“O Sertão está dentro da gente”, disse João Guimarães Rosa.
Pode ser. Quem sou eu, para discordar. Mesmo assim, discordo.
O Sertão está dentro do sertanejo.
Que outro homem andaria em um carrasco igual a esse, cheio de pedras, mato ressequido, poeira, espaço de preás, mocós, punarés, lagartixas, cobras, urubus e cangaceiros, aqui e acolá um juazeiro, no pino do meio dia?
Nenhum.
Entretanto, quando chove, ah!, bom Deus, quando chove, qualquer vivente se encanta com a beleza que desponta em cada canto dessa terra maravilhosa.
Não que a beleza se esconda quando a seca surge.
É outro tipo de beleza, da qual somente se dá conta, com a melancolia que lhe é própria, o homem do Sertão.
Cerro Corá, RN, 15 de novembro de 2024.
Honório de Medeiros é professor, escritor e ex-secretário da Prefeitura de Natal e Governo do RN
O velho sertanejo olhava para o céu. Estava no período do inverno, e rogava a Deus que a chuva molhasse o chão esturricado. Todo ano era a mesma peleja, o homem do campo fia-se em Nosso Senhor e nas benções de São José para que o inverno seja chuvoso. A esperança não morre, renova-se ano a ano. Assim é a vida do povo do sertão, calejado pela constante falta d`água.
Com o velho sertanejo não era diferente. Passou a vida trabalhando naquelas terras. Herdou-as do seu pai e, desde pequeno, ajudava-o na roça, aprendendo o ofício que vinha de geração em geração. Daquele chão seco conseguiu tirar o sustento dos cinco filhos.
Hoje, moravam somente ele e a sua mulher, também avançada em anos. Os filhos foram morar numa cidade grande em busca de melhores condições de vida. Entretanto, nunca pensou em sair do seu torrão. Ali nasceu, ali morrerá.
Levavam uma vida simples. A sua mulher preparava o café cedinho, antes do sol raiar; barria o terreiro, depois, ia limpar a casa e preparar o almoço. Ele ajeitava alguma cerca que estava quebrada; alimentava os poucos animais que tinham; limpava a sua pequena roça. Na hora do almoço, normalmente comiam feijão, farinha e, quando tinha, alguma mistura. Tomava umas doses de cachaça para “espaiar o sangue”.
À noite, ao lado de sua velha, assistiam ao noticiário na televisão e escutavam umas cantigas no rádio. Gostavam de ouvir o rei do baião: “Sem chuva na terra descamba janeiro, depois fevereiro e o mesmo verão; apela pra março que é mês preferido do santo querido senhor São José (meu Deus, meu Deus)”; dormiam antes das 21h, religiosamente.
Recebia o dinheirinho do governo, mas o “aposento” mal dava para as despesas. Há anos que escutava a conversa mole dos políticos que a vida vai melhorar. Neste ano de eleições municipais, os candidatos a prefeito e a vereador deverão passar pela sua casa prometendo mundos e fundos, mas gostava de dizer que já tinha plantado “um pé de cá te espero”.
Agora, via as nuvens carregadas, os raios rasgando o céu. Estava capinando a roça e gritou para a sua mulher: lá vem a chuva! Lá vem a chuva!
E sentiu o suor do trabalho, as lágrimas da esperança e os pingos da chuva enviada por Nosso Senhor escorrerem em seu rosto.
Odemirton Filho é bacharel em Direito e oficial de Justiça
É tanta notícia boa do meu sertão, com açudes e barragens tomando água, os bichos fartos no campo e o sertanejo rindo à toa, que é difícil me interessar por “pibinho” e “dolão”.
Parece, mas não é dupla sertaneja.
Lá em nós num tem disso não.
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Difícil acompanhar reportagem de ontem do Fantástico Rede Globo de Televisão, sobre a Transposição do Rio São Francisco, efeitos da seca, sem ficar emocionado. Magoa demais.
Gado morrendo, sertanejo chorando. Bicho e bicho homem vítimas da insensibilidade de homens e não da seca. Seca não é fenômeno no semi-árido, é o comum.
Eu confesso-lhe: às vezes evito circular por esse sertão, para não testemunhar tudo isso ao vivo. A gente volta desfigurado emocionalmente.
A própria reportagem da jornalista Sônia Bridi eu apenas ouvi; evitei ver.
Superfaturamento da Transposição do Sâo Francisco é compreensível. Tem que deixar a parte de muitos vigaristas em todo o percurso. Sai caro.
A gente paga a conta.
O sertanejo sofre a dor maior. De novo. Como sempre.