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Curral dos Porcos – Capítulo 1

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
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Consultou o reloginho de aço que ganhou de presente do falecido marido no Natal do ano passado. Eram nove horas e cinco minutos da manhã. Ainda não havia parado de chover por inteiro. Caía uma garoa em meio a um vento frio. O sol permanecia oculto. Alguns postes da rede elétrica continuavam acesos desde a noite anterior. Era possível que o mau tempo voltasse a qualquer instante. Apesar disso Matilde colocou sua máscara, pegou o velho guarda-chuva, afagou a cabeça das meninas e disse que não abrissem a porta para ninguém. Exceto se fosse Das Neves, única irmã de Euclides, ou a antipática senhora Esmeralda, mãe do morto. Incomodava-a o fato de se ver obrigada a deixar as filhas sozinhas.

Naquele momento, porém, não tinha opção. No armário da comida restara apenas massa de milho, um pouco de açúcar e um pacote de café. Apreensiva, olhos tristonhos, seguiu para o armazém do senhor Euzébio Suassuna, uma das vendas mais sortidas do pequeno município de Curral dos Porcos.

O bairro de Boa Vista se encontrava quase deserto. Poças d’água e lama logo atingiram as sandálias de Matilde, sujando seus dedos e calcanhares. O bairro não tinha pavimentação, contudo se encontrava distante das áreas inundadas. Pendurada no ombro direito, para a eventualidade de que o comerciante lhe confiasse a compra dos mantimentos, conduzia uma bolsa de palha de tamanho médio.

Ruas quase desertas. Aqui e acolá, debaixo dos seus guarda-chuvas e usando máscaras de proteção contra o vírus, alguns moradores se aventuravam na garoa. Decerto por força das circunstâncias. É evidente que não estariam ali por espontânea vontade; vultos em meio à neblina. Ninguém parava para conversar com ninguém àquele instante. Outros simplesmente observavam o mínimo movimento com os cotovelos apoiados sobre o parapeito de suas janelas. Pássaros dispersos riscavam o céu escurecido. O vento foi ficando mais forte, sibilando nos fios do posteamento.

Indiferente às condições climáticas, a jovem mulher seguiu seu rumo exposta à possibilidade de a chuva cair de vez e alcançá-la no meio do trajeto. Quando dobrou na esquina da farmácia, Matilde empalideceu. A mercearia do senhor Euzébio estava de portas fechadas. Ocorreu-lhe chamá-lo na casa contígua ao comércio, residência do homem, e explicar-lhe o momento de sufoco em que se encontrava. Considerou, entretanto, que seria audácia importunar alguém naquelas condições para comprar sob promessa de pagamento. Com os pés enlameados e roupas enxovalhadas, deu meia-volta levando a bolsa de palha. Não tinha outro lugar onde pudesse conseguir crédito. Recordou-se de que era sábado e que talvez o senhor Euzébio tivesse resolvido não abrir por causa disso. Aquelas chuvaradas representavam um motivo a mais.

Parou sob a marquise da farmácia e se pôs a refletir.

— E agora, meu Deus? — murmurou.

Precisava engolir o orgulho e pedir ajuda a quem ela não gostaria. Embora não fosse muito bem-vinda ali, restava-lhe a casa da sogra, com a qual nunca tivera boa relação. E os problemas pioraram após a morte de Euclides. A senhora Esmeralda, como é comum entre as famílias do interior, desejava que o filho namorasse e se casasse com uma certa prima. Contudo ele se encantou por Matilde desde quando a conheceu trabalhando em casa do senhor prefeito Gilberto Pedrosa. Ela fora recomendada à família do político por uma irmã deste, a senhora Albertina, residente em Aroeira Santa e patroa dos pais de Matilde. Os genitores da moça haviam morrido num desastre com um ônibus na estrada de Aroeira Santa para a capital, Belo Jardim.

Não tardou e Euclides e Matilde começaram a namorar. Ele tinha à época seus vinte e oito anos e ela contava apenas vinte e três. Após dezoito meses de relacionamento, contrariando todos os cuidados, ela engravidou e deu à luz a primeira filha, batizada com o nome Vanda. Na metade da gravidez Matilde precisou deixar o trabalho na casa do prefeito. Depois do parto, dispondo da ajuda de Das Neves, dedicou-se a cuidar da filha e da casa.

O imóvel foi adquirido graças à generosidade do patrão, que lhes vendeu o terreno por uma pechincha e deu baixa na carteira de Euclides, de maneira que este pudesse fazer uso da verba rescisória. Pouco depois o senhor Gilberto o readmitiu no serviço da olaria. Euclides, apesar da contrariedade da mãe, foi ajudado pela própria senhora Esmeralda e pelo pai, o senhor Adonias, funcionário aposentado da Receita, morto também no ano passado em decorrência de um enfarto.

Claro que a saída de Matilde da residência do senhor Gilberto causou frustração. O prefeito nutria expectativas de ter um caso com a moça. Esta, contudo, sempre se esquivou das indiretas e diretas do empregador.

Do modesto lar de Euclides e Matilde, entretanto, foi concluída tão só a parte estrutural, algo que consideravam uma grande vitória. Pois, ao contrário de muita gente, não estavam no cabresto do aluguel nem morando com os pais de Euclides, suportando os humores da senhora Esmeralda. “Vamos fazendo o restante aos poucos”, dizia o oleiro. Assim passaram a residir na modesta casa dispondo do básico. Estavam felizes com essa nova fase de suas vidas, em particular pela chegada de Vanda. O piso, o reboco, revestimento do banheiro, entre outras pendências, planejavam fazer mais adiante com as economias que pudessem manter em uma caderneta de poupança. Mas veio Ritinha (segunda filha) e as melhorias do domicílio emperraram.

Quase dez horas. A ventania açoitava o guarda-chuva com mais força. Matilde chegou à casa da sogra e esta a recebeu de cenho trancado. A velha já supunha que a moça estava ali por necessidade. Do contrário não teria saído de casa naquelas condições. Logo pôde concluir, para aumentar-lhe o ranço gratuito, que outra vez a nora deixara suas netas sozinhas. Demorou alguns segundos para abrir a porta.

— O que faz aqui, com esse tempo? — resmungou.

— Vim lhes pedir ajuda. Estamos sem comida. O dinheiro acabou e não disponho de nada para dar às meninas de hoje para amanhã.

— Podemos ajudar — antecipou-se Das Neves, sua cunhada.

— Agradeço. Só me abalei até aqui por causa disso.

— Claro que vamos ajudar — confirmou a sogra. — Não vou deixar as minhas netas com fome. Não sou tão cruel como você pensa. Bata os pés no capacho e pode entrar. Sinta-se em casa — disse com alguma ironia.

— Eu nunca falei que a senhora é cruel.

— Pelo seu olhar, é como se imaginasse.

— Que olhar? Está enganada. Sou muito grata a vocês.

— Chega dessa conversa — interveio Das Neves. — Venha, Matilde, vamos à cozinha. Podemos lhe arrumar algumas coisas. Não é muito, mas irá lhe socorrer até que consiga dinheiro para fazer umas compras.

— Fui ao comércio do senhor Euzébio Suassuna, mas estava fechado. Eu queria saber se ele me venderia algumas mercadorias no fiado.

A senhora Esmeralda transferira a entrega dos víveres para a filha. Continuou na sala, na cadeira de balanço, manejando as agulhas de tricô. Apesar da cara trancada de costume, sentia que precisava ajudar a nora e, sobretudo, as netinhas. No íntimo, como de outras vezes, gostava que Das Neves tomasse a iniciativa de ir à despensa e arranjar alguns alimentos para aquelas pobres necessitadas.

Das Neves encheu a bolsa de palha com gêneros alimentícios, inclusive leite em pó, e a entregou sorridente. A outra parecia ter os olhos marejados. Quando passou pela sala, a viuvinha disse “obrigada” à sogra. A velha fez de conta que não ouviu. Matilde deu um abraço em Das Neves e voltou para casa. Ao abrir a porta encontrou as meninas no sofá, diante da televisão, que ela deixara ligada.

As crianças notaram que a mãe trazia a bolsa cheia de mantimentos, todavia não imaginavam a origem das coisas. Matilde já havia batido os pés na calçada, de modo que a terra caísse das sandálias, mas ainda assim deixou os calçados perto da porta, pois os recolocaria somente após tomar um banho.

Pendurou o guarda-chuva em um armador de rede da sala, retirou a máscara de proteção e começou a distribuir o conteúdo da bolsa sobre a mesa da cozinha. Em seguida, ao respirar fundo, foi guardando os gêneros no armário de metal fixado na parede, entre a geladeira e o fogão. Sentia-se aliviada com o fato de que teria alimento para si e para as filhas por mais três ou quatro dias.

Marcos Ferreira é escritor

Missão cumprida

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
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Como era de se esperar, estou de volta à crônica, esse tipo de escrita ainda marginalizado ou depreciado perante as demais categorias literárias. De um modo geral, e isto não é novidade, o romance, o conto e a poesia têm maior público. Exatamente nesta ordem. Porém, ao que me parece, aqui a crônica possui certa firmeza junto aos seus adeptos e amantes. Pois é, tenho essa impressão. Neste município, e decerto em nosso estado, a produção dos cronistas faz algum sucesso. Conforme declarei, então, estou outra vez na pequena área tentando cavar um pênalti. Quem sabe assim, ao contrário das tentativas anteriores, eu consiga marcar um golzinho.

Publiquei neste blogue, até o domingo passado, ao longo de vinte e sete semanas ininterruptas, um romance denominado “O Efeito Casulo”. Do ponto de vista do ibope, entre outros, foi um grande fiasco. É isso aí. Apenas uns oito ou dez leitores, se não estou sendo otimista demais, acompanharam e emitiram suas impressões a cada capítulo. Eu já esperava pelo desinteresse da maior parte dos leitores. Alguns entendem tanto de romance quanto de engenharia atômica.

Outros, embora familiarizados com o gênero, optaram friamente pelo silêncio e indiferença. Esses (não todos, obviamente) são os que talvez não gostem deste autor e torceram, de modo secreto, que me faltasse fôlego para a empreitada de verter tal obra à maneira de folhetim.

Nada de extraordinário, nada de incomum. A arte, lançando mão de um termo mais abrangente, padece de inanição, de falta de prestígio ou audiência desde o tempo das pinturas, dos hieróglifos e desenhos em paredes de cavernas. O artista, independente da modalidade artística, sempre foi e permanece um animal ameaçado de extinção.

Todavia esse mesmo animal se mostra um tipo de fênix que prossegue renascendo das próprias cinzas, como na história da ave mitológica. Porque o que deveras rende cliques no universo virtual de hoje em dia são duas coisas díspares e insuperáveis: celebridades e tragédias. Sangue ainda vende jornais. Os veículos impressos foram quase todos aniquilados pelo imparável advento da Internet, no entanto os telejornais, blogues, sites e portais continuam com notável êxito financeiro.

Não imaginem que esta retomada da crônica tem o intuito de resmungar devido à pífia repercussão de “O Efeito Casulo”, que vem a ser o segundo romance que publico no BCS — Blog Carlos Santos. O primeiro foi “A Cidade que Nunca Leu um Livro”, cuja receptividade teve melhor resultado. Estou de bem comigo e vacinado contra melindres ou queixumes em relação ao leitor deste espaço. Totalmente longe do sentimento de que ofereci (ou ofereço) pérolas aos porcos.

A sensação que guardo, apesar do registro de malogro editorial, é que cumpri a missão que reservei para mim próprio. Quanto ao resto, sem nenhum rancor ou falsa modéstia, digo que valeu a pena cada página, cada capítulo gestado. Sou um escritor obscuro, por mais que os amigos digam o contrário, entrementes realizo com pleno amor e paixão este honroso sacerdócio da literatura.

Marcos Ferreira é escritor

O Efeito Casulo – Dia 27 – FIM

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
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Tenho uma notícia simplesmente fantástica para comunicar. Uma reviravolta que jamais imaginei que pudesse me acontecer. Mas acalmei o êxtase que me domina. Então relatemos as ocorrências desta quinta-feira especial sem atropelar as coisas. Vamos pelo começo. Nada de colocar, conforme o velho ditado, o carro na frente dos bois. Em breve chegarei ao ponto que impactará a todos.

Olho neste momento o reloginho no canto inferior direito do computador e constato que são precisamente dezenove horas e cinquenta e sete minutos. Pois é, estou exultante. Confio que esta noite dormirei muito bem. Aliás, nem sei se vou conseguir de fato, tamanha é a minha euforia neste momento da noite. Antes, contudo, repito que preciso fazer esses registros iniciais. Depois disso vou explicar o motivo de meu imensurável contentamento. Não há como ser de outra maneira. Ainda que se trate da desgraça de outra criatura, um estranho para mim que, na prática, me deu outra vida. Bem, vamos adiante. Tentarei descrever, de um modo sucinto, como transcorreu este dia maravilhoso. Destaco que não vou me prender a delongas. Como eu frisei, entrementes, exibirei o que julgo digno nestas primeiras linhas.

“Foi Deus!”, penso aqui sozinho com os meus botões. Hoje, como de costume, dei mais uma olhada nas minhas obras confinadas neste velho computador. Aliás, retoquei um dos meus livros, ajustei, arrumei certos detalhes que me pareceram um tanto incoerentes; cortei pontas soltas. Pois é, foi um dos meus quatro romances. Não informarei o título para não perder o efeito do ineditismo. Amanhã continuarei com essa atividade. Pretendo fazer isso com todos os títulos que enviarei para Carlos Santos, Marcos Araújo e Clauder Arcanjo, esses gentis mecenas.

É quinta-feira, 27 de novembro deste turbulento 2025, ao menos no que me diz respeito. Levantei-me cedo e, após as minhas abluções, tomei o meu rotineiro café, comi um pão com manteiga e uma fatia de queijo de coalho. Em seguida me sentei à escrivaninha para dar início à revisão e retoques do original. Esse serviço arrastado me tomou a maior parte do dia. Por volta das dezessete horas, contudo, já satisfeito com o trabalho de copidesque, que enfim dei por concluído, eis que o telefone tocou. Fiquei espantado. Era o doutor Epitácio Coelho. Atendi e ele, por demais empolgado, declarou-me que tinha algo extraordinário para compartilhar, uma novidade que me deixaria feliz por absoluto. Fiquei extremamente curioso, perguntei sobre o que se tratava, entretanto ele afirmou que precisava que a conversa fosse cara a cara:

— Pode ser ainda hoje? — inquiri.

— Sim! Terei que sair mais tarde.

Tomei um banho rápido, peguei a bicicleta e disparei para a clínica. Algo no meu âmago, lá no fundo do meu peito, dizia que a minha vida sofreria uma reviravolta. De outro modo, porém, busquei não me animar tanto para não me frustrar depois. Esta rua se encontrava repleta de vizinhos com suas cadeiras nas calçadas. Segui pela Pedro Velho até sair dos limites do bairro Santo Antônio. Na sequência peguei a Juvenal Lamartine na altura da Casa de Saúde Tancredo Rosado. Cortei todos os sinais vermelhos que surgiram no meu caminho. Passei diante do Cemitério São Sebastião e entrei à direita na Frei Miguelinho. Meu coração estava aos pulos.

— Vim falar com o doutor Epitácio — disse à atendente, que desconhecia o porquê de minha presença ali, tendo em vista que eu não havia agendado consulta alguma. Ela pediu que me sentasse e aguardasse, pois restavam duas pessoas para serem atendidas. Essa espera representou um tempo interminável. Não tinha jeito. O remédio era ter um tanto de paciência e esperar a minha vez.

O relógio parecia não sair do canto. Minha ansiedade aumentava a cada minuto. Cerca de uma hora e meia depois, quando enfim o último indivíduo saiu, a moça da recepção interfonou para o médico informando que alguém de nome João Fernando Soares Barros o aguardava. Ela me olhou de um modo simpático e, sem demora, falou que eu podia entrar, pois Epitácio já me aguardava. Minhas pernas me pareceram ligeiramente bambas. O coração continuava acelerado. Atravessei o longo corredor com rutilante piso de porcelanato até alcançar o consultório do doutor, cuja sala era a penúltima. Dei três batidinhas na porta com os nós dos dedos e entrei. Ao me ver, o oncologista depressa se levantou da cadeira giratória e veio me dar um inesperado abraço. Isso nunca acontecera. O doutor Epitácio Coelho é, além de bem-conceituado, uma figura contida e um tanto quanto fria perante os seus pacientes.

Sem rodeios, depois de haver retornado à sua cadeira e eu me acomodar no pequeno sofá diante do birô, o oncologista me deu a notícia mais importante e redentora de toda a minha vida. O exame de imagem, que atestara o meu suposto câncer de pâncreas metastático, não me pertencia. Minha análise clínica fora trocada pela de outro elemento cujo nome parecia demais com o meu.

