguindo pagar ao menos as minhas contas de água e luz.
Grande parte do meu auxílio-doença, mediante laudo do meu psiquiatra Dirceu Lopes, é empregada na aquisição de medicamentos. Porém, ao andar pelas ruas de Mossoró, eu me sinto um privilegiado, afortunado. Penso que poderia ser eu (sob este nosso sol implacável) a exibir cartazes nos semáforos, pedidos de socorro. Sim, as pessoas estão pedindo socorro. Suplicam por qualquer alimento ou moedinha. Vez por outra, medindo minhas possibilidades, tento ajudá-las.
Enquanto isso, dentro dos seus carrões refrigerados, a maioria dos motoristas não baixa o vidro, sequer olha de lado. Tal súplica se arrasta desde o começo do dia e segue noite adentro. Indivíduos de todas as idades, homens, mulheres e crianças tentam vender coisas ao público motorizado, especialmente garrafinhas de água mineral, dindins, picolés, bombons e até desinfetante caseiro.
Essas pessoas, nesta Mossoró desarborizada, ficam expostas a sol e chuva. Mas chuva é algo raro por aqui. Sobre seus produtos, quando conseguem vender, têm lucro de centavos. Como se consegue subsistir numa carestia como esta em que se acha este país ganhando centavos? Aos demais, os que não têm nada para tentar vender, só resta a mendicância. A esta hora, meio-dia e quinze, enquanto escrevo esta página, eles estão nos semáforos, sob o sol, ignorados e famintos.
Onde estão os vereadores, o ilustre senhor prefeito, a Igreja Católica, as igrejas evangélicas, os donos de redes de supermercados e vários outros empresários e poderosos que não se mobilizam em favor dos pobres? Ou só vão doar alguma comida quando chegar o Natal? Acham que os miseráveis não têm fome nos outros dias? Não vejo distribuição de cestas básicas em parte alguma.
Cadê os poetas de Mossoró, escritores, jornalistas, intelectuais? É preciso união da classe pensante, a fim de se pressionar o poder público e a sociedade como um todo. A prefeitura queima muita grana com fogos de artifício, enfeites natalinos e diversos adornos, enquanto os pedintes definham de estômagos vazios. Por sua vez, a Câmara Municipal aprova verba para todo tipo de coisa. Inclusive, fato notório, aumentaram os já polpudos salários dos próprios parlamentares.
O que os caros (e dispendiosos) vereadores pretendem fazer pelos desvalidos? Algum desses legisladores ou legisladoras, por gentileza, poderia me responder? Não foram todos eleitos, principalmente, com a promessa de assistir o povo carente da terra de Santa Luzia? Tomara. Estamos esperando. Ainda há tempo. Façam valer os votos que receberam. Mostrem serviço, caríssimos!
Os mandachuvas do Executivo e do Legislativo precisam deixar as suas confortáveis poltronas e os seus gabinetes geladinhos e olhar de perto, fora dos seus carros de luxo, a fome estampada nos rostos de quem esmola nos semáforos, praças e canteiros. Há mulheres com crianças pequeninas, sofridas, desnutridas, implorando a caridade dos que podem ajudar e não ajudam. Porque muitos dos potentados desta província, infelizmente, viram o rosto diante dos infelizes.
“Ah, senhor cronista, essa fome toda não é só neste município”, dirá alguém no espaço reservado à opinião do leitor. Eu sei disso. Todos nós sabemos, embora certas pessoas prefiram fingir que não estão vendo nada. O Brasil das camadas inferiores vem padecendo em demasia nestes últimos anos. São quase vinte milhões de brasileiros passando fome e quinze milhões de desempregados.
Mesmo nesta residência estragada do subúrbio, com todos os indícios de um morador sem recursos ou haveres, aqui e acolá um cristão aproxima a cara dos combogós do muro, bate palmas e grita: “Ô de casa!” Vou atender, sem abrir o portão, e deparo com alguém pedindo qualquer tipo de auxílio. Às vezes é uma idosa, um idoso, ou mãe com um ou mais filhos pequenos em sua companhia. Isso me dói no coração e na alma. Abro o armário, a geladeira, e lhes ofereço algo.
— Que Deus lhe abençoe — agradecem.
Aqui, portanto, entre estas paredes velhas, torno a refletir: sou um privilegiado, um homem de sorte, apesar de certas privações e da minha gangorra psicológica. Disponho de um velho computador, que vem caducando há vários anos, uma TV, telefone, internet, um fogão que quase não uso, uma motocicleta e os meus poucos e empoeirados livros numa estante. São o meu futuro espólio.
E aquelas pessoas desassistidas, possivelmente sem um teto, o dia todo à mercê da benevolência de terceiros, expostas a um sol forte, sem um banheiro que porventura precisem utilizar? Uma tarde, ao parar no semáforo defronte ao cemitério São Sebastião, eu vi quando um homem desses que exibem cartazes apanhou do chão o que me pareceu ser uma manga apodrecida, tirou a terra com as mãos e começou a comê-la. Outros mais reviram lixeiras de supermercados e restaurantes.
Não há boa vontade dos que efetivamente poderiam agir. A Petrobras, que tem um papel social no seu quadro de ações, não se mexe, não põe a cara fora. Temos duas grandes indústrias de cimento aqui bem próximo, além de ricos proprietários de postos de combustíveis, segmentos estes que faturam alto em nosso município, contudo se preocupam apenas em se tornarem ainda mais ricos.
Deus, aparentemente, também não tem feito nada em favor dos que estão aí pelas ruas em busca de uns centavos, sobretudo de alimento. Mas Deus não falha e está vendo, não se enganem, a sovinice, avareza e falta de compaixão dos ricaços, dos potentados, abastados e políticos desta cidade. Sei que no Brasil inteiro a situação não é diferente, repito, porém me atenho ao torrão onde nasci há meio século. É necessário, e com urgência, que outros escribas e vozes se levantem.
Como sermos felizes, estarmos com as nossas consciências leves, quando vemos tantas pessoas suplicando por uma refeição? Não podemos simplesmente dizer para nós mesmos que não temos nada a ver com isso, lavar as mãos, virar o rosto, ignorar. Então, senhoras e senhores, que o espírito natalino toque os nossos corações e nós possamos abrir a carteira e estender a mão aos necessitados.
Mas não só porque Deus está vendo tudo.
Marcos Ferreira é escritor