Admito que não olhei direito para a folha translúcida com a identificação, onde se encontrava o laudo de (reparem bem na semelhança) João Fernando Silvério Barros em vez de João Fernando Soares Barros, este o meu nome inteiro. Só depois de vários dias foi que o outro Fernando se deu conta de que aquele laudo não era o dele, que pertencia a um quase homônimo. O exame que recebera acusou tão só uma hepatite aguda. Tive um ímpeto de dar um beijo na careca do doutor Epitácio Coelho quando ele acabou de me explicar a monstruosa confusão dos exames. Ou seja, eu não estava com um pé na cova, como o bendito laudo me fez crer.

— Você ainda tem muita vida pela frente, meu prezado Fernando — acrescentou o médico com um sorriso continental. — Tudo não passou de um terrível engano. A outra pessoa, porém, que possui um nome praticamente igual ao seu, é que está em situação muito difícil. Como sócio desta clínica, só posso lhe pedir mil desculpas pelo equívoco. Sua enfermidade é algo tratável e curável.

— Imagine você, doutor, que durante esses dias, desde o momento em que recebi a sentença de câncer metastático, eu já imaginei diversas formas de me suicidar. Bom, isso tudo são águas passadas. Vou me tratar, ficar curado e seguir com a minha vida. Por bem pouco não cometi um ato tresloucado.

O médico balançou a cabeça afirmativamente, inclinou-se na cadeira e deu dois tapinhas no meu ombro esquerdo. Deixei a clínica me sentindo renascido. O tempo agora corre a meu favor. Muita coisa se passou ao longo desse período. Por exemplo, o fim que dei àqueles dois canalhas que me espancaram aqui em casa. Amanhã vou aguar novamente os pequenos ramos que brotaram das sementinhas de jacarandá que plantei no fundo do terreno, justamente no local onde estão enterrados em uma cova apenas. Torço que a polícia nunca descubra o duplo homicídio que pratiquei. Sem querer me gabar, penso que sou autor de um crime perfeito.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 24

Por Marcos Ferreira

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Imaginei que hoje não me colocaria, como se diz bem-humoradamente, entre a cadeira e o teclado. Minha falta de motivação, a exemplo do que ocorreu durante o tempo quase inteiro, era o principal motivo (senão o único) para quebrar a sequência de relatos que venho sustentando e expondo há quase um mês. Esta periodicidade, sendo agora mais preciso, alcança hoje vinte e quatro capítulos consecutivos. É verdade, devo reconhecer, que ao longo desse curso deixei de cumprir essa proposta uma ou duas vezes. No entanto, como o leitor mais atento e rigoroso pode verificar, expus estes relatos com a sequência e números diários sem prejuízo para o ambicionado projeto. Neste instante, que me limitarei a citar que se trata apenas de uma sexta-feira de outubro, toco em frente esta espécie de diário lastimoso, pessimista. Isto, em particular, porque atravessei uma noite por demais horripilante de ontem para hoje. Sonhos conturbados todo mundo os tem, mas o que tive há algumas horas foi algo sobrenatural.

Refiro-me a um sonho absurdamente chocante. Um pesadelo dentro de outro pesadelo. No primeiro, em plena madrugada, eu estava sentado num banco diante do Cemitério São Sebastião. Fazia um frio incomum e uma fina neblina se formara naquele trecho em específico. Daí a pouco avistei nitidamente, olhando-me da porta do campo-santo, uma mulher descalça, talvez na faixa dos quarenta anos, bonita, de vestido vermelho, olhos e cabelos negros e pele muito alva. Sim, a distância entre mim e ela era pequena; o banco onde eu estava ficava próximo do portão. Então veio até mim. Antes de ela chegar, caminhando com passos lentos sobre a grama orvalhada, levantei-me. Senti que o corpo inteiro se arrepiara. Contudo, embora com angústia, permaneci ao lado do banco.

Como se tivesse conhecimento de meu câncer, foi dizendo com voz suave e enternecida: “Vamos lá, Fernando. Chegou a sua vez. Peço que me acompanhe. Sua permanência nesta dimensão terrena já expirou. Não tenha medo”. Acordei de súbito, trêmulo, suado, de olhos arregalados. Foi aí que me dei conta de que estava deitado em um caixão na minha sala, o corpo rodeado de pequenas flores cor-de-rosa e brancas. Minhas mãos se achavam cruzadas sobre o peito. Tentei me mexer, descruzar os dedos e sair do esquife, todavia não consegui mover um dedo sequer. É como falei: aquela dúzia de pessoas estava ao redor com semblantes graves, carrancudos.

Entre os circunstantes, mesmo um tanto de soslaio, reconheci Paulo Soares, meu ex-patrão, e alguns amigos da loja de peças de automóveis, onde trabalhei. Além desses, para piorar o estarrecimento, achavam-se perfilados à minha direita, para perto dos pés, Ricardo Gurgel, Leopoldo Nunes e Roberto, aquele amigo de Leopoldo e seu colega de trabalho como caixa do supermercado. Vi-me cheio de pânico. Tive um ímpeto de soltar um grito, mas, além de imóvel, estava emudecido. Aquilo era impossível. Esses três últimos indivíduos foram mortos e enterrados. Não poderiam, então, me velar naquele féretro, na sala de minha casa. Pois bem. Não conseguia me mexer nem proferir uma só palavra. Esse momento foi mais assustador do que me deparar com a desconhecida diante do São Sebastião. Após alguns minutos, felizmente, despertei. Era pouco menos de três e meia. Não mais consegui retomar o sono. Passei a manhã e a tarde desanimado, sem motivação para nada. Neste início de noite, enfim, ponho-me a relatar os minutos aterradores que passei em meio às brumas do sono.

Dessa maneira, portanto, como se isto pudesse extrair de minha cabeça a memória, os instantes de terror da noite passada, decidi escrever, verbalizar ocorrência tão desesperadora, deixar por escrito o registro do tormento da minha morte sonhada. Quem sabe até um sinal de que posso estar bastante próximo de ser deveras levado à cidade dos pés juntos. Felizmente, por mais que aquilo tenha me parecido tão real, ainda não foi desta vez que fui de fato parar na sepultura. Neste exato momento, devo admitir, sinto-me aliviado. Narro o funesto episódio (dois, na verdade) com o coração apaziguado, sem o horror, sem a possibilidade de ser enterrado ainda vivo. Isso mesmo! Embora estirado no caixão, cingido de flores, eu me encontrava bem vivo. Aos demais indivíduos que estavam à minha volta, entretanto, não duvido de que tivessem plena certeza de meu óbito. Aqui redijo, reporto semelhante agonia, entrementes estou cônscio de que preciso tirar esses minutos terrificantes do pensamento.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 23

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS
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Passei o dia quase todo no fundo de uma rede armada lá no quarto. Às vezes não me sinto muito confortável na cama e faço uso dessa opção. Sobretudo no período da manhã e da tarde. O quarto não é quente, embora forrado com gesso. Ligo o ventilador e coloco uma cadeira perto de mim. Em cima da cadeira, ao alcance do meu braço, ponho os óculos e o telefone. Vez em quando (quase que um vício) dou uma olhada no celular e confiro um monte de questões e polêmicas que transbordam da internet. Vi, por exemplo, que a famigerada “PEC da bandidagem” foi enterrada no Senado. Uma vez na vida e outra na morte, felizmente, os políticos brasileiros nos surpreendem de forma positiva. Pois é, jogaram uma pá de cal naquela proposição mais que vergonhosa. O povo saiu às ruas em todo o Brasil, e a manifestação surtiu efeito.

Mudando de assunto, agora me encontro a tocar esta narrativa tão pífia quanto mal-alinhavada. Saí da rede por volta das quinze horas, deixei a cafeteira processando o moca e fui tomar um banho. Depois, enquanto o café terminava de pingar na jarra, liguei a torneira do quintal, desenrolei a mangueira e comecei a aguar aquele pedaço de terra onde plantei algumas sementes de jacarandá.

Parentes, salvo exceções, às vezes só nos trazem problemas, dor de cabeça. Hoje, ironicamente, sinto falta de ao menos um familiar; um tio, tia ou primos. Sozinho no mundo, sem um herdeiro consanguíneo, vejo-me nesta situação de não ter a quem deixar o pouco que adquiri no decorrer de vários anos; à custa de muito trabalho. Compreendo que o tempo é curto para conquistar alguém, arrumar uma pessoa com a qual eu consiga estabelecer um relacionamento amoroso. Devo, entre os bons amigos que possuo, providenciar os papéis e deixar meu espólio a algum deles. Seria uma forma de viabilizar a publicação dos meus livros ainda inéditos.

Posso, pensando melhor, dividir a herança entre o causídico Marcos Araújo, o engenheiro Clauder Arcanjo e o jornalista Carlos Santos, editor do blogue onde venho publicando aos domingos, pedaço por pedaço, esta narrativa agônica, nua e crua. Trabalhando em equipe, esses três confrades terão meios de lançar minhas obras, em especial os romances e o meu único livro de contos.

Os originais de poesia (cinco ao todo) podem esperar um pouco mais. Tenho preferência pelo lançamento dos quatro romances e os contos. Isto sem incluir este relato ao qual talvez eu não consiga fornecer um desfecho. Minha poesia é o gênero em que tive uma única obra publicada há mais de vinte anos em virtude de ela haver conquistado um prêmio em São Paulo. Uma grande parte foi exposta no Facebook e no Instagram.

Nos últimos dias fiz um apanhado desses textos avulsos, dividi em cinco volumes com títulos pretensamente atrativos e salvei os arquivos no meu e-mail. Com antecedência, claro, revelarei a senha aos meus prováveis editores. Se não estou equivocado, já se passaram quase duas semanas que não falo com esses três, ignorando os telefonemas e as mensagens que me têm enviado pelo WhatsApp.

Meu contato se limita ao editor do blogue, o qual persiste em puxar conversa, sempre tentando obter alguma notícia, entretanto eu o deixo sem respostas, sem informação alguma. Limito-me tão somente a destinar os capítulos desta história de saúde debilitada assim como eu próprio. Saio tão somente para fazer algumas compras inevitáveis. Sobretudo itens com os quais abasteço a geladeira. Não faço “comida de verdade”, a exemplo de feijão, arroz, cuscuz ou legumes. Quando a preguiça permite, preparo um macarrão com molho de tomate e sardinhas enlatadas. Aqui e acolá faço carne assada no air fryer. Afora isto, conforme tenho revelado diversas vezes, há o café. Consumo algumas frutas, a exemplo de abacate, banana e mamão, que passo no liquidificador com leite. Ia me esquecendo: também faço ovos mexidos.

Quanto a este silêncio, tenho absoluta consciência que terei que quebrá-lo. Preciso dar notícias aos hipotéticos editores, discutir o assunto das publicações póstumas de meus trabalhos literários e (repito) informar a senha do e-mail. Certa feita, há mais ou menos dez dias, um desses cavalheiros bateu no portão e me chamou umas três ou quatro vezes. Reconheci a voz um pouco rouquenha: era o prezado Marcos Araújo. Nesse domingo (recordo bem a data) ele já havia telefonado e enviado algumas mensagens de áudio pelo WhatsApp. Fiquei calado e ele foi-se embora.

Senti um certo arrependimento por não tê-lo recebido. Seria uma oportunidade de, enfim, revelar a minha condição de enfermo com um câncer inoperável. Essa ideia de torná-los meus herdeiros, o que financeiramente poderá cobrir com sobras os custos de publicação de minhas narrativas, está se fortalecendo aqui no meu bestunto. A menos que, por mais incerto que pareça, eu descubra alguém que se afeiçoe a mim e com quem me relacione; um indivíduo que apresente um bom caráter e que esteja disposto, livre para uma relação homoafetiva.

O que não sei, entretanto, é se disponho de tempo hábil para me deparar, conhecer e me envolver com sincera reciprocidade. A cada dia que se passa bate um grande desânimo, uma angústia e desesperança de encontrar, assim às pressas, um tipo no qual valha a pena investir, dedicar os poucos meses que me restam. Sei perfeitamente que agora o relógio está contra mim.

De qualquer jeito, bem lá no fundo do meu coração, existe uma fagulha de otimismo que sugere um improvável final feliz. Isto ocorrendo, espero estar com a saúde um tanto quanto estabilizada. Porque nenhum homem, por mais sensível e bem-intencionado que seja, não vai querer um morto-vivo.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 21

Por  Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Despertei com fortes dores no abdome e uma sensação de vômito que não pude segurar por muito tempo. Sim, vomitei. Esse desconforto me tirou da cama pouco depois das seis horas. Todo aquele esforço físico para abrir a cova no fundo do quintal, além de arrastar e enterrar os corpos de Leopoldo Nunes e de Roberto, amigo dele, decerto foi a razão do mal-estar. Tomei os remédios que o doutor Epitácio Coelho me receitou e neste momento me encontro de certo modo bem.

Este é mais um capítulo (o segundo) que não devo publicar no blogue do jornalista Carlos Santos no próximo domingo. Preciso escrever um outro falando de algo que não revele o duplo homicídio que pratiquei no começo da noite de ontem. Como eu destaquei anteriormente, nenhuma residência nas imediações de minha casa possui câmeras de segurança. Isto, obviamente, é um ponto a meu favor. Esqueci de mencionar que os canalhas vieram parar aqui em carro de aplicativo. Será muito azar se a polícia chegar até mim em pouco tempo. Torço que não. De tal maneira a continuidade deste relato se tornaria inviável. A narrativa seria interrompida em definitivo.

Os leitores do blogue ficariam a ver navios, sem saber por que motivo empacou (se não estou enganado) mais ou menos no capítulo 14. O simples fato de eu haver mencionado o nome de Leopoldo anteriormente pode significar uma ponta solta, um pequeno acesso (se ocorrer uma investigação aprofundada) para que a polícia venha me fazer perguntas. Assim é possível que me classifiquem como suspeito pelo sumiço de ambos.

Se baterem à minha porta, segundo mencionei, será por um tremendo azar, considerando que os celulares tiveram os chips removidos e destruídos. Os aparelhos, volto a dizer, foram sepultados com os defuntos. Considero improvável que a dupla de cretinos tenha comentado com alguém que viria à minha casa. Acho, então, que as autoridades, acaso relacionem os desaparecidos a mim, só chegarão a essa linha de raciocínio depois que eu também já estiver morto e enterrado.

Quanto à minha herança, meu espólio, voltei à estaca zero. Mais uma vez dei com os burros n’água ao considerar a possibilidade de firmar um relacionamento homoafetivo com um sujeito digno de ser meu herdeiro. A frágil chance que vislumbrei junto a Leopoldo foi uma mancada. Como diz o provérbio, caí do cavalo. E, além da queda, recebi o coice. Tomei uma surra e tanto.

Depois, no maior descaramento, Leopoldo quis justificar o comportamento abominável dele e do amigo Roberto com o fato de terem cheirado cocaína antes de virem para cá. Por uma questão de justiça, devo admitir que o maconheiro Ricardo Gurgel nunca levantou um dedo sequer contra mim. Era um malandro, um michê sem pudores, no entanto era pacato e sabia me foder direitinho. Apesar dos pesares, agora lamento que Ricardo não esteja mais em minha companhia. Esse não me maltratava nem me abandonaria ao saber do meu câncer.

Embora com todos os seus defeitos (o estilo sanguessuga, a malandragem incurável, o desinteresse de arrumar trabalho e possuir uma renda própria, uma grana não oriunda unicamente dos meus recursos), foi o único indivíduo que tinha tudo para hoje ser meu herdeiro. Entretanto se encontra debaixo de sete palmos de chão. Às vezes imagino que fui duro, rigoroso demais. Nosso vínculo, cheio de altos e baixos, ingratidões e um tanto tóxico, representava uma exploração classicamente financeira, quase nada além disso. Porém a gente findava se entendendo. Até o dia em que me trocou por outro. Se era ruim com Ricardo Gurgel, pior sem ele.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 20

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Terra úmida e fofa. Tempo chuvoso. Caía um borrifo d’água. Tive receio de não conseguir. Contudo a pá descia fácil, empurrada vez por outra com o pé direito. Calçava botas de couro com sola de borracha. A folha de metal seguiu cortando a terra úmida, aumentando o tamanho da cova perto do muro aos fundos desta casa. De modo premeditado, eu iniciara a abertura do buraco no começo da manhã e findara no meio da tarde, deixando-o com a profundidade necessária. Não choveu forte nas últimas quarenta e oito horas e por isso não acumulou água na cavidade.

Foi a primeira vez que matei alguém; e logo um duplo assassinato. Sepultei-os na calada da noite, nos fundos do meu extenso quintal. Foram atraídos por uma promessa de fazermos as pazes e, quem sabe, experimentarmos um ménage à trois. Não contavam que estavam caindo na arapuca de um homem frio, calculista, de instinto vingativo. Logo me livrei dos cadáveres e agora seguirei com os poucos meses de vida que me restam. Mas não foi fácil sumir com os corpos dos safados.

Eu suspirava, exausto. Enxugava a água e o suor das faces com as costas das mãos. Daqui por diante poderei descansar. Não desejo outra coisa exceto agir como se nada houvesse acontecido e cuidar da minha curta vida. Estou satisfeito e um tanto orgulhoso de mim mesmo. Segui o plano à risca e deu tudo certo. Aqueles filhos da puta tinham que morrer. Se Deus não me perdoar, não importa.

Adotei uma estratégia infalível: vinho tinto com sedativo, substância cuja receita adquiri com o doutor Jarbas Sabóia. Falei que nas últimas noites tenho sofrido com insônia, o que de certa forma é verdade. Assim, conforme eu esperava, a bebida e o sedativo derrubaram os patifes. Daí a pouco Roberto disse que estava com muito sono, deixou a mesa aqui na cozinha e foi se deitar no sofá. Leopoldo ainda tentava resistir ao efeito do vinho com o sonífero. Porém, estando ele já grogue, acertei-lhe a cabeça (pelas costas) com a pá deixada estrategicamente próxima da porta da cozinha. Ao tombar, quebrou uma taça, virou a garrafa sobre a mesa e desarrumou parte da toalha. Depressa ergui a garrafa e joguei os cacos da taça num cesto de lixo. Leopoldo ficou estirado no chão, enquanto Roberto estava debruçado no sofá. Troquei de roupa e calcei as botas. O cheiro do vinho recendia no ambiente meio na penumbra. Será difícil desvendarem o sumiço de ambos. Felizmente, tenho a favor o seguinte detalhe: nenhuma residência aqui nesse trecho da Pedro Velho possui câmeras de segurança.

Se, porém, a polícia chegar até mim por algum motivo, imagino que será tarde demais. É possível que eu já esteja morto e enterrado. Cuidei de recolher os celulares deles, quebrei os chips, joguei no sanitário e dei descarga. Os aparelhos foram sepultados juntamente com os seus respectivos donos.

“Vocês tiveram o que mereciam”, falei de mim para comigo enquanto me preparava para arrastar os dois para uma cova só. Por segurança, apliquei uma pancada com as costas da pá na cabeça de Roberto. Uma pequenina quantidade de sangue tingiu a pá. “Esse também está prontinho para cumprir o seu destino”, pensei enquanto os relâmpagos clareavam as frinchas do telhado, e os trovões ribombavam como se a casa porventura fosse desabar. Era uma noite desértica nesta Pedro Velho. Em razão da garoa, nenhum vizinho se aventurou a colocar uma cadeira na calçada. Ajoelhei-me e conferi as veias do pescoço de Leopoldo e de Roberto. Nada. Nenhum sinal de pulsação. Nunca mais esses sacanas vão espancar quem quer que seja.

O mais difícil foi arrastar os dois até o buraco. Então, depois de percorrer pouco menos de trinta metros puxando meus agressores pelos braços (um de cada vez, claro), consegui colocá-los na cova. Quando comecei a lançar as pás de terra, percebi que Leopoldo ainda respirava. Olhos cerrados, gemia baixinho. Isso me angustiou e concluí que não poderia enterrar ninguém vivo, embora se tratasse de um canalha. Daí posicionei a pá e o acertei na testa umas duas ou três vezes.

Nessa noite, após um banho demorado, dormi um sono profundo e reparador. Na manhã seguinte, como parte do plano de vingança, enterrei no local algumas sementes de jacarandá, árvore bela e de rápido crescimento.

Marcos Ferreira é escritor

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Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
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Este capítulo, só por enquanto, não será publicado no blogue do jornalista Carlos Santos. Devo enviar outro texto em vez deste. É o que farei para evitar a polícia. Acho que tal estratégia não resultará em mal-entendido, ou sensação de incompletude na cabeça dos leitores: os poucos que se ocupam com a leitura destas páginas mórbidas e pessimistas. Não que eu me importe com as consequências de tornar pública esta parte da história. Nada tenho a perder. Muito menos a ganhar. No momento oportuno, então, farei o encaixe deste fragmento em algum ponto da narrativa. 

Recebi na manhã de hoje, precisamente às onze horas e quatro minutos, via WhatsApp, uma ligação de Leopoldo Nunes. Esta, aliás, já era a terceira. Não me dei conta das chamadas anteriores porque deixo (repito) o aparelho no silencioso. Por acaso, entretanto, quando procurei o celular para ver as horas, deparei-me com a telinha acesa com a foto do patife. Eu acabara de colocar um pouco de macarrão na água fervente e precisava marcar uns treze minutos para que a massa ficasse pronta. Recusei a ligação. Ele insistiu e desta feita, embora sem saber o que dizer, atendi. Pego de surpresa, fiquei calado; sequer um alô. Aguardei que dissesse alguma coisa. “Bom dia, Fernando”, falou num tom ligeiramente triste. “Não tenho um bom-dia para você, descarado”, respondi de modo imediato e firme. Soltou um pequeno pigarro e seguiu: 

“Olha, Fernando; eu entendo que nunca mais queira ver a minha cara; tem motivos de sobra para isso. O que Roberto e eu fizemos não se justifica. Ainda assim, se puder me ouvir, considero justo lhe revelar alguns aspectos que talvez expliquem aquele absurdo todo que aconteceu ontem à noite. Devo lhe confessar que o vinho não foi o responsável pelo comportamento abominável que apresentamos em sua casa, agredindo você da maneira absurda e covarde como ocorreu”. Embora sem a menor vontade de aliviar a barra deles, pedi que continuasse, mas sem delongas. “Foi a cocaína”, revelou subitamente. “Cheiramos antes de sairmos para a sua casa”. 

“Cocaína?!” Espantei-me por um segundo, todavia rebati a desculpa de que estavam drogados. “Esse argumento não vale de nada. Vocês agiram como bichos selvagens. Não fiz nem falei nada para deixá-los tão agressivos e enfurecidos daquele jeito. Além disso, Leopoldo, você não poderia de maneira alguma ter trazido aquele indivíduo para a minha casa sem antes me consultar. Pensei que seria um momento apenas nosso. O seu amigo calhorda não cabia naquela ensejo”. 

“Você está coberto de razão, Fernando. Eu errei do começo ao fim. Convidar Roberto foi um grande equívoco. Tanto quanto o de haver cheirado cocaína e depois ir à sua casa com a cabeça fora do lugar”, admitiu compassadamente, escolhendo as palavras com todo cuidado. Não suavizei minha crítica, mas tentei dominar meus nervos, pois até então eu falava com ele quase aos gritos. Voltei ao fogão e desliguei a boca onde fervia a água para o macarrão. Sentei-me à mesa da cozinha e decidi que iria ouvir o que ele tinha a me dizer. Com voz meio trêmula, Leopoldo voltou a se lamuriar e, ignorando o meu ânimo enfezado, pediu-me desculpas. Foi nesse exato instante que a fatídica ideia aflorou na minha cachola. Assim, como diz aquele ditado, mudei da água para o vinho e passei a dialogar com ele de forma mais amigável. 

“É o seguinte, Leopoldo… Fui agredido com palavrões, socos e pontapés. As marcas dessa violência continuam na minha cara, na minha pele. Os danos são também psicológicos. Permaneço abalado. Tive insônia, dormi pouco e mal de ontem para hoje. Compreendo, todavia, que a porra da cocaína decerto foi a causadora dessa atitude traiçoeira quanto covarde. Apesar dos pesares, penso que merecem uma segunda chance. Quem nunca fez alguma besteira na vida que atire a primeira pedra. Para provar que não me interessa guardar ressentimentos, estou disposto a recebê-los aqui em casa outra vez. Desta feita, por favor, sem cocaína, e o vinho será escolhido por mim. Aquele que vocês trouxeram é por demais ordinário”, falei isto bem-humorado e o canalha acreditou na minha súbita mudança de temperamento. 

Leopoldo se empolgou e me pareceu sincero: “Contarei a nossa conversa a Roberto logo que findarmos esta ligação. Você não imagina o quanto ele está arrependido”. Pois foi. Acrescentou que o safado estava se sentindo mal, com a consciência pesada, por causa do que aprontaram. Assegurou que Roberto ficará muito feliz com a minha atitude, com o meu “coração bondoso”, isto nas palavras dele. Marcamos o reencontro para amanhã, no mesmo horário do anterior. Aqueles pilantras não fazem ideia do que os espera. Recorri ao meu psiquiatra, o doutor Jarbas Sabóia, e este me deu a receita para comprar uma caixa de Dormonid de 15 miligramas. 

“Será um grande prazer retornar à sua casa, Fernando. Dessa vez as coisas acontecerão na mais completa paz e harmonia”. “O prazer será todo meu, Leopoldo. Pode crer. Vamos passar uma borracha nesse lamentável incidente. O perdão faz bem a quem é perdoado e a quem perdoa. Sinto que temos muito a oferecer um ao outro. Amanhã, se Deus quiser, dará tudo certo”, concluí. Um só comprimido desses basta para apagar um homem. Por garantia, porém, darei dois a cada um. 

Marcos Ferreira é escritor

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Por Marcos Ferreira

Arte Ilustrativa com recursos de inteligência Artificial para o BCS
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Quinta-feira. Ontem e anteontem não consegui escrever nada acerca de coisa alguma. Ainda estou me recuperando dos machucados, das agressões, do ataque que sofri no início da noite da terça. A visita de Leopoldo Nunes, além da extrema frustração que me provoca até o momento, representou uma presença traiçoeira, odiosa e covarde. Começo a digitar este relato com bastante dificuldade. Dois dos dedos da mão direita continuam inchados, com escoriações também nas costas das minhas mãos, no rosto e nos antebraços. O ombro direito continua doendo. Houve uma hora em que cheguei a pensar que estivesse deslocado em virtude dos chutes e pontapés que sofri. O indicador da mão direita, ressalto, é o mais afetado e dolorido.

Um tempo antes ele entrou em contato comigo por chamada de áudio no WhatsApp indagando se o nosso encontro estava de pé. “Claro. Estou à sua espera”, respondi com empolgação. “Chegarei no horário combinado. E tenho uma surpresa para você. Não pergunte o que é porque assim estraga a surpresa”, acrescentou com voz descontraída. Minha curiosidade aumentou, contudo falei que aguardaria para saber do que se tratava. O choque que eu tive, quando da chegada de Leopoldo, foi que ele não viera só para o nosso compromisso do cafezinho de início de noite. Um outro homem estava com ele. Era, reconheci após alguns segundos, o caixa ao qual me apresentara quando estive no mercado pela última vez. Sim. Aquele rapaz simpático e bonito, que julguei fosse tão só um colega de trabalho de Leopoldo, viera à minha casa sem ser convidado. Fiquei de fato surpreso e desconfortável com a sua presença. Ele depressa se anunciou como Roberto. Trocamos apertos de mão e ambos entraram.

Roberto trazia uma sacola de papel com sinais, manchas d’água, cujo formato do volume pude deduzir que aquilo era uma garrafa de bebida ou refrigerante. Ele não demorou a abrir a sacola, da qual retirou uma garrafa de vinho tinto. Disse que seria “para mais tarde; quando o café acabar”, e me pediu para guardá-la na geladeira. Não gostei da ideia, sobretudo da presença de Roberto em uma ocasião que me interessava fosse mais reservada; um encontro, enfim, de apenas duas pessoas. Roberto (avaliando com objetividade) representava um empecilho naquele momento pretensamente romântico. Ou seja, uma excrescência. Estragou meus planos.

Cada um de nós bebeu duas xícaras de café de tamanho médio. Entretanto o papo estava sem graça desde o começo. Eu me esforçava para não deixar transparecer o incômodo, o desconforto devido à presença daquele elemento inoportuno. Não me animei a preparar a cafeteira com uma segunda jarra. Chegou a vez do vinho. Leopoldo foi quem alertou que era a ocasião do tinto. “Pronto, queridos. Experimentamos o café, o papo está muito bom, mas vamos tomar um pouco desse vinho que Roberto comprou lá no supermercado especialmente para este ensejo”. Eu me sentia murcho, sem brilho, sem ânimo. Ainda assim peguei no armário três pequenas taças. Em seguida, como se obedecesse uma ordem, fui à geladeira e trouxe a garrafa. Era um vinho barato, ordinário. Servi aos dois e fui bebendo minha taça bem devagar.

Daí a pouco, para piorar meu desagrado, Roberto propôs que eu ligasse o aparelho de som. Queria, infelizmente, ouvir “uma musiquinha sertaneja”. A contragosto, então, liguei a tevê, acessei o YouTube, e o próprio Roberto pegou o controle remoto da minha mão e escolheu um link dessas “canções” deveras vagabundas, da pior qualidade possível, mas que estão na moda e na cabeça de idiotas como ele. Deixou num volume que considerei excessivo e aí eu baixei um bocado, alegando que daquela forma atrapalhava a nossa conversa. Roberto franziu a testa, mas não disse nada. Afinal de contas ele não era o dono da tevê nem da casa. Depois de mais ou menos meia hora, talvez tocado pelo vinho, a música já não me aborrecia como no início.

Houve um instante em que Leopoldo falou que eu estava “parecendo tenso, precisando de mais vinho”. Para meu espanto, ele deixou o sofá, contornou a poltrona onde eu estava e começou a fazer “uma massagem para aliviar a tensão”. Dessa forma, enquanto Roberto sorria, ele foi descendo a mão direita pela minha cintura e me apalpou por cima da bermuda. Obviamente que eu não estava nada excitado, sem clima algum. Percebendo isso, Leopoldo (decerto um bocado aquecido pelo tinto) disse de maneira rude: “Vamos lá, veado! A gente sabe que você quer foder conosco!” Eis a gota d’água.

Levantei-me e pedi que ambos fossem embora imediatamente. Isso foi recebido como um insulto, uma ofensa. Roberto deixou o sofá e voou em cima de mim, apertando meu pescoço. Consegui ficar de pé e acertei uma bofetada na cara dele. Daí por diante, para minha desgraça, eles me agrediram da forma que bem quiseram. Estavam ali dois tipos jovens e de físico malhado, com músculos realçados e com força o bastante para me sobrepujar. Resumindo a ópera, levei uma surra e tanto.

Ao menos, além da minha cara, não quebraram nada. Sofri uns chutes e pontapés no dorso, pisaram minha cabeça. Leopoldo segurou meus braços por trás e Roberto deu um soco na minha barriga. Instintivamente me encolhi, mas aí Leopoldo levantou minha cabeça, puxando-me pelos cabelos, e Roberto me deu um murro na cara. Acertou-me o nariz, que começou a sangrar. Creio que o efeito do sangue descendo pela minha camisa branca de algodão foi o suficiente para que se sentissem satisfeitos com o nível de agressão. Os dois me xingaram, falaram um monte de chulices e me mandaram tomar no cu. Foram embora e bateram a porta com força.

Durante um certo tempo não me mexi. Fiquei debruçado no chão. Após uns cinco minutos, todavia, levantei-me e fui à pia do banheiro lavar o rosto. O nariz não quebrou por sorte. O sangue não demorou a estancar, mas o entorno do olho esquerdo estava inchado e arroxeado. Cheguei a pensar em ir a uma delegacia prestar queixa, mas súbito decidi que eles merecem mais do que isso.

Marcos Ferreira é escritor

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Por Marcos Ferreira

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Entrega. Abnegação. Perseverança. Altruísmo. Não é fácil a gente pensar em literatura, em arte da palavra escrita, quando o que temos pela frente é uma sentença de morte, um futuro de cinco ou seis meses; isto raciocinando com certo otimismo. Portanto, em um confronto cuja derrota é inevitável, e como quem se vinga da cruezadeste momento desferindo uma zombaria, um deboche perante o fim, esta minha almacondoreira se nega a ajoelhar-se. Porque escrever, mesmo à beira do abismo, é a segurança e conforto que ainda me restam. Não vou simplesmente cruzar os braços e aguardar o apagar definitivo das luzes. O corpo ainda luta. A mente não se verga ao carrasco absoluto. Afrontando o destino, exibindo um acinte, um escárnio, seguirei osacerdócio do meu verbo até minhas últimas fibras de vigor e lucidez. Que se dane a Moça da Foice; que espere esgotar-se o derradeiro hálito de oxigênio que eu possua.

Eis meu epitáfio. A busca do vocábulo exato, justo, medido, seguirá como um ato de rebeldia e provocação. Já não importam (nunca importaram) as futricas, os engodos das igrejinhas literárias. Minha mensagem é de resiliência, um tapa na cara do próprio tempo. É isto. Esse tempo escasso, tão mesquinho e insensível, corre contra mim. Sobretudo nesta terminante quadra dos meus anos. É preciso cumprir a jornada, manter o passo. Desistir da carpintaria das letras não é uma opção. Necessito seguir com esta manufatura da linguagem desejosamente artística. É o que ambiciono. Então continuo com este tear solitário e silencioso sem recompensa, sem aplauso nenhum. Um senso de compromisso com este mister da língua portuguesa não pode parar, acovardar-se, morrer de véspera. Não. O artesanato da linguagem, obscuro e quase sempre inglório, não vai entregar os pontos sem que haja luta. Jogar a toalha? Não! Ainda há um rito a se cumprir, um ciclo a se fechar. Parodiando Guimarães Rosa, o que a literatura quer da gente é coragem. Uma duvidosa e improvável coragem que desponta subitamente como uma grande tocha afugentando as trevas. Desistir, repito, não é opção.

Morrer escrevendo não é derrota, é conquistar a posteridade. Não tenho alternativa nem desejo outro fim. Escrever é um exercício de imortalidade. Um diaqualquer alguém haverá de ler estas linhas e, respirando fundo, dirá consigo próprio: “Esse escritor maldito não morreu, apenas trocou de pele. Ele é uma espécie de cobra. Ainda ouviremos falar a respeito desse indivíduo. Não hoje. Talvez não amanhã nem depois, contudo não se enganem; esse dia chegará mais cedo ou mais tarde. Percebem?!Já não me sinto mais derrotado. Não ao menos no tocante ao presente.

Venham, palavras! Tantas e de tantos. Símbolos gráficos que equivalem a tijolos do meu edifício de letrinhas, do meu castelo de sílabas e sons, cores e caminhos. Aqui estão elas. Sempre estiveram ao nosso alcance. Disponíveis como uma fruta madura na ponta de um galho acessível. Ei-las! Algumas são ásperas; outras, adocicadas. Têm pétalas, perfume, espinhos. Oferecem sumo e doçura, dão água na boca e cócegas nos nossos olhos e ouvidos. Benditas sejam! Cada uma com o seu tamanho, relevo e literariedade. Como são diversas e difusas, repletas de encantamento e significado!Basta tão só que as colhamos das árvores do idioma com o visgo de nossos neurônios,inventividade e reverência que elas nos ofertam. Que isto façamos com calma, sem atropelo, sem descuido, sem precipitação. Quem sabe uma por uma, de maneira que possamos sentir-lhes o peso, a textura, gosto e aroma. Tais verbetes, além de tijolos na edificação de ideias pétreas, de mensagens duras, comportam delicadeza. Ainda mais sereunidas em uma “página branca de susto”, como naquele aforismo de Quintana.

Sim! O insigne poeta maior Mario Quintana, rejeitado pela politiqueira Academia Brasileira de Letras. Que vergonha para aqueles supostos imortais! Logo oQuintana, que, segundo ele próprio, nunca escreveu uma vírgula que não fosse uma confissão. O que diria (latifundiário de um vasto plantio de verbetes) acerca destes meus relatos impróprios para consumo interno, conforme escrevi certa feita. É isso! Sou um autor pungente, nada bem-comportado. Minha verve (ou estômago) não consegue comungar com essa pompa dos grupelhos intelectuais, uma turma que se autopromove e se reveste com seus fardões acadêmicos, espadas e medalhas de falso brilho.

Retomemos o verbo. Deixemos os imortais com sua ilusão de imortalidade artística. A verdade, porém, é que o ofício de literato nesta pátria de chuteiras nunca foi tão maltratado e banalizado como hoje em dia. Aqui tanto quanto além, os impostores lotam as rodinhas do elogio mútuo; todos se masturbam com recíproca bajulação e gozam no final. Isto não tem a ver com inveja ou despeito. Trata-se de bom senso, de enxergar os embustes, as farsas que permeiam essas patotinhas. Há gente por aí escrevendo demais sem dizer coisa alguma. É uma malversação, um desperdício de letras que, por exemplo, acomete metade dos escritores deste município. Melhor não mexer no vespeiro. Todos são adultos e responsáveis por suas produções. Não sou o sujeito mais indicado para dar palpites acerca dessa literomania presunçosa do País de Mossoró. Antes que comece a chover canivetes sobre a minha cabeça, retorno ao meu casulo. Acho que coloquei o dedo na ferida, e isso por aqui é algo imperdoável.

Vejo que cheguei ao final de mais um relato concebido a duras penas, um registro desses dias agônicos e desesperançados. Os medicamentos vão se tornando cada vez menos eficazes. Mas que se foda o meu câncer! Apesar do meu estadodebilitado, precário, da gravidade de minha doença, sei que ainda tenho muito o que debater, confrontar e expor ao longo dessa época de revoltas e padecimentos. Isto não representa, que fique bem claro, nenhuma forma de escapismo, de autopiedade ou vitimismo. Não! Exponho neste blogue, ao longo de algumas semanas, um relatohonesto, nu e cru do meu cotidiano. Os amigos já têm conhecimento da minha sentença de morte. O telefone não para de tocar. Querem me ver, ouvir pessoalmente tudo o quanto o meu editor segue gentilmente e pacientemente publicando. Muito obrigado.

Marcos Ferreira é escritor

O Efeito Casulo – Dia 15

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com uso de recursos de Inteligência Artificial para o BCS
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Ontem voltei do mercado com um bom astral. Neste instante me sinto em paz. Fiz um cessar-fogo com meus fantasmas e monstros interiores. Estão quietos, sem incutir mil e uma diatribes na minha cabeça nem na minha escrita. Devo dizer que, ao menos nas últimas vinte e quatro horas, o meu ímpeto destrutivo, sanguinário, se encontra adormecida. Não deve durar muito. Meu estado de humor pode mudar de um minuto para o outro. Todavia quero dizer que essa condição amistosa, tranquila, tem a ver com o encontro no supermercado com Leopoldo Nunes, hoje operador de caixa e ex-funcionário (por apenas trinta dias) da loja de peças de automóveis, empresa onde estive empregado até a última quinzena. A descoberta do câncer, já em estágio 4, me deixou fora de combate; colocou um ponto final no meu vínculo empregatício após onze anos naquele emprego miúdo. Fui demitido de modo amigável.

Dei entrada para receber o auxílio-doença junto à previdência social. Na semana passada caiu na minha conta-corrente a grana referente aos meus direitos rescisórios. O INSS me concedeu doze meses, entretanto sei muito bem que não vou usufruir nem da metade desse tempo. Agora, ainda que de forma tardia, planejo aproveitar cada momento que me resta. Sobretudo se a visita de Leopoldo na próxima semana resultar em um affaire ou algo parecido.

Durante a manhã iniciei uma parte da faxina. Aos poucos, depois que Rita das Neves Procópio deixou esta casa de herança para mim, pessoa muito amiga de minha mãe e a quem ela prometeu cuidar deste órfão e analfabeto com onze anos. Atingi a maioridade e comecei a fazer determinadas benfeitorias no imóvel depois que Rita se foi para sempre. Os quartos eram compridos, porém estreitos. Contratei um pedreiro e este transformou ambos em um só. A casa, que tem madeiramento de boa qualidade, não era de taipa, ao contrário daquela onde morei com os meus pais.

A moradia da finada Rita é de tijolos do tipo adobe, mas nenhuma das paredes tinha reboco, sequer a fachada. O quintal, considerando especialmente o tamanho deste domicílio, é enorme: são quinze metros de frente e trinta de fundo. Mandei, na primeira etapa dos serviços, fazer ao menos o reboco deste que se tornou o único quarto de que disponho. Com paciência, depois de alguns anos providenciando um servicinho aqui e outro acolá, pude rebocar o imóvel todo. Desmanchei o fogão a lenha na cozinha, que no tempo de Rita enchia as paredes daquele cômodo de tisna. Também iniciei a construção do muro de trás para a frente. Exceto pelo dianteiro, os demais lados têm dois metros e meio de altura. Já o frontal, pensando na ventilação, eu deixei com somente um metro e setenta.

Nos dias atuais, depois de diversos reparos e benfeitorias, conto com uma residência espaçosa e aconchegante, mesmo ela tendo só um quarto. É mais que o suficiente para este solitário escriba. A sala e a cozinha são amplas, ligadas por um corredor de dois metros de largura e cinco de comprimento. Construí uma garagem também espaçosa e um terraço para a área de serviço. Durante uma determinada época acalentei a possibilidade de vender a minha motocicleta e comprar um carro. Mas há uns três anos a moto (uma Pop 2014) foi roubada no Centro.

Mandei os pedreiros (isto na segunda etapa) levantarem duas paredes em forma de um L com cobogós na lateral direita, de modo que o sol nem a chuva impeçam o uso do alpendre da cozinha quando chegam as trezes horas em diante. O terraço dispõe de uma máquina de lavar roupas. A pia da cozinha e da área de serviço, outrora de alvenaria, foram substituídas por pias de mármore. O banheiro também recebeu novo piso, a exemplo das paredes, devidamente revestidas com cerâmica branca. A casa inteira, aliás, recebeu um produto branco chamado selador e, na sequência, o imóvel foi inteiramente pintado de branco.

O piso interno, antes pavimentado apenas com tijolos, foi coberto com cerâmica. A frente e o lado externo ganharam calçadas com cerâmica antiderrapante. Portas e janelas (rústicas e com algumas avarias ocasionadas pelo tempo e as más condições da madeira), consegui trocá-las por outras de maçaranduba e receberam pintura azul. Há cerca de seis meses troquei as telhas por novas e contratei um profissional para fazer o forro em gesso.

Preciso destacar que essas transformações levaram, se não estou enganado, oito anos. Economizei tostão por tostão para adquirir o material e cobrir o custo da mão de obra. Tudo calculado, um passo de cada vez. Agora (triste realidade) não poderei usufruir desses tão perseguidos e batalhados benefícios.

É isto. Parece que cuidei mais deste imóvel do que da minha saúde. Exames preventivos ou periódicos, algo a que nunca dei muita importância, pois me sentia saudável, talvez tivessem detectado o tumor na fase inicial, com provável possibilidade de operar e de cura. É tarde para chorar o leite derramado.

Não posso nem devo me deixar abater nesse ensejo em que tenho uma visita mais que especial para receber nos próximos dias. Pressinto que ter conhecido Leopoldo Nunes renovou a minha vontade de continuar lutando. Sei que se trata de uma luta em vão, inglória, entrementes vou aproveitando ao máximo essa chance de conquistar uma pessoa que, talvez, venha colocar um pouco de luz e dulçor neste meu mundo sombrio e amargo.

Daqui até a próxima terça estarei com a casa em ordem. Farei, como eu disse há alguns minutos, a limpeza aos poucos. Minhas forças estão alquebradas e necessito repousar durante longos períodos. A fraqueza constante, a indisposição, além das dores no abdome, vão e voltam em um curto espaço de tempo.

Segue o problema da minha herança. Já contratei um plano funerário, a empresa me assegurou que eu serei enterrado no túmulo dos meus pais, no Cemitério São Sebastião, no entanto existe o detalhe da cobertura, também chamada de carência. O plano que contratei, com mensalidade de oitenta reais, prevê uma carência de longos quatro meses.

Receio morrer antes disso e ser enterrado em uma vala qualquer aberta pela Prefeitura, decerto em um caixão ordinário. Se por acaso o meu elo com Leopoldo se transformar em uma relação homoafetiva, então vou revelar a ele o meu drama em detalhes e, apesar de muito cedo, ele poderá se transformar em meu herdeiro. Não quero de jeito nenhum que esta casa fique às moscas. Temo que alguém (um oportunista, aproveitador) se aposse dela através de usucapião. Minha esperança é o jovem comerciário. Antes, porém, devo examinar o perfil, o caráter de Leopoldo.

Marcos Ferreira é escritor

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Domingo

Por Carlos Santos

Capa do livro de João Almino (Foto: do autor da crônica)
Capa do livro de João Almino (Foto: do autor da crônica)

É um deleite “As cinco estações do amor” do conterrâneo João Almino. Domingo desacelerado, não tenho pressa também à leitura. Nem poderia.

Em casa, em Mossoró, testemunho a neblina fugaz e extemporânea desse quase setembro que zomba, lá fora, do perpétuo verão. Inverno? Não. Talvez apenas um flerte com a estação que se foi, nosso “tempo bom” sertanejo.

No livro, sigo os passos de Ana, parágrafo a parágrafo. Não sei o que me espera adiante. Mas gosto da companhia e do que começa a ser descortinado por ela.

“Sem que eu percebesse, o tempo tornou-se um bem raro e fez sumir a disponibilidade que toda amizade exige.”

Concordo.

Carlos Santos é criador e editor do BCS

O Efeito Casulo – Dia 14

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Hoje, entre as oito e as nove, fui de novo ao mercado. Cedinho, considerando que o comércio só abre às oito. Contrariando o costume, levantei-me alguns minutos após as seis. Antes, contudo, busquei me tranquilizar, equilibrar o meu aspecto psicológico. Não topei com nenhum vizinho ao sair, detalhe que me agradou. Não havia muitas coisas na minha listinha de compras. Poucas, para dizer a verdade. Os produtos que mais me interessavam eram pães, manteiga, um bolo de macaxeira, umas bolinhas de queijo e café. Café e a manteiga foram comprados só para aproveitar a viagem, pois os tenho com sobra, além de um número razoável de víveres adquiridos recentemente: umas latas de atum, de sardinhas, açúcar, macarrão e massa de milho. Há também aqueles que conservo na geladeira, a exemplo das sobrecoxas de frango, frutas, legumes e verduras. Não precisarei comprar produtos de higiene e limpeza agora.

Nesse horário uma grande parte dos caixas estava quase vazia. Olhei para a esquerda e para a direita e me encaminhei para um caixa em que havia só uma mulher na minha frente com uma cesta de plástico vermelha. Não senti nenhum desconforto, nada parecido com o assomo de pânico que me acometeu da última vez em que eu estivera naquela loja. Não pude deixar de notar a simpatia e beleza do rapaz no atendimento. Vi sinais de que fosse homossexual, que gostasse de se relacionar com homens: discretos indícios, trejeitos afeminados que não possuo.

Era uma figura bem-apessoada, repito, talvez medindo um metro e oitenta. Olhos e cabelos negros, baixos no rodapé, mas com uma cabeleira cheia, sobretudo a parte que pendia formando um topete sobre a testa alva, encimando aquele rosto angélico com rala barba raspada com esmero. Não tenho por que negar que a beleza do moço me deixou ligeiramente tonteado. Quando chegou minha vez, para o meu espanto, ele me deu um bom-dia e me chamou por meu nome: “Bom dia, senhor Fernando. Como vai? Ainda trabalha naquela loja de peças?”.

Fiquei pasmo, atrapalhado diante desse homem na faixa dos trinta anos que me reconhecera e me identificou com segurança. Percebendo que eu não sabia de quem se tratava, cuidou logo de se identificar com um sorriso perfeito, encantador, que lhe formou duas igualmente graciosas covinhas nos centros das bochechas. Só então pude me dar conta, colocar-me a par daquele jovem deveras agradável. Tratava-se de Leopoldo Nunes, tipo discreto e organizado que trabalhou na loja de peças durante um mês no setor de almoxarifado, cobrindo as férias de outro funcionário. Depois do período de trinta dias, o almoxarife retornou para o seu posto, e Leopoldo foi dispensando com a promessa de uma contratação efetiva.

Isso não aconteceu. Passaram-se uns dois anos e agora ele estava diante de mim com ar de satisfeito por me reencontrar. Vestia o uniforme do supermercado, obviamente, e mostrava competência na função que desempenhava. Revelou, como mencionei, que se sentia feliz por aquele reencontro. Virou-se para um colega também do caixa e me apresentou ao rapaz, outro jovem simpático, todavia não tanto quanto Leopoldo. O amigo dele, não menos educado, respeitoso, disse: “Muito prazer, senhor Fernando”. Então me senti duplamente bem tratado naquele ensejo. Leopoldo, não bastasse a fidalguia com que me recebera, ainda narrou de modo satisfeito e conciso o fato de havermos trabalhado na mesma empresa. Eu não tinha qualquer lembrança disso, entretanto ele destacou o seguinte: “O senhor sempre foi um bom sujeito”.

Ao ser indagado se ainda trabalho na loja, respondi-lhe, com certo embaraço, que atualmente estou afastado porque venho cuidando de um problema de saúde. De doença, melhor dizendo. “O senhor está mais magro”, comentou ao mesmo tempo em que ia passando minhas compras sem pressa alguma. “Pois é, perdi peso. Isso tem a ver com a enfermidade. Mas está tudo sob controle. Ao menos foi o que meu médico afirmou após os últimos exames que apresentei na semana passada”, respondi sem olhar nos olhos dele, desconfortável pela mentira que acabara de apresentar. Não poderia, porém, em um breve e casual encontro como aquele, revelar ao jovem e belo Leopoldo que me restam poucos meses de vida. “Eu moro aqui pertinho. Tão perto que às vezes deixo minha bicicleta em casa e venho fazer algumas compras a pé. Minha residência fica na Pedro Velho, diante de uma academia de musculação. Acho que a menos de um quilômetro. Local tranquilo, sem roubos e furtos”.

Acrescentei isso por falta de nada melhor que pudesse dizer. Para minha surpresa, ele respondeu que também reside na Pedro Velho. “Um bocado mais para baixo, no Santo Antônio”. Por felicidade, o movimento no mercado àquela hora era mínimo. Durante esse tempo em que se deu nossa conversa não surgiu nenhum outro cliente com o seu carrinho ou uma cesta de compras.

“O número de minha casa é o 513. Se quiser me visitar qualquer dia, a gente pode tomar um cafezinho e conversar mais tranquilamente. Aqui não dispomos de muitos minutos, bem pouca conveniência, não acha?”, lancei o convite tentando não parecer afoito nem revelar segundas intenções, embora o meu intuito era justamente cativá-lo de alguma maneira o quanto antes, considerando que a chance que se apresentara no supermercado tinha que ser aproveitada naquele exato momento. “Claro, senhor Fernando. Será um grande prazer”. Nesse instante procurei logo quebrar aquele protocolo sem serventia e meio restritivo. “Olha, Leopoldo; não precisa me chamar de ‘senhor’. Fernando já basta. Até porque já nos conhecemos de outro lugar, e nossa diferença de idade não é tão ampla”. Ele concordou: “Sim, claro! Você está correto. Chamarei apenas Fernando. Falei dessa forma mais pelo costume aqui no trabalho”.

De olho se algum cliente se aproximava do caixa, perguntei quando ele estaria de folga. Respondeu que na terça e quarta da próxima semana. Para mim era oportuno, visto que estávamos no sábado; eu teria tempo de sobra para dar uma arrumada na casa. Acertamos os detalhes com a rapidez que a situação exigia. Então, justo no momento em que ia encostando um casal com um carrinho cheio de mercadorias, acertamos o horário para as dezessete horas e trinta minutos da terça vindoura. Trocamos os números do WhatsApp e um aperto de mãos, ambos sorridentes. Fui embora com o revigorante sentimento de que aquela talvez fosse a oportunidade de conseguir um substituto no meu peito para Ricardo Gurgel, já morto e enterrado. Além de atraente, Leopoldo Nunes vivia às próprias custas. Eu não seria explorado como antes.

Como se tratava de pouca coisa, acomodei as compras em uma mochilinha de náilon verde-claro que costumo usar, principalmente, para o transporte de pequena quantidade de objetos. Deixei a loja com dois sentimentos extremamente antagônicos. O primeiro, relativo ao meu reencontro com Leopoldo e o convite para o café na terça e um bate-papo que talvez gere outros frutos. O segundo, deprimente e devastador, tem forte vínculo com minha doença. Este último me devora o bem-estar, otimismo e possibilidade de me relacionar, conhecer alguém especial. De qualquer modo, ainda que eu tenha que expor toda a história de meu câncer para ele em algum momento, vou me preparar, fazer uma faxina, arrumar a casa para recebê-lo.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 13

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Conforme narrei da madrugada de ontem para o final da manhã do mesmo dia (veja AQUI), o vizinho à esquerda de minha casa espancou, de modo animalesco, selvagem, a própria esposa, talvez namorada. Não sei dizer, não me importa o status conjugal deles. O que pude avistar já me atordoou além da conta. Não fui às redes sociais nem aos blogues à procura de detalhes sobre o ocorrido. Uso o meu celular cada vez menos. As redes sociais me dão asco, repugnância. Tenho um monte de ligações não atendidas. O aparelho fica no silencioso. Não mais me interessa o caso do espancamento. É bem provável que tenha sido veiculado pelos noticiários televisivos, quem sabe em rede nacional, contudo não ligo o meu televisor há quase duas semanas. O que sei é que meu estado de nervos sofreu grande abalo por causa disso. Ainda me encontro nervoso; o coração com o ritmo acelerado. O tremor das mãos quase desapareceu, mas uma grande quantidade de pensamentos negativos e destrutivos ocupa a minha cabeça. Por exemplo, eu me imagino, me vejo cometendo toda espécie de violência contra uma centena, quiçá mais, de indivíduos que considero odiosos, abomináveis. Pústulas deste país e um monte de canalhas de outras nações, habitantes de vários pontos do globo.

Tal relato (este manifesto, esta catilinária contra gente escrota e poderosa) já se tornou uma revelação cansativa. Em determinadas vezes expus iguais, semelhantes ímpetos dessa natureza. Mossoró não fica de fora. Aqui existe um presunçoso rebanho de patifes que estaria na minha alça de mira se, por graça de Deus ou do Diabo, eu adquirisse poder para executar meus objetivos sem ser importunado pelas autoridades, os supostos homens da lei. Algumas cabeças seriam transfixadas de longa distância por projéteis de grosso calibre. O ódio que devoto a uma récua de sacripantas vem prejudicando, conturbando meu sono. Tenho (mesmo tomando cinco fármacos diferentes) enorme dificuldade para dormir. Por ora, todavia, fico na vontade. Não me proporciona prazer nenhum alimentar essas inofensivas lucubrações. O leitor não é bobo e decerto vai ficando de saco cheio diante desses meus poderes que nada podem. Melhor, por enquanto, é baixar a bola. Cachorro que muito late, como se diz, não morde. Essa, no entanto, é uma máxima que me parece por demais idiota, sem credibilidade.

Mudemos de assunto. Os meus arroubos psicóticos precisam se limitar ao meu cérebro doentio, enfermiço. Dei mais uma olhada por cima do muro, observei o que foi possível alcançar do meu posto de observação, e acredito que o número de vizinhos com as suas cadeiras nas calçadas aumentou sobremodo. É fácil deduzir que a selvageria do crápula que espancou a sua companheira é o tema ainda em alta. Deduzo isto. Em maior quantidade, avistei as mulheres próximas de minha casa falando demais; volta e meia uma dizia um gracejo e todas gargalhavam. Entre as quais, devo registrar, estavam moças bem jovens, mulheres de meia-idade e senhoras avançadas em anos. Não me dei ao trabalho de contar, entretanto posso supor que se tratasse de umas oito. Do sexo masculino, sendo agora exato, havia justos quatro elementos.

Era por volta das cinco e quinze da tarde. O trânsito nesta rua se encontrava como em geral se comporta de segunda a sábado: com intenso e ruidoso tráfego. É oportuno registrar que, aos domingos, esse fluxo de veículos, principalmente o de carros e motos, cai de forma considerável. Creio que tenha a ver com o fato de que os proprietários desses transportes automotores aproveitam esse dia consagrado ao descanso para curtir a família, assistir a um jogo de futebol pela tevê, tão somente tomar umas cervejas, umas cachaças em casa, e esticar o esqueleto em uma cama, uma rede; dormir algumas boas horas. Assim, não tanto quanto a Avenida Alberto Maranhão nem Presidente Dutra, a Pedro Velho, em especial no que abrange o bairro Santo Antônio, é uma artéria de expressiva circulação. Transita regularmente por aqui uma gente trabalhadora; são os ambulantes, pessoas oferecendo os seus diversos tipos de produtos.

Uma hora surge na esquina o Golzinho dos bolos, das bolachas, pães e biscoitos de variados formatos e sabores. Entre as onze e o meio-dia, costumeiramente, passa a picape dos “ovos fresquinhos” que, a exemplo do Gol, chama a sua clientela por meio de alto-falantes. Noutros horários passam o leiteiro, o homem do queijo, a mulher das canjicas e pamonhas, o vendedor de algodão-doce com uma buzina de borracha que ele aperta de quando em quando. Temos ainda, entre outros, o cidadão que anuncia (este sem contar com um sistema de alto-falantes) as suas castanhas assadas e amendoins torrados. Pela manhã, no mais das vezes em torno das dez e meia, com uma frequência quase religiosa, surge um senhor de uns sessenta anos vendendo frutas e verduras em uma carroça puxada por um cavalinho branco e magro feito o dono.

Em algumas ocasiões, a depender de meu interesse, abria o portão e esperava chegar um desses ambulantes que vêm anunciando os seus produtos desde longe. Geralmente, como não gosto muito das iguarias dos mercados, eu tinha o hábito de comprar canjicas, pamonhas e também as castanhas e os amendoins torrados. Hoje em dia, depois que veio o diagnóstico do câncer e eu me fechei nesta casa, com raras saídas para adquirir alguns gêneros no mercado, não mais ponho a cara fora a fim de comprar os produtos das pessoas que vendem suas mercadorias nas ruas. Além do câncer, agora tenho que lidar com a fobia social, uns vestígios de síndrome de pânico e cenofobia. Minha última ida ao supermercado foi um tanto quanto dramática. Por pouco não tive um surto mais acentuado; o episódio ficou só no mal-estar, consegui passar minhas compras no caixa e sair do comércio sem chamar a atenção de ninguém.

No início da noite de ontem (acontecimento que me causou uma ligeira insegurança) alguém deu umas leves batidas no portão. Acho que umas duas pancadinhas. Quem será? Indaguei de mim para comigo. Não tardou a chamar meu nome. Hesitei. Considerei a possibilidade de não responder, de fingir que não estava. Porém me aproximei e permaneci em absoluto silêncio. Com cuidado para não fazer barulho sequer com a respiração. Que a visita fosse embora. No entanto tomei coragem e respondi à mulher. Sim, era uma mulher que me chamava. Antes de abrir, indaguei pelo nome. “Maria”, respondeu. Ela viera me entregar um presente. Tratava-se de um livro de nome um tanto comprido, como hoje está na moda. Eis o título: Os Grandes Inspetores Gerais no Acampamento de Mossoró, do escritor e maçom Luiz Soares Filho, irmão de Maria, que gentilmente me fez chegar sua bem-confeccionada obra pelas mãos da irmã, vizinha cuja casa fica a duas moradias desta. Ainda não li a obra por completo, estou fazendo isso aos pedaços, entrementes gostando do seu conteúdo. Apesar do fastio que me acomete e tem me afastado das leituras ultimamente. Fiquei satisfeito por Luiz Soares haver dito à sua irmã que acompanha meus escritos todo os domingos.

É sempre bom saber que alguém está lendo o que a gente escreve. Não importa que seja em um blogue desta província aos domingos, na concorrida Folha de São Paulo, no poderoso The New York Times. Não. Contar com esse cidadão acompanhando meus textos (segundo sua irmã) gerou no meu peito um bom bocado de alegria, uma inofensiva e saudável sensação de orgulho. Então, sem perder o vínculo com a descoberta desse inesperado e mais recente leitor, homem de letras que eu desconhecia, registro que o meu médico psiquiatra, o doutor Jarbas Sabóia, aconselhou-me tomar duas quetiapinas de 100 miligramas (Neural) e dois comprimidos de clonazepam (Rivotril) nas noites em que me encontro com o sossego e o sono perturbados. Sujeito previdente, doutor Jarbas teme que eu esteja às vascas de uma nova crise psicótica.

Já o doutor Epitácio Coelho, oncologista que me forneceu o diagnóstico de meu câncer de pâncreas, este classificado em estágio 4, inoperável, metastático, também me prescreveu um punhado de remédios, visto que recusei me submeter ao tratamento quimioterápico. O doutor Epitácio, não menos experiente, alertou-me sobre o detalhe de que abrir mão da quimioterapia significa uma redução na minha expectativa de vida que, segundo ele, seria de menos de seis meses se eu ficar só com o procedimento medicamentoso. Recusei! Trinta ou sessenta dias a menos não significa muito para mim a esta altura do campeonato. Torço apenas que daqui até o apagar das luzes eu possa terminar de escrever e, se possível, fazer o copidesque e a revisão deste romance autobiográfico. Ou, reavaliando o gênero, uma autobiografia asfixiante, correndo igualmente contra o tempo. O resto é apenas o resto e não me interessa.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 12

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Hoje acordei antes das quatro da madrugada. Melhor dizendo, fui acordado. Vindos da casa vizinha, à esquerda de quem chega ao meu domicílio, ouvi gritos assustadores. Fiquei atônito. Vários e aflitivos pedidos de socorro. Pude identificar com clareza que se tratava de uma mulher. Sim, uma voz feminina. Esse clamor por ajuda foi interrompido. A seguir o que consegui escutar foram sons abafados. Era isso, ela estava sendo espancada. Novos gritos cortaram a noite. Todavia, ao contrário dos primeiros, começaram a ficar sufocados. O barulho das pancadas continuava. A pessoa precisava de apoio imediato. Os prováveis socos e pontapés não cessavam. Os sons se tornaram mais agudos. A voz, inicialmente clamando por amparo, logo se resumiu a penosos gemidos, uma espécie de choro entrecortado. Enquanto isso, de modo autoritário e raivoso, um homem falava alto, dizia palavrões, ameaçava. Uma forte angústia tomou conta de mim. Tamanha violência contra uma pessoa indefesa tinha que parar o quanto antes. Trêmulo, rapidamente peguei o telefone e liguei para a polícia.

Um indivíduo na outra ponta da linha, ao ser informado sobre o que estava acontecendo, e tendo eu revelado a localização da ocorrência, interrompeu de modo brusco a minha denúncia. Disse-me que havia recebido outros telefonemas de vizinhos relatando o mesmo assunto. Acrescentou que duas viaturas já estavam a caminho da Pedro Velho, neste Santo Antônio. Fiquei de certo modo aliviado com tal resposta. A essa altura um sentimento de revolta me dominava e, como mencionei, as minhas mãos estavam trêmulas. A seguir abri a porta e me posicionei para examinar a rua por cima do muro, que é baixo o bastante para esse tipo de verificação.

Não houve demora. Ouvi as sirenes dos veículos militares se aproximando e então as luzes azul e vermelha dos aparelhos estroboscópios se espalharam nas fachadas das casas e nas árvores. Eu, repito, havia aberto a porta e espreitava por cima do muro. Além dos veículos da polícia, chegou também uma ambulância, que parou bem diante da minha casa. Com a luz apagada, resguardado pela penumbra, avistei alguns vizinhos defronte do endereço onde a coitada fora brutalmente agredida pelo seu marido ou namorado; não sei dizer o que são. Tratava-se de um casal jovem, ambos (suponho) com menos de quarenta anos, sendo ela ainda mais nova do que o agressor. A polícia extraiu o criminoso da casa debaixo de solavancos e puxões de cabelo. Em seguida, com o rosto todo ensanguentado, saiu a infeliz amparada por uma enfermeira e um enfermeiro do Samu. A primeira assistência ocorreu na parte traseira da ambulância.

O tipo que espancou sua consorte, branco, porte atlético, corpo cheio de tatuagens coloridas, descalço e sem camisa, foi algemado com as mãos para trás e enfiado no compartimento que ocupa o porta-malas das viaturas. A vítima, pelo que pude enxergar, e considerando a forma de proceder dos enfermeiros (entre os quais havia um terceiro profissional prestando auxílio à jovem, possivelmente um médico), estava com outras partes do corpo machucadas, sobretudo mãos e braços. Daqui só puder avistar bem nitidamente o semblante da moça banhado de sangue. Creio que uns dez ou quinze vizinhos estavam ao redor das viaturas e da ambulância. Alguns cidadãos e cidadãs proferiam palavras de indignação contra o sujeito. Daí a pouco a ambulância deixou o local transportando a mulher com a face repleta de cortes e inchaço.

A casa é alugada e tem grande rotatividade de inquilinos. O casal, por exemplo, alugara o imóvel há menos de quatro semanas. Discutiam com frequência. Todos aqui por perto têm conhecimento disso. Nessa madrugada, no entanto, o bate-boca descambou para a agressão extrema. Não me interessei por saber detalhes acerca desse fato, mas o caso está na internet, especialmente nos blogues.

Nesse momento perdi o sono. Depois de rolar na cama de um lado para o outro, decidi ligar o notebook e escrever a respeito da surra aplicada contra essa vizinha. Decorrida cerca de uma hora, o sono voltou, suspendi a redação e fui me deitar. Sentia-me perturbado, a cena da jovem com o semblante daquele jeito ficou na minha cabeça. Enfim, entretanto, adormeci. Por volta das nove horas, ao acordar, deixei a cafeteira coando o café, tomei um banho e outra vez liguei o computador para finalizar a abominável história do covarde que massacrou a sua companheira.

Torço que na cadeia, onde quer que esteja, ele encontre quem lhe quebre as ventas. Esses machões boçais precisam aprender (do pior jeito possível) que o sexo feminino não é saco de pancadas. Lembro-me agora de um adágio meio fora de moda que diz que não se deve bater em mulher nem com uma flor.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 11

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recurso de Inteligência Artificial para o BCS
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Desconfio de que vou morrer antes dos cinco meses. Sucesso este que decerto comoverá poucas pessoas. Esta história pessimista, que venho redigindo há exatos onze dias, não atingiu, não fisgou os ariscos leitores. Só uns gatos-pingados, como que movidos por compaixão, emitem meia dúzia de palpites. Domingo retrasado, por exemplo, foram apenas três leitores a opinar acerca do meu relato. O próprio editor do blogue, que no início se empolgou com a minha “coragem típica de um verdadeiro lutador das letras”, mostra-se hoje menos entusiasta quanto ao ibope de minha “escrita arrebatadora”.

Há indivíduos que sequer conseguem distinguir o gênero literário exposto. Alguns julgam se tratar de uma mera ficção, um conto ou coisa de menor relevo. É isto. O malogro destes capítulos dominicais (aproveito para explicar que se trata de um romance autobiográfico, uma autobiografia romanceada, no mínimo) tem a ver com a desimportância do escriba em cena. Assumo a minha mediocridade.

Conforme eu já disse, dispensei a quimioterapia e tenho consciência de que isso, assim como o doutor Epitácio Coelho me advertiu, deve encurtar significativamente meu tempo de vida. Os sintomas vêm se repetindo cada vez mais. Urina escura, perda rápida de peso, falta de apetite, náuseas, episódios de vômito, dor no abdome e fezes esbranquiçadas se revelam com velocidade assustadora. A gencitabina, o irinotecano, a oxaliplatina e o leucovorin, medicamentos que o oncologista me convenceu a usar no dia seguinte ao diagnóstico, parecem um tanto menos eficazes a esta data. O cansaço físico e indisposição até para escrever também são uma rotina.

Ainda assim, porém, vou persistindo. Não me resta nada de mais digno a fazer. Após minhas abluções, preparo o café, como um pão com manteiga e uma fatia de queijo, ligo o computador e começo a registrar meu cotidiano e, por vezes, trago à tona algumas reminiscências, memórias de meus anos mais verdes, de minha infância e mocidade nesta Mossoró sem honra e sem glória tanto quanto eu. É necessário que se declare. Esta cidade, ao menos do ponto de vista administrativo e cultural, é uma farsa absoluta, um embuste, uma fraude grandiloquente, megalômana.

Nosso ego coletivo é mastodôntico, descomunal, entretanto não temos semancol, autocrítica. Há quase um século (2027 está chegando) sustentamos um heroísmo quixotesco, um embuste libertário, uma história lampiônica sobre valentia; liberdade vendida desde sempre na imprensa escrita, falada e televisionada. Somos, este município e eu, impostores. De quando em vez, como se pode observar, entrego a cara à tapa, reconheço o meu fracasso no âmbito das letras, minha estatura microbiana no cenário da literatura tupiniquim.

Houve uma época, façamos justiça, em que tivemos grandeza, respeito, dignidade, honradez; cidadãos sérios no comando administrativo. Os habitantes desta urbe, os mossoroenses de antanho, não eram os arrivistas e picaretas de agora. Em particular os gestores, os homens e mulheres públicos. Degeneramos! Depois de 1927 para cá, quando os defensores desta então província começaram a ser menos homenageados ou estudados do que os invasores, a vaca foi para o brejo.

Descambamos para uma terra do faz de conta, da pirotecnia, do foguetório e do engodo, da politicagem, dos oligarcas, do monopólio político e, mais recentemente, dos falsos libertadores. Por décadas a fio, feito uma chaga, uma ferida incurável, foi entrando e saindo, saindo e entrando pilantras de toda espécie na administração pública desta enganosa capital da cultura. Ache ruim quem quiser! Aqui está o sujo falando do mal-lavado, todavia alguém precisa fazer algo de inaceitável neste município; nem que seja dizer a verdade.

Há muito os prostíbulos do Alto do Louvor fecharam as portas, o meretrício agora é virtual, acertado e consumado por meio das redes sociais e via WhatsApp. Findou-se aquela zona dos prazeres remunerados, contudo possuímos uma Câmara de Vereadores e um Palácio da Resistência que corrompem e se deixam corromper. Tudo na mais completa cara de pau. Nosso Executivo, o majestoso Palácio da Resistência, sob a batuta do contente e serelepe prefeito Jorge Copperfield, é apontado por quatro ou cinco jornalistas, tipos entrincheirados em blogues de minúscula projeção e cujo impacto não chega nem a fazer cócegas no inquebrantável burgomestre, como um antro de negociatas e desmandos. A “casa do povo”, na ótica desses blogueiros, transformou-se em uma casa de tolerância, um randevu oficial. É o que denunciam.

Pois bem. O mandatário da Prefeitura Municipal de Mossoró, esse bom-moço que por vezes parece uma gazela saltitante, de acordo com matérias veiculadas pelos referidos blogueiros, é uma espécie de agiota, um craque na cobrança de (segundo têm alardeado) dez por cento de propina. A questão é que até o presente instante nada de concreto e desabonador foi efetivamente provado contra o populista mandachuva do Palácio da Resistência. O homem prossegue intocável perante o Ministério Público e a Controladoria-Geral do Município. A galinha dos ovos de outro do senhor Copperfield é a Estação das Artes Elizeu Ventania e valioso pedaço da Avenida Rio Branco, espaços onde a profusão de pão e circo para a manada lhe asseguram popularidade e aprovação por parte dos munícipes como nunca visto na terra de Santa Luzia. O bom-moço é por demais competente na captura e hipnose dos seus eleitores.

Basta! Não estou a fim de malhar em ferro frio. O dono de Mossoró, sem qualquer importunação do Ministério Público, do Tribunal de Contas nem da Controladoria-Geral do Município, segue de vento em popa rumo ao governo do estado. Sim. O próximo cargo de governador é dele e o boi não lambe. Parece acima da lei, do bem e do mal; não possui predador, adversário que ameace sua campanha para o Palácio de Despachos de Lagoa Nova. Isso me parece tão certo como dois e dois são quatro. Copperfield, prestidigitador dos mais hábeis da política brasileira, caminha para cima e para baixo com um sorriso (embora teatral) de orelha a orelha. Revelou-se um estrategista precoce, um fenômeno no aboio da manada com todos os méritos.

Enquanto isso, à Rua Pedro Velho, no Santo Antônio, um sapateiro das letras se encontra chovendo no molhado, fazendo projeções que não representam novidade nenhuma. Esse apalazador sou eu mesmo, Fernando Barros, um obscuro operário das letras desta freguesia indiferente aos meus esforços e dedicação à língua portuguesa. Mas não pendamos para a autopiedade, para o vitimismo ou a estratégia autoacusatória. Apesar da saúde debilitada, rondado pela Moça da Foice, tento produzir e levar adiante estas linhas prolixas, verborreicas e sem rutilância.

Eis o meu pequeno drama: um autor sem leitores, um narrador moribundo que não reúne outra virtude à exceção da teimosia, da perseverança e renitência em se extinguir na memória, na lembrança do meu berço de nascença. No fundo, entretanto, sei que esta aldeia já sepultou a memória de manejadores do nosso alfabeto de importância muito superior a mim. Não importa. Não vou perecer duas vezes, morrer no improvável além-túmulo se Mossoró tratar minha trajetória e devoção à escrita como um risco n’água, uma partícula de cinza ao sabor da ventania. Fazer o quê?!

Quando me for não levarei nada. Ainda menos reconhecimento e louvores. Este cu de judas já possui seus eleitos, os seus queridinhos oficiais e juramentados. Este vasto epitáfio passará despercebido ou, decerto pior, será solenemente ignorado. Não, administradores filhos da puta. Peguem as suas cartas marcadas, suas homenagens mesquinhas e metam no rabo. Admito que estou dando valor demais ao que não vale uma flatulência. Estará de bom tamanho se, ao menos, um livro meu ganhar uma edição póstuma.

Ainda não me movimentei nesse sentido. Tenho dois mecenas em vista, intelectuais com profissão definida e não meramente operários, reféns deste sacerdócio da pena e do tinteiro. Os indivíduos aos quais ora faço alusão têm panos para as mangas e notória sensibilidade diante de fodidos como eu, escravos da escrevinhadura. Há mais de uma semana venho recebendo o auxílio-doença aprovado e liberado pela previdência social, um tantinho a mais que o meu antigo salário de vendedor na loja de peças de automóveis. O detalhe é que esse recurso mal atende minhas necessidades mais básicas: comida, água e luz. Não disponho de meios com que mandar imprimir a simbólica tiragem de um cordel, gênero versífico com o qual alguns cordelistas bafejados pelo Palácio da Resistência obtêm custeio e exibem admirável êxito neste paraíso do cangaço. É isso. Um adestrado grupinho está por cima da carne-seca.

Trata-se, convenhamos, de uma pequena esmola que o governismo destina a esses meritórios cultores do verso rimado e metrificado. É bom destacar que nesse meio existem aqueles que produzem cordéis do pé quebrado, com rimas, métrica e oração defeituosas, poeticidade e literariedade ruinzinhas. De qualquer modo os cordelistas eram bem menos prestigiados na era dos políticos oligárquicos, que dominaram esta freguesia e inclusive o estado por dezenas e dezenas de anos.

Nem preciso dizer que estou fora dessa turma. Escribas de outras modalidades de escrita têm adquirido, depois de muito rastejar e puxar o saco do mandachuva, algumas esmolinhas para ajudar a bancar a impressão de contos, crônicas, poesia de versos livres e até, volta e meia, surge na praça um romance apoiado financeiramente pelo Palácio da Resistência. Jorge Copperfield, ao que tudo indica, não vai com a minha cara. O rapazinho dissimula, finge desconhecer a minha existência, minha trajetória no universo literário. Para ser coerente e justo, não tiro a razão dele. Nunca joguei confetes sobre o jovem alcaide. Ao contrário, admito, fui insubmisso e pouco tolerante com as escaramuças, com as tramoias contratuais, as obras superfaturadas do nosso imbatível e futuro governador do Rio Grande do Norte. Se Deus quiser! Pois, Deus não querendo, aí não tem jeito, não tem remédio. O bom-moço vai beijar a lona, dar com os burros n’água. Particularmente, isso me parece um caso improvável.

De resto, com muita lábia e espetaculosidade, esse menino prodígio vai longe. Acho que, depois da governadoria, pode se lançar a senador ou presidente da República. O céu é o limite para o prefeitinho Copperfield. O bom-moço, como nunca visto neste cafundório, é uma faca de dois gumes. Corta dos dois lados. Como eu escrevi há um ou dois anos, ele consegue manter um pé na cabeça dos católicos e o outro sobre a moleira dos protestantes. Isto é, serve a dois senhores (ou duas religiões) e tem se saído muito bem. No tocante à manipulação do gado, é necessário e justo que tiremos o chapéu para o dono de Mossoró. Ele é um dínamo! Tem mais selfies no Instagram com o rebanho do que poros sobre a pele. Possui milhares de seguidores em suas redes sociais. Crê tão piamente nas mentiras que conta a ponto de ele mesmo acreditar nas próprias lorotas. É simpático, aprendeu a suportar o cheiro do suor do povo humilde e fez a cabeça de todo mundo. Jorge Copperfield é imparável.

Deixemos o burgomestre com suas agiotagens e parlapatices. Voltemos à minha miudeza, insignificância, obscuridade. Pressinto que meu descontentamento com o senhor Copperfield está beirando a inveja. Com ou sem honestidade, o rapaz é bem-sucedido, é um vencedor, tem origem humilde (o que não significa dizer que tem humildade), enquanto este narrador das imposturas municipais não dispõe de ninguém que segure a sua mão no derradeiro momento da “extrema curva do caminho extremo”, como no célebre soneto de Olavo Bilac. Devo encaixar no meu orçamento, sem demora, ao menos a contratação de um plano funerário.

Se o parasita do Ricardo Gurgel não tivesse morrido, eu o teria chamado de volta para esta casa e ele certamente cuidaria da porra do meu velório e sepultamento. Mas agora o michê se encontra debaixo de sete palmos de terra. Estou, volto a dizer, fodido e mal pago. Penso que mereço este fim melancólico. Sempre fui um elemento caridoso, tinha prazer e senso de obrigação em ajudar os desvalidos, entrementes possuo uma índole ruim.

São raras as noites em que ponho a cabeça no travesseiro e não demoro a dormir imaginando foder uma porção de percevejos sociais. Gente graúda, potentada, podre de rica e escrota. Tenho essas psicoses, anseios destrutivos, sanguinários. Não atingiria, porém, o matador de Ricardo Gurgel. No fim das contas o sujeito me fez um favor. Torço até que não caia nas garras da polícia.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 10

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Hoje à tarde, ao contrário da inércia que tenho vivido há dez dias, fechado nesta casa à Rua Pedro Velho, no Santo Antônio, feito um fora da lei, um bicho assustado, reuni coragem e coloquei a cara fora. Mas apenas por força das circunstâncias. Depois de hesitar, vesti calça, camiseta, tênis, peguei a carteira, o celular e a bicicleta e fui a um supermercado a cerca de meio quilômetro daqui.

Devo dizer que tive um dia sobressaltado. Aliás, para ser sincero, o simples ato de ir ao mercado é que foi uma experiência desconfortável, senão assustadora. E tudo (sei agora) por nada mais do que caraminholas de meu cérebro enfermiço, receios e sensações oriundos de meu estado de nervos. É isso mesmo. Embora muitas vezes eu me permita abater por alguns mal-estares, fobias e paranoias, tenho consciência de que o problema quase sempre é fruto tão só do meu juízo, desta cabeça exponencialmente perturbada desde que o doutor Epitácio Coelho me apresentou aquele diagnóstico, a condição sem escapatória de meu câncer já em estágio quatro, metastático. Fiquei, e continuo, desconcertado. Não é fácil a gente descobrir de repente que está à beira da morte, com um pé na sepultura, restando poucos meses de vida.

É segunda-feira, 28 de julho deste infeliz (para mim) 2025. Olho o canto inferior direito do notebook e constato que são precisamente dezenove horas e vinte e quatro minutos. O dia inteiro transcorreu nublado, e eu me animei com a acentuada possibilidade de chuva. Dias sombrios, de preferência com chuva torrencial e duradoura, é algo que me agrada sobremaneira. De início choveu pouquinho; fiquei na vontade. Bem, não é acerca de eventos pluviométricos que desejo falar.

Tranquei, antes das cinco da tarde, a bicicleta no estacionamento do mercado e entrei naquele sortido comércio. Contrariando o horário, que eu imaginei não fosse tão disputado, deparei-me com a loja muito frequentada. Considerei excessivo o volume do sistema de alto-falantes, que se referia a produtos em promoção, discurso de local perfeito para economizar, diversas vantagens que, ao fim e ao cabo, têm mais de propaganda enganosa do que veracidade. Incomodou-me também o vozerio, o burburinho da clientela, o vaivém de elementos empurrando carros de compras ou portando cestas de plástico vermelhas.

Fiquei com a sensação de que todos me olhavam com indiscrição, com cenhos carregados. Um tipo de desconforto que me fez imaginar que o nome câncer estivesse escrito em uma placa pendurada no meu peito com letras muito legíveis. Por que me encaravam daquela forma? Não faço ideia.

Daí a pouco uma idosa de maquiagem azul nos olhos arregalados segurou meu braço esquerdo e afirmou com voz roufenha: “Você é um morto-vivo! Não deveria estar aqui. O seu lugar é em uma cova no São Sebastião. Você está se decompondo, começa a cheirar mal. Vai morrer! Se não exatamente agora, entretanto o seu fim está bastante perto!” Meu coração ficou aos pulos.

Na sequência, quando me dei conta, eu estava cercado por pessoas estranhas, homens, mulheres e até crianças; cidadãos de várias idades. Sim. Encontrava-me rodeado, debaixo de olhares carrancudos. Senti que meu oxigênio ia diminuindo lentamente. Aqueles olhos me fitavam com severidade. Cogitei que tiveram acesso ao texto que publiquei no domingo.

Recordei-me, em especial, do comentário de uma leitora chamada Bernadete Lino, de Caruaru, que fez duras e arrazoadas críticas ao meu relato de ontem, 27. O círculo parecia se estreitar. Súbito, como num gesto de desespero, empurrei o meu carrinho por entre a velha e um rapaz e me afastei daquele grupo de elementos mal-encarados. No mesmo minuto olhei para trás; não avistei ninguém. Não daquele modo: aglomerados. Então concluí que aquilo não tinha sido real.

Minha respiração voltou à normalidade, o ar regressou aos pulmões. Virei-me umas duas ou três vezes para ver se estava sendo seguido pela velha raivosa. Nada. Nem sinal daquele rosto iracundo; nenhum outro semblante me apareceu com aspecto aborrecido. Tratei de encontrar (nas seções específicas) os produtos e gêneros alimentícios que me interessavam. Fui ao setor de massas e peguei dez pães franceses, um pacote de bolachas salgadas, um bolo de macaxeira e quase quatrocentos gramas de bolinhas de queijo, iguaria quentinha que a moça acabara de colocar em um recipiente de alumínio cujas bordas tinham cerca de cinco centímetros.

Comprei três pacotes de macarrão, um pote de manteiga, duas barras de chocolate meio amargo, seis pacotes de café, dois quilos de açúcar, leite em pó, creme dental, xampu, sabonetes, três sacos de bebidas lácteas, frutas, verduras, feijão, arroz, queijo de coalho, sobrecoxas de frango, pasta de amendoim, cinco latas de sardinha e outras cinco de atum.

Se não estou me esquecendo de nada, acredito que foram essas as coisas. Dirigi-me a um caixa com fila um tanto menor, arrumei as compras em três sacolas grandes, amarrei as alças destas e consegui acomodar as sacolas no bagageiro da bicicleta com uma corda elástica provida de ganchos nas pontas. Cheguei à boca da noite, a chuva ameaçava retornar, contudo a Pedro Velho (próximo deste meu domicílio) se encontrava cheia de vizinhos com suas cadeiras nas calçadas. Outra vez tive a sensação de que todos passaram a prestar atenção em mim. De imediato refleti e considerei essa impressão semelhante à espécie de surto que tive no mercado.

Com os itens guardados nos devidos lugares, tomei um banho e agora me encontro descrevendo o esforço, a aventura de ir às compras. É óbvio que não existiu nenhuma idosa de maquiagem azul nos olhos proferindo maledicências contra mim, entretanto, no justo instante em que redijo este capítulo, momento em que, felizmente, a chuva voltou com abundância, não pude me esquecer de uma única daquelas palavras de mau agouro: “Você é um morto-vivo! Não deveria estar aqui. O seu lugar é em uma cova no São Sebastião. Você está se decompondo, começa a cheirar mal. Vai morrer! Se não exatamente agora, entretanto o seu fim está bastante perto!” Decorrido todo esse tempo, tal prognóstico ainda me dá certo frio na espinha. Embora a mulher não passe de um delírio, o tipo de mal que me rouba o sono e a paz é concreto.

Não estava nos meus planos morrer com apenas cinquenta e dois janeiros. Exato! Nasci aos 27 de janeiro de 1973. Preciso me reunir o quanto antes com os amigos e escritores Marcos Araújo e Clauder Arcanjo, indivíduos de grande sensibilidade e recursos econômicos, aos quais deixarei a batata quente de publicar meus livros inéditos, inclusive esta narrativa desesperada, correndo contra o tempo. Chamarei os dois aqui para falar sobre minha enfermidade e fornecer algumas orientações acerca da edição das obras que almejo sejam lançadas em edições póstumas.

Não sei se mereço tanto crédito e vultoso investimento depois de morto. Não sou o que se possa chamar de mossoroense exemplar, de literato querido e bem-comportado. Longe disso. Apesar de tudo, torço que meus hipotéticos editores atendam este meu último desejo quase no leito de morte. Se acaso se comprometerem e depois abandonarem o compromisso, asseguro que meu espírito (acaso isso exista) voltará para aturdir esses autênticos luminares de nossa intelectualidade.

Tais cavalheiros honrarão nosso trato.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 9

Por Marcos Ferreira

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Ontem, após refletir sobre meu findado e tóxico relacionamento com Ricardo Gurgel, indivíduo que nunca teve outro interesse no tocante a mim a não ser o da ambição financeira, hoje decidi convidá-lo para almoçar comigo. Isto porque fiquei sensibilizado quando ele me telefonou e disse estar na sarjeta; tornara-se um morador de rua. Por tudo o quanto já me aprontou, é lógico que aquele parasita não merecia a minha menor compaixão. Entretanto, por não conseguir vencer o fascínio que ainda sentia por ele, tive essa ideia de chamá-lo para almoçar e, sem rodeios, contar a história do meu câncer, dizer que tenho poucos meses de vida e expor meu intuito de torná-lo herdeiro desta casa e de tudo o mais; os últimos haveres que me restam.

Cedo, pouco antes das sete, cuidei de me barbear. A barba estava hirsuta, grisalha. Fiz isso com esmero, buscando melhorar a aparência com o propósito de exercer alguma atração sobre Ricardo. Com cuidado, pois não tenho habilidade com tesoura, aparei o excesso de cabelos a encobrir as minhas orelhas. Fui ao guarda-roupa, escolhi uma bermuda e uma camisa das mais novas (ou menos usadas), peças que eu poria depois de um banho e quando ele estivesse perto de chegar. Preparei-me assim, no capricho, para receber um cara decerto malcheiroso e barbudo.

Por volta das dez horas, então, pensando em ele contar com tempo hábil, de maneira que pudesse comparecer sem necessidade de se apressar demais, telefonei e não fui atendido. O celular tocou até a ligação ser direcionada para a caixa de mensagens. Decorridos uns trinta minutos, e não tendo ele retornado a minha chamada, liguei novamente. De novo não atendeu. Dei mais um tempo. Levei em conta alguns motivos pelos quais não estava me atendendo. Imaginei, entre outras situações, que se encontrava doente, ou o aparelho estivesse no silencioso e não notou meu contato. Considerei ainda a possibilidade de que houvesse ficado sem o telefone, vendido ou sido tomado por algum marginal. Assim mesmo telefonei pela terceira vez.

Entre novas suposições, falei de mim para comigo: está se fazendo de mouco, bancando o difícil, usando de astúcia, mas interessado em retornar o meu contato. Sim, estaria brincando de silêncio. Só que também sei brincar de silêncio, sei ignorar quando sou ignorado, não dar atenção a quem finge não me ver. Nesse ínterim, para não deixar tudo para o último instante, eu já tomara algumas providências em relação ao almoço. Requentara um feijão que preservara na geladeira há dois ou três dias, fiz arroz-agulha, preparei uma salada de frutas. Mantive-a sob refrigeração na esperança de o sacana dar um sinal de vida. Porém não deu. Estavam à espera duas latas de sardinha e uma de atum. Isto seria levado ao fogo no devido instante.

Bem-humorado, de temperamento agradável, simpático, Ricardo sempre foi um tipo bronco. Não quis saber de estudar, sequer avançou ao ensino médio, estacionando na sétima série do primeiro grau. Por simples ignorância, totalmente alheio a esse meu mundinho da literatura, da escrevinhação, jamais destinou o menor crédito para o fato de estar envolvido com um escritor, um homem de letras, um ficcionista de somenos importância, um literato de baixo relevo neste município.

Em momento algum demonstrou impulso, interesse em retirar, folhear um volume desta minha pequena estante de livros. Não. Livro é algo que em circunstância nenhuma exerceu curiosidade sobre ele. Ao longo de mais ou menos quinze meses sendo meu amante, não me recordo de que Ricardo Gurgel me fez uma única indagação a respeito de minha atividade enquanto escriba. Interessavam-lhe apenas as minguadas quantias, a pouca grana que eu dava a ele. Sobretudo no início do mês, ocasião em que eu recebia meu salário da loja de peças de automóveis.

Passava um pouco do meio-dia quando, vencido pela ansiedade, peguei o telefone e liguei pela quarta e última vez. Enfim, apesar da minha surpresa, a chamada foi atendida. Mas não foi a voz de Ricardo que ouvi na outra ponta da linha. Uma mulher, que depois me revelou ser irmã dele, falou um monossilábico “Alô”. Pronunciou as primeiras palavras de jeito embargado, com tristeza, pesar.

Daí a pouco, de jeito ainda mais solene, deu-me a terrível notícia: Ricardo Gurgel havia sido assassinado a altas horas com uma facada no peito por outro morador de rua, com o qual entrou em uma discussão por causa de pedaços de papelão, sobre os quais eles têm o hábito de dormir. Infelizmente, o bate-boca descambou para uma troca de socos e pontapés. Segundo outro sem-teto que também passava a noite ali, todos sobre a calçada do antigo Cine Pax, súbito o assassino puxou uma faca da cintura e cravou a lâmina no tórax do seu desafeto, e depressa se evadiu.

A irmã de Ricardo, cujo nome não disse nem eu perguntei, encerrou a conversa e desligou. Não liguei outra vez para colher nenhuma informação a mais. Por exemplo, se fosse do meu interesse, teria indagado a ela acerca do local do velório e sepultamento. A verdade, no entanto, é que não me importava.

Neste minuto, refeito do impacto da fatídica notícia, penso que a trágica morte de Ricardo Gurgel significou um alívio para mim. Exato! Como costumam dizer os católicos e os protestantes, foi um livramento. Porque, embora não desejasse nenhum mal para ele, senti que tirei um enorme peso das minhas costas, do meu espírito, espécie de algemas das quais talvez não me libertasse de outra maneira. Foi isso, livrei-me dessa paixão mórbida, doentia, que me dominava por absoluto. Torço que a alma dele (acaso exista vida além-túmulo) esteja em paz e num bom lugar.

Tendo assimilado o golpe, estando com os nervos equilibrados, como já mencionei, fui para a cozinha, aprontei o que faltava da comida e almocei o atum e a sardinha com um apetite que não mais encontrava desde que o doutor Epitácio Coelho me deu o diagnóstico do câncer. Além da doença, permanece o problema de encontrar um herdeiro para esta casa e outras coisas que possuo. Dois ou três amigos tentaram saber de mim através de mensagens e telefonemas, todavia não atendi a nenhum. Entendo que necessito contar a algum deles o que está se passando.

Estou sem a menor disposição para leituras. Todos os livros que eu pretendia ler, quiçá meia dúzia, súbito perderam a atratividade. Tenho prostituído meu intelecto com os assuntos varejistas das redes sociais e veículos de comunicação encontráveis na internet. Continuo sem frequentar o habitat dos literatos, dos intelectuais. Não faço ideia de quando terei novamente ânimo para receber alguém.

Preciso retomar o prazer de interagir com essas pessoas. Reaprender a desfrutar da saudável companhia desses que me têm estima e atenção. No fim da tarde, a propósito, enquanto mexia no celular, deparei-me com uma crônica do poeta mossoroense Júlio Rosado, publicada precisamente no dia 15 deste mês, no Jornal de Fato. Um trecho da referida crônica, cujo título é “O conhecimento também aflora nos intervalos”, representa um estímulo no que me diz respeito. Eis o fragmento: “O mestre aprende com o aluno tanto quanto um aluno aprende com outro, sem distinção, com respeito mútuo.” Pois é isso, a gente sempre pode aprender algo de onde e com quem menos esperamos, da mesma maneira como podemos ensinar algo de bom a outrem. Júlio Rosado, autor e leitor meritório, tem o que nos ensinar e também aprender. Ele reúne o talento e a humildade daqueles que vão longe nesta estrada da palavra escrita.

Encontro-me desta forma, reflexivo quanto propenso às interações sociais e humanas. Tenho consciência, apesar do meu estado de espírito de agora, que amanhã posso acordar (se acordar) com o pessimismo e mau humor que vêm dominando minha alma e meu coração. O penhasco em que estou produz uma barafunda de sentimentos em geral amargos e revoltados com Deus e o mundo.

Anteontem, após tomar meus remédios, entre os quais estão quetiapina e clonazepam, fui me deitar por volta das nove e meia. Quem disse que consegui dormir? Uma ova! Depois de muito rolar para um lado e outro, toquei no celular e a tela mostrava uma hora e cinquenta e cinco minutos da madrugada. A essa altura todo tipo de pensamentos já me havia sucedido. Especialmente pensamentos destrutivos. Tem sido assim há bastante tempo. Não raro me imagino cometendo toda natureza de violência, principalmente contra políticos de Mossoró, do Brasil e do mundo. Certos canalhas seriam eliminados com requintes de crueldade, devagarinho. Esquartejar ou amputar pernas e braços de pseudocidadãos de bem é coisa que almejo.

Essa libertinagem e promiscuidade com que são ofertados títulos de cidadania a vermes da política em âmbito nacional e até internacional, honrarias, comendas e medalhas disso e daquilo a uma récua de estrumes sociais, tudo isso me enche de fúria, de anseios de promover carnificinas a torto e a direito. De repente, por proposição de um sem-vergonha da Câmara desta urbe, aquele cancro (que ora usa tornozeleira eletrônica) se torna cidadão mossoroense. Filhos da puta!

Melhor ficar por aqui. Acho que novamente estou saindo dos trilhos. E isso é algo que, sendo meramente lúcido, só tem feito mal a mim mesmo. Se pudesse, no entanto, se Deus ou o Diabo me concedesse determinados poderes, aí podem ter completa certeza de que muitos prostitutos, ratazanas e sacripantas do meio político brasileiro e planetário sofreriam até a merda e o sangue escorrerem.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 8

Por Marcos Ferreira

Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Imagem gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Chego ao oitavo dia em que me vejo relatando os dissabores de minha condição de enfermo fisgado por um câncer de pâncreas. Desde a primeira postagem destas minhas lamúrias, com fiel periodicidade, sempre aos domingos, exponho esta narrativa mal-alinhavada num blogue de nome BCS, do jornalista Carlos Santos. Até o presente momento a repercussão vem sendo um bocadopífia.

Há um púbico orgânico que volta e meia se dispõe a comentar algo acerca destas linhas pessimistas. Desde o início, após uma rápida pesquisa, constato que obtive depoimentos de exatas quinze pessoas: Júlio Rosado, Rita Aguiar, Marcos Pinto, Carlos Silva, Odemirton Filho, Francisco Nolasco, Raimundo Antonio de Souza Lopes, Marcos Araújo, Fransueldo Vieira de Araújo, Rosilene Rocha Soares Pinto, Ana Celly, Raimundo Gilmar da Silva Ferreira, Dulce Cavalcante, Bernadete Lino e Marcus Lucenna. Os demais leitores deste espaço, quiçá por indiferença ou simples desagrado diante destas memórias macambúzias, parecem me ignorar.

Imagino que meu número de leitores não deva crescer. Ou, olhando este conto autobiográfico com otimismo, talvez mais uns quatro ou cinco apareçam e apresentem uma opinião razoável quanto bem-vinda. Não nego que isto seria bom para o ego deste abominável homem das letras. É óbvio que minha história é lida por mais gente, todavia esse grupo incógnito prefere fazer de conta que não sabe de nada, finge desinteresse, simplesmente emudece ante meu relato. Que se fodam! Ninguém é obrigado a dar palpite sobre porra nenhuma,nem preciso mendigar ibope de filho da puta algum. Só trago estas sensaborias à superfície porque é um meio de este escriba e sua escrita não caírem no esquecimento absoluto. Não há outra razão.

Se não estou ruim da memória, creio que informei noutra oportunidade que meu nome completo é João Fernando Soares Barros. Pois é. Também suponho haver referido que, enquanto literato, me assino Fernando Barros, forma pela qual sou mais conhecido nos segmentos sociais e intelectuais. O senhor Fernando Barros, analisando-me aqui na terceira pessoa e fazendo uso de um adágio bastante popular, está fodido e mal pago. Não como possa se livrar dessa enrascada.

Além de mal-humorado, língua-suja e pessimista, desenvolvi uma náusea, dedico um asco corrosivo às convenções sociais. Claro que alguns estão livres de meuódio moribundo. Pois, no meu estreito círculo de amizades, vejo figuras dignas de elogio e apreço. Afora estas, sendo bem honesto, sinto um desprezo acrimonioso em relação à sociedade, ao bicho-homem. Nunca fui um tipo totalmente satisfeito, entusiasta da vida em rebanho, como diria Antonio Alvino, no entanto hoje meu azedume, minha índole misantrópica, está em um nível deveras elevado. Em meio a isto, indisposto com Deus e o mundo, tenho que lidar com os achaques da moléstia.

Dores abdominais e articulares, vômitos, fastio e perda rápida de peso me têm assustado. Anteontem um vizinho, cuja residência é quase diante da minha, enfartou. Foi levado às pressas para o hospital, contudo veio a óbito por volta das onze da noite. Fiquei sabendo disso atravésdas redes sociais da viúva, que nas primeiras horas do ataque fez uma postagem no Instagram pedindo orações para o marido. Alguns, como de praxe, logo asseguraramDeus está no controle!”, “Deus está no comando!”. Ainda assim o homem bateu as botas. O Todo-Poderoso, portanto, ficou na Dele. Não moveu uma palha. Decerto o enfartado já estivesse com o seu passaporte prontinhoNão houve interferência por parte do Altíssimo. A viúva fez nova postagem, desta feita informando o local, o horário do velório e enterro, que foi no São Sebastião.

Assim como eu, o senhor Geraldo Damasceno, de cinquenta e cinco anos, não era uma simpatia de vizinho.Longe disso. O cara parecia ter um rei na barriga. Entrava e saía de casa em seu carrão importado (uma BMW azulsem dar um olá a quem se encontrasse nas calçadas. A mim, não sei dizer o porquê, vez por outra me cumprimentava com um discreto aceno de cabeça. Somente isso.

Quem sabe fosse o modo dele se apiedar do único vizinho baixa-renda deste pedaço de rua. Talvez tivesse este raciocínio: “Deus é muito bom para mim. Olha só o meu carro e a bicicleta acabada daquele pobre-diabo. O infeliz não possui sequer um ar-condicionado. Deve comer mal, ter uma geladeira e um fogão velhos e dormir em uma cama ou rede surrada. Como se não bastasse, o joão-ninguém é veado. Grato, meu Deus, pelas bênçãos que o Senhor me oferta!”. Suponho que era um raciocínio dessa ordem. O senhor Damasceno, porém, foi estudar a geologia dos campos-santos, mais ou menos como no clássico “Dom Casmurro”, de Machado.

Minha hora também está próxima. Mas almejoconseguir pôr um ponto final nestas memórias hostis. Além dos poucos amigos que tenho, talvez meu ex-amante Ricardo Gurgel compareça ao meu velório e sepultamento. Embora viciado em maconha, ele é um rapaz religioso, uma espécie de católico por tabela, visto que os pais (falecidos), os irmãos e outros familiares são do rebanho da Igreja.

Ricardo Gurgel, tirando a questão da maconha e a malandragem congênita, merece ao menos o meu perdão. Sim, acho que posso perdoá-lo pelos três mil e quatrocentos reais que furtou de minha conta-corrente. Foino tempo em que sabia a minha senha e tinha acesso ao meu cartão do Banco do Brasil. Pois é. Antes de me dar um pé na bunda, o malandro surrupiou essa grana, raspou as minhas economias, o dinheirinho que eu vinha economizando para adquirir outra moto. Ao longo destes capítulos amargos, não me recordo quando, relatei que minha motocicleta Pop, ano 2014, foi furtada no Centro. Mossoró, volto a dizer, não é para amadores.

Por ironia do destino, como se diz, precisarei ter uma conversa séria com Ricardo. É que venho pensando ultimamente no que será feito desta casa, da sofrida mobília e de minha bicicleta. Como não tenho nenhum familiar, nenhum herdeiro, é provável que eu deixe o pouco que possuo para o safado do Ricardo Gurgel, cuja família o despreza completamente. Ontem ele me telefonou e disse que largou (foi largado, na verdade) o coroa que vinha comendo há uns oito meses.

Está desesperado. As aventuras no baralho e as apostas no jogo de sinuca o quebraram de vez. Por falta de pagamento, claro, foi despejado do muquifo que alugara no Alto da Conceição. Disse que nas últimas semanas vemdormindo nas ruas e praças deste município escroto com uma mochila ordinária cheia de roupas amarfanhadas. Ou seja, o safado não tem onde cair morto. Vendeu as tralhas,os objetos que tinha (geladeira, fogão, tevê, bicicleta) e se fodeu na jogatina. Agora o pilantra está me pedindo guarida. O pior é que ainda gosto daquele sem-vergonha.

Não falei sobre meu câncer. Só disse que vou ajudá-lo. Ligou a cobrar. Apesar da pindaíba, da ruína financeira, continua com o telefone. Vem sofrendo como um cão sem dono. Nunca havia descido tanto, chegado ao fundo do poço. Hoje, todavia, não aliviarei a barra dele. Quero que durma mais uma noite ao relento. Amanhã, por volta das dez e meia, vou chamá-lo para almoçar aqui.

Marcos Ferreira é escritor

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O Efeito Casulo – Dia 7

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Estou com a casa cheia de minúsculos ratos. Os catitos deixam vestígios por onde passam, uma quantidade enorme de fezes pretas, durinhas e menores que um grão de arroz. Fica, além do cocô, um mau cheiro desgraçado. São velocíssimos e elásticos. Conseguem penetrar em lugares por demais apertados. Passam até por baixo da mínima frincha entre o piso e a porta da cozinha. Aqui e acolá testemunho algum deles saindo de fininho por essa brecha. Preciso armar, em pontos estratégicos, umas vinte ratoeiras, embora a população desses bichos talvez não chegue a dez roedores. Exatamente: mais ratoeiras do que ratos. Haverei de extingui-los.

De tão engraçadinhos e espertos, lembram-me um vasto número de políticos, desses que o povo coloca nas prefeituras, câmaras de vereadores, no antro dos deputados estaduais e federais, além do Senado e da Presidência da República. Os camundongos e as ratazanas têm tudo a ver com a gigantesca soma dos ditos homens e mulheres públicos. São bem malandros, furtivos e perniciosos. Se existem exceções? Claro que sim. Mas não são muitas. Nem todos, pois, são farinha do mesmo saco. Há pessoas fora da moda: são as que não se atolam na lama da corrupção.

Como vem acontecendo há cerca de uma semana, hoje amanheci de mau humor. Minha irritabilidade cresceu, inflou absurdamente das primeiras horas da manhã para a noite quando fui assistir a um determinado telejornal. O noticioso trouxe à sua bancada, mais uma vez, o escabroso conciliábulo para tomar, literalmente a pulso, no ano de 2022, às rédeas governamentais deste país. O atual governo desta pátria (lamentavelmente de chuteiras) vendeu os brios e a alma ao Centrão a troco de uma razoável governabilidade.

Entrementes o nove-dedos é um democrata respeitado além fronteiras nacionais. É um defensor estrênuo e extremo da democracia. Puxou quase seiscentos dias de cadeia e se manteve íntegro, não se lamuriou, não pediu arrego. Ao contrário do golpista, não borrou as calças. Mostrou fibra perante o mundo.

Já levei em conta, no curso destes relatos mórbidos, a imensa possibilidade de eu morrer com cinquenta e dois anos (o câncer só me deixa uma expectativa de vida de cinco ou seis meses) e um cancro político e moral como Donald Trump continuar esbanjando saúde e vilanias sobre a face da Terra. Isto, obviamente, em nível global. Mas, olhando agora para o nosso próprio rabo, considerando a esfera de Brasil, vem-me à lembrança um estrume ambulante que está nivelado com a besta norte-americana no que se refere ao mau-caratismo, arrogância e peçonha.

Esse típico sevandija, embora na iminência de ser trancafiado em Bangu 8 ou na Papuda por arquitetar e capitanear (curiosamente é capitão reformado do Exército) um plano que previa a abolição violenta do Estado Democrático de Direito e o assassinato do presidente da República eleito havia pouco, do vice-presidente e de um destacado juiz do Supremo Tribunal Federal, não descarta se candidatar ao cargo eletivo mais importante desta federação.

O parasita se faz de doido, finge não ver a afiadíssima guilhotina que paira, que se encontra posicionada pouco menos de um metro acima do seu pescoço. Esse aramista, funâmbulo de olhos esbugalhados, boca torta, de saúde bichada e voz de papagaio, caminha sobre o fio da navalha. Tem consciência disso, no entanto dissimula com peculiar cinismo, exibe alguns arroubos de valentão; vocifera, destrata jornalistas que o apertam com indagações acerca de sua atuação no malogrado esquema.

O crápula aprontou todas e mais um bocado. Anda para cima e para baixo com pose e discurso de bom-moço, de elemento imaculado, de autêntico paladino dos bons costumes. Articulou, esquadrinhou, pôs em curso um plano sujo para se manter no poder. Ou seja, um golpe rasteiro mancomunado com uma quadrilha de alto coturno.

Militares cheios de empáfia e outros oficiais de relevo provaram o gosto da lona, caíram direitinho nas finas malhas do Ministério Público e da Polícia Federal. Deu ruim para essa horda de lacaios raivosos, fantoches. A vez do cabeça da tropa da maldade está bastante próxima. Trânsfuga, desertor, covarde até a última raiz dos cabelos, o outrora destemido e autoritário capitão cagou-se todo, chamando de malucos aqueles que o apoiavam concentrados na frente dos quartéis. Depressa ele tirou o cu da reta, amarelou, falou fino à presença do juiz Alexandre de Moraes.

Vejo que já bati além da conta nessa tecla. Esse criminoso ainda impune ferveu meu sangue. Mais cedo ou mais tarde pagará na Justiça tudo que deve. Vejo-me de saco cheio desse traste. Outra vez, devo admitir, vou tocando a mesma e enjoativa balada. A balada de um percevejo, um espírito de porco. Isto sem querer ofender os nobres suínos. Não faz muito tempo, empregando denominações e adjetivos nada lisonjeiros, escrevi uma incisiva crônica acerca desse salafrário.

Então, para evitar chover no molhado, recomendo que vocês encontrem e leiam “O espetáculo da putrefação”. Tenho plena certeza de que a manada vai mugir, escoicear, volver os cornos contra mim, entretanto quero mais é que se dane. Procurem a referida crônica.

Suponho que uma parcela dos leitores baterá palmas, fará comentários instigantes, encorajadores. Outra parcela, todavia, vai me devotar ódio eterno, decerto emitirá depoimentos furibundos contra este escriba. É o grupo dos acéfalos, dos zumbis e também dos arrivistas, do eleitorado simplesmente mau-caráter. Pois os que defendem o indefensável formam três categorias bem definidas: aqueles apenas ignorantes, os fanáticos absolutos e os interesseiros. O elenco dos interesseiros é aquele time que lucra uma dinheirama com a cegueira dos ignorantes e dos fanáticos.

A exemplo do meu câncer, o mito do patriota, guardião da família, homem devoto a Deus, falsamente evangélico, um sacripanta total, esse mito é uma doença que também mata. Não apenas mata, mas ainda zomba dos mortos e famílias enlutadas. Ele diz que não é coveiro, faz piadinhas com a dor até dos tolos que o adoram e aplaudem. É justamente isso. E que ache ruim quem quiser.

Marcos Ferreira é escritor

O Efeito Casulo – Dia 6

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS)
Arte ilustrativa com recursos de Inteligência Artificial para o BCS)

Daqui, enquanto preparo um pouco de café para reunir as ideias, neste momento escassas e preguiçosas, ouço vozes e gargalhadas na rua. Em meio às quais, com sons díspares, escuto também o ladrar agudo de dois cães pequeninos de minhas vizinhas das casas à esquerda deste domicílio. São precisamente quatro horas e vinte e cinco minutos desta tarde de sábado abafada e barulhenta.

Fui até o muro dianteiro e fiquei observando, através dos cobogós, o vaivém dos transeuntes, carros e motocicletas. Visão precária, limitada, óbvio. Vi apenas pessoas estranhas; nenhum conhecido. Passou uma idosa caquética de braços com uma moça de vinte e poucos anos, quiçá neta da velha. Cogitei abrir o portão, ficar na calçada durante um tempinho, talvez acenar às vizinhas, contudo desisti de colocar a cara fora. A esta altura não desejo mais confraternizar com ninguém. Não me agrada ser visto por quem quer que seja. Voltei, fui tomar um banho.

Então, com uma caneca de café à direita desta escrivaninha, apresento-me redigindo coisinhas assim banais, deveras enfadonhas. Eu próprio me sinto, além de enfermo, um elemento banal, ordinário. Escrever, entretanto, é uma das pouquíssimas atividades que consigo realizar com o mínimo de eficiência. Meus começos com a escrita só foram possíveis graças à leitura de trabalhos de um vasto número de autores a que tive acesso. Meu contato com as letras, todavia, foi um bocado tardio. Ainda analfabeto com onze anos, fui matriculado em uma escola e comecei a desasnar. Tive um baita choque quando, na primeira série, descobri que podia ler.

Enfim, por competência da professora Maria do Carmo, deixei de ser cego. Nunca mais parei. Além das leituras em sala de aula, lia tudo que me aparecesse. No caminho de ida e volta do colégio, soletrava o que meus olhos alcançassem: letreiros de lojas, mercearias, mercadinhos, bares, oficinas de bicicleta, de carros, de motos, padarias, farmácias, etc. O meu interesse pela leitura era um deslumbramento absoluto, uma espécie de fome ancestral. Essa fome foi transferida para todo tipo de obras. Com o passar dos anos, naturalmente, fui me tornando mais seletivo.

Não estou com saco para deitar nomes de livros nem de seus respectivos autores. Minha permanência em escolas foi muito fragmentada; nunca tive essa consciência de que a educação formal seria redentora em minha vida. Porém, apesar da ausência em sala de aula, o micróbio da literatura tomou conta do meu coração e espírito justo pelo contato com títulos e escritores nacionais quanto estrangeiros.

Fiquei desconcertado, maravilhado ao ler, por exemplo, “São Bernardo”, de Graciliano Ramos. Li e reli ao menos os quatro romances do Velho Graça. “Angústia” é extraordinário, hipnótico. “Memórias póstumas de Brás Cubas”, de Machado, foi outro alumbramento naqueles meus quinze para os vinte anos de idade. Nessa mesma época tive a sorte de conhecer Fiódor Dostoiévski. O russo da gélida São Petersburgo, mestre dos psiquiatras, é um escafandrista da psique humana, o gênio maior entre todos os ficcionistas.

Isto é só a minha opinião. Haverá quem discorde; tipos outros podem ser apresentados como superiores, indivíduos da estatura de um Leon Tolstói e Marcel Proust, ambos artistas de méritos invulgares. Mas há pouco afirmei que “estou sem saco para deitar nomes de livros nem de seus respectivos autores”. Morre agora essa tentadora exemplificação. Aliás, finda-se aqui meu relato de hoje.

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Marcos Ferreira é escritor

O Efeito Casulo – Dia 5

Por Marcos Ferreira

Arte ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS
Arte ilustrativa gerada com recursos de Inteligência Artificial para o BCS

Tentei escrever em alguns momentos do dia de ontem, sobretudo entre o início da tarde e o começo da noite, porém o cansaço de sempre me roubou o ânimo, a capacidade de me expressar. Sequer um rascunho, um só parágrafo, brotou do meu juízo. Hoje não é muito diferente no que diz respeito ao tédio, entretanto me sinto menos indisposto, tenho a cabeça um pouco mais leve e fecunda.

O telefone tocou algumas vezes de manhã para cá, todavia não atendi nenhuma das chamadas. Não era ninguém com quem eu estivesse a fim de conversar. Por exemplo, o pilantra do Ricardo Gurgel, que foi meu namorado durante dois anos e meio, ligou três vezes num intervalo de mais ou menos quarenta minutos. Suponho que talvez já esteja sabendo da minha doença, coisa esta que é do conhecimento apenas do doutor Epitácio Coelho, do meu ex-patrão e funcionários. Todos que trabalham na loja de peças de automóveis têm ciência do meu diagnóstico.

É difícil pensar em literatura, em escrita com arte literária, depois que um médico, à queima-roupa, olha friamente em nossos olhos e nos diz que temos um câncer metastático e uma expectativa de vida de, no máximo, seis meses. Há ocasiões em que penso que tudo isso não passa de um sonho ruim, um pesadelo. Tolice! A realidade é imutável. Não existe nada que eu e nem ninguém possa fazer que modifique isso. Estou fodido, condenado a morrer em poucos meses com cinquenta e dois anos. Claro que sei que algumas pessoas, resilientes e confiantes num deus no qual não creio, encaram uma lástima dessas com equilíbrio e serenidade admiráveis.

Não é de maneira alguma o meu caso. Tenho ímpetos de violência, imagino-me com poderes e crueza o bastante para torturar e extinguir uma grande quantidade de elementos escrotos que habitam este planeta à beira de uma terceira guerra mundial. Não. Eu não hesitaria em executar diversos percevejos sociais que tornam a vida na Terra cada vez mais conturbada quanto desumana.

Isso, todavia, eu já disse ao longo desta narrativa mal-alinhavada. Contudo, nas condições psicológicas e emocionais em que me encontro, tenho o direito de me repetir, de ser redundante, prolixo e caótico. O tempo todo esqueço de palavras que decerto se encaixariam melhor no decorrer deste relato.

Intimamente ambiciono, apesar das toneladas de pessimismo sobre meus ombros, que esta autobiografia seja composta e finalizada com mérito engenhoso, linguístico, literário. Embora acometido por um câncer de pâncreas em estado terminal, ainda nutro, alimento este meu tolo anseio de produzir páginas com algum teor artístico. É isto. Esforço-me para que minha história, minhas memórias pretéritas e recentes reúnam arte e brilho.

Nesta oportunidade preciso assinalar o seguinte detalhe: não me tornei escritor da noite para o dia. Ninguém (está bem claro) consegue êxito e sucesso como literato num estalar de dedos. De forma alguma. É preciso lastro, vivência, inteirar-se o máximo possível das obras de diversos autores, escribas nacionais quanto estrangeiros. Porque apenas a leitura, aliada a uma boa dose de talento, vai dizer quem possui futuro enquanto escritor. Todo o resto é carpintaria, entrega e suor.

Este, sabemos, é um assunto controverso e inesgotável. No próximo ensejo, quiçá amanhã, quando me sentir à vontade, com disposição, com fôlego, aí discorrerei sobre minha origem e trajetória nesta corda bamba (sem rede de proteção) da palavra escrita. Peço que aguardem. Agora fico por aqui.

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Marcos Ferreira é escritor